A racionalidade na tomada de decisão

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Ingrid Rafaele Rodrigues Leiria
Corecon-RS Nº 8383
Economista, 1º Lugar “Prêmio Corecon-RS 2016” Monografias ou Trabalhos de Conclusão de Curso

 


Sobre o que trata o trabalho “A racionalidade na tomada de decisão: um experimento para avaliar o efeito de cenários econômicos da decisão dos eleitores em uma eleição presidencial”?
O trabalho busca, através do método experimental, analisar o impacto dos cenários econômicos nas decisões de voto dos eleitores em uma eleição presidencial. A pesquisa procurou explorar os pressupostos políticos e econômicos da racionalidade na tomada de decisão, fundamentando não apenas as contribuições das Ciências Econômicas, mas também das Ciências Políticas, referentes ao processo de votação e as principais variáveis presentes no processo decisório dos agentes. A pesquisa obteve a participação de 446 alunos da Escola de Gestão e Negócios da Unisinos e contou com três procedimentos distintos, sendo o “procedimento 1” sem comunicação, o “procedimento 2” com comunicação apenas entre participantes, e o “procedimento 3” com total comunicação entre os participantes e candidatos. Também foram previamente elaborados os cenários econômicos e os discursos dos candidatos, a fim de realizar todos os procedimentos de forma padronizada.

Por que a escolha deste tema?
Devido a minha curiosidade em buscar entender de maneira mais detalhada a Economia Comportamental e o Método Experimental, sendo que ambos os assuntos tem ganhado força na área econômica a partir da segunda metade do século XX, ocasionando o Nobel de Economia para Daniel Kahneman em 2002. Meu interesse surgiu devido a constantes questionamentos que possuía e ainda possuo sob a Teoria Econômica Tradicional, pois acredito que há outras alternativas que possam explicar de maneira mensurável e clara o comportamento dos agentes tomadores de decisão. Como tinha por objetivo desenvolver um projeto diferenciado, que saísse do laboratório e tivesse alguma interação com os agentes, após algumas discussões referente a Economia Comportamental e ao Método Experimental, eu e Prof. Dr. Tiago Wickstrom Alves chegamos ao desenho do experimento desta pesquisa.

Qual o impacto dos cenários econômicos nas decisões de voto dos eleitores em uma eleição presidencial?
O cenário que foi apresentado aos participantes continha indicadores econômicos, como taxa de câmbio, inflação, crescimento da dívida pública com relação ao PIB, taxa básica de juros, crescimento do PIB e taxa de desemprego. A ideia era que, a partir dos cenários apresentados, os participantes pudessem distinguir de forma racional qual a melhor política a ser aplicada para a economia daquele país. A partir dos resultados, foi possível testar a hipótese de tendência à aversão à perda, que especifica que as pessoas são mais suscetíveis a perdas que aos ganhos. No caso do experimento, a perda se daria pela escolha da proposta 2, tida como a pessimista, pois a mesma enfatizava que o cenário não era favorável, necessitaria de ajustes de curto prazo e que os benefícios desta política só seriam sentidos no médio e longo prazo. Portanto, era de se esperar que os eleitores refutassem essa proposta. No entanto, ela obteve a maior concentração de votos, sendo possível verificar que em sua maioria, os alunos utilizaram do modelo racional de tomada de decisão para sua escolha.

Por que o homem e a mulher possuem análises distintas ao formarem sua decisão no momento do voto?
A identificação de gênero não era um dos objetivos da pesquisa. Devido a isso, não saberia dizer qual a análise realizada entre gêneros votantes ao formarem sua decisão. É algo que poderia ser realizado em uma pesquisa futura. No entanto, com relação ao gênero dos candidatos, um dado que identificamos foi a diferença na aceitação das propostas vindas de candidatos do gênero masculino e do gênero feminino. De acordo com uma análise preliminar dos dados, as propostas tidas como positivas eram melhor aceitas quando defendidas pelo gênero feminino.

Qual a constatação do trabalho?
Através da participação dos 446 alunos, identificamos a presença de shortcuts na tomada de decisão quando utilizamos o procedimento que não permitia comunicação entre os participantes. E quando permitíamos a comunicação entre os participantes, identificamos que a decisão em grupo poderia levar a decisões menos embasadas, ou seja, irracionais. Isto ocorre, já que pode haver falhas em avaliar o risco de uma alternativa selecionada, podendo ainda restringir o pensamento crítico dos membros do grupo, de uma maneira que as opções mais fáceis sejam as preferíveis. Já, quando utilizamos a comunicação entre candidatos e eleitores, identificamos um maior nível de racionalidade nas decisões. Os participantes são instigados a serem mais críticos na medida em que aumenta o nível de informações disponíveis para a tomada de decisão. Também analisamos o comportamento das turmas na pesquisa, quando houve a oportunidade de questionamento aos candidatos, através doprocedimento 3, em que nem todas as turmas questionaram. Tendo em vista que na Teoria das Decisões Racionais é sustentado que os tomadores de decisão sempre buscarão por informações relevantes antes de decidirem por algo, ou seja, a possibilidade de questionamento do grupo em um experimento, sendo a mesma não utilizada, indica que os agentes nem sempre buscam compreender melhor o assunto ou sanar dúvidas antes de uma tomada de decisão.

A teoria monetária e financeira de Marx

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Henrique de Abreu Grazziotin
Corecon-RS Nº 8060
Economista, 1º Lugar “Prêmio Corecon-RS 2016” Dissertações de Mestrado

 

Sobre o que trata o trabalho “Sistema de Crédito, Ciclos Industriais e Institucionalidade Financeira: uma sistematização da teoria monetária e financeira de Marx”?
O objetivo da dissertação foi sistematizar a teoria monetária e financeira de Marx, buscando definir com maior precisão a concepção desse autor sobre o Sistema de Crédito, sobre as crises financeiras cíclicas ocasionadas pelo Sistema de Crédito, que são os ciclos industriais, e sobre a Lei Bancária de 1844, que é um dos únicos exemplos de uma institucionalidade financeira debatida por esse autor. Para isso, foi necessário definir também com maior precisão o que significa pra Marx a categoria dinheiro, tratando detalhadamente dos seus diversos determinantes em uma economia capitalista desenvolvida.

Por que um espaço de tamanha relevância dada ao capítulo Dinheiro, dentro da teoria monetária de Marx?
Antes de iniciar a dissertação, a ideia era realizar uma comparação entre os elementos monetários e financeiros da teoria do Marx com os elementos da teoria de Hyman Minsky, autor pós-keynesiano, conhecido principalmente por sua teoria de Fragilização Financeira e de crises cíclicas endógenas criadas por esse processo financeiro. Já sabíamos que existia no Marx uma teoria análoga de crises financeiras, que poderia ser encontrada em sua maior parte na Seção 5 do Livro III de O Capital, conforme me orientou o Prof. Ronaldo Herrlein Jr., que já tinha uma leitura prévia desse trecho e sabia que havia elementos a serem explorados e compreendidos do mesmo. Por isso, tínhamos em mente realizar essa comparação entre as duas abordagens. No entanto, encontramos uma dificuldade maior. Esse trecho, que é uma publicação póstuma de manuscritos de Marx, editada e publicada por Engels, é de difícil compreensão, pois é bastante desorganizado e complexo.

O foco foi a teoria de Marx propriamente dita?
Decidimos retroceder em nossa ambição de pesquisa e buscar organizar e sistematizar a teoria do Marx sobre esse tema. Fazer isso seria não só suficiente para atender os fins de uma dissertação, que era meu objetivo naquele momento, como também seria uma etapa necessária para a pesquisa inicial de comparação entre as duas abordagens. Decidimos que não nos apropriaríamos da teoria de Marx de forma indireta, ou seja, com base nas interpretações de outras autoras ou autores, pois há diversas interpretações divergentes sobre a teoria, que redundavam em controvérsias teóricas das quais não era nosso objetivo tratar. Assim, seria necessário estudar e organizar diretamente a própria abordagem de Marx. Com isso em mente, foi realizado um esforço na dissertação de sistematizar os elementos teóricos presentes não só na Seção 5 do Livro III de O Capital, como também revisar a teoria monetária de Marx desde seus elementos mais básicos, pois isso se mostrava uma condição necessária para compreender a sua teoria de forma plena.

O que prega a teoria monetária de Marx sobre o conceito de dinheiro?
Em relação à teoria monetária de Marx, pode-se afirmar que a categoria dinheiro é uma categoria complexa, dotada de múltiplas determinações. Isso significa dizer que, para entender, a partir da teoria de Marx, o que de fato são as cédulas bancárias que usamos em nossas transações diárias nos dias de hoje, os saldos em conta-corrente que temos nos bancos ou até mesmo o que são cartões de crédito, é necessário entender como surge algo chamado “dinheiro” nas relações de troca de mercadorias, diferenciando-se de relações de troca simples (escambo), e como isso se desenvolve até essas formas mais avançadas existentes atualmente. Assim, para entender as formas mais avançadas do que se chama dinheiro em economias capitalistas desenvolvidas, é necessário entender como essas formas emergem a partir da sua forma mais simples. Essa evolução das formas do dinheiro é consequência, para Marx, da “complexificação” das relações de produção, com a emergência do capital e da forma capitalista de produção. Dessa maneira, na medida em que as relações de produção se tornam mais complexas, surgem novas relações nas quais o dinheiro está inserido e, consequentemente, novas determinações sobre essa categoria teórica, que é o dinheiro, tornando-a também mais complexa.

O trabalho explica esse processo através de grupos?
Para compreender mais facilmente o que significa esse processo, separamos esses determinantes do dinheiro em quatro grupos. O primeiro é de determinações relacionadas ao dinheiro na chamada “circulação simples de mercadorias”. O dinheiro surge aí, como uma mercadoria que assume o papel de equivalente geral, com funções específicas no processo de trocas. A troca de mercadorias mediada pelo dinheiro é uma relação social mais desenvolvida do que o escambo. O segundo é de determinações relacionadas ao surgimento do capital e da forma capitalista de produzir mercadorias. O capital é, para Marx, um valor cujo objetivo é ampliar-se, expandir-se. Assim, quando o dinheiro é utilizado como capital no processo de produção capitalista, ele não é mais mero dinheiro, mas é também “capital-dinheiro”, pois o processo de acumulação capitalista dá ao dinheiro novas funções. O terceiro é de determinações relacionadas ao fato de que o “capital-dinheiro” se torna ele mesmo uma mercadoria através da forma de capital de empréstimo. Isso significa que o dinheiro passa a ser emprestado, sendo um capital para seu proprietário original e cobrando juros sobre esse capital. Esse processo também representa uma complexificação das relações capitalistas de produção e gera novas determinações para entender o dinheiro em Marx, como a forma do Capital portador de juros. O quarto e último grupo de determinações tratadas por Marx em relação ao dinheiro é a emergência do Sistema de Crédito, que envolve tanto o crédito comercial, como a emissão de letras e títulos de dívida no comércio, quanto o crédito bancário, com a emergência de um capital bancário que se valoriza através de empréstimos e de atividades de desconto. Surgem aí os bancos, as contas de depósito, as câmaras de compensação de dívidas, os mercados de capitais, assim como o Dinheiro de Crédito, que é uma forma ainda mais avançada do dinheiro. Exemplos seriam cédulas bancárias emitidas pelo banco central ou saldos em conta corrente. Assim, há uma complexificação ainda maior do que Marx entende por dinheiro, e isso está relacionado ao surgimento de novas relações sociais que se constroem sobre as existentes anteriormente. Assim, o dinheiro só pode ser completamente compreendido na teoria de Marx quando se entende cada uma dessas partes de sua teoria, ou seja, quando se compreende essa multiplicidade de determinantes. Isso é um exemplo do que pode ser entendido como o “método dialético” em Marx, no qual “o todo é complexo e dotado de múltiplas determinações”.

Sob a ótica de Marx, qual a relação entre o Sistema de Crédito e os Ciclos Industriais?
Na teoria de Marx, o Sistema de Crédito, através do crédito bancário, principalmente com desconto de letras (duplicatas) com vencimentos futuros, leva periodicamente as economias capitalistas a uma etapa de superprodução, em que a renda existente é incapaz de absorver o produto. Esse processo eclode em crises periódicas, geradas endogenamente, ou seja, pela própria lógica da produção capitalista. Assim, Marx tem uma descrição detalhada das etapas do ciclo industrial: estagnação, estabilidade, crescimento, superprodução/especulação e crise. Na teoria de Marx, essa causalidade está relacionada ao movimento das taxas de juros decorrentes da desaceleração/aceleração da circulação do capital industrial em de cada etapa do ciclo, que afeta a oferta e a demanda por capital-dinheiro de empréstimo e por operações de desconto bancário.

E crises ocorridas na Inglaterra ao longo do Século XIX também serviram de base para o estudo?
Há uma descrição histórica extensa em relação às crises existentes na Inglaterra no Século XIX, com enfoque principal na crise de 1847. A análise de Marx de reportagens do período e de depoimentos dados por banqueiros e homens de negócios nas comissões de inquérito da Câmara dos Comuns na Inglaterra apresentam diversas evidências que corroboram a sua interpretação teórica sobre essas crises. Cabe ressaltar que essa teoria dos Ciclos Industriais que encontrei em meu trabalho apresenta poucas referências e pouco debate na literatura atual sobre Marx, o que é algo espantoso. As crises ocasionadas pelo Sistema de Crédito não costumam aparecer na literatura que trata de crises em Marx. Normalmente atribui-se a Minsky a ideia de crises endógenas ocasionados pelo sistema financeiro. No entanto, Marx apresentava uma teoria análoga sobre o tema já em 1864, quando redigia esse trecho de O Capital.

Por que, na teoria de Marx, as crises são consideradas inevitáveis?
Além das crises industriais ocasionadas pelo Sistema de Crédito, Marx apresenta outras razões para a existência de crises no modo de produção capitalista, como crises de desproporção setorial e crises decorrentes da queda tendencial da taxa de lucro. Essas crises podem ser ditas inevitáveis, pois decorrem das leis de movimento estruturais do modo de produção capitalista. Ao estudar a Lei Bancária de 1844, que é uma lei muito criticada por Marx, o objetivo no trabalho foi buscar evidências em relação ao entendimento de Marx sobre a capacidade de instituições e regras, geradas racionalmente e deliberadamente, afetarem o resultado econômico. Como a descrição de Marx tem enfoque primordial em leis de movimento estruturais, é comum a interpretação de que sua teoria é determinista, no sentido de que todas as relações de causa e efeito estão dadas no processo econômico e de que não cabe nenhuma forma de regulação da produção capitalista. No entanto, a descrição da Lei Bancária de 1844 mostra que regras criadas institucionalmente podem afetar o processo econômico, apesar das limitações estruturais existentes no modo de produção capitalista desenvolvido.

Qual a conclusão do seu trabalho?
De forma resumida, o que o trabalho revela é que, em primeiro lugar, em relação à teoria monetária de Marx, pode-se afirmar que a categoria dinheiro é uma categoria complexa, pois, para compreendê-la em sua totalidade no modo de produção capitalista, é necessário compreender as suas múltiplas determinações. Essas determinações estão relacionadas ao dinheiro na circulação simples, como forma da mercadoria, ao dinheiro enquanto forma do capital, ao capital-dinheiro na forma de capital de empréstimo e ao Sistema de Crédito em geral. Assim, o dinheiro só pode ser completamente compreendido na teoria de Marx quando se entende cada uma dessas partes de sua teoria. Também, a partir da descrição do Sistema de Crédito, o trabalho sistematizou a teoria de Marx acerca dos Ciclos Industriais. Trata-se de uma teoria de crises endógenas impulsionadas pelo crédito, com resultados periódicos de crise e de pânico financeiro, que ocorrem em fases sucessivas de estabilidade, crescimento, superprodução, especulação e crise. Embora faça parte de O Capital, que é a principal obra de Marx, essa é uma teoria que apresenta poucas referências na literatura internacional especializada. Por fim, o trabalho apresenta a descrição e as críticas de Marx sobre a Lei Bancária de 1844. A partir dessa descrição, pode-se perceber que, embora as crises sejam algo inevitável na teoria de Marx, a institucionalidade financeira apresenta uma eficácia própria e é capaz de alterar os resultados econômicos durante as crises.

Criminalidade nos municípios gaúchos

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Mauricio Vitorino Saraiva
Corecon-RS Nº 8150
Economista, 1º Lugar “Prêmio Corecon-RS 2016” Artigos Técnicos ou Científicos

 

Sobre o que trata o trabalho “Os determinantes da criminalidade nos municípios gaúchos: evidências de um modelo econométrico espacial”?
O artigo analisou quais são os determinantes da criminalidade nos municípios do Rio Grande do Sul, a partir de uma variável que é capaz de agregar múltiplos tipos de delitos e controlá-los pela severidade das penas previstas no Código Penal Brasileiro.

Por que a escolha desse tema?
O tema é particularmente relevante, considerando-se a atual crise na segurança pública do Rio Grande do Sul. Segundo o Atlas da Violência 2016, por exemplo, este foi o estado que apresentou o maior crescimento no número de homicídios nos últimos anos, destacando-se negativamente inclusive em outros indicadores da criminalidade. Sendo assim, o artigo investiga os determinantes da criminalidade no estado, com o objetivo de auxiliar em possíveis diretrizes para políticas públicas.

Por que o combate ao crime nas localidades com maior índice não soluciona, por si só, o problema da violência?
As evidências apresentadas no trabalho indicam que combater o crime somente nas localidades onde há os maiores índices, agindo localmente, não evita a difusão da violência porque existe dependência espacial do crime no estado, isto é, o nível de criminalidade de um município é afetado pelo nível de criminalidade das cidades vizinhas. Assim, o combate local ao crime em cada município não seria suficiente para reduzir o nível estadual de criminalidade, por conta da possibilidade de se “exportar” criminalidade de uma cidade para outra.

Qual a conclusão do trabalho?
O trabalho evidencia que a criminalidade nos municípios gaúchos é positivamente determinada pela criminalidade nos municípios vizinhos e por um conjunto de variáveis socioeconômicas locais, como o abandono escolar do ensino médio em escolas públicas, a instabilidade dos vínculos de emprego, a desigualdade de renda, o grau de urbanização e o nível de desorganização dos núcleos familiares. De maneira geral, o estudo aponta que as políticas de segurança pública precisam ser pensadas regionalmente, e não apenas localmente, atribuindo especial atenção às condições conjunturais de educação, trabalho e assistência social nos municípios.

2017, o tão esperado ano da inflexão?


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Ricardo Hingel
Economista, diretor Financeiro e de Relações com os Investidores do Banrisul
Corecon-RS Nº 3022


O que esperar da economia brasileira em 2017?
Acho que 2017 é um ano de inflexão. Nós estamos em recessão desde o segundo trimestre de 2014 e de lá para cá acumulou-se uma queda na ordem de 8% do PIB. E a raiz de tudo isso é o descontrole do gasto público e o afrouxamento da política monetária na hora errada. Isso fez com que a inflação disparasse e, na sequência, para tentar consertar, na época, o governo Dilma jogou a taxa de juros para cima e teve que começar a desacelerar no gasto. Isso gerou um processo recessivo, especialmente em cima de uma política monetária extremamente restritiva. Tentou-se debelar a inflação via política monetária bastante forte, com taxas de juros muito elevadas, provocando uma retração do desempenho econômico. Hoje Eu diria que a gente praticamente chegou no chão.

Mas como a economia chegou a essa situação?
Em 2015, vivíamos um período de inflação extremamente alta, fechando o ano com uma taxa de 10,8%. A taxa de juros continuava bastante elevada, mesmo num processo recessivo que, na prática, é deflacionário, teria que puxar a taxa para baixo e não para cima, o que realimenta a recessão. E foi exatamente o que aconteceu, explosão e descontrole do gasto público. E o que acontece com o gasto é que são incorporadas novas despesas e não se consegue mais retornar. Então, esse quadro, potencializado pelo desequilíbrio fiscal e pelo desequilíbrio da previdência, que também vem debilitando as contas públicas, torna-se um coquetel explosivo. O desequilíbrio fiscal, mais o processo inflacionário, taxas de juros elevadas, provocando a recessão, tudo isso acabou fragilizando a presidente da época, assim como a sua própria base política, que acabou contribuindo para o processo de impeachment, mas não sem antes provocar uma grave crise institucional de caráter político que impactou diretamente e comprometeu fortemente a economia. A partir da resolução do processo de impeachment, o que acontece é que agentes econômicos passam a enxergar que um novo governante tenderia a ser positivo porque, antes de qualquer coisa, passaria a ter uma base política para construir as reformas econômicas necessárias, que a então presidente Dilma não conseguiria pela perda do controle político.

Até que ponto expectativas de reformas mudam o cenário econômico?
Essas propostas, em termos de mercado, de economia, são favoráveis porque buscam um equilíbrio fiscal, diminuindo a participação do gasto público em relação ao PIB. A PEC dos Gastos é o primeiro grande passo para a conquista do equilíbrio fiscal. Outro ponto, que tem sido implementado e que tem sido muito pouco divulgado, mas é extremamente importante, é o ajuste na legislação trabalhista, que foi construído em conjunto com centrais sindicais, e que tende também, na medida em que for implementado, a alcançar benefícios de médio e longo prazos para o país. Da mesma forma, a reforma da previdência, que é tão ou mais delicada que a PEC dos Gastos. Se não tivermos uma reforma adequada da previdência, os ganhos que se terão com a PEC dos Gastos serão neutralizados ou comprometidos. A previdência, na condição em que se encontra hoje, nesse regime de repartição, é inviável. O governo já definiu que vai encaminhar e ele tem base política para isso. Apenas não se sabe qual tipo de reforma da previdência será aprovada pelo Congresso, já que, na medida em que entra no processo legislativo, mesmo aprovada, parte do seu conteúdo pode ser alterado. Não devemos esquecer que, mesmo com a aprovação das reformas que possuem efeito fiscal, provavelmente só voltaremos a ter superávit em 2020.

A partir de quando já se perceberá melhoras efetivas na economia?
No cenário atual consegue-se enxergar que essas reformas têm efeito no médio e longo prazo. Mas elas têm um efeito interessante por devolverem a credibilidade da economia. O investidor sabe que o período de retorno de seus empreendimentos é longo, de cinco, 10 ou 20 anos, dependendo do tipo de investimento. Mas se ele também conseguir vislumbrar um cenário de mais certeza na economia passará a fazer com que esses investimentos, que estavam até então engavetados, venham para a vida real. Mas o efeito de curto prazo, fundamental para uma mudança de cenários, é exatamente a redução da taxa de juro, a política monetária. Mesmo com toda essa recessão, já se conseguiu trazer a inflação para dentro da meta prevista, com fechamento em 6,4% no ano passado e, mais que isso, com tendência para este ano muito próximo de 4,5%. Isso já permitiu uma redução da taxa de juros, que estava em 14,25% e em dois meses foi a 13%, com o Banco Central surpreendendo ainda mais o mercado com a redução em 0,75% da taxa Selic na última reunião. Existem condições econômicas, a meu ver, para se fazer esse processo de forma ainda mais rápido. Porque, quanto mais acelerado for o processo, mais estimulados ficam os agentes econômicos. Se analisarmos, tudo o que o governo fez até agora ainda não surtiu efeito concreto, pois são de médio e longo prazo. Quando o Banco Central surpreende, baixando a taxa para 0,75%, enquanto o mercado aguardava 0,5% e parte para um ciclo mais rápido, acelerando a redução, é uma ação com efeitos de mais curto prazo. A política monetária vai impactar na economia mais rapidamente do que o ajuste fiscal, que viabiliza a estabilidade de médio e longo prazo.

Que setores já devem sentir esses primeiros efeitos na economia?
Os setores vão reagir lentamente, até porque as empresas saíram muito machucadas desse período. O problema não é a recessão em si, mas o prolongamento da recessão. Uma coisa é uma recessão durante dois ou três trimestres. Outra, uma recessão de oito trimestres, muito longa, muito ampla, que fez com que as empresas se descapitalizassem e diminuíssem de tamanho. Da mesma forma, do lado das pessoas. No Brasil há 12% da população desempregada e temos que baixar esse índice para 6%. No aspecto externo, o Brasil tem tido algumas vantagens, especialmente com relação ao setor exportador de commodities, já que esses produtos começaram a recuperar seus preços no mercado internacional. No setor industrial também, uma estabilidade do câmbio pode ajudar o lado exportador. O governo vem fazendo um trabalho de comunicação, e quanto mais eficiente ele for nesse quesito, conectado com esses tipos de ações, principalmente como a taxa de juros, que tem uma eficácia muito grande na economia, isso vai favorecer a recuperação. Teremos que ficar muito focados na evolução da demanda interna para ver de que forma acontecerá a reação dos diferentes setores.

Que impactos imediatos o governo Trump terá na economia brasileira?
Na relação comercial direta, embora importantes, os EUA deixaram de ser há muito tempo o principal parceiro do Brasil. E é sempre bom lembrar que a nossa economia é uma economia relativamente fechada. Trump poderá proporcionar dois efeitos que devem ser bem monitorados para sabermos o que pode acontecer. O primeiro, que é mais provável, é que ele promova um afrouxamento na questão fiscal, elevando o gasto e reduzindo impostos, liberando empresas e pessoas para gastarem mais, como forma de provocar o aquecimento da economia. Ao fazer isso, pode ocorrer pressão inflacionária, impactando na taxa de juros. A intensidade com que será feito esse processo é que vai definir o ritmo de elevação da taxa de juros nos EUA. De alguma forma ele estará estimulando a demanda por produtos que, para o Brasil, são muito importantes, como as nossas commodities. Tanto que, desde a eleição do Trump, as principais commodities como metais, petróleo e até mesmo celulose subiram de preço no mercado internacional. Então, essa proposta de estímulo à economia que me parece que seja o mais provável de acontecer. O lado mais difícil de avaliar é a questão do protecionismo que não é tão simples já que envolveria uma série de tratados, acordos, relações comerciais, investimentos de empresas americanas em todo o mundo, enfim. É sempre bom lembrar que nas últimas décadas, com a colocação de seus produtos em quantidade e a preços muito baixos no mundo e no mercado norte-americano, a China teve um papel preponderante no controle da pressão inflacionária , em especial no período em que as economias cresciam e a demanda estava em alta.

A economia brasileira está preparada para eventuais oscilações desse cenário internacional?
Num cenário básico, sim. Pode subir um pouco a taxa de juros norte-americana, com uma consequente apreciação do dólar em relação a outras moedas. Mas o Brasil tem dois instrumentos importantes para se defender desse processo. A valorização das commoditiesque exportamos e uma balança comercial bastante positiva, mas as reservas internacionais próximas de U$ 400 bilhões, que nos dão segurança em termos de contas externas e protegem a economia brasileira. E o que se observa é que existe um fluxo muito interessante e forte de investimentos em direção ao Brasil, já que está barato comprar ativos aqui dentro, em função dos preços que caíram com a recessão. Ao garantirmos que em 2017 definitivamente a questão da inflação esteja resolvida, com a taxa de juros caindo, além das reformas e do equilíbrio fiscal de longo prazo estabelecidos, não há porque não se enxergar uma retomada. Acredito que se houver a manutenção dessas reformas e uma política monetária de redução até mais rápida da taxa de juros, acho que podemos encarar 2017 como efetivamente um ponto de inflexão.
Ressalto que a qualidade da recuperação dependerá ainda de uma série de outros problemas que deverão ser enfrentados, como o programa de concessões, de forma a acelerar o investimento e a melhoria do sistema de infraestrutura brasileiro, desinvestido, bem como a reforma tributária, no sentido de ao menos simplificar a legislação, pois temos um dos sistemas mais caros e complexos do planeta, o que ajuda a onerar ainda mais a sociedade brasileira.

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