Democracia e qualidade do gasto público

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Valtuir Pereira Nunes
Economista, Auditor Público Externo TCE-RS
Corecon-RS nº 4724

 

 

 

O Brasil está vivendo uma crise ética, moral ou cultural?

Na verdade, é uma cesta de fatores. Nós estamos passando por um momento de transição bastante crítico, envolvendo a política e a democracia, pelo qual nunca havíamos transitado ao longo da história política brasileira. É certo que, historicamente, tivemos diversas crises, passando por renúncias de presidentes, impeachment em duas oportunidades, e outros períodos com turbulência. No entanto, no momento atual, a sociedade está muito mais informada sobre o que está acontecendo. E isso se deve, em grande medida, às redes sociais. Hoje, se trocam informações de forma instantânea. Apesar de termos muitas fake news, que são um subproduto da massificação da informação, obtivemos, de uma forma geral, mais condições de conhecer, em detalhes, tudo o que envolve determinados fatos relacionados à corrupção. A transparência traz à tona inúmeros problemas que existiam há bastante tempo em nosso país e que estavam na obscuridade, do qual pouco sabíamos. Essa massificação da informação conduz à ideia equivocada de que somente agora os níveis de corrupção estão elevados, quando, na verdade, fatos equivalentes já aconteceram no passado, mas não estavam ao alcance do conhecimento por grande parte da população. A publicização dessas informações também reflete o comportamento ético dos agentes políticos e de como o país está sendo governado.

A que se deve isso?

De um lado, a sociedade tem o seu nível de responsabilidade, porque colabora, nas eleições, repondo esses mesmos agentes, do “rouba-mas-faz”, do candidato que é “esperto”, que obtém “vantagens sobre tudo”, em troca de favores numa eleição. Com isso, colocam-se na posição de agentes políticos, de governantes, de parlamentares, em todos os níveis de governo, pessoas que não têm comprometimento com o bem público, e sim com o interesse de corporações ou de grupos de pressão. Então, vivemos uma fase – dura e necessária – de repensar a política. Por outro lado, os próprios partidos políticos também possuem o seu grau de responsabilidade, pois os eleitores não são tão livres – como se apregoa – para definir os seus representantes: eles escolhem entre os nomes que os partidos lhes oferecem.

Então os partidos políticos deveriam fazer a sua parte?

Sim. Os partidos políticos deveriam fazer uma autocrítica sobre as nominatas dos candidatos que apresentam à sociedade durante as eleições, aplicando a ficha-limpa no momento da filiação de seus correligionários, ou, quando necessário, realizando correição e desligamento dos já filiados. Assim, oferecendo bons nomes, talvez se consiga melhorar a qualidade da política.

É consequência da democracia?

Estamos passando por um aprendizado democrático, de sofrimento, é claro, em função dessas crises. Mas a verdade é que não há melhoria sem essa transição. É necessário que passemos por esse período para amadurecermos enquanto sociedade, para efetivamente entendermos e definirmos o tipo de estado, de governo, que todos nós queremos. E isso só vai funcionar na medida em que o controle social sobre as políticas públicas efetivamente acontecer, pois a participação do cidadão nesse aspecto lhe dá a noção de pertencimento, de que o governo e o estado são reflexo de suas escolhas, tornando-o consciente sobre o papel do estado como promotor do desenvolvimento e da diminuição das desigualdades.


É uma questão cultural?

Sim. É muito da herança cultural histórica do brasileiro, de não querer se importar com a política, o que é um grande erro. Não existe democracia sem política. É através dela que se definem os papéis das instituições que, num regime de freios e contrapesos, devem equilibrar o atendimento das demandas sociais com as fontes de financiamento, mediante tributos, buscando o bem-estar da coletividade. Por outro lado, não se pode viver às custas dos favores do estado. E, em boa medida, o brasileiro se habitua a isso, de que o estado é o provedor, de que não há necessidade de se buscar alternativas de desenvolvimento porque os governantes, ali na frente, vão resolver os problemas da nação. O estado, entre vários papéis, serve para reduzir as diferenças, os desníveis sociais. Mas isso ainda é muito mal atendido, nos dias atuais.

Como mudar esse pensamento?

É necessária uma reforma tributária eficiente, que resolva, que equalize, que reduza a disparidade de renda brutal que existe neste país e que possa proporcionar às comunidades necessitadas alternativas de crescimento, para que, mais adiante, possam evoluir econômica e socialmente na direção da solução de seus próprios problemas. Esse é um dos principais deveres do estado e, para isso, nós temos que financiá-lo. Contudo, na medida em que se criticam os impostos ou se reclama da carga tributária, passamos a mensagem de que o estado tem que ter menos recursos. Por sua vez, se o estado tem menos recursos, reduz-se o atendimento das políticas públicas. Reduzindo-se as políticas públicas, perpetuam-se os problemas sociais e econômicos.

Que alternativa nos resta?

A alternativa não passa, obrigatoriamente, pela redução ou aumento do tamanho do estado, mas pela melhoria da qualidade de seus gastos. Nós temos muito dinheiro nesse país e o governo arrecada um volume expressivo de recursos públicos, mas gasta-se muito mal. Escolhemos mal as prioridades porque escolhemos mal nossos representantes. Então, através da política, se qualificarmos o corpo de representantes, tanto no poder executivo, quanto no legislativo, maiores as chances de um planejamento eficiente, de uma reforma tributária que promova a redução das desigualdades, e de um direcionamento adequado dos recursos públicos mais eficaz, com a necessária e imprescindível transparência que permita um controle social efetivo por parte da sociedade. Está mais do que na hora de o brasileiro decidir o que quer fazer, qual o estado que ele quer. Ele quer um estado que atenda a um pequeno grupo de pessoas e deixe os demais viverem na pobreza? Esse não é um estado solidário, como prevê a nossa própria Constituição.


Fora do voto não tem salvação?

Não existe solução fora do voto e da democracia. A alternativa de intervenção militar, aventada por alguns, já foi vivenciada no passado e aprendemos que não é o melhor caminho. Nada substitui a liberdade de opinião, a possibilidade de as pessoas fazerem suas próprias escolhas e a liberdade de crescimento pessoal. A democracia pode ter os seus defeitos, mas não existe ainda um sistema que tente resolver os conflitos de uma forma mais ampla e justa que a própria democracia.

Países mais antigos já aprenderam com o tempo?

Cada um à sua maneira. As soluções que ocorreram em outros países, através de ditaduras, estão aí pra demonstrar que essa não é a melhor alternativa. Se os países democráticos desenvolvidos conseguiram evoluir econômica e socialmente, por que não conseguiríamos? Talvez porque eles estejam exercitando a democracia há 200, 300 ou mais anos. A verdade é que ainda estamos engatinhando no processo democrático e precisamos melhorar. Basta lembrar, por exemplo, que a democracia moderna brasileira, depois da transição do regime militar, elegeu, até o momento, apenas quatro presidentes pelo voto direto. Desses quatro, dois sofreram impeachment e um está preso. Isso revela claramente a nossa performance em termos de escolhas democráticas. Ou seja, alguma coisa está mal. E devemos lembrar que esses quatro governantes eleitos democraticamente não são os únicos responsáveis por isso. Eles estavam assessorados por um conjunto político também escolhido por nós. Caiu o líder político, o personagem. Mas, eventualmente, aqueles que de alguma forma contribuíram para que tudo isso acontecesse ainda estão por aí. Então precisamos, mais do que nunca, melhorar a qualidade do voto e não desacreditar da política. Em conclusão, a sociedade brasileira – por ação ou omissão – é igualmente responsável pelo tipo de governo e pela forma de atuação do estado que ajudamos a construir. Cabe-nos, portanto, a responsabilidade, como cidadãos, de aperfeiçoá-los, tornando-nos um país próspero, igualitário e digno de se viver.

 

Confiança do empresariado e greve dos caminhoneiros

ricardoRicardo Filgueras Nogueira
Economista, Assessor Econômico da Fiergs
Corecon-RS Nº 6232

Qual o impacto da greve dos caminhoneiros na economia do Rio Grande do Sul?
No curto prazo, paralisação da produção e das vendas, inclusive exportações, com a falta de matérias primas e componentes e a impossibilidade de escoamento. O principal efeito, porém, é o aumento da incerteza quanto aos rumos da economia, que já vinha em patamar elevado e crescendo em função da indefinição do quadro eleitoral. A maior incerteza terá um impacto adicional negativo na atividade nos próximos meses, principalmente, nos investimentos e, consequentemente, no emprego. As expectativas de mercado consolidadas pelo Boletim Focus do Banco Central já sinalizam desaceleração do PIB nacional. Há quatro semanas o mercado projetava um crescimento de 2,7% para 2018, previsão esta que caiu para 2,18% no dia 01/06/2018. No RS, o cenário não deve ser diferente.

E para indústria gaúcha, há alguma estimativa de perdas?
Somente nos próximos meses teremos um levantamento mais preciso dos prejuízos. Na Fiergs, fizemos uma estimativa das perdas de faturamento do setor durante os três ou quatro primeiros dias da greve, que chegou a um montante de R$ 1,6 bilhão. Segmentos de bens perecíveis, como alimentos, bebidas, laticínios, são os que mais sofreram. A indústria deixou de produzir e faturar naqueles dias, mas deve recuperar parte disso nos próximos meses. No entanto, o maior impacto ficou por conta do setor de serviços, já que grande parte do que não foi prestado naquele momento, foi literalmente perdido.

Esse valor representa o que deixou de ser injetado na economia nesses primeiros dias de greve?
Sim. Mas há outras perdas. Para as indústrias exportadoras, por exemplo, há também multas pelo atraso na entrega dos produtos. Há ainda os custos que muitas indústrias terão para a retomada das suas atividades, tais como aquecimento de caldeiras e fornos, limpeza e manutenção de máquinas que não poderiam parar. Por fim, grande parte do custo do acordo do governo para por fim à greve foi para a indústria, com maior carga tributária.

E como fica a expectativa do empresariado? A maior incerteza tem um impacto tão definitivo assim?
Um ambiente de incerteza dificulta o planejamento das empresas, com impacto direto na confiança do empresário. Nesse sentido, a maior consequência, tanto em termos de Rio Grande do Sul como em Brasil, é a redução da confiança do empresário, que já vinha em trajetória de queda mesmo antes da greve dos caminhoneiros, em função do desempenho econômico abaixo do esperado e da indefinição eleitoral. Nesse cenário, investimentos e contratações tendem a ser adiados ou até mesmo suspensos. Penso que até as eleições a economia deve apresentar uma desaceleração adicional.

O que vocês esperam da próxima edição da pesquisa de confiança do empresariado, que será divulgada em breve?
A Pesquisa, produzida pela Fiergs, deverá ser divulgada na metade deste mês de junho, quando conseguiremos ter uma leitura mais clara do impacto na confiança do industrial gaúcho. Evidentemente que, em face de todo esse cenário bem complicado, pode se esperar uma queda significativa.

Perícia econômico-financeira e mercado de trabalho

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Margareth Bellinazo
Economista-Perita, professora Perícia Bancária PG/Fadergs


 

O que faz um perito na área econômico-financeira?
O perito economista presta assistência a advogados, juízes ou empresas. É responsável pela elaboração de uma análise técnica que auxilie as partes na solução de conflitos econômico-financeiros que deram ou possam dar origem a um determinado processo. O profissional pode atuar como perito do juízo ou assistente técnico de uma das partes, nas áreas da perícia judicial e extrajudicial. Atuam na Justiça Comum (Estadual), em processos bancários, de inventários, de avaliação econômica de empresas, quotas e marcas, perícias tributárias, financeiras, mercadológicas, ambientais, dentre outras. Há perícias na Justiça Federal, idênticas às da Justiça Comum, além das previdenciárias e as da Justiça do trabalho.


Existem profissionais para atender toda essa demanda no RS?
São poucos os economistas que atuam nesta área. No entanto, os contadores vêm fazendo as perícias econômico-financeiras e nominando como se fossem perícias contábeis. Existe mercado para economistas neste ramo da atividade, já que o número de demandas judiciais é cada vez maior, faltando, talvez, mais divulgação desta atribuição junto aos profissionais graduados.

Qual a maior área de atuação para o perito?
A maior área de trabalho não é como perito do juiz, ao contrário do que muitos pensam. É junto a advogados e empresas, através da perícia extrajudicial. Nem todos os processos terão um perito nomeado pelo Juiz (perito judicial), mas a grande maioria terá ao menos um perito extrajudicial (assistente técnico), por força do Código de Processo Civil que estabelece que seja apresentada memória de cálculo discriminada para ingressar, embargar, executar ou meramente contestar qualquer ação que envolva valores. Até para fazer um acordo extrajudicial com uma instituição financeira, sem envolver diretamente o judiciário, é necessário um parecer fundamentado de assistente técnico.

Em casos de cheques e cartões de crédito?
Nos casos de processos bancários, por exemplo, que discutem revisionais de cheques, cartões de crédito e/ou financiamentos. Nesses casos, é necessário um parecer discriminado, acompanhado de cálculos de assistente técnico para o advogado entrar com uma ação ou meramente impugnar um valor discutido. Na Justiça Trabalhista, os cálculos são apresentados e impugnados pelas partes através de assistentes técnicos, somente sendo nomeado perito pelo juiz em caso de grandes divergências. A outra parte, para impugnação, contestação ou embargos, também precisa de um perito assistente para executar esse trabalho. Eventualmente o juiz nomeará perito de sua confiança para dirimir dúvidas e esclarecer questões econômico-financeiras controversas. O maior volume de trabalho é, sem dúvida, atuação na área extrajudicial, de assistência junto a advogados e empresas.

O que está faltando para o economista entrar de forma mais efetiva nessa área?
Faltam principalmente divulgação junto à categoria, formados que não são registrados e estudantes, além da promoção de cursos, encontros, palestras para o pessoal se qualificar e atualizar, passando a atender às exigências para atuação no mercado. Eles devem fazer parte do Cadastro Nacional de Peritos, já que o judiciário, por exemplo, só pode utilizar os peritos que fazem parte desse Cadastro, por força de lei. Os advogados não precisam utilizar o Cadastro, já que geralmente contratam o perito assistente através de indicações. No entanto, a tendência é que sejam priorizados como assistentes peritos que trabalham também para juízes e têm habilitação comprovada junto ao seu órgão de classe.

Que tipos de barreiras ainda têm que ser superadas?
Uma coisa que têm nos prejudicado muito nos últimos anos é que o curso de contábeis instituiu a cadeira de perícia contábil como obrigatória e os economistas sempre foram meio contrários a instituir cadeira obrigatória de perícia econômico-financeira, apesar de solicitado repetidamente em encontros sobre currículos acadêmicos no país inteiro. Os economistas saem dos cursos de graduação muitas vezes sem saber que podem fazer perícia e, quando sabem, não têm a mínima noção de elaboração de um laudo ou de onde e como podem buscar trabalhos na área.

Qual o objetivo do Cadastro Nacional de Peritos em Economia e Finanças?
O cadastro reúne informações profissionais sobre economistas que atuam na área da Perícia econômico-financeira, atendendo à exigência do Novo Código de Processo Civil brasileiro. Importante esclarecer que para atuar como perito é obrigatório ter registro no Corecon, de acordo com o artigo 156 do Novo Código de Processo Civil brasileiro (CPC).

Mercado de capitais e a conjuntura econômica

 

jose juniorJosé Junior de Oliveira
Economista, presidente da presidente da Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais – Seccional Sul (Apimec-Sul)
Corecon-RS Nº 5500

Como o mercado está vendo a conjuntura econômica, especialmente neste momento pré-eleitoral?
Eu diria que o que tem de positivo neste governo é a equipe econômica. O governo conseguiu colocar a economia, não digo nos trilhos, porque as contas públicas tem um déficit enorme e vai demorar uns três ou quatro anos para ser ajustado. Mas, pelo menos, a estabilidade voltou, o governo conseguiu controlar os gastos, a equipe econômica trouxe confiança ao mercado. Mas a retomada do crescimento é gradativa. Vimos que recentemente houve uma prévia de PIB do primeiro trimestre de 2018 negativo, que ninguém estava esperando, mas, mesmo assim, a bolsa estava subindo porque sabe que a retomada é lenta e que deve ser alcançada logo ali na frente. O problema é que este ano tem eleições e não se sabe se o candidato vencedor irá preservar a agenda econômica, com estabilidade, controle de inflação e principalmente controle do gasto público. Se tivermos um governo que não faça uma gestão fiscal responsável teremos, como consequência, um agravamento ainda maior da crise nas contas públicas.

É tudo uma questão de perfil mais liberal ou não?
É tudo uma questão de ser mais intervencionista ou menos intervencionista. E, claro, o mercado prefere um governo menos intervencionista porque já sabe que ele não é eficiente para controlar as contas públicas e fazer gestão. Então, quanto menos intervencionista, melhor.

Como vem se comportando o mercado de capitais nos últimos anos?
O mercado de capitais é muito pouco utilizado para financiar os investimentos de empresas no Brasil. Existe um caminho enorme para empresas captarem recursos de emissão de ações, de debêntures e outros títulos. A pessoa física brasileira não tem a cultura de aplicar recursos em renda variável, onde se ganha mais, mas com um risco maior. O mercado conta atualmente com a participação ativa dos investidores estrangeiros, que são responsáveis por mais de 50% dos negócios na bolsa. Só para se ter uma ideia, em 2001 se negociava em bolsa R$ 500 milhões por dia, enquanto hoje o volume diário médio passa de R$ 10 bilhões. Entretanto, o volume negociado ainda é muito concentrado em algumas empresas, já que cerca de 20 ações representam aproximadamente 60% do volume negociado. O financiamento das empresas através do mercado de capitais representava cerca de 3,2%, em média, nos últimos 5 anos, e de 1% nos primeiros 3 meses de 2018, em relação ao saldo de crédito do sistema financeiro para pessoas jurídicas. Isso demonstra que esse mercado tem muito espaço para ser utilizado no financiamento do setor produtivo.

Essa subutilização do mercado de capitais é fruto da falta de informações?
Em parte, sim. Precisamos investir em educação financeira para nosso investidor. Mas as empresas também têm receio porque o mercado de capitais exige governança, mais transparência. Têm que abrir as informações para os investidores, pois os acionistas são sócios das empresas. E, às vezes, alguns empresários não querem isso. Logicamente, é uma questão de cultura das empresas. Outro problema é a necessidade de o governo dar mais espaço para a iniciativa privada. Quando o governo acha que tem que fazer tudo, as boas empresas se retraem. Basta vermos a que ponto chegou essas negociações de governantes com empresas, empreiteiras, o que não é nada salutar para o país.

Como o mercado está vendo o comportamento do dólar nessas últimas semanas?
Na verdade, o comportamento do dólar se dá mais por fatores externos do que por fatores internos. Como os EUA vêm elevando a taxa de juros, é natural que comece a aumentar a procura pelos títulos do tesouro americano, de menor risco e com taxas mais elevadas. Com isso, começa também a aumentar a venda de títulos em países emergentes para aplicar em países de menor risco, com aumento do preço do dólar. Outro problema é a crise da Argentina, que está com dificuldades em rolar sua dívida e problemas sérios nas contas públicas, déficit público elevado, inflação alta, juros altos. Esse ambiente gera incertezas no mercado. A Argentina conseguiu recentemente um apoio do mercado financeiro para amenizar a rolagem da divida, mas é um apoio que ainda vai demorar algum tempo para se consolidar e que também não depende apenas do mercado. Internamente, o Brasil também vem numa trajetória de redução da taxa de juros e é natural um movimento de fuga de capital daqui porque os investidores buscam mercados mais atraentes e com menor risco. Em menor medida, também temos um cenário eleitoral que é incerto, o que gera certa volatilidade no mercado de câmbio.

O Brasil possui antídotos para frear essa valorização do dólar?
Se o governo brasileiro quiser intervir no mercado cambial pode utilizar as reservas internacionais, que estão em torno de U$ 380 bilhões. Em caso de necessidade ou se achar prudente, o governo pode intervir e forçar a queda da cotação do dólar em relação ao real, para reduzir a volatilidade da moeda estrangeira e acalmar o mercado. Normalmente o Banco Central vem utilizando esse instrumento em momentos pontuais.

Economia do Vale do Rio Pardo já mostra retomada de crescimento

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Fabiana Post
Economista
Corecon-RS Nº 7497

 

 

A economia do Vale do Rio Pardo já começa a demonstrar algum tipo de retomada de crescimento?
O saldo de contratações e demissões no Vale do Rio Pardo, após dois anos de fechamento negativo, apresentou melhora em 2017, onde 747 novos postos foram criados. O primeiro trimestre de 2018 também apresentou saldo positivo, puxado em grande parte pela indústria, especialmente a do fumo, setor motor da economia do Vale do Rio Pardo. Das 9.552 admissões neste trimestre, na região, 4.012 estão na indústria do fumo e couro, distribuídos nos municípios de Santa Cruz do Sul, com 2.327, Venâncio Aries, com 1.623 e Vera Cruz, com 62 admissões. Neste cenário, a ocupação de maior expressividade é a função de auxiliar de processamento de fumo, onde estão 50% das contratações. Essas vagas são na sua maioria por tempo determinado, variando o tempo de duração de acordo com a função e o andamento da safra.

A economia da região apresentou outros destaques positivos?
Sim. Outro destaque é para a indústria calçadista, que tem mantido saldo positivo entre contratações e demissões desde 2015, apresentando crescimento progressivo do setor, abrindo 324 novas vagas em 2015, 423 em 2016, 565 em 2017 e no primeiro trimestre de 2018, 117 novos postos foram criados.

Que município se destacou no número de contratações de mão-de-obra?
Candelária é o município do Vale do Rio Pardo que apresentou o maior saldo positivo em 2017, com a abertura de 425 novos postos e, é ainda o único município da região que nos últimos cinco anos, não apresentou saldo negativo. No município foram registrados de 2014 a 2018, 947 novos postos de trabalho, tendo como força motriz o setor calçadista.

Quais setores têm se destacado positivamente?
Além da indústria calçadista, também a indústria de metalurgia, após o fechamento de 695 postos de trabalho em 2015, tem apresentado recuperação desde 2016, com as contratações superando as demissões. O mesmo acontece com a indústria mecânica, que teve um período mais longo de declínio e cujo saldo de contratações/demissões passa a ser positiva em 2017 e 2018. O setor da construção civil, por sua vez, que nos últimos 4 anos, fechou 738 vagas, sendo que destas, 561 se deram em Santa Cruz do Sul, município que entre os anos de 2014 e 2017, fechou 1.003 postos de trabalho, inicia uma retomada de crescimento, bastante tímida ainda, mas com saldo positivo de 36 vagas neste primeiro trimestre, considerando as contratações e demissões do setor, realizadas pelos municípios que compõe o Vale do Rio Pardo.

E como tem se comportado o setor de serviços?
O comercio varejista não tem apresentado resultados positivos, sendo o saldo dos primeiros três meses de 2018, negativo em 106 vagas, diferentemente do ano anterior, que apresentou uma recuperação e o numero de contratações superou as demissões, fechando o ano com saldo positivo de 117. Diferentemente do setor varejista, o atacadista, apresentou um incremento no número de contratações, com 410 ante 160 demissões, resultando em um saldo positivo de 250 vagas.

E no acumulado dos últimos anos, como está a economia da região?
Considerando o saldo acumulado para os municípios do Vale do Rio Pardo, entre 2014 a 2017 o número de demissões supera o de contratações. Apesar de, em 2014, terem sido gerados 2.102 novos postos, os anos de 2015 e 2016, mostram uma desaceleração da economia e do nível de emprego, com o fechamento de 3.059 postos de trabalho na região. Somente em Santa Cruz do Sul, nestes dois anos, foram eliminadas 2.159 vagas. Em 2017, esse cenário apresentou-se um pouco mais otimista, com as contratações superando as demissões. No entanto, esse incremento na criação de vagas, ainda é insuficiente para alcançarmos o mesmo patamar de 2014.

Em compasso de espera

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Pedro Cezar Dutra Fonseca
Economista, professor da UFRGS, ex-presidente Corecon-RS
Corecon-RS Nº 3263

 

 
Como o senhor está vendo o cenário econômico brasileiro nesse período pré-eleitoral?
Não vejo sinais de que haja uma retomada consistente do crescimento. O que acontece é que a economia se estabilizou em patamares baixos. Ocorreu uma recessão, o PIB caiu nos últimos três anos e agora se estabilizou. O que acontece é que, às vezes, por um ou dois meses surgem sinais de melhora em alguns setores, mas logo em seguida percebe-se que eles caem. E isso não é uma retomada consistente. Porque uma retomada consistente tem que ser continuada. Para acontecer uma retomada consistente, ela tem que acontecer de forma continuada e, também, atingir a maioria dos setores da economia. O que vem acontecendo é que, às vezes, os números de alguns setores sobem enquanto outros setores estão caindo. Então isso não é uma retomada de crescimento.

 

E a questão do emprego nesse cenário?
A questão envolvendo os números do emprego então, nem se fala. E é exatamente aí que a situação é mais dramática. Até porque essa lei que flexibilizou o emprego também não ajuda no aparecimento de contratações formais, com carteira assinada. Há uma tendência à informalidade do emprego, o que aguça ainda mais o problema, ficando mais difícil de se verificar eventual retomada do crescimento. Ou seja, a economia não vem apresentando sinais positivos nem na produção e muito menos no emprego. O menos pior de olhar é que pelo menos a recessão não esta se aprofundando como vinha acontecendo até 2017.

 

Então não há perspectiva de melhora em horizonte próximo?
Pelo menos até a eleição não vejo como a economia sair dessa situação. Existe um compasso de espera, tanto do capital estrangeiro como das empresas nacionais, dado o grau de incerteza que está tendo na economia. E, principalmente, por essa ser uma eleição atípica, em que não existe um candidato favorito. Com a possibilidade de que o ex-presidente Lula não irá ocorrer, os demais candidatos não aparecem, diferentemente das outras eleições, quando há seis meses do processo já tínhamos dois ou três candidatos que se sobressaíssem em relação aos demais e com possibilidades concretas de despontarem mais à frente. Algo interessante é que aqueles candidatos que possuem mais tempo de televisão, que seriam do PSDB, do PMDB e do PT, não têm candidatos visíveis.

 

Esses fatores colaboram para o aumento do grau de incertezas?
Esses fatores aumentam o grau de incertezas. Então, não vejo forma de a economia brasileira deslanchar antes da eleição e, mesmo, depois dela, de chegarmos a um quadro de recuperação econômica para o pais.

 

Existe algum quadro de influência externa que possa, senão amenizar, trazer impactos positivos para a economia?
A economia internacional hoje não é quem está puxando a crise brasileira, como aconteceu em 2008, 2009 e 2010, quando a economia mundial estava em refluxo e a economia brasileira sentia esse impacto. Ao contrário, vários países dão sinais de recuperação de suas economistas e mesmo com os EUA acontece isso.

 

Mas a crise dos EUA com a China não pode abrir espaço para ampliação dos mercados brasileiros?
Pode sim, tanto por um lado como pelo outro. Ou seja, tanto a China como os EUA são os principais parceiros comerciais do Brasil. Nessa questão do aço, os EUA querem atingir a China e acabam atingindo a economia brasileira. O Brasil é um grande exportador de commodities para a China, mas os EUA são um parceiro comercial importante porque adquirem do Brasil muitos produtos com grande valor agregado. Então, a importância de o Brasil se manter razoavelmente neutro nessa disputa. Eu me preocuparia muito mais é com a comunidade europeia, cuja onda protecionista está em ascensão, contra diversos produtos, como o frango, carnes, soja, entre outros, na ânsia de proteger produtos locais, que concorrem com os nossos.

Indicadores econômicos e o calendário eleitoral

fernando ferrari
 
Fernando Ferrari Filho
Economista, professor aposentado da UFRGS, ex-presidente do Corecon-RS
Corecon-RS Nº 5048

 

Como o mundo está vendo a economia brasileira, especialmente neste momento político conturbado e pré-eleitoral?
Em primeiro lugar, a economia mundial tem os seus problemas que, diga-se de passagem, não são poucos, tais como restrições comerciais por parte dos Estados Unidos, sinalização de elevações mais significativas das taxas de juros norte-americanas (atualmente entre 1,5% e 1,75% ao ano) e embate político entre Rússia e Estados Unidos. Portanto, há motivos para que a economia brasileira não seja o centro das atenções no atual momento. Todavia, o mercado internacional sabe das dificuldades de nossa economia, entre as quais, o desequilíbrio fiscal, a baixa relação formação bruta de capital fixo/PIB (algo próximo a 16,0%), a redução da razão crédito/PIB (em torno de 50,0%) e a alta taxa de desemprego (13,1% no primeiro trimestre do ano). Se acrescentarmos o fato de que a eleição presidencial poderá ter no segundo turno candidatos que não sejam dos partidos que nas quatro últimas eleições se alternaram no poder, ou seja, PSDB e PT, então há motivos de sobra para volatilidades de capitais, do câmbio etc. 


A economia vai conseguir se manter imune aos acontecimentos políticos?
Via de regra, ano eleitoral, desde o período pós-redemocratização, tem como consequências volatilidades dos indicadores econômicos de curto prazo. Foi assim nas eleições de Fernando Collor, Fernando Henrique Cardoso, Lula da Silva e Dilma Rousseff. Juros elevados, câmbio desvalorizado, saída de capitais e aumentos do risco-país foram observados em 1989, 1994, 1998, 2002, 2006, 2010 e 2014. Em 2018, excetuando-se a estabilidade dos juros básicos (a Selic atualmente se encontra em 6,5% a.a. e as previsões do Relatório Focus são de que ela se desloque marginalmente deste valor), as perspectivas são de desvalorizações cambiais mais acentuadas e fuga de capitais (principalmente se os fed funds norte-americanos se elevarem mais rapidamente). Em suma, os referidos indicadores econômicos não estarão imunes ao calendário eleitoral, a despeito da melhora do lado real (minhas apostas são de que o PIB deva crescer em 2018 ao redor de 2,5%, dinamizado, ainda, pelo setor externo).

O que falta para a economia brasileira acelerar sua recuperação?
Em meu ponto de vista, faltam políticas macroeconômicas ativas e articuladas (expansão do crédito e juros civilizados – apesar de termos a menor Selic de nossa história, seja nominalmente, seja em termos reais, os juros de varejo para pessoas físicas e jurídicas são bastante elevados e proibitivos; responsabilidade fiscal, imprescindível para estabilizar ou reduzir a relação dívida pública/PIB e fazer com que a política fiscal possa ser utilizada de forma contracíclica, tornando-a, assim, um estabilizador automático da economia; e câmbio competitivo e estável), reformas estrutural-institucionais (previdenciária, tributária e patrimonial), resgatar a credibilidade das instituições (legislativo, judiciário e executivo, em todas as esferas) e, o mais importante, articular um pacto social em que os interesses individuais sejam conciliados com os interesses sociais. Explorando o último ponto, infelizmente, há décadas, via de regra, os agentes econômicos objetivam tão somente maximizar seus objetivos: os empresários os lucros, os trabalhadores seus salários e os rentistas seus rendimentos financeiros. Sem um pacto social e sem a ideia de que Estado e Mercado, em uma economia capitalista, são complementares e têm uma sinergia, nosso País, se apropriando de um personagem de Samuel Beckett, continuará “esperando Godot”.

O ensino da Economia e os novos tempos

claudia
 
Cláudia Katherine Rodrigues
Economista, Coordenadora do Curso de Ciências Econômicas da Fadergs
Corecon Nº 7079

 

Em que época foi criado o Curso de Ciências Econômicas da Fadergs?
O curso de Ciências Econômicas da FADERGS realizou seu primeiro vestibular no primeiro semestre de 2009. Já estamos completando nove anos de oferta, duas vezes por ano.

Ao longo desse período, quantos economistas a Faculdade já colocou no mercado?
Já são 28 alunos egressos do curso de Ciências Econômicas da FADERGS inseridos no mercado profissional.

Como está posicionado Curso dentro do contexto do MEC?
Passamos por renovação de conhecimento em 2016, quando obtivemos a nota 4 nesse processo do MEC (notas de 1 a 5). Além disso, obtivemos nota 4 no ENADE de 2015 realizado pelo INEP (notas de 1 a 5). Tratam-se de dois excelentes resultados e que colocam o curso de Economia da FADERGS em destaque no mercado. Nosso desafio em 2018, é realizar a nova edição do ENADE e continuar o processo de evolução e bons resultados do curso.

Como foi a mobilização junto aos alunos para enfrentarem o Enade?
Em 2015 fizemos uma boa mobilização e, agora, em 2018, estamos repetindo esse processo. Mas isso não acontece somente nos anos que ocorrem as provas do ENADE (de três em três anos), na verdade, nosso curso além de atender aos requisitos das diretrizes curriculares, ele também foi montado: grade, planos de ensino, sistemas de avaliação, extensão e pesquisa, de modo a atender às competências previstas no ENADE, além da aderência às demandas do mercado da profissão. Portanto, os alunos estão em contato com as exigências das provas do ENADE, semestre a semestre, disciplina a disciplina. Realizamos simulados e trabalhos com questões do modelo ENADE desde o primeiro semestre do aluno. É claro que em ano de ENADE intensificamos estas ações, por exemplo, em 2018, estamos disponibilizando cursos, listas de exercícios e simulados.

Como ficou a nova grade curricular?
Estamos vivendo uma revolução no ensino, em menos de três anos, a informação e o conhecimento já mudaram, são novas profissões e novas formas de relações se formando num piscar de olhos. E necessitamos fazer com que o nosso aluno esteja atento e perceba exatamente essas transformações. A FADERGS pertence a Rede Laureate, a maior rede de instituições de ensino do mundo, somente no Brasil são 12 instituições ligadas a rede. Portanto, quando pensamos como rede, percebemos que possuímos uma equipe qualificadíssima que vai além das fronteiras da FADERGS, na verdade nós temos profissionais espalhados pelo Brasil todo, que são dotados de competências, qualificações e conhecimento para criar currículos e estratégias de ensino definitivamente inovadores. E é isso que durante todo o ano de 2017 foi realizado. Foram coordenadores, professores, tutores e orientadores trabalhando e contribuindo para criação de currículos, grades de ensino e planos de ensino ainda mais aderentes às demandas legais e principalmente às demandas de mercado. Hoje, por exemplo, nosso currículo tem laboratórios de empreendedorismo e inovação e nossos planos de ensino preveem metodologias ativas e o uso da avaliação formativa em todas as aulas.

Que tipo de mudanças mais efetivas foram promovidas?
Eu poderia citar várias mudanças, mas vamos focar na inclusão do laboratório de empreendedorismo e inovação que visa desenvolver nos alunos a competência de modelagem de negócios. Eles trabalham diversas ferramentas de inovação dentro desse laboratório, de modo prático e buscando soluções efetivas para situações reais através do atendimento à comunidade ao redor. E, através desse processo, eles acabam também assumindo um importante papel de responsabilidade social.

De que forma vem acontecendo esse atendimento à comunidade?
Temos núcleos de práticas, com um dia e horário específicos, com uma equipe de alunos e professores para o atendimento à comunidade. No semestre passado, por exemplo, fechamos uma parceria com a Secretaria da Indústria e Comércio de Porto Alegre (SMIC), que precisava capacitar imigrantes e ambulantes para que eles pudessem renovar o alvará. Então, nos procuraram, e partimos para a realização de oficinas de empreendedorismo, de formação de preço de venda e de gestão financeira. Usamos a nossa estrutura de sala de aula para a realização das capacitações aos imigrantes e ambulantes. Tanto a confecção do conteúdo das capacitações, quanto a ministração do curso, foram realizadas pelos alunos com a supervisão dos professores. Após realizado o curso, os alunos ainda continuaram acompanhando aqueles que desejaram orientações individuais sobre os temas trabalhados em sala de aula.

Qual foi o impacto dessas ações junto aos órgãos parceiros?
A resposta imediata da SMIC foi que esse público dependia dessa qualificação para conseguirem alcançar o alvará. E esse objetivo foi alcançado. Uma segunda resposta, que é mais um desafio, é que a Secretaria continua nos procurando para novas intervenções. Outra ação de interatividade com a comunidade, é que promovemos diversas palestras em associações comunitárias e em escolas municipais na área de educação financeira. Então, o que temos visto hoje é o fato de estarmos nos posicionando e ocupando espaços junto a essa lacuna da comunidade carente de informação.

O Imposto de Renda e a histórica distorção da correção da tabela

gustavo moraesGustavo Inácio Moraes

Economista, Coordenador do Curso de Ciências Econômicas da PUCRS
Corecon-RS Nº 7863

 


Qual a realidade que envolve a atual correção da tabela de Imposto de Renda retido na fonte?
Desde 1996 o governo federal não tem reajustado as faixas do imposto de renda adequadamente à inflação. Normalmente os valores devidos ao IR, principalmente faixas de isenções e trocas de tributações de alíquotas, seguem a inflação. Toda a vez que havia inflação, essas faixas eram corrigidas, preservando o valor real de isenção e de faixas consequentes. Desde 1996, as restrições fiscais brasileiras e o final da inflação impuseram uma realidade diferente do orçamento publico brasileiro. Então desde essa época não se reajusta essas faixas de acordo com a inflação.

 

Qual o impacto financeiro dessa falta de correção nas camadas mais baixas da população?
Comparado ao IPCA, isso já acumula uma defasagem de 89% ao longo do tempo. Como exemplo, hoje quem ganha cerca de dois salários mínimos, algo em torno de 1,95 mil reais, já paga imposto de renda, através da retenção de valores na fonte. Se houvesse a correção adequadamente à inflação, apenas quem ganhasse mensalmente 3,5 mil reais pagariam imposto de renda retido na fonte. Então, isso é uma política de aumento de tributos não combinada com a sociedade, já que não implica em imposto novo. Portanto, questões legais decorrentes da criação de imposto não são enfrentadas e, ao mesmo tempo, não percorre aumento de alíquota. É uma forma de aumento de tributação mascarada que é imposta à sociedade. Isso, acumulado no tempo, além de proporcionar uma faixa de isenção muito menor, alguém que ganha dois salários mínimos, por todo o critério de justiça tributária, talvez não devesse estar pagando impostos sobre a renda.

 

O que representa isso em termos de números de contribuintes?
No projeto Gestão Pública Eficaz, elaborado em parceria da PUCRS com o Sescon-RS, calculamos que a base de assalariados que têm registro em carteira ou estatutários, é equivalente a 16 milhões de pessoas, sendo que, desse universo, 10 milhões deixariam de pagar imposto de renda retido na fonte, caso houvesse essa correção do IR. Em outras palavras, esses 10 milhões estariam situados numa faixa salarial média entre 1,9 mil reais e 3,5 mil reais, que está dentro da média salarial do trabalhador brasileiro, que, segundo o IBGE, é de 2,2 mil reais. Portanto, nós tiraríamos 10 milhões de pessoas desse imposto de renda retido na fonte. Dessa forma, o IR seria efetivo no sentido de tributar daqueles que tem maior capacidade contributiva, e proporcionaria uma justiça tributária, que desde 1996 nós não temos.

 

Isso também tem um impacto nos maiores salários?
Sem dúvida. Tem toda uma cadeia pelos níveis das faixas, que é afetada. Então, você começa a tributar lá na qualidade 27,5%, por exemplo, a partir de seis mil reais, quando na realidade essa tributação deveria incidir para aqueles que ganham quase nove mil reais. E falando de impactos, em número de arrecadação, que acho que esclarece melhor, mas esse número é assustador, temos hoje uma arrecadação estimada de cerca de 97 bilhões de reais no IR retido na fonte. Caso houvesse a correção dessa tabela de IR desde 1996, dessa defasagem de 39%, nós deixaríamos 41 bilhões de reais nas mãos dos assalariados. Então veja dos 97 bilhões de reais hoje arrecadados na fonte, 41 bilhões não seriam arrecadados caso houvesse essa correção.

 

Esse dinheiro aumentaria o poder de compra do assalariado das faixas mais baixas?
Aumentaria o poder de compra, aumentaria a circulação da moeda na economia, especialmente aos mais carentes, que se encontram na faixa entre dois e quatro salários mínimos, que estão pagando imposto de renda retido na fonte indevidamente. Estamos falando de uma massa de população que tem como consumo principal, itens como alimento, transporte, carro, gasolina, e até algum tipo de lazer, já que estamos falando de uma classe média C- típica, que estaria sendo impedida no seu poder de compra.

 

Que saída vocês veem para correção dessa distorção?
Visto o montante de 41 bilhões que é arrecadado extraordinariamente, isso é um impacto muito grande dentro do orçamento público brasileiro. Veja que hoje o País tem um furo de 150 bilhões de reais no orçamento de 2018, e de 130 bilhões de reais para o orçamento de 2019. Então, são déficits consideravelmente importantes. E hoje, abrir mão de 41 bilhões de reais de receita é impensável face à situação difícil das contas públicas brasileiras. Uma solução de transição, já que temos 89% de defasagem acumulada, seria voltar a reajustar as faixas de IR de acordo com a inflação, acrescentando sempre 1% de ganho real nessas faixas de IR. Isso resultaria que em 67 anos nós recuperaríamos os 89% de defasagem. Se fizéssemos a reposição da inflação mais 2%, talvez em 33 anos conseguíssemos repor esses 89%. Então, não existe saída fácil nesse contexto em que a sociedade brasileira não contratou exatamente que tipo de estado ela deseja. E é uma situação bastante difícil para ser reorganizada em uma medida apenas. Teria que ser pautada no tempo e, aí sim, corrigir uma justiça histórica dentro do IR retido na fonte do Brasil.

 

Quem são os demais autores do trabalho Gestão Pública Eficiente?
Também são autores desse estudo o professor Milton Andre Stela, Pedro Tonon Zuanazzi e Pedro Vargas Cabral, recentemente graduado em Economia.

Emprego formal no agronegócio gaúcho aumenta nos primeiros meses do ano

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Rodrigo Feix
Economista, pesquisador da FEE
Corecon-RS Nº 7851

O representa para a economia gaúcha o saldo positivo de empregos formais registrados no agronegócio no mês de fevereiro último?
A pesquisa realizada pela FEE acompanha o emprego formal, com carteira assinada, no agronegócio do Rio Grande do Sul. As características da estrutura produtiva desse setor no Estado confere um caráter sazonal aos dados. No primeiro trimestre de cada ano, em função da elevação do número de admissões para as atividades direta e indiretamente vinculadas à colheita da safra de verão, os saldos são positivos. Nesse ano, em fevereiro, foram criados mais de sete mil empregos. Em janeiro, foram mais de dez mil. O impacto dessa demanda temporária por mão de obra se concentra, principalmente, em municípios de pequeno e médio portes do interior do Estado, onde é mais expressiva a participação das atividades agropecuária e agroindustrial na geração de renda. Ressalvando que os empregos criados nesse setor - especialmente nesse período - serem de baixa ou média remuneração, sua relevância é expressiva, pois o agronegócio constitui a base econômica e produtiva dessas regiões.

A que se deve esse resultado?
Basicamente, os resultados derivam da nossa estrutura produtiva e das especificidades do ciclo das culturas mais relevantes da agropecuária gaúcha. Em fevereiro, por exemplo, o setor que mais contribuiu para a geração de empregos no agronegócio foi o de fabricação de produtos do fumo (mais 2.834 postos). Obviamente, isso decorre do encerramento da colheita e preparação das folhas do fumo pelos agricultores. A disponibilidade da oferta dessa matéria prima é concentrada no tempo, daí o motivo de a indústria fumageira manter um nível elevado de admissões de janeiro a abril. Fenômeno similar ocorre nas culturas da maçã e da uva, intensivas em mão de obra no período da colheita.

Como foi esse movimento, comparado aos meses anteriores?
Considerando os dois primeiros meses do ano, pode-se afirmar que o agronegócio está gerando mais empregos em 2018, apesar de a safra agrícola ter se reduzido. Enquanto em 2017 foram gerados 12.670 empregos, nesse ano, de janeiro a fevereiro, o número supera os 17 mil. Essa diferença resulta, em primeiro lugar, da antecipação de desligamentos nos setores de fabricação de sementes e de conservas, ocorridas em dezembro. Além disso, alguns setores se beneficiaram com a leve recuperação do mercado doméstico ou com o aumento dos volumes exportados. Esse foi o caso da indústria de carnes, que, considerando os vínculos com carteira assinada, é a maior empregadora do agronegócio gaúcho. Em função da aceleração do ritmo de abates e da retomada da atividade em plantas fechadas, houve maior demanda por mão de obra nesse setor.

Que segmentos do agronegócio mais contribuíram para esses resultados?
Nos dois primeiros meses do ano, os maiores saldos positivos foram verificados nos setores de produção de lavouras permanentes (mais 7.848 postos) e da indústria fumageira (mais 3.679 postos). Trata-se dos casos ilustrativos da sazonalidade do agronegócio gaúcho, citados anteriormente (maçã, uva e fumo). Além desses setores, também se destaca a indústria da moagem e beneficiamento de cereais (mais 1.403 empregos), especialmente em função do arroz, e de comércio atacadista de produtos agropecuários e agroindustriais (mais 1.395 postos).

Algum setor se destacou negativamente?
Nos primeiros meses do ano a tendência geral é que as admissões superem os desligamentos nos principais setores do agronegócio gaúcho. Em 2018, os principais saldos negativos ocorreram nos setores de produção de sementes e mudas certificadas (-277 empregos), fabricação de conservas (-245 empregos) e laticínios (-76 empregos). Em todos esses setores a perda de empregos em 2018 foi inferior a igual período de 2017.

Mesmo que esses movimentos estejam relacionados à sazonalidade, podem ser considerados de relevância para a economia?
Sem dúvida são importantes para a economia das regiões em que essas atividades estão concentradas. No Rio Grande do Sul muitos municípios e regiões são conhecidos a partir da sua estrutura produtiva agropecuária e agroindustrial. Vacaria com a maçã; Santa Cruz do Sul e Venâncio Aires com o complexo fumageiro; o Vale do Taquari com o complexo lácteo e a indústria da carne; a Campanha com a bovinocultura de corte etc. Por óbvio, o dinamismo econômico dessas regiões guarda relação com o desempenho do agronegócio. O alcance desse dinamismo em termos de desenvolvimento é diverso, variando, por exemplo, segundo a eficiência produtiva alcançada, o comportamento da demanda, o perfil da mão de obra exigida e os encadeamentos locais entre a agropecuária e a indústria de transformação.

Ensino público e gestão

 

Sérgio Firpo
Economista, pesquisador CNPq, professor titular da Cátedra Instituto Unibanco no Insper

Recente pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) revelou resultados sobre o nível de insatisfação dos brasileiros com as escolas públicas de nível médio. Como o senhor vê a situação da educação pública no país?

De uma forma geral, a qualidade do ensino na educação pública é inferior a do setor privado, embora isso não signifique não haja casos de melhor qualidade, inclusive até superior a várias instituições de ensino privado. Sabe-se, no entanto, que há grandes possibilidades de ganhos, sobretudo de gestão do setor púbico. Ou seja, há uma serie de escolas que têm potencial para serem melhor geridas do que realmente são.

É problema de gestão?

Trata-se de uma questão de falta de incentivos para o gestor, de forma que possa melhorar suas ações, que tenha uma carreira não temporária, mais profissional. A pessoa entra como gestor de escola sem ter uma perspectiva do que vai acontecer com ele depois. Ele não será compensado por isso, nem em termos salariais e nem em termos de progressão na carreira. Acaba tendo apenas uma motivação intrínseca para fazer uma boa gestão. E não podemos contar apenas com uma motivação intrínseca de gestores de escola para fazerem uma boa administração o tempo inteiro. Então, tem-se que pensar em maneiras de criar incentivos para que se tenha uma gestão mais profissional, através da qualificação contínua ou da criação de incentivos, proporcionando-se capacidade para que possam alterar certos insumos dentro da instituição, como por exemplo, capacidade de definir os professores que devem ou não trabalhar naquela escola. Isso, eles não têm na escola pública. No setor publico, tem professores que estão engajados com a melhora do aprendizado dos alunos e tem outros gestores que não possuem esse mesmo nível de comprometimento. Então, o gestor tem pouca flexibilidade para alterar o quadro de professores.

É uma realidade muito diferente do setor privado?

No setor privado existe a competição entre escolas. O efeito do ENEM, por exemplo, que no fundo é para mostrar que competição é importante pra se criar um incentivo para que as escolas e gestores busquem aumentar a sua demanda por serviços prestados.

O distanciamento entre o gestor da instituição pública e o agente que concentra o poder de decisão também não gera maiores dificuldades?

Na verdade, as nossas redes públicas são muito centralizadas, fazendo com que gestor acabe tendo muito pouca capacidade de tomar decisões, diferente de outros modelos educacionais, como por exemplo o inglês, onde o gestor tem muito mais autonomia na série de decisões. Aqui é tudo muito mais centralizado, o que faz com que fique esse jogo de empurra. Outro problema, é que muitas vezes essas decisões acontecem muito lentamente, dificultando o bom nível das ações que venham em benefício da escola, até porque normalmente são decisões uniformes, para todas as escolas. E muitas vezes as decisões uniformes não são a melhor política, ao contrário das decisões especificas para cada escola, cada regional.

Temos exemplos no Rio Grande do Sul de escolas públicas com bons resultados em avaliações nacionais. O rigor da disciplina tem a ver com essa distorção?

Não necessariamente esses resultados são oriundos da questão disciplinar. Tem modelos de gestão que geram um resultado de clima escolar diferente. Tem o mais tradicional, o hierárquico, que muitas vezes funciona, mas nem sempre é o modelo que se aplica. Obviamente, essas escolas têm um processo de seleção de entrada mais apurado, proporcionando maior concentração de alunos com melhor rendimento. É muito diferente, por exemplo, de uma gestão de escola pública municipal ou estadual, onde, a princípio, todos os candidatos devem ser atendidos e que deve garantir o acesso a uma educação de qualidade para todos, inclusive para aqueles que estão a ponto de evadir. São modelos diferentes e, obviamente, sempre ocorrerão esses exemplos de sucesso, onde não se consegue definir exatamente se acontece em função do formato de estrutura da escola, se é fruto do processo de seleção ou, mesmo, algo que tenha a ver com hierarquia ou disciplina, que não necessariamente refletem boas práticas de gestão.

O sistema de cotas é uma política que vem dando certo no país?

É uma política clara de inclusão. Mas para sabermos se está dando certo, depende da métrica que se quer utilizar. Do ponto de vista do bem estar social, que leva em conta o bem estar de todos os indivíduos na sociedade, pode ter resultados ambíguos, já que temos indivíduos que foram penalizados com isso e existem muitos outros que obtiveram ganhos. Percebe-se que essa política gera uma série de incentivos, sobretudo para os alunos do ensino médio da rede pública, que acabarão se dedicando mais ao estudo, já que veem com mais clareza as chances de acesso à universidade pública, o que não acontecia anteriormente. Da mesma forma, aqueles alunos não cotistas, que se imaginam prejudicados pela nova política, também podem vir a estudar mais para disputarem o mesmo espaço na instituição pública.

 

Impasse na despesa com pessoal, qual a saída?

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Darcy Francisco Carvalho dos Santos
Economista, Conselheiro Corecon-RS

 


Qual o impacto da exclusão, por parte do Tribunal de Contas do Estado (TCE), do rol da despesa com pessoal, de itens como pensões, entre outros, nas contas públicas do estado do RS?
Entre 2000 e 2015, em valores atuais, a despesa desconsiderada, excedente ao limite, alcançou R$ 49 bilhões. Nesse período, os investimentos do RS foram de R$ 22 bilhões e os déficits, de R$ 18 bilhões. Isso quer dizer que, se a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) tivesse sido cumprida, os déficits não existiriam e, ainda, seria possível fazer mais do que o dobro dos investimentos realizados. A LRF, por si só, tinha a solução para o problema dos déficits, porque aplicando 60% em pessoal, o 40% restantes eram suficientes para cobrir o resto da despesa, inclusive os investimentos. Como retiraram 15%, o que sobra não cobre o resto. Daí os déficits.

Até que ponto esse procedimento fere os princípios da Lei de Responsabilidade Fiscal?
Fere a LRF porque não cumpre o seu artigo 18 e lhe retira a eficácia. A lei perde o sentido, porque lhe retira a principal finalidade, que é proporcionar o equilíbrio das contas públicas.

Por que foi feito isso?
O argumento é que o artigo 169 da Constituição Federal refere-se apenas a servidores ativos e inativos. Mas as despesas retiradas não existem isoladamente, mas sim em função de um servidor ativo e ou inativo. São despesas indiretas, com pessoal. Por exemplo, se eu morrer, minha esposa fica com grande parte da minha aposentadoria como pensão. Só muda de nome, mas a origem é despesa com pessoal. Na prática, foi um sofisma utilizado para poder fugir dos limites da LRF.

Essa decisão pode trazer empecilhos ao acordo de adesão do RS ao Regime de Recuperação Fiscal (RRF)?
Traz empecilho, sim, porque, para aderir à Lei, precisa despender com pessoal mais a dívida 70% da LRF e, com essa interpretação, o Estado despende bem menos, cerca de 57% de sua Receita Corrente Líquida (RCL).

Feito isso, qual a saída?
A saída é o TCE mudar seus critérios, até porque existe a Lei de Responsabilidade Fiscal Estadual (LRFE), que assume o que a LRF (federal), em seu artigo 18, estipulou. Só que aí alguns poderes vão ficar fora dos limites. Diante disso, a pergunta que o governo deveria ter feito ao TCE é se ele vai manter os critérios adotados, que estão em desacordo com a lei estadual, ou se vai aceitar seus termos e exigir seu cumprimento, caso em que tornaria o Estado enquadrado nas exigências do Tesouro Nacional.

A Teoria Econômica e o crime financeiro

 

 

 

Mauro Salvo

Economista
Corecon-RS Nº 5630

 

 

Do que trata a teoria econômica do crime?

A teoria busca compreender a racionalidade do agente criminoso pela ótica econômica. Limita-se a estudar os crimes que, de alguma forma, ferem o direito à propriedade. Ocorrem sempre que um indivíduo ou organização criminosa se apropria indevidamente da renda ou riqueza de terceiros ou exerce uma atividade econômica proibida por lei. Pode ocorrer mediante fraude, como, por exemplo, os crimes de colarinho branco, sonegação fiscal, contrabando, corrupção, tráfico de drogas, lavagem de dinheiro, entre outros. Podem ocorrer, também, com uso da força, como casos de roubos e sequestros. Os crimes que não geram ganhos econômico-financeiros, como crimes passionais, por intolerância religiosa ou racial, entre outros, não são abordados pela teoria econômica do crime, pois não podem ser avaliados pelo ferramental teórico da ciência econômica.

O Brasil vive hoje um clima de descontrole dos crimes financeiros?

Os crimes financeiros são de difícil apuração por diversos motivos. Entre os mais comuns, pode-se citar as zonas cinzentas inerentes a qualquer regulamentação existente. As normas raramente conseguem prever todas as situações possíveis, o que causa o surgimento de brechas ou situações nas quais não se pode afirmar com certeza absoluta sobre a ilegalidade de determinada transação. Os criminosos são especialistas em encontrar essas áreas sombrias. A impressão de “descontrole” é causada pela maior divulgação de alguns casos de elevado impacto na mídia e, também, por um avanço qualitativo das normas e da fiscalização. Não se pode dizer que atualmente há mais crime que no passado, apenas que hoje tomamos conhecimento de mais crimes que anteriormente.

Qual o impacto dessas ações nas economias dos municípios, estado e da União?

Todo tipo de crime provoca danos a terceiros de forma direta ou indireta, e o mesmo ocorre com os crimes econômicos. Cada tipo de crime tem impacto diferente sobre as contas públicas em todas as esferas e também sobre o orçamento das famílias. Dessa forma impactam negativamente o bem-estar social e individual. Por exemplo, alguém que disponha de R$ 1 mil pode gastar numa festinha de aniversário para sua filha ou, alternativamente, optar por instalar uma cerca elétrica de segurança. Qualquer que seja a escolha movimentará a atividade econômica, porém a primeira opção provavelmente gerará maior bem-estar econômico. Raciocínio análogo pode ser feita para os entes públicos que, em vez de serem obrigados a alocar recursos na segurança, poderiam alocá-los em infraestrutura, educação ou saúde.

De que forma fiscalizar e controlar esse tipo de ação?

De forma bastante sintética, com inteligência. Inteligência em todos os níveis, como monitoramento, fiscalização, governança e repressão. Adicionalmente, muito trabalho. Não há uma única fórmula mágica.

A falta de punições pode ser uma das causas?

Gary Becker, com o artigo seminal de 1968, “Crime and punishment: an economic approach”, impôs um marco à abordagem sobre os determinantes da criminalidade ao desenvolver um modelo formal em que o ato criminoso decorreria de uma avaliação racional em torno dos benefícios e custos esperados, comparados aos resultados da alocação do seu tempo no mercado de trabalho formal. A ideia central é a de que as ações ilícitas dos criminosos de carreira subentenda uma avaliação individual, da parte deles, da relação custo/benefício em delinquir. Segundo essa teoria, o cometimento da ação criminosa, na avaliação do potencial delinquente, dependeria de três fatores: o tamanho da recompensa proporcionada pelo cometimento do crime (caso a ação criminosa seja exitosa); a probabilidade de ser preso e condenado; e o rigor da pena a cumprir (caso a ação malogre). Ou seja, quanto maior o tamanho da recompensa potencial em delinquir, maiores serão os índices de criminalidade, enquanto que, ao contrário, quanto maiores as probabilidades de prisão e de apenamento rigoroso, menores serão os índices de criminalidade.

Se a tecnologia nos proporciona tantos instrumentos de fiscalização porque esses crimes ainda acontecem?

As ferramentas tecnológicas têm sido usadas e aprimoradas e têm possibilitado que se desvendem vários crimes. Todavia, essas tecnologias de combate ao crime são desenvolvidas com base na experiência dos investigadores e das tipologias conhecidas. Lembrando o que já foi dito acima, os criminosos são agentes racionais e aprendem rapidamente como as autoridades atuam. Assim, aprimoram também suas maneiras de praticar seus delitos. Além disso, a tecnologia está disponível para todos, inclusive para os criminosos. Em suma, o jogo fica cada vez mais complexo, o que exige cada vez mais esforços tanto pelo lado do bem como do mal.

Evidências do movimento conjunto dos preços das commodities

 

 

 

Priscila Linck
Economista, 1º Lugar “Prêmio Corecon-RS” de Monografias/2017
Corecon-RS Nº 8527

 


Qual a proposta do trabalho “A Dinâmica de movimento conjunto dos índices de preços das commodities: Uma aplicação Econométrica”, 1º Lugar no “Prêmio Corecon-RS 2017”, categoria Monografias?

O trabalho buscou identificar a existência de um movimento conjunto dos índices de preços de diferentes grupos de commodities, como energia, metais, matéria prima agrícola e alimentos e bebidas. Partindo de uma crítica à proposta de Fernando Ribeiro (2009), amparado pela teoria tradicional, que propõe que a diversificação das exportações, indiferente do produto, ainda que dentro do grupo de commodities, libertaria o país da vulnerabilidade externa e da susceptibilidade a problemas de restrição de balanço de pagamentos. Para identificar a existência de co-movimento entre os índices de preços supracitados, foram utilizados os Modelos de Mudança de Regimes Markovianos e os Modelos Vetoriais de Correção de Erros (VAR/VEC).

Por que defendes a tese da diversificação das exportações?


Nos últimos anos o tema tem sido abordado com grande frequência, em função do aumento da participação de bens primários na pauta de exportações brasileira e da dualidade das linhas de pensamento quanto aos efeitos dessa concentração para o desenvolvimento econômico. Em 1997, os produtos não classificados como indústria de transformação (NCIT) representavam 17% da pauta de exportações do Brasil. Vinte anos depois, em 2017, a participação passou para 38%. Neste último ano, os bens de baixa intensidade tecnológica, como alimentos, bebidas, couro, representaram 26% das exportações. Já os bens de média-baixa, média-alta e alta intensidade tecnológica, juntos, correspondem a 36% da pauta de exportações. Nesse contexto, surgiu a proposta de Fernando Ribeiro (2009), além de outros autores, de que a diversificação da pauta exportadora, indiferente do tipo de produto, é capaz de quebrar o pressuposto de restrição de balanço de pagamentos abordado na escola estruturalista.

Com base nessas linhas de pensamento, o que buscaste com o trabalho?

Justamente em função dessa contradição, busquei, através de uma análise empírica, comprovar se a diversificação apenas no segmento de commodities seria suficiente, visto que, se há um movimento padrão entre todos os preços de diferentes commodities, a diversificação no segmento não é suficiente para livrar o Brasil da vulnerabilidade externa e problemas de balanço de pagamentos, refreando o desenvolvimento econômico e justificando a necessidade de diversificação ampla das exportações.

Quais as constatações obtidas através de modelos de mudanças de regimes markovianos e dos modelos vetoriais de correção de erros?

Os modelos de mudança de regimes markovianos possibilitaram visualizar que existe a permanência de diferentes índices de preços em regimes coincidentes em semelhante período, ou seja, os níveis de preços altos e baixos são análogos no tempo entre diferentes commodities. Além disso, os modelos permitiram a percepção de que o comportamento dos preços dos alimentos e bebidas e matéria prima agrícola apresentam maior proximidade entre si, assim como energia e metais. Ambos os modelos vetoriais de correção de erros constataram a existência de cointegração entre as séries, resultado que corrobora a existência de comportamento análogo dos preços das commodities. Por fim, os resultados de impulso-resposta indicam que, de mesmo modo, dado um choque generalizado nos índices de preços das commodities, ambas apresentam a mesma resposta de expansão no curto prazo, e efeito final a níveis de preços mais elevados em relação ao período anterior ao choque.

De uma forma geral, a que conclusões chegaste?

Os resultados empíricos, através dos Modelos de Mudança de Regimes Markovianos e dos Modelos Vetoriais de Correção de Erros (VAR/VEC) comprovaram a existência de comovimento entre os preços das commodities, demonstrando quebras comuns nas séries, além de uma relação estável no longo prazo, o que invalida a hipótese de redução da fragilidade frente aos choques externos e à volatilidade de preços pela diversificação entre commodities, dado que os diferentes preços se comportam de forma análoga, como um único produto em períodos de preços baixos ou elevados, não surtindo resultado diversificar as exportações dentro do segmento. Tal conclusão abre a discussão para a questão do tipo de especialização produtiva da região, abordada no presente trabalho pela teoria estruturalista de Raúl Prebisch, Anthony Philip Thirlwall e Nicholas Kaldor.

2018: Recuperação cíclica

 



Patrícia Palermo
Economista-Chefe da Fecomércio-RS
Corecon-RS Nº 6589




Quais as perspectivas para a economia em 2018?

As perspectivas para a economia brasileira em 2018 são positivas. Nossa expectativa é de um crescimento de 2,8% para o PIB do país, com inflação sob controle e juros reais reduzidos. O ambiente externo continua favorável a países emergentes, como é o caso do Brasil, o que contribui para manter o câmbio estável. O cenário eleitoral, por mais incerto que se apresente, deverá apresentar pouco potencial para reverter o processo de recuperação da atividade econômica no ano. O imbróglio não resolvido das contas da previdência vai cobrar seu preço, ainda que a fatura só venha em 2019.

Pode-se afirmar que o pior já passou e a retomada está garantida?

Os números mostram que a recessão passou, mas a recuperação é um tanto frágil. Estamos vivenciando uma retomada cíclica. Para que ela se consolide e que tenhamos taxas de crescimento altas no longo prazo é fundamental que haja uma agenda de reformas que promova o ajuste fiscal, a justiça distributiva, o aumento da eficiência, enfim, a melhoria do ambiente de negócios.

Considerando os cenários, que setores deverão se destacar nessa retomada?

O ano de 2018 deverá favorecer a atividade produtiva em geral. Na agropecuária, é provável que tenhamos um resultado baixo, mas não porque esperamos que haja quebras de safra, mas porque a base de comparação é muito alta, o que dificulta uma performance alta, dado que o ano de 2017 foi extraordinário. A indústria, em especial a indústria de transformação, está vivendo um processo de recuperação bastante interessante. Ao longo de todo ano de 2017, o setor apresentou crescimento na comparação com o trimestre imediatamente anterior. Além de a recuperação interna favorecer o consumo interno, o cenário externo também favoreceu as exportações, em especial de alguns ramos da indústria. Nos serviços, o cenário é favorável ao varejo, uma vez que se acredita que o consumo das famílias deverá ser a força motriz do crescimento em 2018. A recuperação, ainda que marginal, do mercado de trabalho teve impacto positivo na confiança dos indivíduos, retomando o consumo. A inflação sob controle diminuiu a pressão sobre o orçamento das famílias e os juros mais baixos vêm contribuindo para a retomada do acesso ao crédito das pessoas físicas.

Como estão as expectativas do empresariado? Ainda persiste algum temor para o investimento?

As expectativas dos empresários melhoraram nos últimos tempos. Se, por um lado não temos um otimismo disseminado, por outro lado, podemos afirmar que no último ano o pessimismo se reduziu sensivelmente. Entre os empresários do comércio gaúcho, por exemplo, desde setembro de 2017, registramos indicadores levemente acima da neutralidade no indicador que mede a confiança dos empresários do comércio. Na indústria do RS, o indicador de confiança não alcançava patamares tão altos desde meados de 2010. A melhora da confiança, em outros momentos, certamente seria um fator relevante para o aumento do investimento, entretanto a incerteza ligada à consolidação da recuperação econômica e a grande capacidade ociosa da economia ainda adia investimentos. Por mais que durante 2017 tenhamos observado uma escalada do investimento (crescimento marginal nos últimos 3 trimestres), em especial em máquinas e equipamentos, em grande parte isso se dá em virtude da necessidade de se evitar a obsolescência tecnológica e não para aumentar a capacidade produtiva. O ano de 2017 foi o quarto ano consecutivo de queda do investimento brasileiro, algo muito ruim para um país que precisa, e muito, aumentar sua produtividade. Em 2018, espera-se um aumento significativo do investimento, mas a base deprimida deverá ter alto grau de relevância nas variações que vierem a ser registradas.

Até que ponto este ano eleitoral pode ser um entrave para a economia?

O cenário eleitoral deve repercutir no ritmo de crescimento em 2018, devido à natural volatilidade de uma eleição repleta de incertezas, mas que dificilmente deverá reverter a retomada e trazer o país novamente à recessão em 2018. Como o consumo será a mola propulsora do crescimento e ele é menos suscetível a tensões eleitorais, isso acaba promovendo uma certa “tranquilidade” à economia no ano corrente, isto é, de certa forma temos um crescimento contratado para 2018. Basicamente as nossas escolhas para o executivo e para o legislativo também mostrarão seus impactos especialmente em 2019. Tomara que façamos boas escolhas! Nosso futuro agradece.

Cenário de retomada?

 

 

 

Vanessa Sulzbach
Economista, pesquisadora da FEE
Corecon-RS Nº 8193

 

 

O Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, divulgado na última quinta-feira pelo IBGE, apontam crescimento de 1,0% da economia brasileira no ano passado. Esse número já era esperado?

Sim. Tanto o IBC-Br quanto as expectativas de mercado do Relatório Focus apontavam para um crescimento de 1,0% do PIB do Brasil em 2017. Apesar do bom desempenho da agropecuária (13,0%), com safra recorde de grãos, e do consumo das famílias (1,0%), que refletem a retomada das condições do mercado de trabalho, a indústria e os serviços permaneceram estagnados em 2017, o que já era esperado. O que chama atenção é que mesmo com a melhora nas condições macroeconômicas, a formação bruta de capital fixo caiu 1,8% em relação a 2016, sinalizando que ainda existem entraves a serem enfrentados pelo país para a retomada consistente do crescimento econômico.

O Índice de Atividade Econômica, divulgado dias antes pelo Banco Central (IBC-Br) já apontava um crescimento de 2,13% do PIB gaúcho em 2017. A que se devem esses resultados?

O crescimento de 2,1% do IBC-R (regional), do RS, reflete a expansão das vendas do comércio e da produção de importantes grãos do Estado. Em 2017, as vendas do comércio, ampliado, cresceram 13,3%, com avanços importantes nos segmentos de Tecidos, vestuário e calçados, Combustíveis e Materiais para escritório, informática e comunicação. O segmento se beneficiou da melhora nas condições econômico-financeira das famílias, por exemplo, com a redução do endividamento e aumento da renda. A produção de soja e milho, por sua vez, trouxeram ganhos para os produtores gaúchos e contribuíram para um novo recorde de produção de grãos em 2017 no Estado, que contou também com a retomada da produção de uva e tabaco. O resultado de ambos os segmentos da economia (comércio e agropecuária) compensou os efeitos da estagnação da indústria gaúcha, cuja produção variou 0,1% em 2017, da queda no volume de serviços (-3,3%) e da redução dos postos de trabalho na Construção Civil.

Que outros fatores contribuíram para isso?

Em suma, a melhora nas condições econômicas, com inflação e juros em patamares historicamente baixos, as boas condições climáticas e o momento favorável do mercado internacional contribuíram para o aquecimento da atividade econômica do Estado em 2017, com índice de crescimento superior ao esperado para o ano.

Por que o PIB do Brasil foi tão inferior ao gaúcho, diferentemente do período anterior quando a economia brasileira cresceu mais que a gaúcha?

Apesar de a dinâmica econômica gaúcha ser muito semelhante à brasileira, sobretudo no que diz respeito aos efeitos das reformas econômicas e decisões de política macroeconômica em curso no País, o desempenho dos setores não são exatamente os mesmos. Os dados do IBGE mostram que, a despeito dos recordes de produção agrícola que resultaram em crescimento da produção de importantes grãos acima do registrado no Estado e do bom desempenho do consumo das famílias, as vendas do comércio no nível nacional ficaram bastante aquém do registrado no RS. O volume de vendas expandiu 4,0% frente uma expansão de 13,3% no RS. Pelo lado da indústria nacional, o resultado negativo da indústria de construção civil compensou o desempenho positivo das indústrias de transformação e extrativa, resultando em estagnação no período, à semelhança do que aponta o IBC-R para o RS. Como o volume de serviços registrado pelo Brasil não se diferenciou substancialmente do que ocorrera no RS, o impacto do desempenho do comércio tem mostrado ser o principal fator que explica as taxas distintas de crescimento do índice entre o Brasil e o RS.

Até que ponto os números divulgados pelo IBGE, assim como a prévia do Banco Central, refletem uma realidade de retomada da economia brasileira?

O IBC-Br é um indicador utilizado para avaliar o ritmo da atividade econômica do Brasil de maneira mais contemporânea dos fatos do que o PIB, cuja divulgação tem uma defasagem de alguns meses. Ele se baseia em pesquisas econômicas mensais como Produção Industrial, Vendas do Comércio e dos Serviços, Emprego, Produção Agrícola, entre outras, e apresenta uma metodologia distinta da do PIB, que, além dessas variáveis, também considera os tributos, as exportações e importações, etc. Por esse motivo, o IBC-Br não antecipa perfeitamente o resultado do PIB, mas se configura como uma boa aproximação para o resultado oficial do mesmo. O resultado do PIB brasileiro de 1,0% divulgado recentemente aponta bem essa relação.

Este ano de 2018 deverá continuar essa trajetória de recuperação?

O cenário econômico continuará desafiador em 2018. Por um lado, os efeitos das reformas aprovadas entre 2016 e 2017 tendem a potencializar seus efeitos na economia depois de alguns meses de maturação, assim como os impactos da queda dos juros, a estabilidade da inflação, a geração de empregos e a melhoria na oferta de crédito. Por outro lado, as incertezas em relação às eleições e a redução na probabilidade de aprovação da Reforma da Previdência reduzem os potenciais resultados positivos derivados dessas reformas, sobretudo porque o ajuste fiscal depende de outras aprovações além do Teto dos Gastos. Por outro lado, as boas perspectivas vindas da economia internacional tendem a beneficiar os exportadores brasileiros e gaúchos. Nesse sentido, espera-se um crescimento mais elevado em 2018 para ambas as economias, ainda que no caso gaúcho haja um risco de frustação nas receitas do setor primário devido à possibilidade de eventos climáticos desfavoráveis à produção de grãos.

O que está faltando para o empresário retomar investimentos de maior peso?

Apesar da melhora no ambiente econômico, algumas incertezas ainda permanecem afetando as decisões de investimentos dos empresários. O ambiente político instável ainda atribui probabilidade positiva ao abandono de reformas macroeconômicas ainda necessárias para garantir um ambiente de negócios mais favorável, como simplificação tributária, redução de entraves burocráticos em áreas como a ambiental, melhorias na infraestrutura energética e logística, e incentivo à inovação e às parcerias público-privadas.

Depressão e economia

eduardoEduardo Fernandes da Silveira

Economista, 1º Lugar “Prêmio Corecon-RS”, Dissertações de Mestrado
Corecon-RS Nº 6708

Qual o objetivo do trabalho “Fatores socioeconômicos e psicossociais relacionados à prevalência da depressão no Brasil”, 1º Lugar no “Prêmio Corecon-RS”, categoria Dissertações de Mestrado?

O objetivo central do trabalho foi mensurar os impactos dos efeitos de fatores socioeconômicos e psicossociais sobre prevalência da depressão, a fim de identificar grupos socioeconômicos mais vulneráveis ao distúrbio e, portanto, direcionar políticas públicas baseadas em evidências a estes indivíduos. Outro objetivo da dissertação foi mensurar as causas da marcante diferença entre as prevalências do distúrbio depressivo entre homens e mulheres observada na literatura especializada.

Quais as principais constatações?

De acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde (2013), a prevalência da depressão no Brasil é de 8,3%. No entanto, a proporção de mulheres que declara já ter recebido o diagnóstico de depressão é de mais de 11,04%, enquanto, entre homens, esta estatística é de apenas 3,87%.

Por que isso acontece?

O elemento complicador é que mulheres, em média, têm renda mais baixa, têm mais atribuições na criação dos filhos, são mais vulneráveis à violência, etc. Assim sendo, surge a dúvida se esta diferença é causada pelas variáveis explicativas ou se há algum fator intrínseco à condição feminina que explicaria esta maior prevalência. Em outras palavras, buscaram-se evidências de que mulheres são intrinsicamente mais propensas à depressão. Para isto, utilizei uma adaptação para modelos não lineares da metodologia Oaxaca-Blinder, comumente utilizada para medir diferenciais de salários entre grupos populacionais (por gênero, etnia, etc.).

Qual o universo pesquisado?

Dentre os fatores estudados, destaco características dos indivíduos como gênero, idade, renda, grau de escolaridade, estabilidade da renda, situação conjugal e situação empregatícia; características regionais como áreas urbanas ou rurais e grandes regiões brasileiras; fatores psicossociais, como ter sofrido algum tipo de violência, sofrer de doença crônica ou ter filhos com doenças crônicas, ser usuário de álcool, entre outras.


Que tipo de impacto a depressão pode causar na renda e no emprego?

A depressão é uma doença que afeta a produtividade do indivíduo e sua capacidade de interagir socialmente. Portanto, no curto e médio prazos, quem sofre de depressão, com frequência, tem um rendimento reduzido no trabalho pelo absenteísmo e o presentíssimo, ou seja, quando o indivíduo está presente no trabalho, mas tem o rendimento reduzido. Isso aumenta a probabilidade de demissão. É que muitas pessoas sofrem de depressão sem saber e, portanto, não podem justificar suas ausências ao trabalho, com atestados médicos, por exemplo. No longo prazo, além de sofrer os efeitos cumulativos da baixa produtividade no trabalho, indivíduos com depressão crônica podem ter suas formações acadêmica e profissional comprometidas, o que especialmente mais grave entre jovens.

Que tipo de desafios enfrentaste ao longo do trabalho?

O maior desafio do trabalho foi lidar com variáveis endógenas e correlacionadas entre si, isto é, variáveis que têm relações de causalidade bidirecionais com a variável estudada, como probabilidade de alguém apresentar um quadro depressivo. A pergunta que se faz é se a pessoa está deprimida porque está desempregada ou se está desempregada porque está deprimida? Certamente, ambos casos podem ser verdadeiros, inclusive, simultaneamente. A pessoa perde o emprego por baixo rendimento em função da depressão, o que agrava o quadro da doença e a mantém desempregada. Para mitigar este problema, os efeitos do desemprego foram avaliados isoladamente contra diversas variáveis, apresentando resultados semelhantes, dado que não foi possível encontrar variáveis instrumentais.

Dependendo da dimensão, pode afetar diretamente no rendimento de uma economia?

Certamente. A depressão é uma doença debilitadora e, muitas vezes, silenciosa. Segundo a Organização Mundial de Saúde, cerca de 5% da população mundial sofre de depressão, o que representa cerca de 350 milhões de pessoas. Também, segundo a OMS, a depressão é hoje a segunda doença mais custosa para a sociedade, ficando atrás apenas das doenças cardiovasculares. Só para se ter uma ideia, até 2030 a depressão deverá ser a doença mais prevalente do mundo.

Isso, certamente, acaba gerando um custo à cadeia social?

Sim. Este custo recai sobre a sociedade de diversas maneiras. Como citado anteriormente, a primeira e mais imediata maneira que a depressão afeta a economia de um país, é pela redução da produtividade dos trabalhadores, que, em média, aumentam suas taxas de absenteísmo, presenteísmo, em que o trabalhador está presente, mas com a produtividade comprometida e afastamento por motivos de saúde. A segunda maneira está relacionada com o fato de a depressão ser uma doença mais prevalente entre pessoas jovens. Isso tem um efeito especialmente deletério sobre indivíduos, pois pode atrasar, comprometer ou até impedir as formações acadêmica e técnico-profissional do indivíduo dependendo da gravidade do caso. A terceira é que, a exemplo de outras doenças mais graves, frequentemente, as famílias das pessoas deprimidas, acabam precisando dedicar parte do seu tempo para cuidar do doente ou realizar tarefas que ela normalmente realizaria. A quarta maneira que a doença onera a sociedade é o custo que recai sobre o SUS e o INSS, seja pelo custo do afastamento do trabalho, seja pelo tratamento direto, seja pelo tratamento indireto da doença como uma comorbidade de outras doenças crônicas. Por fim, pode-se dizer que a depressão ainda traz efeitos negativos sobre as vidas das pessoas, afetando relacionamentos, convívio social, entre tantos outros problemas mais difíceis de mensurar.

Qual a importância da metodologia Oaxaca-Blinder, que utilizaste no trabalho?

Sobre a diferença entre as prevalências da depressão entre homens e mulheres, constatou-se que, à exceção da variável “desemprego”, as mulheres são afetadas mais intensamente pelos fatores estudados. Por este motivo, optou-se por incluir a análise de decomposição Oaxaca-Blinder. Esta análise, indicou que, mesmo ao descontarmos os efeitos de diversas variáveis como renda, escolaridade, violência, traumas, etc., cerca de 67% da diferença entre as prevalências da doença entre homens e mulheres ainda permanece. Portanto, com cautela, pode-se afirmar é a parte que pode estar associada a questões intrínsecas a variáveis não observáveis e à condição feminina.

Que tipo de políticas públicas poderiam ser elaboradas com o objetivo de reduzir o impacto da depressão na produtividade dos trabalhadores?

Atualmente, a maior dificuldade na elaboração de políticas públicas é a questão fiscal da União, estados e municípios. Em função disso, é necessário que, além de eficazes, tais políticas sejam viáveis do ponto de vista orçamentário. Portanto, deve-se focar as políticas preventivas à depressão nos grupos mais vulneráveis, como mulheres de baixa renda e baixa escolaridade, especialmente, no que se refere às suas formações acadêmica e profissional. Além disso, é importante que seja aproveitada ao máximo a estrutura já existente e à disposição do Estado. Alguns exemplos, envolveriam o uso dos agentes de saúde e de serviço social, aproveitando visitas para entrevistar pessoas que se enquadrem no perfil de risco. Isso, entre outros benefícios, pode auxiliar a detecção precoce do transtorno, o que aumenta as chances e o custo da recuperação do paciente. Ainda na parte da detecção precoce, treinamento pode ser dado a professores para identificarem crianças e adolescentes com possíveis sinais da doença para que sejam encaminhados a especialistas. Outra possibilidade que pode auxiliar muito e não diz respeito somente a pessoas com risco de depressão é a de creches para mulheres de baixa renda que estudam, no ensino superior ou no ensino técnico-profissionalizante. Por fim, a criação de grupos de convívio em comunidades carentes para idosos, adolescentes e demais pessoas podem ajudar tanto na prevenção quanto no tratamento da depressão.

Quais as principais conclusões do trabalho?

A maior parte dos resultados se mostraram concordantes com a bibliografia especializada e robusta, dado que resultados semelhantes foram obtidos a partir de diferentes metodologias, especificações de modelos e, até mesmo bases de dados. Dentre os resultados principais, destaca-se que a depressão está positivamente associada a pessoas jovens, economicamente vulneráveis - baixa renda e/ou financeiramente dependente de outras pessoas, com baixa escolaridade e desempregadas -, pessoas com doenças crônicas e que sofreram algum trauma como ter sido vítima de violência.

Depressão e economia

eduardoEduardo Fernandes da Silveira

Economista, 1º Lugar “Prêmio Corecon-RS”, Dissertações de Mestrado
Corecon-RS Nº 6708

Qual o objetivo do trabalho “Fatores socioeconômicos e psicossociais relacionados à prevalência da depressão no Brasil”, 1º Lugar no “Prêmio Corecon-RS”, categoria Dissertações de Mestrado?

O objetivo central do trabalho foi mensurar os impactos dos efeitos de fatores socioeconômicos e psicossociais sobre prevalência da depressão, a fim de identificar grupos socioeconômicos mais vulneráveis ao distúrbio e, portanto, direcionar políticas públicas baseadas em evidências a estes indivíduos. Outro objetivo da dissertação foi mensurar as causas da marcante diferença entre as prevalências do distúrbio depressivo entre homens e mulheres observada na literatura especializada.

Quais as principais constatações?

De acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde (2013), a prevalência da depressão no Brasil é de 8,3%. No entanto, a proporção de mulheres que declara já ter recebido o diagnóstico de depressão é de mais de 11,04%, enquanto, entre homens, esta estatística é de apenas 3,87%.

Por que isso acontece?

O elemento complicador é que mulheres, em média, têm renda mais baixa, têm mais atribuições na criação dos filhos, são mais vulneráveis à violência, etc. Assim sendo, surge a dúvida se esta diferença é causada pelas variáveis explicativas ou se há algum fator intrínseco à condição feminina que explicaria esta maior prevalência. Em outras palavras, buscaram-se evidências de que mulheres são intrinsicamente mais propensas à depressão. Para isto, utilizei uma adaptação para modelos não lineares da metodologia Oaxaca-Blinder, comumente utilizada para medir diferenciais de salários entre grupos populacionais (por gênero, etnia, etc.).

Qual o universo pesquisado?

Dentre os fatores estudados, destaco características dos indivíduos como gênero, idade, renda, grau de escolaridade, estabilidade da renda, situação conjugal e situação empregatícia; características regionais como áreas urbanas ou rurais e grandes regiões brasileiras; fatores psicossociais, como ter sofrido algum tipo de violência, sofrer de doença crônica ou ter filhos com doenças crônicas, ser usuário de álcool, entre outras.


Que tipo de impacto a depressão pode causar na renda e no emprego?

A depressão é uma doença que afeta a produtividade do indivíduo e sua capacidade de interagir socialmente. Portanto, no curto e médio prazos, quem sofre de depressão, com frequência, tem um rendimento reduzido no trabalho pelo absenteísmo e o presentíssimo, ou seja, quando o indivíduo está presente no trabalho, mas tem o rendimento reduzido. Isso aumenta a probabilidade de demissão. É que muitas pessoas sofrem de depressão sem saber e, portanto, não podem justificar suas ausências ao trabalho, com atestados médicos, por exemplo. No longo prazo, além de sofrer os efeitos cumulativos da baixa produtividade no trabalho, indivíduos com depressão crônica podem ter suas formações acadêmica e profissional comprometidas, o que especialmente mais grave entre jovens.

Que tipo de desafios enfrentaste ao longo do trabalho?

O maior desafio do trabalho foi lidar com variáveis endógenas e correlacionadas entre si, isto é, variáveis que têm relações de causalidade bidirecionais com a variável estudada, como probabilidade de alguém apresentar um quadro depressivo. A pergunta que se faz é se a pessoa está deprimida porque está desempregada ou se está desempregada porque está deprimida? Certamente, ambos casos podem ser verdadeiros, inclusive, simultaneamente. A pessoa perde o emprego por baixo rendimento em função da depressão, o que agrava o quadro da doença e a mantém desempregada. Para mitigar este problema, os efeitos do desemprego foram avaliados isoladamente contra diversas variáveis, apresentando resultados semelhantes, dado que não foi possível encontrar variáveis instrumentais.

Dependendo da dimensão, pode afetar diretamente no rendimento de uma economia?

Certamente. A depressão é uma doença debilitadora e, muitas vezes, silenciosa. Segundo a Organização Mundial de Saúde, cerca de 5% da população mundial sofre de depressão, o que representa cerca de 350 milhões de pessoas. Também, segundo a OMS, a depressão é hoje a segunda doença mais custosa para a sociedade, ficando atrás apenas das doenças cardiovasculares. Só para se ter uma ideia, até 2030 a depressão deverá ser a doença mais prevalente do mundo.

Isso, certamente, acaba gerando um custo à cadeia social?

Sim. Este custo recai sobre a sociedade de diversas maneiras. Como citado anteriormente, a primeira e mais imediata maneira que a depressão afeta a economia de um país, é pela redução da produtividade dos trabalhadores, que, em média, aumentam suas taxas de absenteísmo, presenteísmo, em que o trabalhador está presente, mas com a produtividade comprometida e afastamento por motivos de saúde. A segunda maneira está relacionada com o fato de a depressão ser uma doença mais prevalente entre pessoas jovens. Isso tem um efeito especialmente deletério sobre indivíduos, pois pode atrasar, comprometer ou até impedir as formações acadêmica e técnico-profissional do indivíduo dependendo da gravidade do caso. A terceira é que, a exemplo de outras doenças mais graves, frequentemente, as famílias das pessoas deprimidas, acabam precisando dedicar parte do seu tempo para cuidar do doente ou realizar tarefas que ela normalmente realizaria. A quarta maneira que a doença onera a sociedade é o custo que recai sobre o SUS e o INSS, seja pelo custo do afastamento do trabalho, seja pelo tratamento direto, seja pelo tratamento indireto da doença como uma comorbidade de outras doenças crônicas. Por fim, pode-se dizer que a depressão ainda traz efeitos negativos sobre as vidas das pessoas, afetando relacionamentos, convívio social, entre tantos outros problemas mais difíceis de mensurar.

Qual a importância da metodologia Oaxaca-Blinder, que utilizaste no trabalho?

Sobre a diferença entre as prevalências da depressão entre homens e mulheres, constatou-se que, à exceção da variável “desemprego”, as mulheres são afetadas mais intensamente pelos fatores estudados. Por este motivo, optou-se por incluir a análise de decomposição Oaxaca-Blinder. Esta análise, indicou que, mesmo ao descontarmos os efeitos de diversas variáveis como renda, escolaridade, violência, traumas, etc., cerca de 67% da diferença entre as prevalências da doença entre homens e mulheres ainda permanece. Portanto, com cautela, pode-se afirmar é a parte que pode estar associada a questões intrínsecas a variáveis não observáveis e à condição feminina.

Que tipo de políticas públicas poderiam ser elaboradas com o objetivo de reduzir o impacto da depressão na produtividade dos trabalhadores?

Atualmente, a maior dificuldade na elaboração de políticas públicas é a questão fiscal da União, estados e municípios. Em função disso, é necessário que, além de eficazes, tais políticas sejam viáveis do ponto de vista orçamentário. Portanto, deve-se focar as políticas preventivas à depressão nos grupos mais vulneráveis, como mulheres de baixa renda e baixa escolaridade, especialmente, no que se refere às suas formações acadêmica e profissional. Além disso, é importante que seja aproveitada ao máximo a estrutura já existente e à disposição do Estado. Alguns exemplos, envolveriam o uso dos agentes de saúde e de serviço social, aproveitando visitas para entrevistar pessoas que se enquadrem no perfil de risco. Isso, entre outros benefícios, pode auxiliar a detecção precoce do transtorno, o que aumenta as chances e o custo da recuperação do paciente. Ainda na parte da detecção precoce, treinamento pode ser dado a professores para identificarem crianças e adolescentes com possíveis sinais da doença para que sejam encaminhados a especialistas. Outra possibilidade que pode auxiliar muito e não diz respeito somente a pessoas com risco de depressão é a de creches para mulheres de baixa renda que estudam, no ensino superior ou no ensino técnico-profissionalizante. Por fim, a criação de grupos de convívio em comunidades carentes para idosos, adolescentes e demais pessoas podem ajudar tanto na prevenção quanto no tratamento da depressão.

Quais as principais conclusões do trabalho?

A maior parte dos resultados se mostraram concordantes com a bibliografia especializada e robusta, dado que resultados semelhantes foram obtidos a partir de diferentes metodologias, especificações de modelos e, até mesmo bases de dados. Dentre os resultados principais, destaca-se que a depressão está positivamente associada a pessoas jovens, economicamente vulneráveis - baixa renda e/ou financeiramente dependente de outras pessoas, com baixa escolaridade e desempregadas -, pessoas com doenças crônicas e que sofreram algum trauma como ter sido vítima de violência.

Depressão e economia

eduardoEduardo Fernandes da Silveira

Economista, 1º Lugar “Prêmio Corecon-RS”, Dissertações de Mestrado
Corecon-RS Nº 6708

Qual o objetivo do trabalho “Fatores socioeconômicos e psicossociais relacionados à prevalência da depressão no Brasil”, 1º Lugar no “Prêmio Corecon-RS”, categoria Dissertações de Mestrado?

O objetivo central do trabalho foi mensurar os impactos dos efeitos de fatores socioeconômicos e psicossociais sobre prevalência da depressão, a fim de identificar grupos socioeconômicos mais vulneráveis ao distúrbio e, portanto, direcionar políticas públicas baseadas em evidências a estes indivíduos. Outro objetivo da dissertação foi mensurar as causas da marcante diferença entre as prevalências do distúrbio depressivo entre homens e mulheres observada na literatura especializada.

Quais as principais constatações?

De acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde (2013), a prevalência da depressão no Brasil é de 8,3%. No entanto, a proporção de mulheres que declara já ter recebido o diagnóstico de depressão é de mais de 11,04%, enquanto, entre homens, esta estatística é de apenas 3,87%.

Por que isso acontece?

O elemento complicador é que mulheres, em média, têm renda mais baixa, têm mais atribuições na criação dos filhos, são mais vulneráveis à violência, etc. Assim sendo, surge a dúvida se esta diferença é causada pelas variáveis explicativas ou se há algum fator intrínseco à condição feminina que explicaria esta maior prevalência. Em outras palavras, buscaram-se evidências de que mulheres são intrinsicamente mais propensas à depressão. Para isto, utilizei uma adaptação para modelos não lineares da metodologia Oaxaca-Blinder, comumente utilizada para medir diferenciais de salários entre grupos populacionais (por gênero, etnia, etc.).

Qual o universo pesquisado?

Dentre os fatores estudados, destaco características dos indivíduos como gênero, idade, renda, grau de escolaridade, estabilidade da renda, situação conjugal e situação empregatícia; características regionais como áreas urbanas ou rurais e grandes regiões brasileiras; fatores psicossociais, como ter sofrido algum tipo de violência, sofrer de doença crônica ou ter filhos com doenças crônicas, ser usuário de álcool, entre outras.


Que tipo de impacto a depressão pode causar na renda e no emprego?

A depressão é uma doença que afeta a produtividade do indivíduo e sua capacidade de interagir socialmente. Portanto, no curto e médio prazos, quem sofre de depressão, com frequência, tem um rendimento reduzido no trabalho pelo absenteísmo e o presentíssimo, ou seja, quando o indivíduo está presente no trabalho, mas tem o rendimento reduzido. Isso aumenta a probabilidade de demissão. É que muitas pessoas sofrem de depressão sem saber e, portanto, não podem justificar suas ausências ao trabalho, com atestados médicos, por exemplo. No longo prazo, além de sofrer os efeitos cumulativos da baixa produtividade no trabalho, indivíduos com depressão crônica podem ter suas formações acadêmica e profissional comprometidas, o que especialmente mais grave entre jovens.

Que tipo de desafios enfrentaste ao longo do trabalho?

O maior desafio do trabalho foi lidar com variáveis endógenas e correlacionadas entre si, isto é, variáveis que têm relações de causalidade bidirecionais com a variável estudada, como probabilidade de alguém apresentar um quadro depressivo. A pergunta que se faz é se a pessoa está deprimida porque está desempregada ou se está desempregada porque está deprimida? Certamente, ambos casos podem ser verdadeiros, inclusive, simultaneamente. A pessoa perde o emprego por baixo rendimento em função da depressão, o que agrava o quadro da doença e a mantém desempregada. Para mitigar este problema, os efeitos do desemprego foram avaliados isoladamente contra diversas variáveis, apresentando resultados semelhantes, dado que não foi possível encontrar variáveis instrumentais.

Dependendo da dimensão, pode afetar diretamente no rendimento de uma economia?

Certamente. A depressão é uma doença debilitadora e, muitas vezes, silenciosa. Segundo a Organização Mundial de Saúde, cerca de 5% da população mundial sofre de depressão, o que representa cerca de 350 milhões de pessoas. Também, segundo a OMS, a depressão é hoje a segunda doença mais custosa para a sociedade, ficando atrás apenas das doenças cardiovasculares. Só para se ter uma ideia, até 2030 a depressão deverá ser a doença mais prevalente do mundo.

Isso, certamente, acaba gerando um custo à cadeia social?

Sim. Este custo recai sobre a sociedade de diversas maneiras. Como citado anteriormente, a primeira e mais imediata maneira que a depressão afeta a economia de um país, é pela redução da produtividade dos trabalhadores, que, em média, aumentam suas taxas de absenteísmo, presenteísmo, em que o trabalhador está presente, mas com a produtividade comprometida e afastamento por motivos de saúde. A segunda maneira está relacionada com o fato de a depressão ser uma doença mais prevalente entre pessoas jovens. Isso tem um efeito especialmente deletério sobre indivíduos, pois pode atrasar, comprometer ou até impedir as formações acadêmica e técnico-profissional do indivíduo dependendo da gravidade do caso. A terceira é que, a exemplo de outras doenças mais graves, frequentemente, as famílias das pessoas deprimidas, acabam precisando dedicar parte do seu tempo para cuidar do doente ou realizar tarefas que ela normalmente realizaria. A quarta maneira que a doença onera a sociedade é o custo que recai sobre o SUS e o INSS, seja pelo custo do afastamento do trabalho, seja pelo tratamento direto, seja pelo tratamento indireto da doença como uma comorbidade de outras doenças crônicas. Por fim, pode-se dizer que a depressão ainda traz efeitos negativos sobre as vidas das pessoas, afetando relacionamentos, convívio social, entre tantos outros problemas mais difíceis de mensurar.

Qual a importância da metodologia Oaxaca-Blinder, que utilizaste no trabalho?

Sobre a diferença entre as prevalências da depressão entre homens e mulheres, constatou-se que, à exceção da variável “desemprego”, as mulheres são afetadas mais intensamente pelos fatores estudados. Por este motivo, optou-se por incluir a análise de decomposição Oaxaca-Blinder. Esta análise, indicou que, mesmo ao descontarmos os efeitos de diversas variáveis como renda, escolaridade, violência, traumas, etc., cerca de 67% da diferença entre as prevalências da doença entre homens e mulheres ainda permanece. Portanto, com cautela, pode-se afirmar é a parte que pode estar associada a questões intrínsecas a variáveis não observáveis e à condição feminina.

Que tipo de políticas públicas poderiam ser elaboradas com o objetivo de reduzir o impacto da depressão na produtividade dos trabalhadores?

Atualmente, a maior dificuldade na elaboração de políticas públicas é a questão fiscal da União, estados e municípios. Em função disso, é necessário que, além de eficazes, tais políticas sejam viáveis do ponto de vista orçamentário. Portanto, deve-se focar as políticas preventivas à depressão nos grupos mais vulneráveis, como mulheres de baixa renda e baixa escolaridade, especialmente, no que se refere às suas formações acadêmica e profissional. Além disso, é importante que seja aproveitada ao máximo a estrutura já existente e à disposição do Estado. Alguns exemplos, envolveriam o uso dos agentes de saúde e de serviço social, aproveitando visitas para entrevistar pessoas que se enquadrem no perfil de risco. Isso, entre outros benefícios, pode auxiliar a detecção precoce do transtorno, o que aumenta as chances e o custo da recuperação do paciente. Ainda na parte da detecção precoce, treinamento pode ser dado a professores para identificarem crianças e adolescentes com possíveis sinais da doença para que sejam encaminhados a especialistas. Outra possibilidade que pode auxiliar muito e não diz respeito somente a pessoas com risco de depressão é a de creches para mulheres de baixa renda que estudam, no ensino superior ou no ensino técnico-profissionalizante. Por fim, a criação de grupos de convívio em comunidades carentes para idosos, adolescentes e demais pessoas podem ajudar tanto na prevenção quanto no tratamento da depressão.

Quais as principais conclusões do trabalho?

A maior parte dos resultados se mostraram concordantes com a bibliografia especializada e robusta, dado que resultados semelhantes foram obtidos a partir de diferentes metodologias, especificações de modelos e, até mesmo bases de dados. Dentre os resultados principais, destaca-se que a depressão está positivamente associada a pessoas jovens, economicamente vulneráveis - baixa renda e/ou financeiramente dependente de outras pessoas, com baixa escolaridade e desempregadas -, pessoas com doenças crônicas e que sofreram algum trauma como ter sido vítima de violência.

Uma nova crise global?

stefano
 
Stefano José Caetano Silveira
Economista, professor Pós-graduação Uniritter
Corecon-RS Nº 6865

 

 

Quais as principais características da crise ocorrida na economia mundial nos anos 2008 e 2009?
A crise mundial de 2008/2009 teve como causa principal a desregulação do mercado. Com o fim do padrão-ouro nos EUA, em 1971, e, sobretudo, com a implantação da chamada Revolução Conservadora em solo norte-americano em 1981, o período conhecido como Síntese Neoclássica deu lugar a outro momento dominado pela ortodoxia. A última crise global iniciou no mercado mobiliário norte-americano denominado subprime, dado à incapacidade das pessoas que nele estavam inseridas de honrar seus compromissos hipotecários nos bancos devido ao aumento dos juros naquele país, que chegou a 5,25% em 2006, estabelecendo um nível bastante elevado para aquela economia.

Por que isso aconteceu?
Em resposta aos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, os EUA passaram a atuar com maior estrutura em pelo menos duas frentes, Iraque e Afeganistão. Com isso, houve aumento considerável nos gastos governamentais e, consequentemente, nos índices inflacionários. Isso levou o Federal Reserve a majorar a taxa básica de juros, efeito este que logo se espalhou por todo o mercado, encarecendo o crédito. Com o financiamento mais restrito, houve uma queda na demanda dos imóveis e, por resultado, em seus preços de mercado. Isso criou dificuldades para a renovação dos contratos hipotecários concedidos a clientes que não possuíam uma boa avaliação de crédito nos Estados Unidos.

Essa crise poderia vir a se repetir?
Sim. Primeiramente, porque na concepção ortodoxa as crises são cíclicas no capitalismo. Depois, na avaliação de alguns economistas e investidores, devido a algumas variáveis, como o arrefecimento do crescimento chinês, cujo PIB anual não ultrapassou 7% nos últimos três anos, bem distante de um passado recente quando facilmente alcançava entre 12% e 14%. Também, pela queda no preço internacional do barril de petróleo, que já custou mais de US$ 100 e terminou o ano de 2015 orbitando em torno de US$ 30 – a despeito da recuperação recente, quando atingiu cerca de US$ 70 o barril, muito em função do endividamento dos produtores de gás Xisto. Outro motivo seria o preço das ações em Wall Street, dado o nível atual de tais papéis estar abaixo somente daqueles verificados em 1929 e 2000, períodos em que ocorreram ou precederam duas das piores crises globais que se tem notícia. Nível este que, na opinião de alguns especialistas, seria insustentável.

O que falta para que esse cenário de crise se estabeleça?
Que a recuperação dos postos de trabalho perdidos durante a crise de 2008-2009, ainda paulatina, sobretudo na Europa, seja interrompida; que crescimento chinês diminuiu não por uma adaptação a um novo modelo econômico em um quadro de normalidade, mas sim por perda de eficiência; que a recuperação do preço do barril de petróleo seja consequência apenas do aumento da demanda em função do endividamento dos produtores de gás Xisto e não pelo crescimento dos produtos nacionais; e que o atual nível dos preços das ações negociadas nas bolsas norte-americanas se deva apenas a um caráter especulativo e não produtivo.

De que forma a economia brasileira sentiria uma nova crise mundial?
Vivemos em um mundo globalizado. Para honrar seus compromissos no mercado internacional, o Brasil necessita de moeda estrangeira. Uma nova crise mundial pode prejudicar a entrada de dólares, tanto via balança comercial como no arrefecimento do chamado Investimento Estrangeiro Direto (IED). Além da maior dificuldade de manter as contas em dia, a taxa cambial deve subir e, mesmo em um cenário de restrição de crédito, provocar um crescimento inflacionário. Nesse cenário, o preço da matéria-prima estrangeira aumentaria, tornando o produto mais caro ao consumidor final. Como opção à subida dos preços no varejo, o produtor poderia espremer suas margens de lucro, podendo compensar tal perda, mesmo que parcialmente, com a diminuição de seu quadro funcional, ou poderia demitir funcionários devido ao seu produto não sair da prateleira de venda. Nesse quadro, a receita fiscal deverá cair, devido ao desaquecimento da economia, remetendo o governo a arrecadar menos e ter mais dificuldades de cumprir com suas obrigações financeiras.

Qual a importância das commodities no cenário internacional?
Sendo as commodities produtos primários ou semielaborados cotados em bolsa internacional, são direcionadas principalmente à alimentação ou à produção. Seu recuo ou recrudescimento servem de termômetro em relação ao nível da atividade econômica global.

Qual o papel da China nesse contexto?
Desde a morte de Mao Tsé-Tung, em 1976, até o início do século XXI, a China maturou seu modelo de crescimento econômico. Apesar de algumas tentativas de mudança não tão bem sucedidas, principalmente a partir de 2011, o país optou por um modelo voltado ao comércio exterior. Colocado em prática desde o inicio do atual século, quando a nação passou a ser reconhecida como uma economia de mercado. A despeito de algumas acusações de dumping, a China, com seu exército industrial de reserva, formado por sua extensa população de 1,4 bilhão de pessoas, provocou uma queda no valor da mão de obra global. Disso, resultou um recuo na queda de juros mundial. Algumas nações intensivas na produção e exportação de commodities, como o Brasil, foram duplamente beneficiadas. Por um lado, pelo aumento no preço das commodities que a maior demanda chinesa proporcionou, e, por outro, pelo menor custo na captação de recursos estrangeiros causados pelo arrefecimento da taxa de juros internacional. Assim, tomando como exemplo o papel que desempenhou durante a incidência da crise global de 2008/2009 ao liderar as ações dos países emergentes, sobretudo os pertencentes ao grupo dos BRICS, na reação à crise, a China, atual segunda economia do planeta, serve, ao lado dos EUA, como uma espécie de esteio da economia global. Ou seja, se a China vai mal o mundo todo tende a ir mal.

Desoneração da folha de pagamentos: Devemos reverter?

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Felipe Garcia
Professor Departamento de Economia UFPel, Coordenador PPGOM-UFPel,
Conselheiro Corecon-RS
Corecon-RS Nº 8506

 

Qual o objetivo da política de desoneração da folha de pagamentos, implementada em 2011, durante o governo Dilma?
O objetivo foi reduzir o custo do fator trabalho, para impulsionar a competitividade internacional das empresas brasileiras, de alguns setores, além da criação de postos formais de trabalho. Vale lembrar que em 2011 a taxa de câmbio esteve próxima de R$/US$ 1,50. Portanto, para muitos, políticas públicas que estimulassem a indústria eram imperativas.

De onde foram retirados esses recursos?
A desoneração da folha de pagamentos foi acompanhada da incidência de um imposto previdenciário sobre a receita das empresas, exceto aquelas oriundas de exportações. No entanto, a alíquota imposta sobre as receitas foi a que os economistas chamam de alíquota não-neutra, uma vez que a nova arrecadação diferiu da antiga. No caso, a arrecadação foi inferior. O tesouro teve que aportar recursos na previdência. O dinheiro veio dos contribuintes. Foi um subsídio.

Qual a metodologia utilizada para o estudo do IPEA, de sua autoria, em conjunto com os pesquisadores Adolfo Sachsida e Alexandre Xavier Ywata de Carvalho?
Utilizamos o estimador de triplas diferenças. É uma metodologia econométrica amplamente difundida nas diversas linhas de pesquisa em Economia. De forma resumida, nosso método permitiu que identificássemos os efeitos da lei sobre o volume de emprego livre da influência de efeitos de aspectos setoriais, de características das empresas, como o tamanho, e de aspectos conjunturais, como a crise econômica.

Por que, ao contrário do que se previa, a lei acabou não gerando emprego?
A geração de emprego era apenas uma das muitas possibilidades dos efeitos da lei. Pode ter ocorrido, por exemplo, aumento da jornada da força de trabalho já empregada, ou investimentos em tecnologia que a longo prazo podem gerar inclusive substituição de trabalho por capital. Não se pode descartar, também, a possibilidade de que as empresas tenham ampliado a sua margem de lucro.

O que faltou para que esses objetivos fossem realmente atingidos?
Teoria econômica, como de costume na formulação de políticas públicas do país. Antes de qualquer desoneração, precisamos é de uma reforma tributária que aproxime o Brasil da normalidade. Desatar os “nós” da nossa complexa legislação tributária é o primeiro passo. Despontamos no ranking internacional de tempo que empresas gastam para pagar impostos. E aqui não me refiro ao tempo destinado para geração de riqueza que abastece os cofres do governo, mas sim ao tempo perdido com papelada, com burocracia. Uma empresa de tamanho médio gasta duas mil horas por ano com burocracia tributária, enquanto na Argentina, por exemplo, o tempo perdido é pouco mais de 300 horas. Há algo de muito errado, e a reforma tributária é uma urgência. Apenas em um ambiente mais simples para o pagamento de impostos, combinado com um ajuste verdadeiro dos gastos, podemos pensar em medidas que reduzam impostos de forma horizontal, em todos os setores.

Qual o tamanho do prejuízo que essa Lei vem trazendo aos cofres públicos e à sociedade?
Entre 2012 a 2016, a renúncia do governo chegou a quase R$ 70 bilhões, ou R$ 14 bilhões por ano em média. Este montante médio representa praticamente metade dos recursos aportados no programa Bolsa Família ano a ano. Há opções melhores de programas sociais e serviços públicos para se alocar tanto dinheiro.

O próprio governo da época reconhece que a lei foi um erro. Como reverter o processo se o empresariado agora não quer abrir mão da margem de lucro obtida?
No Congresso. Já há material suficiente e nosso trabalho não foi o único que documenta a ineficácia da desoneração para geração de empregos. Agora é pela política.

E o governo não tem força política para acabar com isso?
Pelas manifestações públicas de membros da equipe econômica do governo, percebe-se que há uma clara intenção de se rever muitos dos subsídios diretos e indiretos que afetam a produtividade da economia. A Taxa de Longo Prazo para os financiamentos do BNDES vai nesse sentido e é uma vitória do governo. Mas, diante de tantas incertezas e reformas importantes que ainda estão na mesa, fica difícil de se fazer qualquer prognóstico neste sentido. O fato é que, desde o ano passado, algumas empresas de alguns setores retornaram a contribuir para evidência com impostos sobre a folha de pagamentos.

Controle de gastos e o pós-crise

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Victor de Fraga Sant'Ana

Corecon-RS n°8287
Economista CDL Porto Alegre, Conselheiro Corecon-RS


Quais os principais riscos que as pessoas correm, neste período do ano, de assumirem endividamentos?
O maior risco é que agora, no início do novo ano, ocorre uma série de despesas que podem surpreender as pessoas num momento mais fragilizado, em função da crise. Aqueles que estiverem com as despesas sob controle vão conseguir passar por este momento de forma bem mais traquila. Quem soube se planejar e utilizar o seu 13º salário, por exemplo, certamente estará numa situação mais confortável.

Essa situação mais complicada deve-se aos gastos com presentes de Natal, de férias?
Tudo na verdade. Depende de onde a pessoa gastou o seu dinheiro. Pode ter sido numa compra de Natal um pouco maior, num gasto de férias mal planejado. O importante para a saúde financeira é o planejamento. É saber quanto e como gastar, e quanto guardar para eventuais gastos de emergência.

E agora tem os gastos com material escolar?
Sim. Agora tem os gastos com material escolar, matrículas, IPVA, IPTU, entre outros, que acabam pesando para a classe média como um todo. Todos esses gastos devem estar mais ou menos previstos no orçamento. O consumidor que conseguiu se planejar para as férias e, também, para esse período, que, através de planejamento fez com que esses gastos coubessem no seu orçamento, não vai ter problema.

Como está o nível de inadimplência das pessoas?
Tivemos, a partir do final do ano passado, uma melhora nos níveis de inadimplência em nível de Brasil. É que, de 2014 a 2016, o País enfrentou a pior crise econômica da sua história recente. Foi uma crise não só muito profunda, mas muito intensa. E mais ainda, foi muito intensa para o consumidor, já que houve aumento da taxa de desemprego e diminuiu a renda do trabalhador, acarretando numa queda vertiginosa da confiança do consumidor, algo que, desde a série histórica original da Fundação Getúlio Vargas (FGV) ainda não havia registrado comportamento semelhante. Também, nesse período de crise, o crédito havia ficado muito complicado. Agora a situação é diferente. Percebemos um novo cenário da economia para este ano.

Um cenário mais otimista?
Embora estejamos vivendo uma crise política, está ocorrendo um descolamento do cenário político com o cenário econômico. O ano de 2017 deve fechar com um índice de crescimento do PIB de cerca de 1%, o que é significativo se considerarmos essa violenta crise que passamos nos últimos dois anos. Da mesma forma, temos uma expectativa para 2018 de crescimento do PIB em torno de 2,7%. Lógico que ainda vivemos um cenário de incerteza relativa, decorrente do ano eleitoral. E vai demorar mais alguns meses até que haja uma definição mais clara desse cenário.

E, nesse contexto de incertezas, quais as expectativas em relação ao consumo para o início deste ano?
Estamos vivendo um cenário bem mais otimista para a economia, mas o consumidor tende a ser um pouco mais tímido, mais controlado, com relação aos gastos, e ainda está longe do que se poderia chamar de euforia do consumo. Mas lógico que, com a retomada da confiança no cenário politico, com a economia entrando nos eixos, o consumidor deve certamente retornar ao patamar de consumo do período anterior ao da crise.

O crédito e os juros deverão ser facilitadores nesse processo de recuperação?
Para o consumidor que tem dinheiro guardado e que tem interesse de comprar um bem de maior valor agregado, como um imóvel, por exemplo, e estou falando do ponto de vista de Porto Alegre, é um bom negócio em função dos juros mais baixos, já que a taxa de Selic, que já está baixa, ainda deve cair um pouco mais.

Até que ponto economia e política conseguirão manter-se descoladas uma da outra, nesse período de recuperação?
Nós já estamos vivendo um cenário de descolamento da economia e da política nesse processo de recuperação. Basta olharmos o comportamento e a credibilidade da equipe econômica do governo em relação ao núcleo do próprio governo. Então, existe um descolamento. Claro que toda ação política mais radical que possa a vir a ocorrer, trará algum tipo de impacto na economia. Isso pode acontecer. Quanto mais incerteza tivermos com relação ao que acontecerá no período eleitoral, logicamente acarretará em eventuais impactos à economia. Vimos isso nos fatos do dia 24 de janeiro último, quando ocorreram impactos no mercado e na economia em função de uma determinada ação política. Então, estamos ainda sujeitos a essas oscilações, até porque no Brasil, neste cenário político, fica muito complicado fazer previsões na economia.

O espaço do Brasil no comércio internacional

silvia

 

Sílvia Letícia Bampi
Economista, 2º Lugar “Prêmio Corecon-RS” Dissertação de Mestrado
Corecon-RS Nº 8258

 

Sobre o que trata o trabalho “Uma abordagem gravitacional da evolução do comércio potencial entre o Brasil e parceiros asiáticos selecionados”, 2º Lugar no “Prêmio Corecon-RS”, categoria Dissertação de Mestrado?
Dada à relevância da influência dos países asiáticos no comércio internacional como um todo, além do expressivo crescimento registrado em comparação com África, América Latina e principalmente em relação ao Brasil, o estudo buscou avaliar a inserção asiática no comércio mundial, bem como, a evolução e o perfil das relações comerciais do Brasil com as principais economias da Ásia no período compreendido entre 2000 a 2014. Para a partir de então, através de ferramentas que vêm sendo utilizadas para “medir” as potencialidades de comércio entres as nações, estimar o comércio potencial do Brasil com o continente asiático.

O que foi constatado ao longo do estudo?
O crescimento das exportações mundiais em proporções maiores que o PIB mundial elevou o nível de integração das economias. A partir de então, diversos estudos relacionaram o nível de crescimento do produto/renda dos países com a expansão do comércio internacional. Foi, principalmente, a partir do final da década de 1980 que o comércio internacional passou a ter um papel mais relevante para a economia brasileira, com intuito de ampliar a sua competitividade e modernização. Apesar disso, o Brasil continua sendo uma economia fechada quando considerada a participação das exportações e importações no PIB.

Por que aconteceu isso?
Se usarmos a comparação do trabalho dos autores Canuto, Fleischhaker e Schellekens (2015), a abertura comercial dos parceiros brasileiros do BRICS (Brasil, Índia, Rússia e China), o termo difundido pelo economista Jim O’ Neill (2001), vinculado ao banco Goldman Sachs, atingiu uma proporção em relação ao PIB de cerca de 50%, enquanto em 2013, no Brasil, esta proporção foi de apenas 27,6%. Paralelamente à essa expansão do comércio, acontecia, de forma global, uma mudança na direção dos fluxos comerciais, o que apresentava como relevante o crescimento de economias asiáticas, como por exemplo, a China e a Índia. O crescimento chinês, por exemplo, reforçou a conceitualização dos BRICS como potências emergentes globais.

Que ferramenta métrica foi utilizada no trabalho?
A ferramenta econométrica que foi a utilizada no estudo é o modelo gravitacional, que correlaciona o comércio com as distâncias geográficas e níveis de renda dos países. Estuda o comércio bilateral entre os países e verifica que este é diretamente proporcional ao produto de seus PIBs e inversamente proporcional à distância entre eles.

Qual o objetivo do estudo?
O estudo objetivou verificar se existiam possibilidades de expansão do comércio brasileiro com as principais economias asiáticas, utilizando o ferramental econométrico, através da estimativa do comércio potencial do Brasil. Essas estimativas foram realizadas através do modelo gravitacional, considerando as principais economias da região, como China, Japão, Índia, Coréia do Sul e de alguns países membros da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), como Filipinas, Indonésia, Malásia, Tailândia, Singapura e Vietnã, no período de 2000 a 2014.

De que forma ocorreram essas alterações dos modelos de consumo das economias industrializadas?
As desagregações sociais causadas pela segunda guerra mundial trouxeram consigo uma reforma nos direcionamentos da economia no fim do século XX. Neste cenário, as preocupações dos norte-americanos, até então, poderio econômico mundial, voltam-se para a Ásia, opondo-se à sua postura anterior em relação à Europa. O emergente sucesso de países asiáticos ocasionou efeitos reais ao sistema econômico mundial. Com uma política industrial, comercial e macroeconômica voltada a uma grande estratégia social e nacional, conquistaram uma posição internacional autônoma e preeminente.

Esse movimento foi benéfico ao comércio internacional?
De modo geral, tais efeitos podem ser considerados positivos, pois esse evidente sucesso asiático, principalmente da China, trouxe desenvolvimento via investimento externo em diversos países, provocou diminuição nos preços mundiais de produtos e enfatizou a necessidade de renovação tecnológica para a sobrevivência das empresas no mercado mundial. Assim, a fragmentação geográfica de inúmeras regiões configurou um novo padrão de comércio. Com isso, a criação de cadeias globais especializadas em determinada produção refletiu as mudanças de percepção com relação à política comercial. O que, de acordo com informações da Organização Mundial do Comércio (OMC), começou com uma alteração nos modelos de consumo das economias industrializadas, que encontraram um potencial de oferta em alguns países em desenvolvimento. Isso, por sua vez, veio a reconfigurar o funcionamento da estrutura internacional de comércio.

Quais as principais constatações do estudo?
De forma geral, os resultados encontrados destacaram que o comércio do Brasil com a Ásia vem perdendo espaço ao longo dos anos. No entanto, o último período analisado, que foi 2014, apresentou um potencial de expansão de 2,52%. O fluxo potencial foi calculado para os anos de 2001, 2007 e 2014, sendo possível analisar as modificações ao longo do período abrangido pela amostra. Nos três anos examinados, as importações brasileiras da Ásia ficaram aquém das importações efetivas. As importações estimadas dos parceiros asiáticos do Brasil, por sua vez, ficaram acima das efetivas em 2001 e 2014, resultando em um potencial de expansão de 21,1% nesse último ano.

Neste contexto, a percepção é que ainda existe espaço para expansão das exportações brasileiras?
Sim. Uma das constatações é que ainda haveria significativa oportunidade de expansão das exportações brasileiras para esses destinos, dado o baixo grau de acessibilidade a estes mercados, identificado ao longo do estudo. Verificou-se a possibilidade de expansão em termos absolutos de U$$ 22.540 milhões das exportações brasileiras para os destinos asiáticos. Destaque para possibilidade de expansão dos fluxos de exportação do Brasil com Filipinas, China e Coréia do Sul, 313,57% (U$$ 538 milhões), 36,99% (U$$ 19.115 milhões) e 33,63% (U$$ 1.650 milhões), respectivamente. Além destes, Tailândia, Singapura e Malásia também apresentaram um potencial de comércio acima do efetivo, quando observado o Brasil como exportador. Portanto, pode se observar que existem significativas possibilidades de expansão de comércio brasileiro com a Ásia.

Qual a importância da ampliação desse comércio com as economias asiáticas?
Esse fator tenderia a alavancar diversos setores da economia brasileira, com melhorias em tecnologia e eficiência, dado o alto grau tecnológico de países como o Japão, por exemplo, que caracterizou um potencial de aumento de suas exportações para o Brasil de 10,36%, em 2014. Também, um maior relacionamento com essas economias seria uma via de abertura para relações com economias da Ásia-Central e demais países do continente, favoreceria a abertura comercial brasileira e, também asiática, aumentando a inserção destes nas cadeias de produção global.

O setor imobiliário e o pós-crise

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Jorge Luis Tonetto
Economista, Auditor-Fiscal da SefazRS, Conselheiro Corecon-RS
Corecon-RS Nº 5096

 

 


Como está reagindo o mercado imobiliário nesse contexto de recuperação da economia brasileira?
O mercado imobiliário está dando alguns sinais. O valor dos imóveis caiu ao longo desses dois últimos anos de crise da economia brasileira. O aluguel já tinha caído há bastante tempo. É que, nesse contexto de crise um pouco mais duradoura, o proprietário tinha que negociar com o inquilino o valor do aluguel, sob risco de perder uma renda mensal garantida. Sem o inquilino, teria que arcar os custos de condomínio, IPTU, que ele, obrigatoriamente, teria que honrar. Então ele se viu obrigado a negociar e, em alguns casos, nos últimos dois anos, houve uma queda geral média de 20% nos preços dos aluguéis.

Como estão se comportando os preços dos imóveis?
Nos preços dos imóveis, aconteceu uma queda mais recente, o que acabou acontecendo a partir de março de 2016, quando os preços não acompanharam mais o IPCA. É que a crise já estava instalada, num contexto de pouca demanda para compra. Só para se ter uma ideia, o volume do Imposto de Transmissão de Bens Imóveis (ITBI), que é o cobrado na compra e venda de imóveis, caiu cerca de 15% em 2017 comparado a 2016, na cidade de Porto Alegre. Verificamos, no entanto, que alguns segmentos sofrem um pouco mais que outros.

Que tipo de segmento está sendo mais afetado?
Em Porto Alegre, por exemplo, o mercado de imóveis de três o quatro dormitórios não apresentou muita queda nos preços. Diferentemente dos imóveis de um e dois dormitórios, que já atinge uma população com uma renda um pouco mais apertada. Neste segmento, a crise nos últimos dois anos afetou mais diretamente, restringindo, por consequência, a demanda. Por outro lado, percebe-se que há segmentos que, naquele momento, fizeram promoções com o intuito de diminuir o excesso de estoques e, agora, como se tratam de ativos, essas empresas, equilibradas financeiramente, não torram o preço e esperam que eles sejam naturalmente absorvidos pelo mercado. De qualquer forma, as empresas menores precisam vender e é onde se pode conseguir uma boa oportunidade de preço para aquisição do bem. Mas, em termos de ativos, o imóvel não chegou a perder grande valor, mesmo com essa crise. Os preços não estão acompanhando a inflação nos últimos dois anos, e o que se vê é que, por mais que o mercado possa estar se reativando, a taxa de juros de 7% ainda não chegou na ponta porque não existe volume suficiente de dinheiro para sustentar esse patamar de juro. Ainda existem muitas restrições ao crédito e, por outro lado, as pessoas ainda não têm segurança suficiente para, depois de conquistar uma renda mais estável, uma expectativa de emprego mais sólida, assumirem compromissos de médio e longo prazos, como é o caso da compra de imóvel.

Qual a tendência?
A tendência é que o mercado se ative um pouco mais e, principalmente pelo entendimento também das incorporadoras, sobre qual é o perfil desse novo consumidor. Hoje as famílias são menores, então existe a necessidade de entender esse consumidor e lançar produtos específicos para esse mercado. É um consumidor que privilegia a localização, exige serviços próximos. Não prioriza mais uma unidade tão grande, desde que tenha serviços compartilhados, áreas de lazer, segurança, etc. Se as incorporadoras conseguirem entender bem esse novo perfil de consumo, assim que o mercado tiver uma reação um pouco mais positiva, com uma retomada do PIB e da renda, tudo isso se reativa, sem que os preços caiam muito. Até porque nas regiões metropolitanas existe hoje a escassez de terrenos em áreas mais bem localizadas e, somado a isso, existe toda uma questão de custos na construção civil. Tivemos inflação alta em dois dos últimos três anos e isso tudo repercute nos custos, na mão de obra.

Tem espaço para redução dos preços dos imóveis?
Em termos de custos não se pode esperar que vá haver uma redução muito grande nos preços dos imóveis. Mas, sim, uma retomada gradual da economia, com crédito mais barato, podem gerar condições que o consumidor venha adquirir novamente o bem.

E a inadimplência não pode dificultar o acesso a esse mercado?
A inadimplência do Brasil encontra-se meio estagnada. Tivemos um ponto forte em 2016 e 2017, quando as pessoas já começaram a pagar as contas, aproveitando a queda da inflação e do juro. Mas a retomada do emprego ainda é lenta e temos que esperar um pouco mais. Algumas regiões metropolitanas têm mais dificuldades porque estavam com o estoque de imóveis muito alto, a pleno vapor, antes da crise, o que acabou gerando um estoque grande, e, pelo lado da indústria da construção civil, esperasse uma retomada um pouco mais lenta.

Uber e economia compartilhada

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Paola Behs
Economista, 2º Lugar “Prêmio Corecon-RS” de Monografias
Corecon-RS Nº 8592

Qual o foco da monografia “Uber no Brasil: regulamentação e economia compartilhada”, 2º Lugar no Prêmio Corecon-RS 2017”, categoria Monografias?
Apresentei uma análise sobre a inserção da Uber no Brasil à luz da regulamentação, a partir de um estudo comparativo entre as regulamentações já aprovadas em São Paulo, Brasília, Vitória e Porto Alegre, sendo o último o mais recente até então, de 2017. Apesar de ser um serviço legalizado e previsto na Lei Nacional de Mobilidade Urbana, cada cidade é responsável por normatizar o serviço e propor as regras que devem ser cumpridas, se assim sentir necessidade. E isso tem gerado muitas controvérsias e discussões nas cidades em que a Uber atua.

Por que essa polêmica?
A Uber foi a primeira grande empresa de economia compartilhada a ter tanto protagonismo no Brasil. O mercado de aplicativos de transporte privado causou uma grande mudança na mobilidade das grandes cidades brasileiras, que não estavam preparadas para regulá-lo adequadamente. E, evidentemente, a falta de uma orientação nacional para os governos municipais acabou agravando essa situação.

A que conclusões chegaste no teu trabalho?
Na análise comparativa, percebeu-se algumas similaridades nos projetos, como a limitação da idade veicular, a necessidade de cadastramento junto às prefeituras e a não fixação de tarifas ou de limites de carros. É importante ressaltar que após a publicação deste estudo, as regulamentações já sofreram alterações, principalmente em São Paulo. Essas questões parecem estar resolvidas, apesar de já terem sido pontos de grande discussão no passado, principalmente no que tange ao limite de carros. As quatro regulamentações em vigor criaram um padrão nesse sentido. Já, outras questões ainda possuem grandes variações, como a cobrança de taxas, já que basicamente cada cidade adotou um padrão, o compartilhamento de dados de viagens e motoristas, e as exigências relacionadas aos motoristas parceiros. Ainda é difícil identificar um modelo regulatório claro do serviço no Brasil, tanto em relação aos objetos e principais pontos da regulamentação, como em relação à sua própria jurisdição, podendo ser municipal, estadual ou nacional.

Por que a dificuldade em prospectar algum tipo de modelo regulatório desse serviço no país?
O Brasil não difere muito de outros países nesse ponto. Nos Estados Unidos, por exemplo, também há uma grande diversidade nas regulamentações em vigor. Verifica-se que poderia haver um ganho caso houvesse uma uniformidade maior nos projetos. Poderia se diminuir os custos municipais, de transação e das empresas envolvidas com todo o processo de regulamentação com um framework pré-definido. No entanto, o governo federal, ao definir na Lei Nacional de Mobilidade Urbana, que cada município deverá criar suas próprias regras, acaba incentivando a falta desse framework.

Impactos da liberalização financeira

pedro perfeito

 

Pedro Perfeito da Silva
Economista, 3º Lugar Prêmio Corecon-RS de Monografias
Corecon-Rs Nº 8158

 

 

Qual o objetivo do trabalho “Os efeitos da liberalização financeira externa sobre o desempenho macroeconômico brasileiro, entre 1995 e 2014: um estudo a partir dos modelos MS-VAR e VEC”, 3º Lugar no Prêmio Corecon-RS de Monografias?

O trabalho discute o processo de liberalização financeira externa da economia brasileira no período entre 1995 e 2014, com o objetivo de avaliar os efeitos desse processo sobre diversas variáveis macroeconômicas, como oferta de crédito ao setor privado, produto nominal, reservas internacionais, risco-país, taxa de juros e volatilidade cambial.

 

Quais as principais constatações?

A estimação de dois modelos econométricos (MS-VAR e VEC) aponta que um avanço no grau de liberalização financeira externa pode ser associado a efeitos problemáticos, como o aumento da taxa de juros, do risco-país e da volatilidade cambial. Além disso, nota-se que a evolução do grau de liberalização financeira externa da economia brasileira responde aos movimentos do ciclo financeiro global.

 

Quais as principais conclusões?

Os resultados apontam que, se não é possível descartar os benefícios da abertura financeira, há que se redobrar a atenção frente a seus riscos, considerando também as consequências negativas no que tange ao grau de integração financeira e à influência do ciclo financeiro global.

2018, onde economia e eleições se encontram

Lucas Aronne Schifino

 

 

Lucas Aronne Schifino

Economista, Conselheiro eleito Corecon-RS

Qual o cenário econômico é esperado para 2018, ano de eleições no Brasil?
O cenário básico é de recuperação cíclica da economia. No entanto, ele estará sujeito às intempéries, em decorrência de uma corrida eleitoral que, hoje, ainda é cercada por grandes incertezas. Faltando cerca de 10 meses para as eleições, a concentração de intenções de votos nos três candidatos mais bem posicionados nas pesquisas é mais de 20 pontos percentuais inferior à concentração de intenções que os três principais candidatos tinham na mesma época na última corrida presidencial.

Pode-se esperar um ano sem avanços econômicos para o País?
O grande avanço que poderíamos ter está na reforma da previdência, da qual depende o equilíbrio das contas públicas federais. Anos eleitorais são péssimos para se fazer esse tipo de reforma, pois dependem da aprovação do Congresso Nacional, que já estará com outro foco. É muito difícil formar uma maioria qualificada com a fragmentação que existe no parlamento brasileiro. Especialmente, quando as eleições se aproximam e o poder de coalizão de um governo impopular, com poucas chances de reeleição, vai vencendo seu prazo. Se acontecer, será um grande feito. Fora isso, passar um ano inteiro convivendo com juros e inflação baixas e algum crescimento da economia, depois do que vimos nos últimos anos, também não pode deixar de ser considerado um avanço.

Até que ponto a economia conseguirá se desprender dos fatos políticos esperados para o próximo ano?
Hoje, o conjunto geral de condicionantes da recuperação pela qual está passando a economia brasileira é formado por inflação e câmbio bem comportados, além de juros baixos. Esse quadro é altamente sensível a incertezas políticas. Então, a economia só conseguirá se desprender dos fatos políticos, caso os indicativos dos grupos políticos que sairão vencedores nas eleições - e falo de grupos pois as eleições para o Congresso Nacional também serão fundamentais - não apontem para uma ruptura nesse conjunto de condicionantes.

Que tipo de impacto poderá ocorrer na economia, levando-se em conta tendências ideológicas de candidatos que estiverem liderando as pesquisas?
Os condicionantes que mencionei anates dependem, fundamentalmente, do equilíbrio fiscal no longo prazo. Este, por sua vez, passa por uma mudança nas regras da previdência, que é, de longe, a maior conta do orçamento do governo e estruturalmente deficitária. Portanto, caso haja a iminência de vitória de grupos com tendências ideológicas que ameacem esse equilíbrio fiscal de longo prazo, o bom comportamento de inflação, câmbio e juros não se sustenta, o que prejudica o desempenho da economia.

Que segmentos da economia estarão mais vulneráveis a essas expectativas?
Em um cenário extremo, de elevação mais brusca de juros, todos os segmentos serão prejudicados. Alguma exceção para segmentos exportadores, que se beneficiam diretamente do câmbio depreciado. No caso de um cenário "meio-termo", em que haja riscos para o equilíbrio fiscal de longo prazo, porém com pouco impacto sobre câmbio, inflação e juros, já no ano que vem, acredito que os segmentos mais ligados ao consumo, como varejo, uma parte grande dos serviços e uma parte da indústria, sejam menos vulneráveis. Já, os segmentos ligados ao investimento, como a indústria mais pesada, sofrerão um pouco mais. O consumo tem um caráter mais de curto prazo. Depende menos das perspectivas para um futuro mais longínquo, caso os condicionantes básicos, como crédito e emprego, continuem se recuperando no curto prazo.

Um trimestre puxado pelo Serviços

roberto rocha

Roberto Rocha

Economista, pesquisador da FEE
Corecon-RS Nº 6788

 

Como explica o fato de o crescimento do PIB do RS no terceiro trimestre de 2017 ter sido nulo, comparado a um mesmo período do ano passado, quando o ambiente era de crise no país?
Acontece que a agropecuária, cujo desempenho este ano é muito bom, teve, neste terceiro trimestre, um comportamento muito fraco, já que, sazonalmente falando, este período não contempla a soja, o arroz ou o trigo. É o trimestre que normalmente quem puxa mais é a indústria, mas o que aconteceu é que alguns segmentos desse setor, que vinham tendo um desempenho diferenciado, como máquinas e equipamentos e veículos, neste trimestre acabaram experimentando resultados muito baixos. Além da própria atividade da celulose que, em função da parada que a planta nova da Celulose Riograndense teve que fazer, para fins de manutenção. Como tinha incorporado um crescimento muito grande no ano anterior, essa queda de produção se torna muito significativa. Então, esses elementos, somados, acabaram frustrando o resultado do PIB no trimestre.

O trimestre foi salvo pelo setor serviços?
Sim. O setor serviços, e principalmente o comércio, teve um desempenho bastante forte nesse trimestre e, em certa medida, acabou compensando o resultado final. Nós tivemos uma produção fraca, mas os serviços associados a renda mais estável possibilitou que tivéssemos um crescimento bastante satisfatório no trimestre.

A que se deve esse comportamento?
Como a nossa economia é mais desenvolvida do ponto de vista da estrutura etária, escolaridade e renda média, a estrutura de serviços acaba tendo maior importância, fazendo com que os serviços do Rio Grande do Sul tenham, de uma forma geral, um desempenho mais forte do que o do Brasil nesse momento de crise. Mas neste trimestre especificamente, o nosso comércio teve um desempenho muito bom, maior que o desempenho do Brasil, fazendo puxar o PIB para cima. É uma taxa que só foi maior no primeiro trimestre de 2014. Além disso, ainda havia demanda reprimida, como celulares, eletrodomésticos, veículos, entre outros. O consumo estava reprimido e a sensação, talvez não de melhora, mas de estabilização das condições em relação ao que era no ano passado, fez com que as pessoas se motivassem para compra, impactando positivamente no comportamento do PIB no trimestre.

De uma forma geral, o comportamento do PIB gaúcho neste trimestre acompanhou o resultado do PIB do Brasil?
De uma forma geral, teve a mesma oscilação que o PIB do Brasil, sim. Se formos analisar a taxa dessazonalizada, ou seja, aquela que acontece em relação ao ritmo da economia, o nosso caiu e a do Brasil cresceu muito pouco. A do RS vinha crescendo um pouco mais, então nós ainda viemos tendo um desempenho acumulado no ano melhor que o do Brasil, muito influenciado pelo próprio ritmo que a economia brasileira tem. Estimamos que cerca de 70% da renda da nossa indústria é gerada por vendas para o resto do pais. Então, enquanto a indústria do resto do pais não se reergue, acabamos sofrendo o impacto dessa estagnação. Basta ver que nesse trimestre a indústria de São Paulo está mal e a indústria gaúcha, que fornece muito componente para a atividade da indústria paulista, acaba, por consequência, indo mal. Então, existe uma parte que é muito associada a esse desempenho da indústria brasileira.

E o mercado internacional não ajuda?
Vimos tendo um desempenho muito bom no mercado internacional, no que diz respeito a commodities. O Mercosul, e em especial a Argentina, tem ajudado muito na venda de veículos neste trimestre. Nesses últimos anos, tem sido até uma saída, dada as dificuldades do mercado interno. O RS tem tido um desempenho geral do mercado internacional, desde a crise de 2011 ou 2012, menos vigoroso do que tinha antes da crise de 2008. Ou seja, antes o comércio crescia mais que o PIB e, agora, o PIB cresce mais que o comércio. Isso faz com que os espaços no comércio internacional não estejam tão fáceis como estiveram num período recente. Esse seria um canal muito interessante para a economia gaúcha, caso melhorasse, já que, por ser uma economia voltada à exportação, seria mais beneficiada. De uma forma geral, o nosso desempenho é um pouco melhor porque temos capacidade de vender para fora, enquanto que as economias que não possuem essa característica e dependem apenas do mercado interno, enfrentam mais dificuldades.

Mas, neste contexto, existe espaço para ampliar mercados?
O RS ainda possui esse canais para prospectar novos mercados. Basta ver o setor de calçados que, em 2015 e 2016 aproveitou a desvalorização do real para conquistar mercados e reestabelecer canais de comercialização. Mas o comércio internacional também não está muito fácil.

Que tipo de impacto o anúncio do governo do estado de liberar o 13º salário para o funcionalismo pode representar à economia gaúcha?
Essa noticia é bastante positiva do ponto de vista da atividade econômica. Basta lembrar que, no ano passado, tivemos um quarto trimestre com taxas negativas do comércio, comparado ao mesmo trimestre de 2015. É que o ano já havia sido muito ruim. E, nesse contexto, tudo que servir para amenizar a situação ajuda muito. Como uma grande parte da população ocupada em Porto Alegre é funcionário público, o fato de saberem que terão o décimo terceiro salário já dá um alívio, criando perspectiva para o setor do comércio, já que deve gerar uma arrecadação mais positiva do que tivemos no ano passado.

Programas Sociais e Desenvolvimento

 

 

Felipe Garcia
Economista, conselheiro eleito Corecon-RS, professor da UFPel


Por que o Brasil é tão desigual em termos de distribuição de renda?
A péssima distribuição de renda no Brasil é em parte consequência da má distribuição de oportunidades e do inadequado funcionamento de muitos dos mercados. Ambos podem ser atribuídos a episódios históricos pouco inclusivos materializados até hoje na forma de um ambiente institucional não propício a investimentos em capital humano, capital físico e em tecnologia. A condução equivocada de política econômica em diversos momentos da nossa história também tem papel relevante neste cenário pouco animador. Mas, especificamente sobre as oportunidades, temos, por exemplo, algumas pessoas que têm acesso à educação de muita qualidade, enquanto há uma parcela muito grande que fica à margem dessa situação. É evidente que nos últimos anos algumas políticas de expansão da educação geraram melhoras de alguns indicadores quantitativos de educação. Mas em termos de qualidade a gente sabe que ainda há uma parcela significativa da população que não tem acesso a bons serviços educacionais. E isso acaba repercutindo lá na frente, no mercado de trabalho, porque sabemos muito bem que um nível elevado de capital humano, de educação, de conhecimento, de habilidades, é altamente correlacionado com melhores salários no mercado de trabalho.

Como mudar essa realidade em termos de educação?
Ampliando as capacitações, ou os meios, que levam a melhores níveis de aprendizado. Os economistas têm estudado ao longo dos últimos 15 ou 20 anos, que a primeira infância é muito importante, tanto para o desenvolvimento da cognição, da nossa capacidade de aprender, de se desenvolver intelectualmente, quanto para o desenvolvimento de habilidades socioemocionais, a nossa capacidade de interagir adequadamente com o resto do mundo, com as outras pessoas. Ambas habilidades, cognitivas e socioemocionais, são importantes para o nosso desempenho no mercado de trabalho. Então, políticas sociais cujo foco seja o desenvolvimento do ser humano, o desenvolvimento dessas habilidades, têm se destacado como relevantes para mitigar desigualdades futuras.

O Brasil tem adotado com eficiência alguma dessas políticas?
Na minha opinião, entre as ações que merecem destaque está o Bolsa Família, que tenta tanto amenizar os agravos da pobreza a curto prazo, quando transfere recursos monetários às famílias, quanto a longo prazo através da exigência que as famílias coloquem seus filhos na escola e que essas crianças tenham que apresentar uma frequência escolar elevada. Da mesma forma, também vejo como positivas as ações mais direcionadas ao desenvolvimento pleno e adequado das crianças, como aquelas de zero a três anos, ou de zero a cinco anos. Destaco o programa Primeira Infância Melhor, aqui do Rio Grande do Sul, e o programa Criança Feliz, do governo federal. São políticas públicas cruciais no sentido de fazer com que as crianças cheguem na escola com uma boa capacidade de aprendizagem, de absorção dos conteúdos requisitados a cada faixa etária.

O programa Bolsa Família pode ser considerado eficiente?
O programa Bolsa Família apresentou alguns resultados muito interessantes em termos de redução da desigualdade no país, junto com as condições favoráveis do mercado de trabalho na década passada. Existem diversas pesquisas que documentam isso. Teve bastante êxito no sentido de fazer com que as crianças das famílias beneficiárias estivessem matriculadas na escola e que as frequentassem, mesmo que o programa não tenha surtido efeitos significativos no aprendizado, o que pode ter ocorrido em consequência da má qualidade dos serviços educacionais prestados pelas escolas. Em termos de alguns outros efeitos colaterais, o Bolsa Família também desempenha algum papel no sentido de proporcionar proteção de saúde para famílias beneficiárias. Existem pesquisas que documentam que municípios com maior cobertura do programa apresentam indicadores de mortalidade infantil bem menores. Outra questão que merece destaque é que o Bolsa Família não possui aquele problema indesejado sobre a fecundidade das beneficiárias.

E as denúncias não pouco frequentes de mau uso do Programa?
Como em todos os programas, algumas coisas indesejadas ocorrem. No caso do Bolsa Família, há estudos que apontam que o programa possa estar gerando algum estímulo para que as pessoas abandonem os postos formais de trabalho e passem a optar pela informalidade. Ou seja, uma tendência das pessoas trocarem a formalidade pela informalidade, obviamente para poder ficar dentro dos critérios de elegibilidade do programa. E isso é extremamente negativo porque postos de trabalho informal são postos que têm pouco uso de tecnologia e experimentam baixa inovação. Então os ganhos de salário ao longo da vida, relacionados à experiência e à acumulação de capital humano específico, tendem a ser menores, o que torna mais difícil a mobilidade social das famílias beneficiárias ao longo do tempo. Esse é um ponto bem indesejável que tem que ser aprimorado.

E de que forma pode ser aprimorado?
Redesenhando a tecnologia de seleção dos beneficiários. Ao invés de selecionar as famílias exclusivamente com base na renda per capita familiar, a seleção poderia ocorrer com base em um índice gerado a partir de indicadores sociais, econômicos e demográficos das famílias. Estas informações existem no Cadastro Único. Em outros países da América Latina, que possuem programas muito parecidos com o nosso, normalmente é utilizado esse mecanismo de construir um índice de pobreza e desenvolvimento e em cima desse índice fazer a alocação de quem pertence ao programa e distribuir os recursos. Essa é uma forma de fazer com que as pessoas percam a capacidade de monitorar ou fazer escolhas que as tornem elegíveis em função da renda. Mas, de qualquer forma, é um programa que tem uma boa inclusão, com uma boa cobertura sobre as pessoas que são do público alvo e tem um baixo índice de exclusão, ou de deixar de fora quem deveria estar contemplado. Mas, por outro lado, possui um erro grande de inclusão indevida, ou seja, acaba colocando para dentro do benefício muitas pessoas que não pertencem ao público alvo. E esse é um fenômeno mais marcante em regiões, estados e municípios com uma renda média mais alta.

O custo benefício desses programas vale à pena para um país como o Brasil?
O Bolsa Família vale à pena, sim. Ele pode ser aprimorado, mas traz um retorno importante em termos de combater pobreza a longo prazo, que é estimular as crianças a frequentarem as escolas. E a gente sabe que as pessoas com mais escolaridade são pessoas que lá na frente vão ter mais condições de enfrentar o mercado de trabalho. É um programa que não tem um custo muito alto frente aos benefícios que apresenta. As estimativas que temos é que seu custo anual representa apenas 0,5% do PIB, ficando o gasto por beneficiário pouco mais de 500 reais por ano. Ou seja, não é um programa demasiadamente oneroso. Para se ter uma ideia de comparação, um aluno de educação superior custa mais de 20 mil reais por ano. O PIM vai no mesmo sentido do Bolsa Família. As experiências similares ao PIM que se tem no mundo dão conta que o custo beneficio é absolutamente positivo, já que os retornos são elevados nas mais diversas dimensões do desenvolvimento humano. Segundo uma estimativa do economista James Heckman, prêmio nobel de economia, cada dólar investido em intervenções na primeira infância gera um retorno anual de 14 cents ao longo de toda vida. Então, são programas absolutamente rentáveis. O PIM, para se ter uma ideia, custa em torno de 800 reais por ano por criança ou por gestante atendida. É, portanto, um programa que também não é demasiadamente oneroso e cujos retornos são enormes ao longo da vida das pessoas.

A glamourização da informalidade do trabalho no Brasil

lucia garcia
 
 
Lúcia Garcia
Economista do Dieese Nacional, coordenadora da Pesquisa de Emprego e Desemprego Nacional (Dieese)
Corecon-RS Nº 5317


O desemprego ficou em 12,4% no trimestre encerrado em setembro, a menor taxa do ano, segundo o IBGE. A que se deve isso?
Nós tivemos uma ruptura muito grande na situação do mercado de trabalho, a partir do último trimestre de 2014. O desemprego começou a patinar, crescendo muito lentamente, já na virada de 2014 para 2015 e a partir de meados de 2015 houve uma alta muito clara do desemprego, elevando-se a patamar muito elevado , o que aconteceu até o momento atual. Tivemos uma divulgação de taxa de desemprego agora, para o trimestre encerrado, em agosto ou setembro, que já apresenta um declino da taxa de desemprego nacional no conceito IBGE. Esse declínio é um movimento já esperado para o segundo semestre.

Esse resultado pode estar ligado à sazonalidade?
Sim, mas, também, já dá conta de uma acomodação do mercado de trabalho em novo ponto de equilíbrio. Ou seja, acompanhamos no mercado de trabalho nacional, a partir da mudança institucional brasileira, com o impeachment da presidente Dilma, uma disputa de poder no país, que paralisou a economia e que tinha como objetivo fazer cair o custo do trabalho. Então, o desemprego e o mercado de trabalho expressam esse processo e seu resultado- os salários e rendimentos laborais efetivamente declinaram e o desemprego começa dar sinais de acomodação. Esse movimento, rumo a um novo equilíbrio do mercado de trabalho, é tendencial e o identificaremos por uma estabilidade em novo patamar.

Mas até quando deve continuar esse movimento?
Acredito que até o mês de março próximo deveremos chegar a um patamar entre 10% e 11% do desemprego e um rendimento ou remuneração dos trabalhadores equivalente à remuneração da primeira metade da década de 90. Ou seja, o mercado de trabalho é a seara, a tribuna, o teatro, o campo de guerra de forças dentro da estrutura produtiva, que se espelha no poder político do país, com o objetivo de baixar o custo do trabalho, traduzindo-se num projeto nacional. Se alguns países no mundo vão articular soluções diferentes na base da tecnologia, na base do rearranjo produtivo e com um declínio mediano da força de trabalho, para o Brasil nós já temos esse projeto. Trata-se de uma linha que está vencendo no momento e que se propõe redesenha o arranjo produtivo nacional ,no sentido tecnológico, mas sim tem o claro objetivo da desindustrialização e do rebaixamento do custo do trabalho. O mercado de trabalho nos próximos meses deve ter um desemprego menor, mais inserções informais e menos protegidas e remunerações mais baixas

E onde entra a Economia nesses resultados?
Em tudo e sempre. Na fase mais aguda de desestruturação do mercado de trabalho, entre meados de 2015 até meados de 2017, e, agora. No momento atual, em que haverá gradual adesão ao novo estatuto do trabalho, recém aprovado, tende a haver euforia e acomodação da economia. Contudo, não acredito que venhamos a ter um crescimento importante da economia brasileira. A questão é que a percepção imediata será de alívio após o inferno vivenciado nos últimos dois anos, o que tenderá a iludir e a satisfazer os brasileiros cansados de más noticias.

Como se dará esse processo?
Variações positivas do PIB irão acontecer. O próprio movimento sindical vai ter que conviver com menos poder e com uma economia que apresentará resultados pífios, mas positivos. Evidentemente, isso será capturado como discurso pelo poder central, proporcionando um tempo de ilusão da classe trabalhadora. Entendo que, se a elite econômica, ou segmento empresarial, for muito agressiva, essa ilusão perdurará por pouco tempo e passaremos a vivenciar a eclosão de outros problemas sociais. Enfim, a economia brasileira não terá muito espaço para um crescimento importante. Inclusive porque os países centrais têm apostado muito mais na nova onda tecnológica, na quarta revolução tecnológica, com grandes investimentos em inovação e tecnologia, e o Brasil não se coloca de forma alguma nesse novo cenário.

Essa ilusão do trabalhador pode se concretizar através do aumento da informalidade?
Acredito que, num primeiro momento, teremos algum crescimento do emprego propriamente dito, do trabalho subordinado, assalariado, que pode criar essa euforia de curto prazo, e, também da ideia que já está sendo o difundida de uma informalidade positiva. A informalidade aparece glamourizada, gourmetizada, para a população em geral. Programas de TV, como o “Fora da Caixa” e outros, enaltecem o empreendedorismo, encantando no curto prazo. Assim, vemos atividades empreendedoras florescerem, como barbearias, restaurantes, cervejarias artesanais, salões de beleza, cafeterias e outras iniciativas do tipo, materializando isso. Essa não é uma tendência apenas nossa. O problema do trabalho, a crise capitalista e essa nova organização de capital do trabalho não é uma peculiaridade do Brasil. Essa onda vem de fora, da glamourização. A questão é que, na medida em que esses negócios não tiverem mais mercado, eles não serão sustentáveis.

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