Cenário desafiador para os próximos prefeitos

 

Leonardo Busatto
Economista, Auditor-Fiscal da Sefaz-RS,
Ex-Secretário da Fazenda de Porto Alegre
Corecon-RS Nº 8544

 

 

Qual o principal desafio que os novos gestores municipais deverão ter nestes próximos meses?

O principal desafio é uma conjugação de dois fatores. O primeiro, principalmente a partir de 2021, é enfrentar as dificuldades impostas por uma base de receitas próprias, como ISS, IPTU e ITBI, e de transferências, como ICMS, IPVA, FPM, etc., bem deprimida, que reduziu muito com a crise decorrente da pandemia, mas que, neste ano de 2020, ainda não foi tão sentida, em função do auxílio federal recebida. Esse auxílio , que foi criado para mitigar os impactos da pandemia nas receitas dos estados e municípios, mascarou um pouco o efeito nas finanças dos municípios e não há nada que sinalize que, a partir do próximo ano, haverá nova ajuda. Imagina um cenário com redução da arrecadação tributária superior a 15%, como é a estimativa para o caso de Porto Alegre, gerando uma receita inferior inclusive aos patamares de 2019.

E qual o outro desafio?

Conjugado a esse fator, existe toda uma pressão de despesa, que foi criada principalmente na área da saúde, mas, também, na área social, em função da pandemia, sendo que nem toda ela é um custo ou uma despesa que se poderá reduzir. Em muitos casos, as estruturas foram aumentadas, como a questão de leitos, equipamentos, médicos. Da mesma forma, na área social, como esses modelos de transferência de renda, onde nem todos eles vão conseguir regredir a períodos pré-pandemia.

Por que não poderão ser reduzidas ou extintas?

Primeiro, porque não se sabe ao certo até quando essa pandemia vai manter seus efeitos e, segundo, porque é muito difícil, depois que se ter criado uma estrutura física, como novos hospitais e leitos, com promessa, inclusive, de ficarem como legados para a cidade. Então, teremos que conjugar um ano que teve uma receita tributária bem deprimida com um aumento de estrutura de gastos, que deverá ser custeado de alguma maneira e, pior, sem uma perspectiva de novas receitas extraordinárias. Esses dias li uma entrevista do Secretário de Orçamento do Estado de São Paulo, que disse que as pessoas estão com a falsa impressão de que o pior já passou na questão das finanças públicas, enquanto o pior está por vir em 2021. Ele tem toda a razão.

Então esses municípios que têm hospitais de referência serão mais prejudicados que os municípios menores?

Existem problemas tanto nos grandes municípios como nos pequenos. Os grandes municípios tiveram que investir mais nas estruturas hospitalares e, consequentemente, sofreram maior pressão na parte da despesa. Mas, por outro lado, também receberam mais recursos na área da saúde para aplicar. O problema, nos casos desses municípios maiores, está em manter essas estruturas, ou, pelo menos, parte dessa estruturas que foram criadas, sem a continuidade do recurso federal. Em compensação, têm uma capacidade de recuperação da sua própria receita tributária maior porque dependem menos de transferências. Já, os municípios menores, que vivem basicamente de transferências, com pouca geração de receita própria, não possuem base tributária própria pra se recuperarem de maneira mais rápida. Talvez os gestores não estejam captando esse problema porque ainda não estão sofrendo com isso. Mas quando os próximos prefeitos assumirem seus postos, no início do próximo ano e olharem para a previsão de receita, se darão conta do tamanho do problema. Insisto que alguma medida deve ser costurada, em nível nacional, para minimizar os efeitos da pandemia, até que a situação desses municípios volte a um patamar de mínima normalidade.

Como os novos prefeitos, que assumem em janeiro próximo, conseguirão enfrentar esse novo cenário?

Cada cidade tem uma perspectiva diferenciada, mas uma questão que vai ter que ser tratada, especialmente nos casos dos grandes municípios, é a da previdência dos servidores públicos. Em todos eles, praticamente existe um déficit previdenciário com crescimento muito acima da capacidade da receita, especialmente num período pós-pandemia. E isso se agrava quando se sabe que a grande parte desses municípios não fez as reformas que a União e alguns estados, como o RS, fizeram para os seus servidores públicos, centradas basicamente na questão da idade mínima para aposentadoria, e, no curto prazo, na questão das alíquotas, o que acabou gerando um alívio no aporte necessário por parte do Tesouro.

E qual a saída pelo lado da receita?

Em que pese todo o debate nacional ocorrido neste ano de 2020, em torno de receita e despesa, fatalmente terá que se retomar a discussão no que tange à grande parte dos municípios brasileiros. Se, por um lado, o País terá que buscar novamente estimular sua economia, da mesma forma, cada município terá que se voltar para a sua própria realidade. Tem-se que considerar que muitas empresas acabaram fechando ou reduzindo muito suas atividades e não se sabe ao certo até que ponto elas conseguirão recuperar a sua capacidade de gerar riqueza, de gerar receita, que é a base tributária. A base tributária do país é praticamente decorrente do PIB e dos agentes privados. Então, teremos, também, que tentar algo nesse sentido.

Qual a solução?

Eu até diria que se fosse possível, deveria se fazer um grande pacto ou uma grande movimento entre os prefeitos que estão entrando, os governadores que já estão aí e o governo federal, pra avançar em algumas reformas que podem minimizar esses efeitos da pandemia e acelerar a recuperação das economias, como reforma administrativa e, especialmente, a tributária. O Brasil tem um modelo federativo de cima pra baixo.

Que tipos de reformas seriam necessárias para a busca imediata desse equilíbrio fiscal?

A reforma da previdência foi feita, mas ainda existe uma questão gravíssima no país, que é a questão tributária. O modelo tributário que alguns chamam de manicômio tributário, é um dos nossos maiores problemas. Com um sistema tributário extremamente complexo, as pessoas não sabem exatamente o que pagam e as empresas têm um custo absurdo para seguirem a legislação vigente. Somado a isso, a judicialização na questão tributária do país, com centenas de milhares de processos, gerados pelas lacunas e problemas de legislação. Uma tributação extremamente regressiva, excessivamente baseada nos tributos indiretos de consumo e não no patrimônio e renda, afetando demasiadamente os mais pobres. Sem contar o problema sério de competências, onde muitos dos municípios acabam abrindo mão de querer tributar para viverem de transferências. Então, uma reforma tributária, que deveria ser de cima para baixo, que atingisse estados e municípios, seria fundamental para amenizar os impactos da crise deixada pela pandemia. Se não avançarmos nisso, continuaremos com todos os problemas de injustiça, de complexidade, que acaba beneficiando os maus pagadores e os mais ricos, que são os grandes beneficiados por todo esse processo.

Logo depois das eleições seria o melhor momento para isso?

Acredito que sim, porque os novos prefeitos têm quatro anos para governar. E, para terem um bom desempenho, precisariam recuperar rapidamente a sua capacidade de prestar serviços. Em 2021, muitos prefeitos assumirão seus cargos com as contas numa situação de insolvência e com as mínimas condições de aprimorar esses serviços.

 

A viabilidade econômico-financeira em tempos de crise



Rogério Tolfo
Economista, consultor de empresas, especialista em projetos e estudos
de viabilidade econômico-financeira, ex-presidente do Corecon-RS

O que é projeto de viabilidade econômico-financeira?

É um estudo técnico em que é verificada a viabilidade econômica do projeto, ou seja, o impacto que uma determinada ação ou investimento trará, a médio e longo prazos, para a empresa em termos de rentabilidade, nos diversos cenários em que é possível analisar e projetar. A parte financeira está relacionada com a geração de caixa dessa ação ou investimento, e o retorno do investimento, em termos de prazo, valor presente líquido e taxa interna de retorno.

Quais apspectos um projeto de viabilidade econômico-financeira pode contemplar?

Normalmente, um projeto de viabilidade econômico-financeira contempla sumário executivo, apresentação e caracterização da empresa, abertura das ações ou investimentos a serem realizados, aspectos técnicos, análise do mercado onde a empresa atua, balanços e aspectos históricos relacionados às peças contábeis, projeções e seus critérios. Da mesma forma, faz parte do projeto a demonstração da avaliação econômico-financeira e da necessidade de capital de giro incremental. A propósito, as projeções podem ser analisadas através de cenários diferentes, desde o mais conservador até o mais otimista.

O que é priorizado na elaboração desse tipo de projeto numa empresa?

Prioriza-se demonstrar principalmente as variáveis que tendem a ser impactadas com as ações ou investimentos a serem realizados, como receitas, custos, despesas, capacidade de produção ou de vendas, e seu impacto na rentabilidade e na geração de caixa do negócio. É sempre bom lembrar que essas premissas, se bem calculadas, tendem a gerar uma avaliação econômico-financeira confiável, o que gera segurança. Mesmo considerando que a fonte de recursos (própria ou financiada), não seja relevante na avaliação econômico-financeira de um projeto, cabe sempre atentar para a capacidade de pagamento do financiamento, caso seja essa a sua opção, bem como inserir os juros e encargos nas projeções. Importante destacar que um projeto bem elaborado pode demonstrar que a empresa tende a ser bem ou mal sucedida ou, mesmo, indicar que pode ser necessário repensar algumas premissas para colocá-lo em operação.

Qual a diferença do foco de análise de um projeto de viabilidade de uma empresa, num momento de crise do mercado, para um contexto de estabilidade ou crescimento econômico?

A maior e grande diferença é a dificuldade de se traçar cenários em momentos de crise. Essa situação ficou bem evidenciada com a pandemia, quando as empresas tiveram muitas dificuldades em projetar receitas, custos, despesas, resultados e vendas em geral, pois estavam situadas em mercados que sofreram grande impacto com as ações de contenção da pandemia, realizadas pelos governos. Assim, em cenários de crise, cabe ser ainda mais detalhista nas projeções e conter qualquer tendência otimista, visto que há muitas incertezas. Costumamos dizer que o papel aceita tudo. Ou seja, projeções mal realizadas, utilizando variáveis e premissas equivocadas, tendem a gerar uma inviabilidade prática do projeto, mesmo que o estudo demonstre que o mesmo tende a ser bem sucedido.

Quando uma empresa deve providenciar um projeto ou estudo de viabilidade econômico-financeira?

Sempre que uma empresa for realizar ações que alterem a sua realidade, o seu momento, cabe fazer um estudo ou projeto. Ações simples podem gerar estudos simples. Por exemplo, a compra de um equipamento de maior produtividade em uma indústria, com o objetivo de desativar outro equipamento existente, pode gerar um estudo simples, demonstrando a redução de custos que vai ser gerada e o prazo em que essa redução de gastos paga o investimento. E ações de grande magnitude tendem a gerar estudos completos e detalhados, como a abertura de uma filial, para ampliar vendas e produção. Essa nova unidade tem que ser viável econômica e financeiramente para compensar o ato de investir.

Realizar projetos de viabilidade é uma prática usual nas empresas?

Infelizmente não. Mas está melhorando. Grandes empresas normalmente possuem departamento de estudos e projetos, que contam com economistas e outros profissionais contratados ou terceirizados para estudar as ações e projetos da empresa e seus impactos na companhia. O maior problema está nas micro, pequenas e médias empresas, que muitas vezes investem em ações e/ou projetos, mas não realizam o estudo ou o fazem sem atender os critérios técnicos adequados. Daí, a importância dos profissionais habilitados para assessorar essas empresas, como o economista. Projetos mal concebidos econômica e financeiramente podem não só inviabilizar a ação em si como toda a empresa. Ter um projeto qualificado também é um investimento

Qual a sugestão para o estudante e o profissional da Economia que queiram se especializar na área?

Para os estudantes, importante começar cedo, ainda na faculdade. Muitas delas possuem empresas júnior, que são habilitadas a fazer esse tipo de trabalho e contam com o apoio dos professores. Para profissionais já formados, importante analisar cases de sucesso existentes no mercado ou conversar com profissionais experientes que atuam a tempo no mercado. Há empresas de consultoria, especializadas em elaborar tais estudos. Também há espaço em bancos e na área pública. O economista sai da faculdade em condições técnicas de fazer um projeto, e a experiência vem com o tempo. Atuo na área há mais de 25 anos e considero fascinante o fato de que, ao elaborarmos um projeto, usamos um verdadeiro arsenal de ferramentas vistos na faculdade de economia, analisamos mercados, usamos a experiência e, também, aprendemos, já que cada situação contém suas especificidades.

Os limites da Reforma Administrativa


João Bosco Ferraz de Oliveira
Economista, empresário, especialista em Gestão Pública,
Perito do Tribunal de Justiça do Estado da Paraíba
e Conselheiro do Cofecon

 

Com que cara essa reforma vai se apresentar ao País?

Do ponto de vista da proposta em si, a Proposta de Emenda Constitucional 32/2020 que trata da reforma administrativa tem a cara do Governo, com o propósito de desonerar a médio prazo as atividades que não são responsabilidade do Estado, deixando-as para outros poderes ou entes federativos, para o mercado e também para a iniciativa privada, de forma livre ou por concessão. O que o governo federal espera ao apresentar tal proposta é dar curso à ideia de menos Estado na economia pois só assim enxerga o Brasil ter uma nova cara. Se os objetivos da PEC serão viáveis nessa jornada não podemos prever. A ideia é simpática e bem vista por muitos economistas que tendem a seguir uma linha mais liberal, todavia há um Congresso no meio desse caminho, muito sujeito às opiniões da população mesmo sabendo que parte da população que ora já reclama é formada por representantes de categorias de trabalhadores que estão na verdade gritando em prol de um interesse específico e não da população como um todo. Então eu faço a previsão que a reforma administrativa avança, mas me parece que com a cara do Congresso Nacional.

Quais as principais mudanças que essa reforma deve trazer ao País?

São vários pontos contemplados no projeto da Reforma Administrativa. Mas eu destacaria, como principais, as seguintes mudanças: A abrangência, já que ela atingirá os três níveis federativos, que são a União, os Estados e os municípios; a Carreira de Estado, que definirá o que é considerado atividade essência de estado e com consequência fará com que esses profissionais, ao ingressarem no serviço público, tenham sua dedicação integral ao Estado, não podendo exercer qualquer outro tipo de vínculo, com exceção apenas para a docência e determinadas profissões ligadas à saúde; Aposentadoria compulsória, que será extinta e que servia de uma espécie de refúgio àqueles que cometiam algum crime e se viam “punidos” somente com o benefício da aposentadoria; Estabilidade, que sofrerá flexibilização no seu conceito e aplicação; e mais poderes ao chefe do Executivo federal, onde ele passa a ter mais poder permitindo mexer mais livremente na estrutura da administração pública extinguindo ou renomeando órgãos e ministérios. Não está claro se isso será modelo também para os governadores e prefeitos.

Qual a importância da Reforma Administrativa para a economia brasileira?

Eu vejo sob dois aspectos. Um, que seria um propósito de plano de governo, desenhado desde a campanha do presidente Jair Bolsonaro, ao dar valor a “menos presença do estado em atividades de mercado”. Prometeu e parece perseguir esse propósito dentro da sua política liberal, além de mostrar para a sociedade que o governo não pode mais gastar em áreas não prioritárias quando outros poderiam executar essas tarefas com recursos privados. Diminuir a estrutura administrativa é um segundo propósito, concentrar as diretrizes de governo e poder decisório no que interessa ao Estado e nas mãos de poucas pessoas, como uma estratégia de atuação do governo, de forma a ter um maior controle dos gastos públicos.

Que ponto o senhor considera mais nevrálgico e impactante da Reforma?

Apesar da PEC 32/2020 e das afirmações da equipe econômica de que não vai mexer no que já está posto, quando se coloca no meio da discussão o tema “estabilidade”, por si só já gera uma polêmica e mexe com estruturas seculares do serviço público, no caso, a estabilidade no emprego do servidor público. E, se o governo não convencer que os mecanismos de avaliação de desempenho – que pretende ser o mecanismo de afirmar se o servidor merece ou não continuar na carreira – serão seguros, justos e transparentes, esse tema será polemizado demais nos embates no Congresso. Outro ponto interessante é a convivência, estimada em 10 anos de transição, entre os servidores públicos regidos por uma lei antiga e os novatos, ambos exercendo a mesma atividade. Isso dará margem para muitas interpretações e até para questionar a sua eficácia.

O senhor acredita que a Reforma resolverá definitivamente o problema do equilíbrio fiscal brasileiro?

Antes devemos nos perguntar: a reforma é necessária? Isso eu entendo que tem a simpatia da maioria da população e ela concorda que até deveria ser mais profunda e estendida a outros poderes. Mas será justa? Bom, sua eficácia só poderá ser medida após implementada e testada. Mexe com conceitos e preconceitos. E do ponto de vista fiscal, o que se desenha é que em quase 10 anos o governo federal economizaria quase R$ 1 trilhão de reais, o que é um apelo enorme de convencimento, pois grande parte desses recursos iriam ser irrigados para sanar dívidas internas e outros tantos para novos investimentos e pavimentar um novo tempo na economia do País. Mas tudo isso precisa ser colocado e já, de forma clara para que a nação tome conhecimento e tenha a convicção de que o Brasil tem tudo para conquistar esses ganhos e entrar em um novo patamar de desenvolvimento. E se ajudar a implementar uma nova força no desenvolvimento regional de forma que todos saiam ganhando, trazendo junto Estados e Municípios, com isso o Congresso não terá muito o que fazer e nem forças suficiente para descaracterizar a essência da PEC no que ela pretende trazer junto com essa Reforma Administrativa.

Investimentos na base e as aspirações futuras

 

Paulo Ricardo Ricco Uranga
Economista, Menção Honrosa Prêmio Corecon-RS 2019,
Categoria Dissertações de Mestrado
Corecon-RS Nº 7597

 

Qual a proposta do trabalho “Aspirações Educacionais e Profissionais: um Estudo Sobre a Adaptação de Preferências”, Menção Honrosa do “Prêmio Corecon-RS 2019”, categoria Dissertações de Mestrado?

O trabalho procurou identificar quais os condicionantes das aspirações educacionais e profissionais dos alunos de escolas privadas e estaduais de Porto Alegre. Também verificou como esses condicionantes se comportam quando dividimos a amostra grupos determinados por diferentes características como a etapa de ensino dos alunos, o tipo de unidade administrativa, se privada ou estadual, e diferenças socioeconômicas.

Qual o universo pesquisado?

Eu e alguns amigos, que se dispuseram a me ajudar, percorremos 32 escolas, 19 estaduais e 13 privadas, aplicando 3.723 questionários em alunos do nono ano do Ensino Fundamental e segundo ano do Ensino Médio. Após a tabulação, a amostra resultou em 3.714 questionários validados de jovens entre 13 e 20 anos. Uma preocupação foi tentar garantir a representatividade das escolas conforme o nível de Desenvolvimento Humano das regiões das escolas. Então calculamos a amostra proporcionalmente ao número de matrículas nas séries anteriores no ano de 2018, para cada nível de desenvolvimento (Baixo, Médio, Alto e Muito Alto).

O que foi determinante para a definição do nível de aspiração dos estudantes?

Características de nascença, como ser mulher e branco aumentam a chance de aspirar mais, e a diferença é mais acentuada em grupos com maiores privações. A trajetória escolar também se mostrou importante, para aspirar mais foi importante ter iniciado os estudos na Educação Infantil e não reprovar. A família também assume papel importante nos sonhos dos alunos, pois a escolaridade dos pais, os pais que possuem profissões mais reconhecidas e o incentivo ao hábito da leitura aumentaram as chances dos alunos aspirarem além. Outra variável importante para moldar o desejo por mais educação e profissões mais destacadas foi a maior autoeficácia acadêmica percebida. A autoeficácia é a crença que as pessoas têm sobre as suas capacidades para enfrentarem os eventos que afetam a sua vida. Já, a autoeficácia acadêmica é a crença dos alunos na capacidade de realizarem as atividades escolares.

Quais as principais conclusões do teu estudo?

Incentivar as aspirações dos jovens pode ser um instrumento para retirar os indivíduos da armadilha da pobreza. Por outro lado, os sonhos desses jovens podem ser condicionados pelo status socioeconômico de suas famílias. Particularmente para os mais pobres, as preferências podem sofrer um processo de adaptação, em que passam a optar por algo mais modesto do que poderiam se não estivessem em uma situação de privação. Uma evidência das preferências adaptativas encontrada nesse estudo foi que, para os mais pobres, a estabilidade emocional e a maior socialização diminuem as aspirações pela educação superior, provavelmente por levarem a decisões que pareçam mais realistas a esses indivíduos, próximas ao ambiente em que vivem. Para ultrapassar essas barreiras deve se investir nos mais pobres, como em políticas de transferência de renda e aumento da escolaridade dos pais, e em políticas educacionais que incentivem o início da escolarização na Educação Infantil, diminua a repetência e práticas pedagógicas que privilegiem o aumento do senso de eficácia acadêmica dos alunos, da sua vontade por ingressar no Ensino Superior e e da importância de estudar para ingressar no mercado de trabalho.

 

Economia da Serra gaúcha no pós-pandemia e as lições que ficam


Mosar Leandro Ness

Economista, professor da Universidade de Caxias do Sul (UCS),
Assessor Econômico da Câmara de Dirigentes Lojistas de Caxias do Sul (CDL-Caxias do Sul)
Corecon-RS Nº 6304


 

Qual o perfil da economia da região de Caxias do Sul?

O perfil da economia da região serrana vem se alterando nos últimos anos. Até o início dos anos 2000, o principal setor era a Indústria, que puxava o crescimento da região. A mesma nasceu e ganhou força, embalada pelo processo de substituição de importações. Com a reestruturação produtiva, iniciada no início dos anos 90, o modelo de crescimento foi posto à prova. Nos anos que se seguiram, em especial nos governos trabalhistas, a indústria começou a perder força. Atualmente, o setor que emerge com vigor são os serviços. No caso de Caxias do Sul, já se nota um seguimento financeiro bem consolidado e que vem demandando profissionais com formação específica para esse. Note que a indústria ainda é relevante na formação do produto do município, mas, os serviços tem aumentado sua participação e já ultrapassou o comércio, outro setor tradicional da economia local.

A economia da região de Caxias do Sul já vinha dando sinais claros de recuperação antes da crise do coronavírus. Como está agora?

De fato, antes dessa crise, a economia local já ensaiava uma decolagem para um voo mais alto. Havia pedidos em carteira nas indústrias, e tanto os serviços, quanto o comércio, esperavam aproveitar essa tendência de crescimento. Note que, no mês de fevereiro, a utilização da capacidade instalada da indústria local, atingiu 79,3% um dos níveis mais altos dos últimos anos. Com a crise e o isolamento, tanto a produção, quanto o consumo, caíram abruptamente. O recuo em abril foi de mais de -27,0% nos três setores. Essa situação encontrou empresas e famílias em diferentes momentos em termos econômicos. Muitas empresas que se encontravam alavancadas acabaram por encerrar suas atividades. Já, outras tantas famílias tornaram-se inadimplentes em um primeiro momento.

Quais os setores mais atingidos pela crise?

Chama atenção é que passado o baque inicial, a economia local começa a dar sinais de recuperação. A indústria conseguiu passar ao largo das dificuldades e voltou a produzir, inclusive lançando novos produtos. O comércio vem apostando no meio eletrônico como agente de vendas e tem conseguido manter, a duras penas, a sua estrutura de funcionamento. O setor de alimentação, especificamente supermercados, mercados, mercearias, está vendo seu faturamento aumentar. Em contra partida, o segmento de restaurantes, bares e similares, foram os mais atingidos. Casas tradicionais da região encerraram suas atividades. Outras tantas, tiveram que se adaptar à tele-entrega e ao pegue-e-leve. Tempos difíceis para todos, não há dúvidas.

Como está o nível de desemprego na região?

O mercado de trabalho demitiu mais de 6000 trabalhadores nos últimos meses. É bem verdade que poderia termos tido um número maior de desempregados, se não fossem as medidas adotadas para preservar o mesmo, pelo Governo Federal. O setor que mais desempregou foi a indústria, -3.205 postos, seguida dos serviços, com -1.990, e do comércio, com -1.435. A variação negativa é de -6.630 trabalhadores no mês. Quando se observa em um horizonte maior, percebe-se que, em 2013, o mercado formal de trabalho ocupou 183.173 trabalhadores nesse período, enquanto que agora, em 2020, a ocupação caiu para 144.032 trabalhadores. Ou seja, nesse período foram fechados quase 40.000 postos de trabalho.

Quanto tempo deve levar para recuperar o nível de emprego de antes da crise da pandemia?

Para recuperar o nível de emprego serão necessários pelo menos um ano de crescimento forte, de forma a recompor a base e recontratar esses mais de 6.000 trabalhadores demitidos na pandemia. Já, para voltar ao nível de 2013, será necessário um crescimento do PIB brasileiro acima dos 4,0% ao ano por pelo menos quatro anos seguidos para que o mercado de trabalho em Caxias do Sul volte a ter acima de 180.000 trabalhadores formais. Uma das razões para essa demora reside no fato de que a tecnologia na indústria cada vez mais poupa mão de obra.

Quais os grandes desafios neste momento?

Tanto para as pessoas quanto para as empresas, o desafio é literalmente sobreviver. Não há como pensar diferente. O vírus ainda está ativo e a vacina vai demorar uns seis meses para vir e ser aplicada. Isso faz com que as restrições de mobilidade aconteçam, o que inviabiliza muitos negócios. Já, quanto às empresas, as mesmas precisam de capital de giro para suportar essa fase de baixo nível de atividade. Assim, não se descarta que muitos negócios vão precisar de algum tipo de incentivo para sobreviver. Outros tantos deverão ter sua capacidade reduzida para, assim, passar pela pandemia. A redução do tamanho é uma possibilidade que tem por objetivo tornar as empresas menores, e, portanto, mais aptas a sobreviver em um cenário adverso como o que teremos até fevereiro de 2021.

Quais as expectativas do empresariado local?

Os empresários da Serra são resilientes. Estão conseguindo assimilar o atual contexto e estão sobrevivendo, se reinventando. Toda crise é composta de três partes, um problema, o tempo a ser vivido em meio à crise e uma lição a ser aprendida. Na atual crise não é diferente e, seguramente, vamos emergir dessa muito melhores do que entramos. Vamos aprender com ela e construir uma nova ordem econômica. Vamos produzir e consumir localmente e reduzir o nosso grau de dependência da China. Isso será muito interessante para a economia global, brasileira e regional.

Os novos horizontes da Economia Comportamental


Patrícia Alves Schütz

Graduada em Economia, MBA Economia Comportamental,
Consultora em Finanças e Arquitetura de Escolhas/Irlanda

Corecon-RS Nº 7503

 

O que estuda a Economia Comportamental (EC)?

A Economia Comportamental transformou em objeto de estudo o pressuposto da Economia tradicional, que afirma que as pessoas são racionais e agem em benefício próprio. A esses estudos, são incorporadas teorias multidisciplinares vindas da psicologia, antropologia e neurociências, com o objetivo de tornar mais realistas as teorias de tomada de decisão. E, para atingir este objetivo, a EC utiliza-se de técnicas experimentais, dentre as quais os testes de controle randomizados (randomized controlled trial - RCT). Com a possibilidade de pesquisas online, este é um campo em desenvolvimento na economia como um todo, mas sendo bastante útil para a EC.

O que te atraiu para essa área da economia?

O que me atraiu para o estudo da EC foi esse carácter inovador e, de certa forma, revisor das ciências econômicas. Acredito que a profissão do economista tem muito a contribuir com a sociedade, porém é preciso incorporar novas metodologias e teorias para que tenhamos um papel cada vez mais relevante na sociedade atual. Entender comportamento humano e ferramentas de análise de dados são imprescindíveis para enfrentar os problemas atuais e do futuro.

Como funcionam as intervenções na teoria de escolhas?

As intervenções são parte da metodologia aplicada na EC, pois precisamos testar se o comportamento previsto pelo modelo é de fato o que acontece. Utilizamos o termo Arquitetura de Escolhas para desenhar essas intervenções. Uma intervenção é criada para resolver um problema. Por exemplo, aumentar a arrecadação de impostos sem aumentar tributos. No Brasil, isso ainda é muito novo, mas já temos um exemplo na prefeitura de São Paulo, que possui um Laboratório de Inovação e, dentro dele, existe o Nudge/SP, que já realizou uma intervenção alterando apenas o conteúdo das cartas de cobrança de IPTU em atraso, como já utilizado em outros países, e tiveram um aumento de 8,4% de regularização de dívidas, com uma arrecadação em potencial para o município, de 60 milhões a custo quase zero, uma vez que as cartas de cobrança seriam enviadas de qualquer forma. O que mudou foi apenas o seu conteúdo das mensagens. Pode-se constatar em https://drive.google.com/file/d/1q0PgIQiN_GdoICPu7lXb690RUb-vhA7A/view .

Como funcionam essas intervenções?

Esse tipo de intervenção, visando aumentar a predisposição dos contribuintes a pagar suas taxas em dia, é aplicada em diversos países, utilizando diferentes abordagens. Esses exemplos podem ser encontrados na página do Behavioural Insights Team (www.bi.team), grupo que teve origem no governo britânico e que hoje aplica EC em diferentes países, com escritórios espalhados pelo mundo. Nessas intervenções, são aplicadas diferentes metodologias, que podem variar regionalmente. Quando é desenhada uma arquitetura de escolhas precisamos identificar o problema e definir qual o comportamento que queremos incentivar ou impedir que aconteça, sem gerar proibições ou multas, e sim, utilizar os próprios vieses comportamentais que temos para nos conduzir a tomar tal decisão. É nesse momento que entra o famoso nudge, ou “empurrãozinho” ou “cutucada” (a tradução para o português não define da melhor forma, por isso utilizamos o termo original em inglês). Os nudges são o ponto de contato entre a arquitetura de escolhas e o agente a ser influenciado. As principais premissas dos nudges são que eles devem ser simples, de baixo custo e escaláveis, e podem ser aplicados em diversos setores, não só em políticas públicas, mas também no incentivo à poupança, planos de pensão, doação de órgãos, etc. Somos constantemente bombardeados pela arquitetura de escolhas pelo marketing, porém a EC nos mostra que é possível aplicar para os mais diferentes setores.

Como defines o viés do presente ou o imediatismo?

Para falarmos de viés do presente, precisamos pensar em desconto temporal. O viés do presente trata da nossa predisposição em privilegiar a gratificação imediata. O desconto é aquilo que abrimos mão por ter algo agora e não depois. A economia tradicional trata essa diferença como um desconto exponencial, isto é, uma taxa fixa proporcional ao tempo da espera. Enquanto a economia experimental percebeu que a preferência das pessoas na verdade varia dependendo do quão distante essas escolhas estão no tempo, não necessariamente a essa taxa fixa, o que é conhecido como desconto hiperbólico. Podemos ver o viés do presente nas nossas escolhas financeiras, como, por exemplo, tomar um empréstimo para comprar algo e pagar juros, gastar agora e não poupar para o futuro, e até nas nossas escolhas alimentares, como comer pizza agora e ter um aumento de peso no futuro.

Qual a importância da EC para a elaboração de políticas públicas?

A Economia Comportamental e experimental tem muito a contribuir para as políticas públicas. Não se trata apenas na construção de nudges, mas sim de se envolver com o público-alvo destas políticas, pois, para usar uma abordagem comportamental com eficiência, você precisa entender o comportamento de quem vai receber a intervenção. É preciso adaptar a intervenção para o ambiente social no qual ela vai ocorrer e, para isso, é preciso de envolvimento com a comunidade. Para mim, este é o maior legado que essa abordagem pode trazer.

Qual a importância da ECl no atual momento de pandemia que o mundo está vivendo?

Ela poderia ter sido utilizada para melhor comunicar os novos comportamentos, que devem ser incorporados na rotina todos nós. O problema é que não existe consenso sobre tais comportamentos. Acredito que a única unanimidade seja a limpeza das mãos. Até sobre o uso de máscaras existem controvérsias e pessoas que não defendem a sua utilização. Qualquer mudança de comportamento, principalmente de forma tão brusca, como ocorreu devido à pandemia, precisa de uma grande motivação. Aparentemente, a ameaça do vírus não impacta as pessoas da mesma forma, por isso existe essa diferença entre alguns que mudaram seus hábitos e outros que nem tanto. Além disso, o governo precisa proporcionar o ambiente para que as pessoas possam realmente mudar seus hábitos. Não estou aqui julgando o que foi feito pelo governo brasileiro e o que deixou de ser feito, apenas constatando que, quando existe um ambiente favorável para que as pessoas fiquem em casa, quando têm casas adequadas e alguma garantia financeira, a predisposição das pessoas a realizarem o isolamento social é maior. Mesmo com o crescimento de casos em algumas regiões do Brasil, como é o caso do Sul, estamos com dificuldades de manter o isolamento social, pois o que acontece agora é uma fadiga comportamental. Uma analogia seria uma dieta alimentar muito radical, com muitas restrições, por alguém que precisa muito perder peso. Porém, sabemos que essas restrições não são suportadas por um longo período de tempo. Da mesma forma, acontece com o isolamento social. Aqui no Sul estamos, desde março, sem poder ter contato com as pessoas, lidando com o abre e fecha do comércio. Estamos enfrentando o momento mais crítico na nossa região, tendo também que lidar com essa fadiga comportamental, o que nos desafia ainda mais.

Qual a tua sugestão para os estudantes ou profissionais que têm interesse em seguir essa área de estudo?

A EC é uma excelente ferramenta para ser inserida no arsenal de ferramentas do economista, bem como a análise de dados. As atividades do economista são muito variadas e a EC pode ajudar a ter uma visão mais realista de diferentes áreas, não só na microeconomia, mas, também, em elaboração de políticas públicas e finanças, por exemplo. Existem excelentes pós-graduações no Brasil que já tratam do tema (inclusive em EAD), assim como alguns cursos desenvolvidos por universidades e instituições estrangeiras, que podem ser realizados de maneira gratuita. Acho importante que não apenas os estudantes se interessem em aprender sobre o tema, mas, também, os profissionais experientes, que poderiam enriquecer demais os debates, já que a tendência é que profissionais de outras áreas se interessem pelo assunto, deixando, assim, o debate teórico, do ponto de vista econômico, relativamente raso.

 

“Precisamos de um ‘Plano Real’ de combate à criminalidade”

 

Pery Francisco Shikida
Economista, professor da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste),
Membro do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária (CNPCP)

Corecon-PR Nº 6195


Por que a teoria econômica foi estudar o crime?

A etimologia da palavra Economia vem do grego “Oikos”, que significa Casa, e “Nomos”, Regra/Norma/Lei. Logo, Economia quer dizer, em tempo verbal, regrar, do ponto de vista material, a casa, com foco na obtenção e utilização dos recursos necessários ao bem-estar dos moradores daquela casa. Ocorre que há, infelizmente, as “casas” da ilicitude, que procuram lucrar com atividades econômicas ilegais, como são as organizações criminosas. Portanto, a Ciência Econômica pode perfeitamente estudar o comportamento dos consumidores e fornecedores desse mercado ilícito.

Qual o objetivo dessa Pesquisa, que vens realizando junto a presidiários do Brasil e de fora do país?

Cito aqui o Juiz Federal, Dr. Matheus Gaspar, de Foz do Iguaçu, que fez o prefácio no meu livro “Memórias de um pesquisador no cárcere”. Sou pesquisador da economia do crime “de piso”, remetendo ao termo japonês “gemba”, usado em logística ou engenharia de produção como “chão de fábrica”, “lugar da verdade”, “onde as coisas acontecem”. Isto posto, o nosso maior escopo foi obter dados diretamente na base, ou seja, ouvindo quem de fato praticou os delitos. Obviamente, a criminalidade e a falta de segurança geram reflexos contraproducentes na economia em geral, mas não se trata só disso. A análise econômica do crime é relacionada a estudos de microeconomia e análise econômica do Direito e, no ambiente de escassez, as pessoas buscam maximizar os resultados de suas escolhas, estando sujeitas aos incentivos. Então, três perguntas básicas nortearam todos nossos trabalhos no Brasil: Quais as circunstâncias econômicas da escolha ocupacional entre o setor legal e ilegal da economia? Por que as pessoas decidem cometer crimes, de natureza econômica? Neste caso, o crime compensa?

Quais as principais conclusões?

Vou falar das nossas principais conclusões de 21 anos de pesquisa que procuraram contribuir para o entendimento da criminalidade, a partir de dados primários, obtidos via aplicação de questionários/entrevistas com presos (as) cujas violações foram oriundas de crimes econômicos, como tráfico de drogas, roubo, furto, etc. Como resultado, para expressiva parcela desses presos entrevistados em diversos estabelecimentos penais, os retornos econômicos foram maiores do que os custos do delito, o que significa dizer que o crime, de foco financeiro - que busca dinheiro, lucro - está, lamentavelmente, compensando.

Qual o custo do crime e da violência para o Estado?

O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) estimou que a violência custa 10,5% do Produto Interno Bruto nacional. O Atlas da Violência, de 2019, disse que o custo da violência no Brasil chegou a 5,9% do PIB de 2016. Então, está entre 5,9% e 10,5% do PIB nacional. Qualquer que seja a estimativa posta, é muito alta.

Qual o perfil do criminoso brasileiro?

Lembre-se, sempre perfil médio, pois isto irá depender muito do local em que se esteja fazendo a pesquisa, sobretudo em um país continental como o nosso, com variações de cor de pele, escolaridade, entre outros. Mas, normalmente é jovem, cor depende muito da região em que foi feita a pesquisa, se diz religioso (mas não praticante) e “solteiro” (mas normalmente teve outras uniões desfeitas), filho de pais também separados, parou de estudar cedo, declarou ter trabalhado e ganhava entre um e três salários mínimos, faz uso de bebida alcoólica, fumo e drogas ilícitas. De modo geral, o perfil sócio demográfico das pessoas pesquisadas mostrou que as três grandes travas morais, religião, família e educação - não estanques entre si, frisa-se, que contribuem para tolher a migração para o crime econômico - estão bem fragilizadas.

O que leva o bandido a migrar para o crime?

Sobre isso, um apontamento que merece menção é a relativa menor importância das dificuldades econômicas (dificuldade financeira/endividamento; ajudar no orçamento familiar/estava desempregado) como causa de migração para o crime lucrativo. A pobreza e distribuição de renda foram itens que sequer apareceram para os pesquisados como causas para este tipo de crime. Fica a recomendação de que o reconhecimento dos motivos da migração para o ilícito econômico não precisa de dados fictícios para se sustentar e, pior, pode inverter premissas vitais para o combate do próprio crime. Em nossos trabalhos, o crime econômico foi cometido porque os benefícios financeiros foram bem superiores aos seus custos, sendo o tráfico de drogas, roubo e furto os delitos mais frequentes e motivados, principalmente, pela ideia de ganho fácil, cobiça, ambição e ganância.

O criminoso é uma vítima da sociedade?

É o contrário. A sociedade é que é vítima do criminoso!

Na concepção do bandido, qual a chance de sucesso de seu crime?

Em média, 95% a chance de sucesso de um delinquente no crime econômico. Alta demais, e o Brasil precisa combater isto. Porém, em nossos trabalhos, tivemos a revelação de que a longevidade desses delinquentes é muito baixa (25,5 anos, em média), haja vista morrerem cedo e quase sempre vitimados de forma violenta.

Quais os tipos de crimes que mais compensam financeiramente no Brasil?

O ganho médio do contrabando de cigarros equivale a 49,3% do ganho médio do tráfico, por exemplo. Mas o bandido raciocina sobre o benefício/custo e o risco também. Para ele, contrabando não dá cadeia (se for primário, poderá ter pena de prestação de serviços e/ou pecuniária), mas ganha menos. Por isto que muita gente tem ido para o contrabando de cigarros, por exemplo. Analisando o crime do colarinho branco, as cifras movimentadas nesta área são estratosféricas.

Qual a diferença entre o criminoso do colarinho branco e os demais?

As travas morais, como religião, família e educação, dos criminosos do colarinho branco, em média, não estão fragilizadas. Porém, a ideia de ganho fácil, cobiça, ambição e ganância é acima da média. A certeza da impunidade para os criminosos do colarinho branco é outra peculiaridade.

Como dissuadir a ação criminosa?

A balança dos incentivos e dissuasão está, lamentavelmente, favorável ao crime, pois as travas morais do delinqüente, que funcionam como “bússolas morais”, estão fragilizadas, como é o caso da Família-Escola-Religião. Há total desrespeito dos bandidos pelas Instituições polícia, poder judiciário, etc. A análise custo benefício, leis e punições brandas, entre outros, são incentivos às práticas da ilicitude; e, ainda, muitos desses criminosos dizem em nossas entrevistas que “Deus é brasileiro”, zombando até da Divindade maior. O que precisamos fazer? O custo moral decorrente do ato de se desrespeitar a lei deve ser alto - as travas morais devem ser robustas (Família-Escola-Religião: precisamos recuperar este tripé básico do desenvolvimento). Os custos não morais de planejamento e execução, custo de oportunidade, custo esperado de serem detidos e condenados devem ser altos - a dissuasão tem que funcionar. O Estado deve ser uma ameaça crível, as Instituições devem estar consolidadas e serem respeitadas. E Deus não deve ser brasileiro, Ele deve ser Justo e Perfeito.

Que tipo de benefícios a Operação Lava-Jato trouxe ao País?

Vou fazer um comparativo para esta resposta. Quando comecei a pesquisar economia do crime, há 21 anos atrás, aplicando questionários/entrevistas com os bandidos dentro de estabelecimentos penais, praticamente não encontrava qualquer corrupto preso para nossos estudos. Depois da Lava-Jato, este tipo de criminoso começou a aparecer nos estabelecimentos penais com uma frequência jamais vista. Eu considero a Lava-Jato um ponto de inflexão no combate ao crime no Brasil. O corrupto, assim como um traficante ou assaltante, não distingue princípios ou valores quando seu interesse pecuniário prevalece em um ato ilícito. Por esta e outras razões, o corrupto deve ter o mesmo crivo da lei.

O que falta para tornar o crime menos compensador no Brasil?

Exatamente a balança da dissuasão superar os incentivos. Mas para isso, é preciso de um bem articulado “Plano Real” de Combate à Criminalidade. Para tanto, precisará de uma equipe competente para trabalhar este norte, como foi com a equipe de economistas no Plano Real. E temos profissionais para isto, tenho conhecido muitos juízes, desembargadores, promotores, policiais de todas as classes, etc., com competência e expertise para esta finalidade. Precisamos, também, de um poder executivo, legislativo e judiciário imbuídos desse objetivo. Se o Brasil venceu uma inflação galopante, poderá vencer esta guerra contra o crime.

O criminoso empreendedor!

Mauro Salvo

Doutor em Economia, pesquisador em economia do crime, lavagem de dinheiro e financiamento do terrorismo,
Analista do Bacen, ex-vice-presidente do Corecon-RS

Corecon-RS Nº 5630

 

O que estuda a Economia do Crime?

A Teoria Econômica do Crime faz parte de uma escola de pensamento mais amplo, que é a Análise Econômica do Direito (AED), e advoga que o delinquente de crimes que tenham como objetivo a obtenção de ganhos econômicos, como corrupção, roubo, sequestro, tráfico de drogas, contrabando, lavagem de dinheiro, entre outros, age de maneira racional como qualquer outro agente econômico.

Por que a ciência econômica se envolveu com a teoria do crime?

A Ciência Econômica tem como objetivo estudar, analisar, compreender e explicar todos os fenômenos sociais e culturais. Portanto, o comportamento criminoso não poderia ser deixado de fora, visto que, infelizmente, tem ocupado cada vez mais espaço dentre as preocupações da população e de governantes, impactando sobremaneira o bem-estar de todos.

Como funciona o conceito de racionalidade do crime?

O economista Gary Stanley Becker, ganhador do Prêmio Nobel, desenvolveu importante teoria sustentando que a decisão de delinquir é racional, assim o delinquente pondera os possíveis benefícios econômicos do ato criminoso descontando os eventuais custos operacionais para o seu cometimento, a probabilidade de ser pego, e se pego o custo da punição. Outro raciocínio econômico feito pelo criminoso está relacionado com custo de oportunidade entre o ato delituoso e a atividade lícita.

O crime compensa no Brasil? Por que isso acontece?

Quando aplicamos o modelo de Becker ao Brasil, notamos que ele explica muito bem nosso elevado índice de criminalidade dos mais diversos tipos. Aqui, quem não tiver trava moral para o cometimento de ato delituoso encontrará boas oportunidades de retorno econômico em diversos tipos de crime, além de baixa probabilidade de detecção, e, quando detectado, a punição é branda e/ou demorada. Portanto, podemos concluir, com tristeza, que em nosso território o crime compensa, e muitas vezes compensa muito.

Qual a diferença entre o criminoso comum e o criminoso do colarinho branco?

Um dos pontos interessantes na Teoria Econômica do Crime é sua capacidade de explicar, tanto crimes econômicos comuns, como crimes conhecidos como de colarinho branco. De forma resumida, o crime de colarinho branco é aquele cometido por um agente sem restrições socioeconômicas, tais como diretores de grandes estatais, ministros, detentores de cargos eletivos, entre outros. Essa capacidade explicativa da teoria põe por terra o argumento de que seja a pobreza que induz à atividade criminosa. Pois, se assim fosse, não haveria crime de colarinho branco, cujos exemplos a operação Lava Jato nos forneceu muitos. Ou, alternativamente, todos os pobres seriam criminosos, o que está muito longe de ser verdadeiro.

Como investigar e dissuadir a atividade criminosa?

A teoria não somente explica por que há delinquência econômica, como, também, a mesma equação já aponta a solução. Em linhas gerais, se atualmente o benefício do cometimento do ato ilícito supera seu custo, então, para reduzir o índice de criminalidade, tem-se que inverter esta equação. Portanto, a solução seria reduzir o benefício do crime, aumentar o custo operacional de seu cometimento, aumentar a probabilidade de detecção e quando detectado aplicar punição exemplar e o mais célere possível.

Por que o combate e a fiscalização do crime é tão concentrado nas mãos do Poder Executivo?

O combate ao crime econômico também envolve o empenho dos três Poderes. São necessárias leis objetivas e efetivas que prevejam punições dissuasivas elaboradas pelo Legislativo. Assim, os órgãos do poder Executivo, sobre os quais cabe a maior parte das ações de combate e fiscalização, terão enforcement suficiente para monitorar, investigar, detectar e punir. Por fim, caberia ao Judiciário, no momento do julgamento e da dosimetria das penas, ter a compreensão da equação de Becker, para que a punição seja adequadamente dissuasiva.

 

Clique AQUI para acessar a Live, sobre este assunto, ocorrida no dia 14 de julho de 2020, numa promoção do Corecon-RS

Operações compromissadas, política monetária e pandemia

 

Roberto Balau Calazans
Economista, Agente Fiscal aposentado do Tesouro do Estado
Corecon-RS Nº 4155
 

 

Qual a importância das operações compromissadas para adoção da política monetária?

Segundo o próprio Banco Central, em sua Resolução nº 3.339/2006, são operações de curto prazo de venda à vista de títulos com compromisso de recompra, ou de compra à vista de títulos com compromisso de revenda em data futura, anterior ou igual à do vencimento dos títulos objetos da operação, remunerados ao preço de venda acrescida dos juros pactuados nos leilões. Os títulos negociados são considerados garantias dessas operações, sendo custodiados no Sistema Especial de Liquidação e Custódia (Selic), para o caso de títulos federais. A variação no saldo de operações de venda com compromisso de recompra reflete a execução da política monetária. Portanto, as operações compromissadas expressam a gestão da liquidez da economia exercida pelo BCB, estando separada da gestão da dívida pública em mercado administrada pelo Tesouro Nacional. Em termos práticos, as instituições financeiras e os investidores privados entregam suas reservas monetárias nas operações de venda de títulos federais no mercado secundário, realizadas pelo Banco Central, e este, por sua vez, garante, como lastro da operação, os títulos públicos com o compromisso de recompra dado pelo Banco Central.

Quanto esse tipo de operação representa no universo do PIB brasileiro?

Em 2006, elas representavam 3,2% do PIB e, em abril de 2020, atingiram 17,7%. Esse crescimento expressivo teve como um dos determinantes a compra de reservas cambiais a partir de 2006.

Qual a importância das reservas cambiais brasileira?

O Banco Central assumiu uma política cambial ativa, entre os anos de 2006-2012, de compra de divisas internacionais, gerando uma elevação do seu ativo patrimonial, juntamente, com as operações compromissadas. Nesse período, as reservas cambiais tiveram um incremento de US$ 320,2 bilhões. Em maio último, esse montante alcançou US$ 345,7 bilhões. Essa política visava criar uma proteção contra ataques especulativos a moeda nacional. Com a elevação da participação das reservas cambais no ativo do Banco Central, as oscilações da taxa de câmbio passaram a impactar nos resultados auferidos pela autoridade monetária. Em outras palavras, o valor de mercado desse ativo externo alterou sua participação relativa no ativo do balanço patrimonial, e os resultados, como lucros e perdas, auferidos pelo BCB, creditados em dinheiro ao Tesouro Nacional, passaram a ter significância para o financiamento implícito do Tesouro. A utilização do resultado do Banco Central para transferência em dinheiro para o Tesouro Nacional ocorreu a partir de 2008, sendo objeto de forte crítica quanto à sua prudência. Em 2019, tal prática foi revogada pela Lei n.º 13.820/2019. A nova lei voltou a exigir a constituição de reservas na apuração do resultado positivo do balanço semestral do Banco Central, observando-se que a equalização cambial (mantida) seria destinada à constituição dessa reserva.

Qual sua opinião sobre a venda de reservas internacionais?

A política de compra de reservas internacionais tem um elevado custo de manutenção. Em 2015, o colateral era de R$ 200 bilhões, segundo cálculo de vários economistas. Isto é, para manter um elevado volume de reservas, há um custo bem superior ao superávit médio gerado pelo setor público brasileiro, que chegou a cerca de R$ 85 bilhões, entre 2002-2013. Atualizando esse cálculo para 2019, o custo continua na ordem de R$ 110 bilhões, ajudado pela queda da significativa da taxa Selic. A venda de reservas cambiais exige algumas condições, como alerta o economista Pellegrini ao estudar o tema. Primeiro, é determinar o nível ótimo de reservas a serem mantidas. Segundo, é que sua venda deve ser feita de modo gradual e programado. Em momentos de fragilidade econômica, são necessários instrumentos adicionais como hedge a volatilidade cambial. Terceiro, é a taxa de câmbio da venda. Com desvalorização, o ganho cambial ajuda a superar o custo de carregamento das reservas internacionais. Na minha opinião, o assunto não deve ser descartado, todavia, é muito difícil determinar qual o cenário econômico que enfrentaremos adiante. E o volume de reserva protege a economia nacional contra o risco de ataques especulativos.

Quais os principais problemas da política macroeconômica adotada pelos últimos governos brasileiros?

Durante o século passado, fatos marcantes aconteceram em termos de política econômica, como as foram as iniciativas do governo central em emitir dívida mobiliária do Tesouro Nacional para fins de capitalização de bancos públicos, em especial o BNDES. O objetivo era conceder crédito subsidiado a determinadas empresas nacionais, além da opção pela acumulação de montantes significativos de reservas internacionais. Vários desacertos de política econômica, em especial no governo Dilma, encaminharam a maior recessão da história brasileira e a elevação da dívida bruta do governo e dos juros nominais a partir de 2014. Entre 2014 e 2019, o setor público brasileiro passou a incorrer em pesados déficits primários, e vários entes subnacionais aumentaram sua fragilidade financeira devido à queda acentuada de receitas primárias e à elevação de despesas primárias, em especial os estados com dívidas elevadas, como Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, entre outros. A implantação do teto de gasto, a Reforma Previdência e a queda significativa da taxa Selic, agora em 2,25% ao ano, representam a retomada do caminho da responsabilidade fiscal. A pandemia causada pelo coronavírus freou o ritmo de crescimento na economia que vinha acontecendo ao final de 2019.

Qual o caminho a seguir?

Após a pandemia, a recuperação da renda e do emprego passam a ser o objetivo da política econômica. Existem dois caminhos a seguir. Primeiro, seria uma saída bem conhecida, que é ampliar os gastos públicos e anular o teto de gastos, mas que traria, junto, o risco de dominância fiscal e expansão explosiva da dívida. O segundo é manter os gastos verificados com pandemia de forma temporária, retomando o ritmo de reformas estruturais e dando continuidade à queda dos juros nominais. Nesse sentido, será muito importante realizar a reforma tributária e obter receitas de privatizações, manter o teto de gasto, expandir os fundos complementares de previdência e reformular da renda mínima. Deveria ser incluída uma regra para a sustentabilidade fiscal, em especial para os governos subnacionais, definindo-a como a âncora da política fiscal de médio e longo prazo.

Qual a importância da responsabilidade fiscal, no momento em que se busca recuperar a economia?

Como já referi antes, a questão primordial agora é recuperar a renda e o emprego. O Auxílio Emergencial foi uma importante iniciativa para proteção social, e parece que o governo federal pretende aprimorá-lo, unificando vários programas sociais. Isso se coaduna bem com a doutrina liberal. Ainda que o déficit primário seja elevado em 2020, impõe-se manter a busca de sua redução mediante as reformas estruturais em debate no Congresso Nacional, em especial a Reforma Tributária. Há uma corrente que insiste em políticas de gastos sem levar em conta que o estado brasileiro está quebrado. A Lei de Responsabilidade Fiscal é uma conquista de finanças públicas e deve ser aprimorada mediante a criação de um conselho que coordene as políticas fiscais dos entes federados. A crise da pandemia tem demonstrado a necessidade de uma mínima coordenação fiscal entre os Poderes da República e as instâncias de controle.

 

Educação financeira sustentável para crianças  


Mariliane Chaves Caramão
Economista, Educadora financeira, Coordenadora do Projeto Repense
Corecon-RS Nº 8698


O que é o Projeto Repense?

É a adaptação da educação financeira a um projeto lúdico-pedagógico no nível pré-escolar. São oficinas, totalmente práticas, com atividades que constroem as bases para que a criança possa lidar com o dinheiro de forma saudável quando adulta. Ela experimenta a repercussão de planejar, economizar, poupar e realizar por meio de estímulos variados. Desenvolve um comportamento econômico que aprimora o bem-estar, melhora suas escolhas e a capacidade de adiar recompensas.

Por que é considerado um projeto de educação financeira sustentável?

O termo sustentável aqui envolve recursos monetários e naturais. O primeiro porque a estrutura financeira de “ganhar” mais do que gastar deve se prolongar no tempo. O segundo porque precisamos desenvolver um olhar de mais comprometimento com o meio ambiente, respeitando o limite dos recursos. A maneira de gerir ambos é apresentada através dos 5R’s. Eles entram como fator motivador e também de responsabilidade para comprometer com um consumo consciente. Só assim podemos pensar em desenvolvimento.

Que tipo de benefícios um projeto dessa natureza pode trazer para a sociedade como um todo? 

Educação financeira é conhecimento e conscientização sobre escolhas associadas à administração do dinheiro. Um método que vise apenas recursos monetários, vai focar sobretudo nas necessidades individuais. No entanto, se despertamos nas crianças, desde cedo, a mentalidade de interdependência, de que o individual influencia no coletivo, incentivando ações feitas propositalmente, é provável que o impacto macroeconômico seja maior, contribuindo para reduzir desigualdades.

Como iniciar a educação financeira com crianças já a partir de três anos de idade?

As fortes conexões neurais que se formam na infância são a base do desenvolvimento cognitivo. A partir da maturação da chamada função executiva, identificada pelo desenvolvimento da linguagem, as crianças estão aptas a compreender intencionalidade, comprometimento, prioridade, correlação. Então serão capazes de processar uma informação de forma significativa. No que se refere à psicologia econômica, Richard Thaler, entre outros estudiosos, explica operações mentais associadas à tomada de decisão. Dentro disso, é necessário trabalhar a capacidade emocional em tolerar sentimentos desagradáveis. Adiar a recompensa é uma habilidade necessária para concluir um planejamento, por exemplo. Então, as atividades que desenvolvem essa “musculatura” financeira são as indicadas.

 

De que forma a criança nessa idade pode exercitar a educação financeira?

Um bom exemplo seria o controle de pequenas quantias em dinheiro. Em tempos de distanciamento social, até gerenciar a carga de um eletrônico é um exercício. Tudo que envolva uma construção custo-benefício é válido. Preciso frisar, principalmente como mãe, que acredito que qualquer atividade a ser realizada deve respeitar o limite do entendimento da criança, e motivar, apresentando sugestões. No Repense, trago a economia circular, que é uma grande aposta para repensar o atual modelo de produção. Para os adultos pode ser ainda muito abstrato, mas, para crianças, é natural. 

Ainda falta muito para as escolas brasileiras terem a inclusão da educação financeira em seus currículos?  

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC), no processo de modernização, incluiu a educação financeira como tema transversal nos currículos de todas as escolas do país. Para o ensino fundamental, o prazo para implementação seria 2020. Para o ensino médio, até 2022. Tema transversal significa alinhar com as disciplinas tradicionais. Teoricamente, é muito bom e inclusive os livros que foram elaborados são de ótima qualidade. Porém, um entrave é a falta de um programa de formação dos professores. Se o professor realmente não praticar a educação financeira, então compromete o aprendizado do estudante, em função da falta de identificação.

Qual a importância da educação financeira para as famílias?

É de importância máxima. Os pais são os principais modelos para os filhos. Família financeiramente consciente consegue maior engajamento de todos na organização do orçamento e realiza mais. Sem educação financeira, as dificuldades desse relacionamento que envolve dinheiro residem na linguagem que se usa e na importância que se atribui. É comum a preocupação em dialogar que surja em momentos críticos e desapareça com a estabilidade. Nossa cultura não favorece ao entendimento do dinheiro como um meio para se alcançar o que deseja. Então gera muitos conflitos.

Como a educação financeira contribuiria nesses momentos de crise?

A orientação para planejar, não desperdiçar e consumir adequadamente é permanente. A questão de poupar já é mais recente, mas extremamente importante. Independentemente da renda, famílias que tempos atrás identificaram um motivo para poupar, tiveram uma flexibilidade agora. E isso reflete diretamente no comportamento diante da crise. Torna-se muito complicado ter que perceber estando endividado, inadimplente. Alguma reserva de dinheiro acaba preservando a saúde tanto física quanto emocional e permitindo escolhas melhores.

Como fazer para conhecer mais sobre o Projeto Repen$e?

Atualmente, temos um perfil no Instagram, @repense_educacao_financeira. Em breve, os interessados poderão também acessar o site repensekids.com.br

O que mais sugeres às pessoas que queiram conhecer melhor a educação financeira?

É interessante a quantidade de pessoas que despertaram para a educação financeira e buscam mais conhecimento. No entanto, a falta de regulamentação, aliado ao sentido de urgência pode induzir a erros. Alguns sites oficiais possuem cursos e vídeos com orientações básicas para iniciar.
Plataforma educacional do governo federal: https://www.escolavirtual.gov.br/catalogo#inicio-listagem-cursos
Curso: Gestão de Finanças Pessoais.
Vídeos da série “Eu e meu dinheiro”:
Eu vou levar - http://youtu.be/FdTip4SdWMw
Filhos da Mama - http://youtu.be/HQ2HZdJNhm8
Escola Nacional de Defesa do Consumidor: https://www.defesadoconsumidor.gov.br/escolanacional/
Curso: Educação Financeira para Consumidores
Plataforma vida e dinheiro - vinculada à Comissão de Valores Mobiliários http://ead.vidaedinheiro.org.br/

Curso: Finanças sem segredos

Do distanciamento social ao trabalho remoto

José Junior de Oliveira
Economista, presidente do Corecon-RS, vice-presidente da Associação dos Analistas e
Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais (Apimec-Sul), professor Universitário

Corecon-RS Nº 5500

Como iniciou a ideia do home-office com os servidores do Conselho, iniciada há alguns meses?

A ideia surgiu da necessidade de distanciamento social provocada pela pandemia do novo Coronavírus. A partir de meados de março de 2020, a situação estava presente e tínhamos que decidir por preservar a saúde dos servidores sem comprometer o andamento das atividades do Conselho, principalmente nesse período do ano que é onde entra a grande maioria de nossas receitas de anuidades e também novos economistas que estão se formando nas Universidades. Ou seja, nossos serviços não poderiam parar, mas teríamos que nos adaptar a essa nova realidade.

Como foi a receptividade por parte dos servidores?

A receptividade foi excelente, principalmente por considerarem que nosso intuito era, em primeiro lugar, preservar a saúde dos colaboradores, mas não poderíamos deixar de atender os economistas e dar continuidade nos trabalhos e isso foi muito bem entendido pela equipe.

O home office está conseguindo atender a todas as demandas dos economistas?

Aqui é importante destacar que essa situação que estamos vivendo fez, não somente o Conselho, mas todas as empresas, órgãos públicos e privados, repensarem a maneira de trabalhar. O Home Office não era a nossa realidade e isso não estava no radar, por isso não estávamos preparados para o teletrabalho. Agora, as atividades vêm sendo realizadas quase que totalmente de forma remota, com os colaboradores acessando o computador central direto de suas casas. Ainda existem algumas atividades, em torno de 5%, que ainda não podem ser realizadas de casa, o que irá ocorrer em seguida. Acredito, sim, que vem atendendo bem os economistas, mas é evidente que precisamos aprimorar. O que pode ocorrer ainda nesse momento de transição e de adaptação a essa nova realidade é demorarmos um pouco mais para atender a todas as solicitações, mas nosso objetivo é atender a todas as necessidades dos nossos colegas economistas e melhorar o atendimento conforme vamos nos adaptando.Ainda temos algumas atividades que necessitam ser realizadas fisicamente, mas o importante é que, gradativamente, estamos evoluindo para que tudo possa ser realizado remotamente. Evidente que isso envolve uma série de atitudes e investimentos a serem realizados, como em tecnologia de informação, segurança dos sistemas e disponibilidade dos servidores que acataram muito bem essa nova forma de trabalhar. Mas todas as demandas dos economistas estão sendo, e devem ser atendidas, desde que dentro do escopo de atuação do Conselho.

O que levou o Conselho a avançar para o trabalho remoto?

Inicialmente, como colocado acima, o que nos levou ao trabalho remoto foi a necessidade de fazer com que os servidores pudessem trabalhar, sem se exporem ao contágio da Covid-19. Então, a partir do bom andamento das atividades e de verificarmos que, em alguns casos aumentamos a produtividade e a eficiência do trabalho, conseguimos inclusive otimizar processos e repensar muitas tarefas que eram feitas de maneira menos produtiva e eficiente, entendemos que estamos obtendo ganhos.

O Corecon-RS tem sido pioneiro em uma série de iniciativas. Já participou de formaturas on-line, está promovendo reuniões-plenárias virtuais, as lives, trabalho remoto. Tudo, com resultados muito positivos. Qual o próximo passo, enquanto perdurar esse cenário de pandemia?

Bem, o que estamos conseguindo fazer é atuar para que o Conselho desempenhe seu verdadeiro papel, que é atender e estar do lado dos nossos colegas economistas para que se sintam acolhidos pela Entidade que os representa. Acredito que o grupo de colaboradores é excelente e absorveu a ideia dessa nova forma de trabalhar. Também não posso deixar de destacar o papel fundamental do nosso vice-presidente Aristóteles Galvão, que não tem medido esforços e dedicação para a Entidade, desde a idealização e atuação nos vídeos e lives, nas redes sociais e na parte administrativa do Corecon. Estamos buscando a cada dia ficar mais próximos das Universidades e dos novos e futuros economistas, pois eles serão o futuro da nossa profissão e do seu órgão de representação. Também, não posso deixar de destacar que os Conselheiros têm nos apoiado de forma incondicional nesses trabalhos que são de todos e para todos os economistas. Fomos pioneiros em muitas coisas e atuamos na crise para que o Conselho tenha o protagonismo necessário e desenvolva seu papel. Acredito que com o cenário que estamos vivendo, teremos muitos novos passos, pois estamos aprendendo a cada dia. Entendemos que a partir dessa pandemia trabalharemos de maneira diferente. O mundo não será mais o mesmo e precisaremos estar adaptados. Essa versatilidade que conseguimos apresentar deve nortear nossos próximos passos, que devem seguir na linha de melhorar o acesso aoConselho e serviços para os economistas através da web (site), redes sociais e canais que possibilitem nos aproximarmos cada vez mais dos economistas, que são a razão de existir do Corecon-RS.

Reservas brasileiras em cenário de pandemia


Fábio Pesavento
Economista, professor da ESPM
Corecon-RS Nº 6562

 

 

Como está se comportando a balança comercial do Brasil neste cenário de pandemia?

Os efeitos da crise econômica causada pela pandemia do Covid-19 levaram os agentes econômicos a uma profunda revisão de suas estimativas para o desempenho da economia em 2020. Os primeiros sinais da intensidade do impacto do distanciamento social sobre a atividade econômica são visíveis e preocupantes. O Fundo Monetário Internacional (FMI), por exemplo, aponta uma queda de 11% no comércio internacional. No Brasil não será diferente e, para piorar, o preço dos principais produtos que o Brasil exporta (commodities) estão caindo em função da projeção de uma demanda global menor ao longo deste ano. A boa notícia vem do câmbio que tende a ficar desvalorizado, compensando parte do arrefecimento no preço de produtos importantes na nossa pauta de exportação. O volume exportado até o final de maio está bom, contudo, o preço mais baixo acaba reduzindo o valor das exportações brasileiras. Apesar disso, a balança comercial deve fechar o ano positiva, na medida em que a queda nas exportações será menor que o tombo das importações (que está sentindo a forte retração da atividade econômica interna). Esse movimento já pôde ser visto em abril e maio, e deve prosseguir no curto prazo.

O que nos aguarda no mundo pós pandemia com a guerra comercial entre EUA x China?

Quando os efeitos do isolamento arrefecerem, um ponto importante, e que estava interferindo antes do Covid-19 na nossa pauta externa, será a guerra comercial entre EUA e China, que voltará ao debate. Temporariamente interrompido pela Covid-19, sua retomada pode prejudicar o fluxo de comércio em função da ampliação do protecionismo. Em resumo, o câmbio tende a continuar beneficiando as exportações, por outro lado, a expressiva retração da economia mundial e o possível aumento de medidas de restrição ao comércio, podem prejudicar nosso desempenho comercial externo no curto e médio prazo. Esse cenário fica menos animador quando observamos os desdobramentos de uma política externa que foge do padrão que quase sempre foi adotado pelo Brasil. É o tempero final, com gosto amargo, que pode colocar em xeque as relações com a China, além de prejudicar o andamento de acordos comerciais não finalizados, como o do Mercosul com a União Europeia.

Qual a importância das reservas especialmente neste momento de pandemia?

O Brasil é um dos poucos países em desenvolvimento que dispõem de um patamar confortável de reservas internacionais. Isso representa um custo que temos que ‘carregar’, porém neste momento de grande instabilidade e de queda no ingresso de divisas, possuir a capacidade de disponibilizar um aumento na oferta de moeda estrangeira no mercado doméstico é de fundamental importância. Esse movimento pôde ser percebido nos últimos meses pelo Banco Central do Brasil, que veio atuando, depois de muito tempo, no mercado à vista, auxiliando na contenção de uma desvalorização mais acentuada do Real. De todo modo, sabemos da saída significativa dos investimentos em portfólio, que em 12 meses encerrados em abril, acumulamos perdas de mais de US$ 49 bilhões, e da perspectiva de redução do fluxo de investimento direto para o Brasil em 2020.

Por que essa mudança tão repentina no comportamento das reservas?

Um ponto importante para entendermos o motivo da redução no volume do ingresso de divisas no país em 2020 é o atual diferencial de juros. Tradicionalmente, o país tinha uma diferença significativa entre os juros domésticos com as taxas praticadas nas economias centrais, dos Estados Unidos, em especial. Contudo, implementamos uma agenda de controle de gastos que permitiu a estabilização da dívida pública, possibilitando uma redução mais agressiva da taxa de juros Selic. Além disso, temos uma perspectiva deflacionista para a economia brasileira, que abre espaço para uma nova redução da Selic, sinalizando uma taxa de juros que deve permanecer em seu piso nominal histórico. Para finalizar, temos um risco país que cresceu nos últimos meses e a perspectiva de crescimento da dívida pública. Fica nítido que o investidor estrangeiro está mais desconfiado em direcionar seus recursos para o Brasil, associado a um ambiente de prolongamento da crise da economia brasileira. Nesse sentido, a tendência é de queda na entrada de investimento em portfólio e direto. Mais um motivo para entendermos a importância de possuirmos um nível elevado de reservas. Em resumo, a tendência das reservas internacionais do Brasil é de diminuir em função dos movimentos que prejudicam o ingresso de divisas no país em 2020.

Qual deverá ser o tamanho dessas perdas?

Vai depender da melhora da atividade econômica mundial e brasileira, no andamento de uma vacina para a Covid-19, da continuidade de medidas anticíclicas implementadas pelas principais economias e seus bancos centrais e pela disponibilidade do mercado doméstico em financiar nossa dívida com trajetória crescente.

Que setores da economia brasileira poderão ser mais beneficiados?

Pontualmente, alguns segmentos da economia brasileira serão beneficiados pela crise. Por exemplo, a indústria de álcool gel, equipamento de proteção individual, plástica e papel ondulado, equipamentos e acessórios hospitalares e o varejo de bens de consumo não duráveis, especialmente os essenciais. De todo modo, esses resultados não são significativos no conjunto da economia e, para piorar, são impactos de curto prazo e que não terão uma continuidade em função da forte retração que vai acontecer com a renda e expectativas.

O agronegócio não pode mudar esse cenário?

Mesmo o agronegócio está sentido os impactos adversos da crise provocada pelo Covid-19. Existe um visível esforço empresarial para contornar as dificuldades impostas pelo distanciamento controlado, mas ele não é suficiente para fazer frente ao tombo das expectativas dos consumidores sinalizando um resto de 2020 muito difícil. Não por acaso, os resultados do produto interno bruto (PIB) para o primeiro trimestre do presente ano já apontam uma forte queda no consumo das famílias.

 

Desafios do sistema de saúde em cenário de pandemia

 

Gisele Teixeira Braun
Economista do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID),
especialista em Economia da Saúde e desenvolvimento econômico


Como a Economia da Saúde pode contribuir para a construção de políticas públicas de combate às pandemias?

O sector da saúde ocupa um espaço cada vez maior na economia dos países desenvolvidos, quer em termos de consumo de recursos globais, quer em termos de despesa pública, o que serviu de base para a especialização de muitos economistas na área da saúde. Conceitualmente, a incerteza relativa ao momento e ao montante da despesa em cuidados de saúde e, socialmente, as externalidades positivas associadas aos cuidados de saúde justificam a existência de sistemas de transferência de risco, assim como a participação do Estado no seu financiamento. Os sistemas de saúde são complexos, envolvem agentes com objetivos distintos e implicam a tomada de decisão em contextos de informação geralmente assimétrica. E são exatamente as internalizações dos elementos de incerteza, das externalidades positivas e negativas e da assimetria de informação no desenho de políticas públicas, em particular para o combate das pandemias, que a economia da saúde pode contribuir a construção de políticas mais eficientes.

De que forma pode vir uma contribuição mais efetiva da Economia da Saúde?

Há exemplos bastante atuais, onde a economia da saúde teria uma palavra colaborativa. Por exemplo, na decisão relativa à retomada da atividade económica em um contexto sem vacina para evitar o contágio por coronavírus. Deve-se recomendar a retomada das atividades socias incluindo toda a população? Ou fazer uma retomada gradual, isolando grupos vulneráveis em um primeiro momento? Dada a eventual descoberta de uma vacina para evitar a Covid-19, cabe a partilha geral dos custos da mesma para toda a população, isto é, deve-se utilizar receitas públicas para a imunização da população? Dadas as externalidades positivas da imunização e os custos associados ao tratamento de um paciente, justificar-se-á a despesa pública em função do custo da vacina em relação aos benefícios potenciais. E assim como estas, os gestores de políticas públicas veem-se rotineiramente confrontados com a elaboração de políticas públicas que requerem o entendimento da economia da saúde como parte para um desenho ótimo da política.

Como vêm se comportando os gastos do setor público brasileiro com a saúde?

Em nível agregado, e face à capacidade de pagamento da economia, a despesa total no Brasil é semelhante àquela realizada na média de países da OCDE. No entanto, a composição desta despesa é bastante diferente, tendo a despesa privada um peso maior no Brasil. Haja vista o princípio de cobertura universal do Sistema Único de Saúde e o seu financiamento realizado por impostos gerais, uma despesa privada de aproximadamente 57% da despesa total, em um contexto onde o “opting out” do sistema público não é factível, reflete uma incapacidade de cobertura universal efetiva por parte do sistema público, seja por limitação da produção de cuidados, pelo seu preço (tempo de espera, no caso público) ou ainda pela qualidade percebida pelos usuários. No período de 2010 a 2017, a despesa de saúde aumentou de 8,0% para 9,2% do produto interno bruto (PIB). Em 2017, o consumo final de bens e serviços de saúde no Brasil atingiu R$ 608 bilhões. Desse total, R$ 254 bilhões (3,9% do PIB) foram despesas de consumo do governo e R$ 355 bilhões (5,4% do PIB) despesas de famílias. No mesmo ano, a despesa com consumo per capita das famílias alcançou R$ 1.715 enquanto as despesas do consumo per capita do governo foram de R$ 1.227. A principal despesa das famílias com saúde foram os serviços de saúde privada (67%) e gastos com medicamentos (30%). Em 2010 o valor adicionado bruto das atividades de saúde representava 6,1% (R$ 202 bilhões) no total da economia, passando para 7,6% do total (R$ 429,2 bilhões) em 2017. O maior aumento de participação ocorreu na atividade de saúde privada, que passou de 2,1% do valor adicionado bruto total da economia, em 2010, para 3,0%, em 2017.

É importante a integração dos sistemas público e privado neste momento de crise? 

Os sistemas de saúde estabelecidos nos diferentes países resultam da interação de um conjunto de elementos, especialmente nos âmbitos da população coberta e dos serviços incluídos, das fontes de financiamento e disponibilização dos recursos, bem como da organização da oferta e prestação dos serviços. O modo de financiamento e o tipo de provisão são características importantes que os diferenciam e que, em ambos os casos, percorrem uma escala ampla: desde o predominantemente público ao predominantemente privado. Todos têm associada uma componente assistencial tanto mais relevante quanto menor a abrangência da componente pública. Embora seja muito difícil, se não impossível, encontrar sistemas de saúde idênticos em diferentes países, é possível classificá-los por grandes grupos de características. Não há evidência na literatura que permita concluir definitivamente quanto à superioridade de um sistema de saúde sobre outro, apesar de ser cada vez mais comum a existência de avaliações dos sistemas de saúde e a consequente atribuição de um valor. E uma das características que se ressalta é a determinação objetiva das responsabilidades e complementaridades de cada uma das esferas.

Quais os maiores desafios para o sistema no Brasil?

No Reino Unido, por exemplo, a prestação dos cuidados de saúde na rede de atenção básica é realizada por agentes privados, ainda que o seu financiamento seja realizado por meio de impostos gerais, enquanto que a rede hospitalar tem prestação pública. Quanto ao sistema de saúde no Brasil, há um grande desafio inicial de começar o debate sobre a repartição organizada da prestação de cuidados de saúde, a fim de evitar uma competição por preço que diminua a qualidade dos serviços, e um compartilhamento de riscos e despesas desigual entre as esferas. Das experiências internacionais, sabe-se que o debate é propício para disputas ideológicas e, por esta razão, deve-se ter o cuidado de mantê-lo no campo técnico, considerando as necessidades de cuidados de saúde dos brasileiros, a capacidade de pagamento da população e do Estado e o arcabouço institucional. O setor da saúde como um todo, incluindo as suas componentes pública e privada, tem um papel fundamental para o sucesso da resposta à pandemia. No entanto, a competição não-regulamentada entre os dois subsetores pode culminar em resultados subótimos, em termos de quantidade e de qualidade dos serviços oferecidos. Neste momento, a aproximação dos dois subsetores para a coordenação da oferta de cuidados tem sido fundamental para atender à demanda excessiva derivada da crise do coronavírus: observa-se que alguns estados da Federação têm contratado leitos privados, o que é uma primeira aproximação. Aproveitando esta percepção colaborativa imediata, passada a fase aguda da crise, julgo que estão criadas as condições para início do diálogo de integração, o qual se deve basear no compartilhamento dos riscos financeiros que maximize os resultados em saúde.

O sistema público de saúde brasileiro está sendo eficiente no enfrentamento da pandemia?

Ainda é cedo para realizar uma avaliação de desempenho do sistema público de saúde brasileiro no combate à pandemia. Além disso, o estado de saúde da população anterior à pandemia, o qual é influenciado por diversos fatores, importa no desempenho. Até o momento, observo que os hospitais têm sido capaz de dar respostas, sendo poucos os estados brasileiros que reportam utilização de camas de cuidados intensivos acima dos 90%. Outro elemento de política pública, importante tem sido os sistemas de controle da propagação do coronavirus, com políticas informativas para a população, assim como meios alternativos de contato com os pacientes. O SUS criou canais de comunicação importantes e têm expandido a telessaúde, um instrumento importante para que a cobertura universal seja efetiva, em particular para usuários com limitações de mobilidade e para aquelas populações que vivem em áreas remotas, onde a infraestrutura instalada e presença física de profissionais de saúde é escassa.

Qual a importância do setor privado na contenção da pandemia?

Haja vista o comentado em resposta anterior, e dada a estructura atual do sistema de saúde no Brasil, vejo que o setor privado está a cumprir um papel importante no incremento da oferta de cuidados de saúde e/ou no fornecimento de meios de produção para que o setor público, o qual tem a responsabilidade (neste momento e dadas as regras vigentes) de proteger a saúde da população de modo independente do setor privado. É importante lembrar que o setor privado, dentro das suas competências, tem uma papel suplementar na prestação de cuidados de saúde. Mesmo assim, o setor privado tem tido uma contribuição superior ao do público ao valor adicionado bruto no total da economia. Portanto, na minha interpretação, seria fundamental entender a origem deste crescimento, se está baseado em maior produtividade ou em falhas de mercado, e a seguir promover as reformas institucionais necessárias para se ter um crescimento semelhante da componente pública.

Uma nova agenda global


Paulo de Tarso Pinheiro Machado

Economista, MSc em Agronegócios, PÓS-MBA em Governança Corporativa e Riscos
Corecon-RS Nº 3639

 

Qual o tamanho dos estragos na economia mundial decorrentes da crise gerada pela Covid-19?

A pandemia da Covid-19 caracteriza-se como uma crise sanitária, portanto, distinta de crises anteriores, como a da Grande Depressão, em 1929, do petróleo, em 1973 e 1979, e do sistema financeiro norte-americano, de 2008 a 2009, considerando que aquelas foram crises cíclicas e endógenas ao funcionamento do sistema econômico. Quanto aos seus impactos, em nível global, a pandemia atingiu mais de 150 países no mundo, gerando um expressivo contingente de pessoas infectadas, ceifando vidas, bem como disseminando fortes impactos à economia global. Os impactos mais expressivos na economia mundial, ainda estimados, estão a indicar que a paralização da economia global atingiu 50% do PIB mundial, segundo a consultoria inglesa Oxford Economics, excluindo a China que retomou sua atividade mais cedo em relação a outros países. O Fundo Monetário Internacional (FMI) prevê que a economia mundial experimente o pior desempenho desde a Grande Depressão, observando que o PIB mundial deva recuar 3% diante de uma projeção anterior de crescimento de 3,3%.

E os efeitos dessa crise na América Latina?
A Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), uma das cinco comissões regionais das Nações Unidas para o desenvolvimento da América Latina e do Caribe, antevê sob forte desalento, o baque que esta crise sanitária provocará em uma região sempre exposta aos vaivéns das matérias-primas, da manufatura, do turismo e das remessas, diante da “freada brusca” da atividade econômica em escala global. O choque será particularmente forte em uma métrica-chave do desenvolvimento social, a pobreza extrema. Segundo os dados do organismo, se o avanço da pandemia provocar uma queda de 5% na renda média da população ativa, o número de latino-americanos em extrema pobreza passará dos 67,5 milhões atuais para 82 milhões. Se a diminuição da renda da população economicamente ativa for de 10%, o número disparará para 90 milhões de pessoas, ou seja, 22 milhões de pessoas a mais em relação ao número atual. No plano macroeconômico, a Cepal prevê um golpe múltiplo para a América Latina, basicamente através de seis eixos: diminuição da atividade econômica em seus principais parceiros, Estados Unidos, Europa e China, barateamento das matérias-primas, interrupção das cadeias globais de valor, menor atividade turística, redução das remessas e intensificação da aversão ao risco nos mercados mundiais.

De forma geral, o que esses órgãos estão estimando para o Brasil?
O FMI também estima queda de 5,3% na atividade econômica brasileira em 2020 cotejada com a projeção anterior que apontava crescimento de 2,2% no PIB. O Fundo calcula que a taxa de desemprego do país vai alcançar 14,7% no ano. Outra tendência de impacto expressivo é a grande desmobilização no segmento de micro e pequenas empresas (MPEs), onde estimativas preliminares apontam que até o último mês de abril, mais de 70% do faturamento deste grupamento foi afetado, podendo ser maior ainda caso a pandemia se prolongue até a metade deste ano. A pandemia da Covid-19 representa a postergação para o tão necessário e desejado processo de retomada do crescimento do PIB brasileiro, onde a expansão da atividade econômica, o nível de ocupação, cuja a tendência é de um aumento inevitável da taxa de desocupação e no número de desalentados, e a capacidade de investimento tendem a ser fortemente impactados pelos efeitos da crise pandêmica. Diante deste panorama é possível antever que os efeitos econômicos não serão de curta duração e que seus impactos poderão trazer prejuízos irreversíveis a estrutura econômica mundial e brasileira.

O que fica, dessa crise, de positivo para países em desenvolvimento?
Em que pese todos os efeitos deletérios à vida da humanidade gerados pela pandemia da Covid-19, a mesma poderá se caracterizar como um aspecto “acelerador de futuros”, pelo fato de antecipar e acelerar mudanças que já estavam em curso, como o trabalho remoto, a educação à distância, a busca por sustentabilidade e a cobrança, por parte da sociedade, para que governos, organizações e empresas sejam mais responsáveis do ponto de vista social. Proporcionará, ainda, uma reflexão e revisão dos atuais Modelos Econômicos e de Governança Global, a fim de acelerar o processo de recuperação e retomada da normalidade econômica e social do planeta. Nesse sentido, a predição da professora e futurista Amy Webb, da Escola de Negócios da Universidade de Nova York, sintetiza que “a vida depois do vírus será diferente”, onde “teremos uma escolha a fazer: queremos confrontar crenças e fazer mudanças significativas para o futuro ou simplesmente preservar o status quo?”

O que muda no cenário internacional no período pós-pandemia?
A pandemia alerta e impacta a governança global, sobre uma maior atenção à integração das ações comunitárias e a capacidade do Estado, em especial, no papel central dos estados-nação e das cidades como primeiros socorristas. A Covid-19 traz evidências, como a reintrodução do debate sobre o papel do Estado diante de uma crise sanitária, onde a cidadania recorre diretamente aos governos - e não ao setor privado - gerando expectativas, insegurança e desconfiança sobre a capacidade de atendimento dos mesmos. Isso, no Brasil, agravou-se, gerando tensionamentos políticos e administrativos entre o Governo Federal e os Estados e Municípios, os quais procuraram seguir critérios científicos e técnicos para tentar proteger seus cidadãos. Da mesma forma, apontou as falhas globais de cooperação e a capacidade de respostas internacionais e regionais diante do grau de deterioração do multilateralismo, anterior à pandemia, que implica em um elevado custo econômico e social.

Estamos caminhando para uma nova agenda global?
Embora ainda não seja possível pautar que mudanças poderão ocorrer, existe algumas crenças otimistas, difusas e compartilhadas por analistas internacionais de que poderá haver um "boom" econômico pós-coronavírus, embora ninguém saiba dizer quando e a que custo. Por sua vez, uma corrente com uma visão menos otimista destaca os entraves e demandas para uma possível reconfiguração da ordem econômica mundial depois de passada a crise. No entanto, a agenda global pós-crise da Covid-19 deverá conter, entre outros, pontos de pauta anteriores e novos a crise, tais como o acirramento da guerra comercial entre EUA e China, com desdobramentos decorrentes das idiossincrasias de Washington e Pequim, cujos efeitos podem reconfigurar a estrutura das cadeias de abastecimento espalhadas pelo mundo, a partir da narrativa do Presidente dos EUA, Donald Trump, afirmando que “We will need to do things at home” (“Precisaremos fazer as coisas em casa"), ao declaração expressa na reativação do Defense Production Act (Ato de Defesa da Produção dos EUA - abril de 2020), tema que, também, desperta interesse marginal da Inglaterra; maior frequência de comportamentos protecionistas, face aos problemas gerados pela pandemia; a agenda de reorganização da União Europeia após a saída da Inglaterra com as preocupações econômicas da Itália e Espanha; a reorientação da governança global para uma atuação mais ativa, assertiva na mediação de conflitos internacionais com o apoio de seus organismos multilaterais; esforço da China em demonstrar para a percepção global, maior protagonismo humanitário pós-crise, junto a OMS, valendo-se do vácuo promovido pela renúncia colaborativa e financeira dos EUA ao organismo.

Até que ponto a China sai ainda mais fortalecida dessa crise?
O surto afetou a China num momento delicado para sua economia, cujos danos impactam, fortemente, seus indicadores de consumo e atividade econômica. A economia chinesa, antes da pandemia, já experimentava um período de desaceleração e os efeitos causados pela pandemia da Covid-19 registraram a primeira contração em quase 30 anos, tendo o PIB chinês desabado 6,8% no 1º trimestre de 2020, na comparação com o mesmo período do ano passado. A disseminação do surto de coronavírus e as rigorosas medidas de quarentena impostas para contê-lo, bem como o menor consumo de empresas e indivíduos, levantam dúvidas sobre a força de uma possível recuperação. Os dados da atividade econômica mundial sinalizaram recentemente uma recuperação moderada, graças ao fato de que a primeira fase do acordo comercial entre a China e os EUA foi mais ampla do que o esperado. Entretanto, a China, como a segunda maior economia do mundo, elevada capacidade de investimento e, grande centro de produção e suprimento das cadeias globais, deverá observar uma recuperação gradativa na sua atividade econômica, em função da sua magnitude, mas principalmente pelo abalo a demanda agregada. Mesmo que o País tenha uma pequena vantagem competitiva pelo fato de ter encerrado a crise pandêmica mais cedo, em relação a outros países, a demanda doméstica levará algum tempo para normalizar, visto que o consumo relacionado aos agrupamentos sociais ficou contido, bem como a demanda externa foi prejudicada pela disseminação externa do surto.

Como fica a disputa pela hegemonia mundial, especialmente entre EUA e China?
Sob o enfoque geopolítico, EUA e a China se tem, reciprocamente, como adversários estratégicos, sendo que nos últimos anos cresceu a competição entre os dois países pela hegemonia global. Os EUA, com políticas de isolamento e ampliação de ações confrontacionistas, protecionistas, nacionalistas e xenófobas, que dificultam a interdependência dos países, como ocorre com a globalização. A China desenvolve uma política agressiva com a expansão e consolidação das suas relações de comércio externo com o resto do mundo. Esta nova faceta de uma “guerra fria” econômica, propõe uma nova fase da confrontação, evidenciada por iniciativas chinesas como a Rota da Seda, pela competição nas redes 5G e, de parte americana, por conflitos sobre propriedade intelectual e inovações tecnológicas.

E onde o Brasil entra, nessa disputa?
A economia brasileira, desde 2015, vem submetida a um desempenho crítico expresso no comportamento do seu PIB, tendo apresentado, no período 2015-2019, taxa média de crescimento negativa de 0,9 % ao ano, em relação à ocupação. Embora tivesse havido um declínio, o Brasil vem experimentando uma elevada taxa de desemprego de 11,2%, segundo dados de fevereiro, do IBGE, o que corresponde a 12 milhões de pessoas e, somados a 11,6 milhões de empregados sem carteira assinada e 24,2 milhões são trabalhadores por conta própria, o que contribui para a queda da massa salarial e da renda média do trabalho. Ainda neste cenário sombrio, o País registra uma das piores trajetórias das taxas de investimento da economia na última década. O Brasil apresentou uma taxa de investimentos média durante o período 2010-2014, de 20,5% do PIB. Porém, com a recessão que se iniciou no segundo trimestre de 2014 e foi até o fim de 2016, a taxa de investimento desabou, sendo de 15,5% no primeiro trimestre de 2019, portanto 5% menor que a média do período 2010-2014. Foram quatro anos, de 2014-2017, de queda real dos investimentos.

Até que ponto as medidas que vinham sendo tomadas pelo governo federal para recuperação da economia antes da crise se refletem positivamente para o enfrentamento deste atual momento?
Antes da Covid-19 chegar ao Brasil, o Governo Federal, com o objetivo de retomar o crescimento, vinha buscando implementar uma agenda de ajustes necessários, entre os quais o controle dos gastos públicos para a obtenção do equilíbrio fiscal, o encaminhamento, ao final de 2019 ao Senado, de uma proposta de emenda à constituição do Pacto Federativo (PEC 188/2019), visando direcionar aos estados e municípios até R$ 400 bilhões em 15 anos, e propondo uma flexibilização orçamentária para “desengessar” a gestão pública através das contas do Tesouro as quais, 67% das despesas primárias da União são indexadas. A PEC proposta pelo Governo tem como foco descentralizar, desindexar e desvincular o orçamento e como resultado reestruturar o pacto federativo. Com a chegada da pandemia, o Governo teve que reorientar sua estratégia ao liberar, no início de abril, cerca de R$ 200 bilhões em medidas para socorrer trabalhadores e empresas e ajudar estados e municípios no enfrentamento aos efeitos da crise provocada pela pandemia do novo coronavírus. O Governo Federal, também, transferiu R$ 16 bilhões para os fundos de participação dos estados e dos municípios, para reforçar os sistemas de saúde e segurança. Com todo este cenário o Brasil deverá ter, no pós-pandemia, muitos obstáculos para se recuperar economicamente devido ao agravamento das condições de setores como o comércio, serviços, turismo e, alguns segmentos da indústria. Perspectivamente, o setor externo onde o agronegócio brasileiro tem forte competitividade, a partir de um provável acirramento da guerra comercial entre China e EUA, a qual gerou oportunidades para o Brasil em 2018 com o crescimento das exportações brasileiras para a China em 35% na comparação com 2017, gerando uma balança comercial positiva para o Brasil em US$ 30 bilhões.

A atual crise está provocando mudanças na concepção de investimentos?
A pandemia da Covid-19, embora se caracterize como uma crise de natureza sanitária, em termos econômicos tem o mesmo efeito de uma guerra, onde a mobilização é intensa e exige a intervenção maciça do Estado na economia para impulsionar os esforços de combate, neste caso, pela saúde e preservação das vidas. Nos casos de crises originadas por guerras, com proporções ampliadas, às quais tiveram seus efeitos disseminados ao mundo inteiro, resultaram em medidas adotadas pelos governos, voltadas ao aumento de impostos para pagar seus custos e controlar a inflação decorrente da assimetria entre a demanda e a escassez de estoques. Essa dinâmica, por vezes, gerou a retomada do emprego com a melhoria na taxa de ocupação e aumento da massa salarial, bem como um redirecionamento nos investimentos para a reconstrução econômica dos países afetados. Agrega-se a isso, a constatação de que a experiência compartilhada, de medo, mortes, racionamento e estar sob ataque, provocou uma mudança de atitude dos agentes econômicos no sentido de haver mais apoio no pós-guerra a políticas de redistribuição de renda. Esta dinâmica, observada logo após a Segunda Guerra Mundial, levou o Ocidente a estimular maciços investimentos em saúde pública, educação, previdência e uma rede de proteção culminando no desenvolvimento de um Estado de Bem-Estar Social. No caso dos efeitos da Covid-19, os países afetados e seus Bancos Centrais promoveram “pacotes” econômicos, como forma de compensar os impactos da pandemia através de medidas e instrumentos fiscais voltados ao combate do vírus, bem como assistir segmentos sociais pela perda de renda, como foi o caso do Brasil. Tais medidas foram importantes para corrigir alguns problemas imediatos na Renda Fixa, visto que mercado passou a apresentar alta volatilidade e preços com pouca referência devido à falta de liquidez. Nesse sentido, alguns Bancos Centrais passaram a prover a necessária liquidez à Renda Fixa, em busca do retorno à normalidade dos preços destes ativos.

Mas essas medidas certamente trarão impactos ali na frente?
Como decorrência, face à magnitude das medidas adotas, deverá ocorrer um aumento do endividamento público, como forma de financiar esse esforço. No caso das economias emergentes, estas podem ter um rebaixamento de seu risco-país, uma vez que a demanda por seus títulos de crédito não é tão alta e recorrente quanto a das economias desenvolvidas. Sob a ótica dos investimentos, todo este contexto aponta para um cenário de incertezas, onde poderá ocorrer, desde a priorização de títulos de países desenvolvidos em setores não cíclicos e papeis do tipo investment grade em empresas de tecnologia, energia elétrica, farmacêuticos e supermercados. Por sua vez, setores que foram fortemente impactados pela crise, como aéreo, turismo, petróleo, automotivo, varejo e de químicos, podem se caracterizar como investimentos atrativos a partir da necessidade de sua recuperação e de capital. Entre as expectativas do cenário pós-pandemia, o mundo deverá estar com a atenção voltada para os movimentos de retomada econômica pela China e pelos EUA, cujos desdobramentos deverão ter papel decisivo no cenário econômico e no rumo dos investimentos.

 

Finanças públicas no pós-pandemia

Darcy Francisco Carvalho dos Santos

Economista, especialista em finanças públicas,
ex-vice-presidente do Corecon-RS
Corecon-RS Nº  3755


 

Quais são os principais desafios dos gestores públicos no mundo pós-pandemia?

Serão o enfrentamento da queda da receita e, paralelamente, o desgaste político, por não poderem atender às reinvindicações dos servidores e às demandas da sociedade. A receita pública acompanha a economia que, por mais que cresça, deve ficar abaixo dos patamares alcançados antes da crise.

Como estarão os caixas de Estados e municípios depois que a crise passar?

Não esqueçamos que todos os entes federados vêm de uma crise histórica, que foi acentuada com a recessão a partir de 2014. A economia, que estava dando timidamente os primeiros sinais da recuperação, sentiu esse enorme baque do coronavírus. Isso aumentará os déficits e o endividamento, deixando todos os entes com grandes problemas de caixa. O Estado do Rio de Janeiro, que tinha um déficit previsto de R$ 10 bilhões, o que já era um exagero, deve ter R$ 25 bilhões, segundo previsões. Estados, como Rio Grande do Sul e Minas Gerais, terão enormes déficits, mesmo sem pagar as dívidas. Para amenizar a situação, a União está repassando R$ 60 bilhões a estados e municípios e suspendendo o pagamento das dívidas em montante igual. Os Estados receberão R$ 37 bilhões e os municípios, R$ 23 bilhões, em dinheiro vivo. Será uma ajuda por quatro meses. O grande desafio será, se após esse prazo, a economia não se reerguer. Diga-se de passagem que a União está repassando o que não tem. Em função disso, a dívida pública poderá se aproximar de 100% do PIB, e o déficit fiscal neste ano deve ir além de 12% do PIB, um dos maiores do mundo. O desemprego poderá alcançar os assustadores índices de 17 a 19%, reduzindo a demanda por produtos e serviços com reflexo direto na arrecadação.

Quais as principais medidas a serem adotadas pelos gestores públicos, para amenizar os efeitos da crise no futuro próximo?

No futuro próximo, os gestores terão que reduzir despesa, porque a receita dependerá do crescimento econômico que, como foi referido, não deve ir além do que era antes da crise, quando já havia muita carência de recursos. Pelo lado da receita, a saída principal é o crescimento econômico. Com pouco recurso, os governos devem fazer parcerias ou concessões ao setor privado, não interessando que sejam nacionais ou estrangeiros. E a grande saída é aplicar na infraestrutura, gerando renda e emprego e, com isso, reduzindo nosso déficit de logística, um dos principais empecilhos à nossa competitividade.

Quais as principais lições que ficam com essa crise?

Precisou uma crise dessa dimensão para vermos que estávamos errados, dispendendo grande parte da arrecadação em folha de pagamento. As reformas da previdência tiveram sua necessidade negada pelas corporações e sempre foram desidratadas pelos parlamentares, por desconhecerem o assunto ou pela busca do voto fácil. Os principais estados despendem mais de 70% com a folha, e a solução encontrada pelos tribunais de contas foi retirar 15% do cômputo da despesa com pessoal, de tal forma que o limite de 60% passou para 75%, fazendo com que o saldo remanescente não cobrisse os demais gastos. A União despende 80% da receita líquida com seguridade social. Deve ser destacado também o alto montante de desonerações fiscais, na ordem de R$ 304 bilhões, ou 21% da receita líquida em 2018. Grande parte dela não dá para eliminar, mas deve haver uma parcela significativa que pode e precisa ser revista. Um aspecto altamente significativo é que os Estados, em vez de aplicarem em saúde pública os 12% constitucionais, ficavam procurando alternativa de como “driblar” essa exigência. É claro que faziam isso devido à escassez dos recursos, que eram comprometidos nas finalidades citadas. Essas são as grandes lições deixadas pela crise.

O que muda no conceito de finanças públicas quando a crise passar?

Acredito que muitas coisas irão mudar. Primeiro, pela necessidade, devido à escassez dos recursos. Segundo, porque os gestores ou beneficiários dos recursos públicos manterão em suas lembranças as notícias e, até mesmo, as imagens dos pacientes que morreram por falta de atendimento nos hospitais, pela carência de itens básicos para seu tratamento, como UTIs, ventiladores, etc. Isso poderia ser amenizado se tivesse havido uma outra destinação para os recursos.

Qual o melhor caminho para União, estados e municípios na gestão da crise pós-pandemia?

O melhor caminho para a gestão é a parcimônia no gasto, sem prejudicar o atendimento da população, e buscar alternativas que levem ao crescimento econômico, anteriormente referidas.

O esforço fiscal, somado à conclusão de reformas estruturais, na política, administração e na área tributária, seria um caminho mais rápido para amenizar o comportamento das finanças públicas?

Esta questão é de vital importância. Precisamos fazer reformas. Ficar parados num mudo que continuamente varia é retroceder. Precisamos de reforma administrativa, tributária e, principalmente, a política. Não há como continuar com quase 40 partidos políticos, muito deles criados para usufruir dos escassos recursos públicos. Vou mais longe ainda. O presidencialismo já se mostrou inviável, com dois presidentes “impichados” e na iminência de um terceiro. Temos que reduzir o número de partidos e alterar o sistema de governo para parlamentarismo. Quem governará será o primeiro ministro, que pode ser destituído facilmente pelo parlamento. A eleição do presidente no caso não necessitará de voto direto, reduzindo as chances de corrupção para obtenção dos recursos necessários às campanhas políticas. E o mais importante é que os parlamentares, sendo eles que governarão, serão mais responsáveis na concessão de benesses sejam elas quais forem.

Observatório sobre impactos sociais e econômicos da Covid-19

Daniel Arruda Coronel
Economista, professor Departamento de Economia e
Relações Internacionais/UFSM, Diretor Editora/UFSM,
coordenador Pesquisa Observatório Socioeconômico da Covid-19
Corecon-RS Nº 7811


Qual o objetivo da pesquisa “Observatório Socioeconômico da Covid-19: Uma análise do impacto da pandemia em questões econômicas e sociais por meio de uma perspectiva estadual, regional e nacional”?

O observatório visa elaborar planos de ações de cunho econômico e social a fim de subsidiar políticas públicas para combater os impactos negativos no âmbito estadual, regional e nacional, realizando sua divulgação bem como reunir estudos, indicadores e discussões sobre os impactos socioeconômicos da pandemia de Covid-19. Para isso, contamos com o apoio financeiro da Fapergs, através do Edital Emergencial Ciência e Tecnologia no Combate à Covid-19.

Qual o universo de atuação do Observatório?

A atuação será no âmbito local, regional, nas macrorregiões brasileiras e no agregado macroeconômico.

Com base em que tipo de variáveis a Pesquisa vai atuar?

O observatório irá atuar em temas sociais e econômicos, com destaques para as áreas sociais, como gestão universitária, estudos em casa com crianças e adolescentes (estudo remoto), gestão política, gestão estadual, gestão municipal, percepção ao risco, jornalismo, telecomunicações e as fake News, gestão das redes sociais, processo decisório, gestão de stakeholders e de redes, e sustentabilidade. Na área social, serão contemplados indústria, agronegócios, comércio e serviços, cooperativismo, turismo, desemprego, políticas públicas, PIB e políticas de renda, mercado financeiro, crédito e cobrança, economia da saúde e economia do crime.

Quem vai desenvolver e quem apoia financeiramente a pesquisa?

O Observatório será coordenado em parceria com o professor Nelson Guilherme Machado Pinto e será composto por pesquisadores da UFSM, Unipampa, Imed-Passo Fundo e UFV, e, ainda, numa segunda fase, contará com pesquisadores da URCA e da Unioeste. Temos financiamento da Fapergs, por 12 meses, e buscaremos outras fontes de financiamento para podemos ampliar nossas ações.

O que significa para a comunidade acadêmica gaúcha e brasileira a criação do Observatório?

A sociedade terá à sua disposição informações, dados, estudos e relatórios organizados por pesquisadores de competência nacional e internacional sobre os impactos econômicos, sociais e culturais da Covid-19, na economia local, regional e no agregado macroeconômico, bem como indicações de possíveis políticas públicas que visem à retomada do crescimento, da preservação do emprego, da renda e do equilíbrio macroeconômico.

Em quanto tempo vocês pretendem obter os primeiros resultados?

Até o final do mês de maio ou início de junho, teremos o site e os resultados dos primeiros estudos.

Quais benefícios o Projeto trará, em curto e médio prazos, à sociedade gaúcha?

O projeto terá contribuições, como a criação do site do Observatório e manutenção como base de dados e informações para a formulação de políticas públicas, organização de workshops e fóruns para divulgar os resultados da pesquisa, relatórios, textos para discussão e estudos visando auxiliar os gestores, empresários e demais atores da sociedade nas questões econômicas e sociais. Também, com relação aos recursos humanos, a Pesquisa proporcionará a formação de alunos em iniciação científica, a formação de mestres (pois teremos envolvimentos de alunos de mestrado), a qualificação de professores como pesquisadores sociais frente a eventos de impacto global.

O Projeto terá duração enquanto perdurar a pandemia ou transcenderá esse período?

O projeto terá duração até o final de 2022, pois queremos acompanhar a tomada do crescimento econômico, bem como propor ações no âmbito de políticas econômicas e sociais.

Impactos da Covid-19 na economia internacional

Roberto Rodolfo Georg Uebel
Economista, professor de Relações Internacionais
Corecon-RS Nº 8074

 


O cenário mundial será o mesmo no período pós-pandemia?

Definitivamente não, e isso começa a se desenhar desde antes da pandemia, onde já observávamos uma transição dos polos de poder, as hegemonias, no Sistema Internacional. O que muda com a eclosão da pandemia da Covid-19 é a intensidade desta transição e a rapidez com que os modelos econômicos e políticos, anteriormente considerados como válidos e referenciais, deixaram de existir ou se sustentar. Vide-se o caso dos Estados Unidos, país que se mostrou muito vulnerável à pandemia, sobretudo no seu controverso sistema de saúde e nas próprias políticas econômicas propostas pelo governo federal, que entraram em choque com as políticas estaduais. Já nestes primeiros meses de pandemia, foi possível identificar uma performance muito eficaz de nações como China, Coreia do Sul, Japão, Singapura e Taiwan no combate aos efeitos sanitários e econômicos da Covid-19, o que aponta para o que os economistas e analistas internacionais chamam de um mundo pós-ocidental, ou seja, as decisões do cenário mundial cada vez mais dependentes dos movimentos geopolíticos e geoeconômicos daqueles países mencionados, especialmente do Leste Asiático. Quanto ao Brasil, uma última constatação: o país está em grande descrédito internacional, inclusive entre seus parceiros tradicionais e novos, como Israel e Índia, o que causará impactos muito negativos para os setores de exportação da economia brasileira, é um fato inédito – e grave – em nossa história diplomática desde a proclamação da República, cuja recuperação de imagem e confiança internacional poderá levar uma década ou mais.

O que muda no cenário da hegemonia dos blocos internacionais?

Como estamos em um processo de transição hegemônica, acelerado pela pandemia da Covid-19, velhas e novas estruturas do Sistema Internacional e seus blocos coexistirão ainda por um tempo, assim como no pós-Segunda Guerra Mundial, em que a insuficiente Liga das Nações coexistiu por um ano com a Organização das Nações Unidas. Como mencionado, percebe-se cada vez mais um posicionamento mais firme nas decisões globais por parte da China e outras nações do Leste Asiático, como Japão e Coreia do Sul em maior grau, e Taiwan, Singapura e outros países em menor nível. Quem sairá fortalecida também no cenário pós-pandemia será a União Europeia, que recém ingressara em um trauma do Brexit - hoje praticamente esquecido - e por meio do seu sistema de integração regional, conseguiu evitar um colapso econômico e sanitário ainda maior. Vejo com muita preocupação o Mercosul, que sairá desta crise, vide-se os posicionamentos prévios anti-integração por parte do presidente brasileiro, e as próprias medidas tomadas durante a crise pelos nossos vizinhos, que têm se afastado cada vez mais do incerto e instável Brasil, hoje com grande descrédito regional e internacional. Certamente teremos um cenário mundial multipolar em que China, Japão e Coreia do Sul, os pós-ocidentais, junto com a União Europeia, terão maior proeminência. Também é possível perceber um processo de integração muito avançado na União Africana, uma vez que os indicadores e efeitos da pandemia foram bem controlados e mitigados naquele continente. Não me surpreenderia uma posição cada vez mais consolidada do G20 como bloco decisório, em substituição ao G7. Ainda chamo a atenção para o reposicionamento que organizações e blocos como a OCDE, OTAN e Prosul, deverão tomar para se manterem ativas no mundo pós-pandemia.

O que muda na guerra comercial entre China e EUA?

Eu acredito que a aquela guerra comercial entre China e EUA, que conhecíamos, ficou no passado anterior à pandemia, o que não significa, necessariamente, que não existirão mais contenciosos econômicos e comerciais entre os dois países. Entretanto, esta crise permitiu comprovar aqueles que ainda desconfiavam do papel de dependência mútua de Beijing a Washington, e vice-versa, e do caráter político, especialmente por parte dos Estados Unidos, conferido ao antigo contencioso comercial. Em questão de poucas semanas, vimos como os norte-americanos dependem de produtos chineses, sobretudo da indústria de saúde, como máscaras, EPIs e respiradores mecânicos, e como os chineses dependem de commodities norte-americanas, como a própria soja produzida naquele país, como uma reserva de emergência, dadas as incertezas no seu fornecedor principal, o Brasil, que, por declarações de membros do governo federal, angariou a antipatia das lideranças chinesas, fato inédito na história diplomática brasileira. Independente do cenário eleitoral que se desenhar em novembro nos Estados Unidos, o futuro presidente norte-americano saberá que a China é cada vez mais indispensável para a manutenção do Sistema Internacional.

O que muda nas decisões do Brexit e Comunidade Europeia a partir desses acontecimentos?

O Brexit também parece estar no passado do Reino Unido, que viveu um drama nacional com elevado número de óbitos por causa da Covid-19, doença que atingiu também o príncipe Charles e levou para a UTI o primeiro-ministro Boris Johnson, e da União Europeia, que sairá mais fortalecida desta pandemia, justamente pelo pilar da integração regional. Em que pese estar no passado, o processo de divórcio entre Londres e Bruxelas deverá seguir o seu curso normal, obviamente, com cronogramas revisados, porém, com consequências muito claras aqueles britânicos que viram que a integração ainda é a melhor resposta para se combater uma pandemia e uma crise econômica sem precedentes.

Como fica a hegemonia na Europa no período pós pandemia?

As posições ficaram muito claras no tabuleiro europeu, tanto em questões econômicas, como sanitárias. Países que adotaram rapidamente medidas de isolamento social, como Alemanha, Áustria e Portugal, saíram antes da crise e começaram uma transição para a vida normal, além de minorarem os efeitos econômicos. Países que não obedeceram aos conselhos de cientistas, como Itália, Espanha e Suécia, além de viverem dramas nacionais com o número de óbitos e infectados, demorarão mais para se recuperarem economicamente. Outras nações como Reino Unido e França, antes potências hegemônicas europeias, por demorarem a adotar medidas de distanciamento social, também sofrerão os impactos políticos da pandemia. Apesar disso, a União Europeia se mostrou eficiente quanto às suas instituições políticas e financeiras, que já anunciaram fundos bilionários para a reconstrução dos países do bloco e fora deste. Percebo um papel cada vez maior de Berlim nas decisões da União Europeia e nos rumos do bloco.

Já se pode medir alguma tendência nas eleições norte-americanas com a crise da Covid-19?

A pandemia da Covid-19 atingiu as primárias do Partido Democrata no seu auge, quando a disputa se acirrava entre o ex-vice-presidente Joe Biden e o senador Bernie Sanders. Biden acabou conquistando a maioria dos delegados e já recebeu o apoio de Sanders e a benção política de Obama e do establishment democrata para enfrentar Donald Trump em novembro. É muito difícil de mensurar qual será o impacto resultante da pandemia nas eleições do final do ano, uma vez que Trump se mostrou muito aquém do desejado para mitigar os efeitos econômicos, financeiros e sanitários da Covid-19, com dezenas de milhares de óbitos, mais do que a própria Guerra do Vietnã vitimou, preferindo salvar bancos do que injetar mais recursos no insuficiente sistema de saúde norte-americano. Entretanto, Biden não possui unanimidade nem no seu partido, muito menos nacionalmente. Outra variável nesta questão é até quando o distanciamento social continuará nos Estados Unidos, o que poderá impactar os eventos de campanha, as convenções nacionais e os próprios debates, que são os pilares das eleições norte-americanas. Vejo o eleitorado norte-americano muito dividido com as duas opções e extremamente insatisfeito com as políticas federais adotadas de combate à pandemia. Assim como no Brasil, sairão fortalecidos os governadores que agiram rapidamente nas medidas de isolamento social, socorro aos empregos e empresas e na reestruturação dos seus serviços de saúde.

De que forma a crise da Covid-19 afeta a hegemonia do petróleo no oriente médio e, mais especificamente, na disputa entre Arábia Saudita e Rússia?

Há duas semanas tivemos um fato sem precedentes na história, desde 1946, que foi a cotação negativa do preço do petróleo nos EUA, que chegou a U$ -37,63, tudo isso como reflexo da diminuição da demanda global por esta commodity energética. Afirmaria, neste momento, que a disputa entre Arábia Saudita e Rússia está em stand-by, tanto pela demanda diminuída como pelas questões domésticas impostas pela pandemia. Não vejo uma mudança na hegemonia do petróleo no Oriente Médio, mas sim numa nova percepção sobre a necessidade desta commodity em âmbito internacional, seja como combustível fóssil, seja como único produto da pauta de exportação, de Riade até Caracas. A pandemia trará diversos questionamentos, e um deles será justamente até que ponto o Sistema Internacional ainda dependerá do petróleo em suas matrizes econômicas e energéticas. É tempo de os governos nacionais repensarem a sua dependência em uma única commodity e buscarem alternativas energéticas, como a própria Alemanha, Japão e China têm desempenhado.

 

Prejuízos do coronavírus ao turismo de Gramado e Canela

 



Carlos Alberto da Rosa Abel
Economista, ex-vice-presidente do Corecon-RS, Consultor de Empresas
Corecon/RS nº 3159

Qual o perfil do PIB das regiões de Gramado e Canela?

O perfil do PIB dos municípios é baseado no turismo e lazer, que são os setores que mais arrecadam e as atividades que mais empregam na região. Cerca de seis mil pessoas trabalham na hotelaria e gastronomia, sendo que a cadeia produtiva do turismo emprega ainda mais de 500 funcionários em parques, museus e agências de turismo. Gramado conta hoje com cerca de 200 hotéis/pousadas, e Canela, outros 65. Juntas, possuem mais de 25 mil leitos, com uma média de ocupação da rede hoteleira superior a 75%, no último trimestre de 2019.

Qual o impacto da crise causada pelo coronavírus na região?

O impacto é preocupante porque com os hotéis, museus, parques de entretenimento e temáticos fechados deixam de arrecadar mais de R$ 100 milhões por mês, com sérios impactos à sua economia, assim como, também, à economia do Estado.

O que está funcionando atualmente nas duas cidades?

Cada município tem os seus decretos específicos. Está havendo uma boa sinergia entre as associações e sindicatos, que representam os empresários, e as prefeituras. As lojas e o comércio estão funcionando com os devidos cuidados de distanciamento e higienização. Mas alguns empresários preferem ainda não abrirem seus estabelecimentos para aguardarem um melhor momento.

Quais as expectativas dos empresários locais?

A prefeitura de Canela lançou um “Plano Estratégico para Retomada da Economia Pós-Coronavírus”, elaborado pela Secretaria Municipal de Turismo e Cultura, com participação também do trade, em que apresenta um cronograma integrado para a retomada das atividades até o final do ano. Tudo está sendo feito com muita cautela e planejamento. Não adianta abrir de imediato os estabelecimentos de maior público, como a hotelaria, museus e parques, se não existem clientes. Acredito que a abertura deva ser gradual, com deliberações de espaços respeitando a área física de cada empreendimento, determinando, desta forma, o número de visitantes. É preciso que a situação se normalize um pouco mais para dar tranquilidade e segurança aos turistas.

Os empresários e a classe política têm encontrado alguma solução para amenizar essas perdas?

É muito importante que exista um bom entendimento entre as partes. Em Gramado, alguns impostos municipais foram prorrogados para adequar melhor o fluxo de caixa dessas empresas. Outro fator interessante é que algumas empresas estão concedendo férias coletivas aos seus funcionários, para, dentro do possível, conseguirem manter os empregos, já que existe uma boa qualificação destes profissionais.

Eventos nacional e internacionalmente conhecidos, como Natal Luz, em Gramado, e Sonho de Natal, em Canela, que já estavam em fase de preparação, poderão recuperar essas perdas?

A grande expectativa ficará para o Natal Luz, em Gramado. O evento será ampliado para 101 dias e está programado para acontecer de 22 de outubro a 30 de janeiro do próximo ano. A trigésima quarta e última edição ocorrida, registrou, no período, 2,3 milhões de visitantes, com 216 mil de ingressos vendidos em todos os shows, sendo arrecadados R$ 33 milhões pela Gramadotur, organizadora do evento. Em Canela, estão programados para o segundo semestre mais de 400 atrações artísticas, com destaque para o Sonho de Natal, que acontecerá de 10 de outubro a 31 de janeiro de 2021. As duas cidades aguardam pela ampla recuperação da economia, em função destes dois principais atrativos. Conhecendo bem o empresariado de Gramado e Canela, tenho certeza, que sairão dessa crise momentânea mais fortes e unidos.

 

A importância do planejamento na crise

Alexandre Reis
Economista, professor universitário,
ex-conselheiro Corecon-RS
Corecon-RS Nº 7273



Qual a melhor forma de planejar o orçamento das famílias neste momento de crise por que estamos passando?

O momento requer muita tranquilidade e racionalidade. Eu diria que depende muito de cada caso, já que cada família ou empresa tem um padrão de gastos e de receita. Sendo assim, é, de fato, o momento que todos devem fazer o planejamento, mas respeitando suas concepções, seus gastos e a sua realidade. De fato, aqueles que não realizarem o seu planejamento orçamentário terão mais dificuldade nas suas tomadas de decisões, seja por consumo ou por investimento. Outra dica importante é o planejamento, que exige avaliação constante do processo, até porque a economia é muito dinâmica.

O fato de a crise não ter uma data para terminar pode alterar a forma de planejar o orçamento?

Sim, certamente. O fato é que teremos que ter muito mais ações de curto prazo para tentar minimizar os efeitos da crise no presente, de cada família e empresa. Se você conseguir se organizar, principalmente, no curto prazo, com toda certeza o seu futuro será um pouco mais agradável. No entanto, essa crise será longa, principalmente aqui no Brasil, infelizmente. Então, ser pragmático agora é o cerne da questão. Pense na sua organização de curto prazo.

Que cuidados as famílias devem ter na hora de tomar decisões financeiras?

Eu diria que as famílias deveriam ter sempre esse cuidado com o seu orçamento e com as suas finanças pessoais. No entanto, em função de toda a realidade social e cultural, muitas famílias negligenciaram essa ação. Agora, como estamos em crise e em isolamento social, esses cuidados se afloraram muito mais do que antes. Vejo isso com bons “olhos”. Mas ressalto algumas dicas essenciais, como organizar as receitas de toda a família, que auxilie na ajuda dos gastos, listar as despesas, separar as despesas em parâmetros de prioridades, tentar, se for possível, separar uma poupança. Feito isso, aí sim, tomar as decisões com base nesta organização e avaliação que se fez.

O que deve ser priorizado na hora do consumo?

Sem dúvida, nesta hora de Pandemia, os gastos prioritários devem ser alimentícios e de saúde. Os gastos com itens de limpeza também estão sendo os preferidos. Os consumos supérfluos e outros bens de consumo duráveis devem ser adiados. Mas isso, evidentemente, depende muito da cada situação familiar. Às vezes, por exemplo, é necessário realizar o consumo de um bem durável. Mas, o importante é perceber se isso realmente é necessário e se terá utilidade para você.

Qual a melhor forma de planejar o orçamento das empresas?

As empresas, diferentemente das famílias, possuem o hábito de organização orçamentária, até porque é exigido por parte do fisco e para a sua organização interna. No entanto, em muitas empresas se observa que essa organização é realizada de forma equivocada, principalmente no caso das pequenas e médias empresas. Ou seja, existe muita mistura de gastos pessoais com aqueles que são empresariais. E sugiro, para este caso, a procura de um expert sobre o tema. Um consultor que, de fato, auxilie e busque as soluções adequadas para a total organização empresarial. O cerne disso, na atualidade, é planejamento financeiro eficiente. É bom lembrar que há muito oportunista no mercado e isso atrapalha o planejamento empresarial. “Achismos” não deve estar incorporado no ambiente da gestão empresarial. Sendo assim, você deve alinhar os processos no sentido de atender uma boa gestão e um adequado planejamento orçamento racional.

Quais os maiores cuidados o empresário deve ter neste momento para manter a saúde de sua empresa?

Eu diria que o alinhamento entre uma boa gestão e a racionalidade orçamentária. A tomada de decisão também é importante. Os conhecimentos dos riscos empresariais, o conhecimento econômico e social são fundamentais para o sucesso empresarial. Vejo muito precariedade neste quesito. De fato, o verdadeiro empresário deve se apropriar dos conceitos de finanças, estratégias, políticas econômicas, etc, seja qual o tamanho de seu negócio. Sempre oriento que o empresário, constantemente, terá que responder às questões básicas da economia - o que, como, de que forma, e para quem - produzir. Trata-se de uma questão central para o sucesso do seu negócio. Não só pensar na sua saúde pessoal, que, aliás, sabe-se que é importantíssimo. Mas pensar também na saúde empresarial, que envolve todo esse conhecimento. Aliás, como sugestão de leitura adicional, indico o livro “A Economia da Estratégia”, de Besanko e outros, editado pela Bookman. É uma obra que retrata a teoria econômica de forma prática, com vários cases de sucesso para o empresário que quiser aplicar estratégias competitivas em sua empresa, assim como para as pessoas em geral, já que tem boas dicas de gestão individual. Mas, sempre lembrando que, na dúvida, o melhor mesmo é contratar um Economista.

Cenários e linhas de financiamento em momentos de crise



Rogério Tolfo
Economista, consultor de empresas na área Financeira e de Projetos,
ex-presidente do Corecon-RS
Corecon-RS Nº 5773


Como planejar cenários para empresa em momentos de crise?

Planejar cenários é extremamente desafiador. A crise não tem causa econômica. É uma pandemia que está gerando sérios problemas financeiros e econômicos em escala mundial. Há severas restrições ao funcionamento do comércio e de empresas em geral, bem como à circulação de pessoas. Funcionários estão sendo colocados em férias, estão com atividades paralisadas ou, mesmo, sendo demitidos. Não sabemos ao certo o tempo que vai levar e menos ainda como se dará o processo de retomada. Mas não podemos nos iludir com uma retomada rápida, pois pode levar um tempo muito grande para os mercados voltarem ao normal. Considerando toda essa situação, fica muito difícil planejar, ao mesmo tempo em que é fundamental traçar cenários, encolher e adaptar o negócio à esta nova situação, gerada por eventual queda nas vendas e nas receitas. Entendo que analisar o mercado em que a empresa está inserido, conversar com fornecedores e clientes seja fundamental.

Que tipo de cuidados o empresário deve ter para manter o funcionamento da cadeia produtiva neste momento de crise?

Tenho percebido muita cobrança das empresas junto a seus clientes e não vejo o mesmo cuidado médio com os fornecedores. Ou seja, muitas vezes a cobrança é forte, bem sucedida, mas não há contrapartida em honrar os pagamentos. Se as ações de entender o novo porte do mercado e a carência de recursos nesse momento não for coletiva, a produção pode vir a parar, mesmo havendo mercado para vender e girar. Para grande parte das empresas, o mercado mudou, encolheu, logo, é necessário se adaptar. E sugiro que isso seja feito coletivamente, englobando fornecedores e clientes, pois, assim, todos tendem a se manter atuando.

Qual a maior preocupação do empresário neste momento de crise?

Acredito que seja honrar os custos fixos e salariais. Mesmo que a produção pare abruptamente, a empresa segue tendo obrigações que não estão diretamente atreladas à geração de receita, como aluguel, por exemplo, ou despesas administrativas em geral, entre outras. Além disso, as vendas caem, mas as empresas carregam do mês anterior custos e despesas a pagar num cenário de incerteza de que os clientes vão efetivamente cumprir com os pagamentos. Para empresas de menor porte, que giram através de sua receita imediata, é fundamental criar alternativas para manter um certo nível de receita. Crises tendem a propiciar momentos para empresas e negócios se reinventarem, fazerem diferente, serem criativas e se manterem no mercado. E aí pode estar a solução para muitas sobrevirem a essa "tempestade".

Como está hoje a situação das linhas de crédito no Brasil, neste cenário de crise econômica, agravado pelo coronavírus?

Há recursos disponíveis em bom volume e muitas empresas interessadas. O BNDES foi ágil nessa crise gerada pela pandemia e fez ajustes em sua linha de capital de giro, elevando o potencial dos tomadores para empresas/grupos econômicos que faturem até R$ 300 milhões anuais. Porém, grande parte das empresas que pleiteiam o recurso tendem a ser atendidas por agentes financeiros repassadores, que abraçam o risco da operação. E, isso, num momento de dificuldades econômicas, tende a gerar uma seletividade dos bancos na concessão do crédito, foco em bons clientes e boas empresas. Isso é ajudado pela forte demanda por crédito. Não estou afirmando que isso é errado. O mercado é assim. Mas tende a fazer com que muitas empresas não sejam atendidas. Agrava a situação o fato de que há exigência, em grande parte dos casos, de que as empresas que pleiteiem crédito apresentem bens imóveis em garantia.

Como obter, neste momento, sucesso na busca das linhas de crédito?

Acredito muito em planejamento. Antes de qualquer coisa, cabe à empresa traçar cenários (mesmo que o melhor cenário seja muito complicado, melhor lidar com a realidade), analisar o mercado onde está inserida, conversar com clientes, fornecedores. Perceber o que está acontecendo e se inserir nesse contexto. Entender em que grau vai precisar encolher sua operação, em função de queda nas vendas, e negociar, reduzindo custos e despesas e eliminando aqueles desnecessários. Fazer o dever de casa, como se diz. E calcular a real necessidade de capital de giro, com base nos cenários traçados. Aí sim, tendo um plano de negócios, de ações, transformado em números, buscar o financiamento necessário. Isso tende a ter uma aceitação muito melhor por parte dos agentes financeiros. Não garante aprovação do crédito, já que bancos inicialmente analisam o risco, mas ajuda. Tenho visto casos de pleitos de capital de giro, com base em solicitar dois meses de receita em financiamento. Mas se o problema perdurar no terceiro mês, como fica? Por mais que o financiamento tenha carência, não aconselharia uma empresa a tomar financiamento com base nesse critério ou falta de um, pois a conta para pagar vai chegar. Não se pode ficar esperando a crise passar sem fazer o dever de casa. É necessário se adaptar ao momento.

Qual a importância da ação do governo neste momento?

Sou favorável ao ajuste fiscal que o governo federal vinha implementando. Mas o momento agora requer ação (gastos) e que o mesmo seja posto de lado para ser retomado oportunamente. Ficando na linha empresarial, que foi o foco dessa entrevista, vale ampliar valores e facilitar o acesso ao crédito. Impulsionar esse mercado usando os bancos públicos. Importante ter em mente que micro e pequenas empresas geram empregos em volume expressivo no país e que a manutenção do funcionamento dessas empresas é importante na manutenção do emprego e renda. E justamente esse perfil de empresa muitas vezes possui restrição e dificuldades de tomar financiamento. Saúdo as medidas tomadas até o momento pelo Governo Federal, na área econômica. Entendo que serão ampliadas e acredito que todos os segmentos, empresarial, trabalhadores públicos e privados, governos, terão que, de alguma forma, dar sua parcela de colaboração para que o país passe pela crise do melhor modo possível.

 

Gestão de risco e o stress do mercado


Isabel Gaio Schutt

Gerente de Risco de Liquidez e Alocação de Capital Banco Cooperativo Sicredi
Corecon-RS n° 7683

 

Como funciona o gerenciamento de riscos de uma instituição financeira?

A gestão de risco de instituições financeiras é muito forte, muito regulada quando comparada com outras empresas. A forte regulação deste setor acontece pelo impacto que a falência de um banco pode gerar na economia. Os Acordos de Basileia regulam e estabelecem diretrizes internacionais para que cada país, por meio dos bancos centrais locais, possam criar condições que minimizem os efeitos negativos do eventual encerramento das atividades de uma instituição, ou de uma crise sistêmica como a que estamos vivendo hoje. Em outras palavras, a gestão de risco não impede necessariamente que uma instituição financeira enfrente dificuldades ou vá à falência, mas busca minimizar efeitos negativos para o sistema financeiro e, em última instância, para a sociedade como um todo.

Por que é importante a gestão de risco?

O risco está associado às incertezas dos negócios que podem resultar em ganhos ou perdas para instituição e partes interessadas. O objetivo da gestão de risco é reduzir as incertezas e minimizar os impactos das perdas. Ou seja, a gestão de riscos não consiste em atividade voltada à eliminação dos riscos, mas à sua identificação, mensuração e controle, permitindo que o desenvolvimento dos negócios e geração de valor às partes interessadas ocorra dentro dos níveis de risco esperados. No caso das instituições financeiras, o grande objetivo da gestão de risco é buscar a preservação da liquidez e do capital para conseguirem sobreviver e atravessar justamente um período de stress, sem que isso traga perdas à sociedade e partes interessadas.

Como os bancos reagem a esse cenário que os países estão vivenciando agora?

O principal objetivo de uma instituição financeira, especialmente num cenário em que estamos vivendo agora, que é considerado de grande stress, é sobreviver e ultrapassá-lo com o mínimo de danos à sociedade. O cenário atual é bastante desafiador, e até inimaginável, mesmo considerando que o bancos fazem constantemente este exercício de simular e tentar criar cenários estressados hipotéticos, para avaliar se possui salvaguardas suficientes. Neste momento, o principal desafio é garantir liquidez suficiente para suportar um período de inadimplência maior, e também a incerteza do comportamento dos agentes em relação à poupança e investimento. No caso de uma crise sistêmica como a atual, é praticamente imprescindível que haja ações de intervenção e assistência governamental. No entanto, as regras que o Banco Central impõem de forma antecedente à crise, é justamente visando mitigar o risco moral destas ações. O setor financeiro é uma das principais preocupações para o desenho da regulamentação prudencial e para o planejamento da intervenção e assistência governamental em períodos de crises financeiras

Que tipo de impactos podem ser esses?

Em função das dificuldades da economia, que se refletem diretamente no dia a dia do cidadão, que pode acabar precisando resgatar suas economias, como não conseguir pagar seus empréstimos e renegociar suas dívidas, as instituições financeiras também pode ter dificuldades em gerenciar seus fluxos de caixa, como, por exemplo, ter dificuldade em pagar resgates de depósitos caso ocorram saques em volumes muito elevado. Ou ter que reduzir a concessão de crédito para evitar colocar em risco o nível de liquidez da instituição. Além disso, as perdas com inadimplência, e menor geração de resultado pela redução do crédito, podem impactar as margens de capital para sobrevivência da instituição dependendo da duração da crise. Por isso, a gestão de risco é toda construída nesse sentido, de prever situações e saber qual a quantidade mínima de ativos de liquidez, de fluxo de caixa, e capital para que num momento de crise se tenham mecanismos para conseguir sobreviver.

O que as instituições financeiras esperam desse cenário?

Para os bancos, provavelmente este cenário vai dar bagagem para uma grande evolução da gestão de risco, envolvendo questões não apenas financeiras, mas de continuidade dos negócios, com agências fechando, de tecnologia, segurança da informação, riscos de contágio, riscos de terceiros, todos temas novos que vão ter que ser intensificados. Passando esta crise, certamente teremos aprimorado ainda mais esses modelos que tentam prever essa situação, e espera-se que o sistema financeiro volte ainda mais resiliente. Até porque gestão de risco em banco é justamente isso, tentar prever esse tipo de situação e ter ferramentas, liquidez e capital para enfretamento de uma crise, por mais que na prática as crises não ocorram como nos cenários hipotéticos, o exercício e as experiências passadas ajudam na evolução do tema. Gestão de risco é um processo contínuo.

As empresas de uma forma geral também fazem gestão de risco?

Não só as empresas, como as famílias, todos deveriam fazer esse exercício e buscar ter margem e liquidez para suportar um período de crise. A diferença é a intensidade, quantidade e nível de controle de cada agente. Na prática o cenário que estamos vivendo hoje é de muita incerteza, não sabemos ainda por quantos meses os fluxos de caixa das empresas e famílias podem ser afetados, mas para o que as empresas devem buscar é o estabelecimento de regras mínimas considerando alguns cenários adversos, para que ela possa sobreviver com saúde durante um período, com tempo suficiente para a crise passar sem danos e traumas a sua estrutura financeira.

A infraestrutura e o pós-coronavírus

 

Rodrigo Nobre Fernandez
Economista, professor da UFPel
Corecon-RS Nº 7458

 

Somadas a diversos ciclos de crise econômica e falta de planejamento, o Brasil carrega algumas décadas de defasagem em sua infraestrutura de estradas, ferrovias e navegação. Qual a tendência para os próximos anos?

A tendência é que o Brasil aposte nesses novos modelos de negócios para prover infraestrutura. Que as parcerias público-privadas irão se desenvolver bastante, embora esses contratos sejam de uma grande complexidade porque geralmente são contratos que levam um ano ou um ano e meio para serem firmados, desde o seu início até o fechamento. Lógico que agora, com essa pandemia, talvez não só o Brasil, como os governos de uma forma geral, adotem novas ferramentas para provisão de infraestrutura pública, com novas modalidades contratuais, bem mais flexíveis, especialmente através do estímulo desses tipos de parcerias. Especialmente para o caso do Brasil, que está com uma série de dificuldades fiscais, essa pode ser a alternativa mais viável. Após passar essa pandemia, a tendência é de que tenhamos um governo muito mais atuante na economia, buscando flexibilização de contratos, de mais curto prazo ou com menos burocracia, para que esses empreendimentos possam ser desenvolvidos. Mas, infelizmente o cenário, agora, não é nada otimista para isso, e a tendência é que o Brasil siga a linha do que os países desenvolvidos irão fazer.

Até que ponto a crise do coronavírus e seus impactos nas economias dos países afetarão os investimentos em infraestrutura?

Com certeza o impacto é direto. É muito difícil estimarmos ou prevermos o que irá acontecer, mas percebe-se que está tudo parando. O coronavírus parou a economia do mundo inteiro. A economia está parando, as bolsas estão caindo, com diversos circuit-brakers. Para prover infraestrutura, que normalmente são constituídos de contratos de longo prazo, com projetos grandes, caros e que envolvem as vezes várias empresas, acredito na necessidade de maior flexibilização, com eficiência na fiscalização. Como não somos muito bons nisso, aqui no Brasil deverá ser bem mais complicado. Lógico que a preocupação principal nos próximos meses será a de reaquecer a economia e, claro, reestimar esses investimentos com alternativas mais viáveis a curto prazo. Tratam-se de investimentos que não serão deixados a um segundo plano até pela importância de criar condições para que a produção acelere, com a melhora da logística de cada setor produtivo. Mas essa situação que vemos agora é bem complicada, e temos que ficar atentos às medidas que sejam de emergência.

Recuperação lenta da economia é um inibidor do crescimento, mas fatores como reformas econômicas, privatizações ou, mesmo, baixas taxas de juros, podem favorecer investimentos em infraestrutura?

Com certeza a recuperação lenta é um inibidor do crescimento. E, aí, as medidas econômicas de curto prazo serão fundamentais para promover essa retomada. Os EUA, por exemplo, um dos mercados mais seguros para se investir, encontra-se com juros praticamente em zero, e essa taxa de juros baixa pode fornecer investimentos em infraestrutura, dependendo, é claro, de como eles serão feitos. O setor privado pode, em algumas modalidades, financiar esses empreendimentos, e o governo, em alguns momentos, podendo subsidiá-los, no caso brasileiro, através do próprio BNDES. Então, essas medidas econômicas que serão tomadas após esta crise, em prol de investimentos de infraestrutura, com redução de juros e redução burocrática, para que se façam novos contratos, é extremamente positivo e pode, sim, favorecer esses investimentos. E a tendência para os próximos meses ou próximo ano é uma aceleração desses investimentos, com o governo voltado para esse fim, a pesar de os resultados serem mais a médio prazo. Mas, isso é uma tendência e ainda estou um pouco receoso de imaginar o que pode acontecer. Agora, com este cenário, fico imaginando em investimentos na infraestrutura para a saúde, segurança. Mas é uma impressão minha.

O cenário ideal são investimentos de caráter público ou privado?

O ideal seria que essa provisão de infraestrutura fosse feita exclusivamente pelo setor público porque é ele que arrecada impostos, e deveria usar parte dos recursos arrecadados para isso. Mas sabemos que o Brasil, e também os estados brasileiros, estão numa grave crise fiscal, com contenção de gastos. Em função disso, vejo, como melhor alternativa, a combinação de ambos, com o setor público, aliado ao setor privado. É bom lembrar que isso já acontece de forma muito eficiente em diversos países do mundo, através de concessões e parcerias público-privadas. Essas duas modalidades contratuais podem ser consideradas como terceirização de serviços, mas não privatização dos mesmos. Mas acredito, também, que o governo seguirá um linha forte de privatização, embora se trate de um processo demorado e politicamente custoso.

Ao sair da crise econômica gerada pelo coronavírus, o que faltará para o Brasil, no médio prazo, retomar um ambiente favorável para investimentos em infraestrutura?

O Brasil tem problemas de curto, médio e longo prazos. Mas tem uma situação fiscal muito grave, que deve ser afrouxada para conseguir passar essa crise do coronavírus. Uma alternativa bastante viável de eficiência, não necessariamente de recursos, porque esses contratos podem ser mais caros, gerando um retorno mais rápido para a sociedade, que são as parcerias público-privadas, onde penso que o governo tenha que apostar bastante. Abertura comercial e participação de grupos e acordos comerciais também são muito importantes, somados a uma política econômica coerente para facilitar a atração de novos investimentos. É claro que o mundo está em crise, então fica muito difícil prever o que vai acontecer. Mas, após o achatamento dessa curva do coronavírus, o que deve ocorrer em no máximo três ou quatro meses, o governo deverá tomar medidas fortes, abrindo os cofres para reorganizar a economia e, depois, com medidas mais restritivas para buscar a compensação para, depois, retomar uma agenda econômica. Apostaria muito na desburocratização como uma forma de facilitar o ingresso de novos investidores, que abram outras alternativas de trabalho favoráveis para retomar o crescimento econômico.

A dinâmica das fusões e aquisições no mercado de Planos de Saúde no Brasil


Gregory Moyses Volpato

Bacharel em Ciências Econômicas, 2º Lugar Prêmio Corecon-RS, 2019,
Categoria Dissertações de Mestrado

 

Qual a proposta do trabalho “A dinâmica das Fusões e Aquisições no Mercado Brasileiro de Planos de Saúde”, 2º Lugar do “Prêmio Corecon-RS 2019”, categoria Dissertações de Mestrado?

A proposta do trabalho foi aplicar um modelo baseado em agentes no mercado de operadoras de planos de saúde nacional. O comportamento do mercado ao longo dos últimos 20 anos alertou para mudanças significativas por meio de fusões e aquisições. Dessa forma, com auxílio de meus orientadores, conseguimos unir o anseio por um modelo alternativo aos tradicionais econômicos, a um segmento com muitas oscilações. Logicamente, também visualizamos a possibilidade de aplicação e expansão do modelo a outros mercados.

Como está o mercado de planos de saúde no Brasil?

O mercado de planos de saúde está modificando suas diretrizes, assim como observado nos últimos anos. Um bloco de seis grandes empresas possui grande participação de mercado, e vem atuando em novas aquisições a cada novo período. As fusões também estão ocorrendo devido aos altos custos do setor, fomentados por regulações, levando a uma grande quantidade de empresas saírem do mercado ou decretarem falência. Houve uma redução de quase 50% no número de empresas se computarmos dados de 1999 a 2019, ou seja, em apenas 20 anos.

Qual a importância das fusões no setor da Saúde?

As fusões do setor, do ponto de vista corporativo, são relevantes às estratégias das grandes empresas. A concorrência entre um grande bloco tem sido semeada por fusões e aquisições, e as possibilidades de aumento dos ganhos de mercado proporcionados. Uma das variáveis analisadas, distância, demonstrou que a grande concentração de empresas no Sudeste é oriunda de pequenos processos aquisitivos ao longo dos últimos 20 anos. A redução considerável também é em parte explicada pelas fusões, visto o elevado número de processos aquisitivos do período.

Esse procedimento não estimula a cartelização?

Há dois pontos de vista, na minha opinião, que podemos analisar acerca do cartelização neste mercado. Do ponto de vista da concentração de empresas, penso que sim. Poucas empresas dominam 40% do mercado, e tendem a aumentar, visto que a saída de empresas tem sido constante. Os preços e os atendimentos dos planos estão se afastando da vontade do consumidor, tornando-o figura coadjuvante no mercado. Todavia, podemos analisar um segundo ponto. O mercado apresentou resultados deficitários e com um alto custo de manutenção para as empresas. Desta maneira, muitas empresas continuam a falir e sair do mercado. Neste ponto específico, as fusões atenuam os impactos devido ao fato de a empresa adquirente ser obrigada a manter os planos e conceder abrigo aos beneficiários então descobertos. Logicamente, não é um ponto ideal, porém, minimiza o impacto imediato sobre os beneficiários dos planos.

Qual a relação desse tipo de procedimento com o endividamento dos Estados e União?

Primeiramente, os altos custos dos planos consequentes da concentração do mercado inibem novos beneficiários. Além disso, beneficiários com pouca renda tendem a cancelar seus planos. O impacto imediato é o aumento de pessoas dependentes da saúde pública, tornando o processo ainda mais oneroso ao governo. Um dos pontos de maior atuação da Agência Nacional da Saúde está exatamente sobre a transferência de beneficiários e o auxílio, de certa forma, na liquidação e falência das empresas. O governo não tem conseguido reduzir a quantidade de fusões no mercado e tem concentrado seus esforços na minimização do peso.

Quais as principais conclusões do teu estudo?

As principais conclusões foram acerca das mudanças significativas que os mercados podem sofrer em períodos relativamente curtos. Do ponto de vista das saídas das empresas de um mercado, as fusões podem ser analisadas como uma alternativa à falência, visto que no processo aquisitivo, a empresa se compromete a continuar o atendimento da carteira de beneficiários dos planos. Alguns comportamentos das empresas também se destacaram, como, por exemplo, a observação do faturamento e da distância como pontos criteriosos na tomada de decisão. As empresas claramente buscaram adquirir outras empresas com localização e faturamento semelhantes as suas. Por fim, do ponto de vista da pesquisa econômica, estendermos a análise a modelos não tão conservadores, que podem enriquecer a literatura existente, expandindo os limites da economia. A utilização de métodos, como o modelo baseado em agentes com ênfase em autômatos celulares, pode ser expandida a outros mercados, e alternativamente, a outros comportamentos empresariais, além de fusões e aquisições.

Conselheira do Corecon fala na Universidade Franciscana, de Santa Maria

A conselheira e coordenadora da Comissão de Educação Financeira do Corecon-RS, economista Janile Soares, participou, no dia 4 de março último, na cidade de Santa Maria, de aula inaugural integrad dos cursos de Administração, Ciências Contábeis e Ciências Econômicas, da Universidade Franciscana. O evento, que debateu o tema "Mudanças econômicas, políticas e sociais contemporâneas e os impactos na gestão das organizações", aconteceu no campus da Universidade. Economista, consultora e educadora financeira, Janile trabalha com jovens, nas escolas, e com mulheres e suas famílias. É criadora de conteúdo no blog “A Economista de Batom” e nas redes sociais. Leva palestras e workshops in company e é criadora dos projetos "Na Ponta do Lápis", de inclusão financeira, "Empreender o Futuro", para jovens, e do "Meu Planner Financeiro", ferramenta para gestão.

Impactos do coronavírus na Bolsa de Valores


José Junior de Oliveira

Economista, presidente do Corecon-RS, vice-presidente da Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais (Apimec-Sul), professor Universitário
Corecon-RS Nº 5500

 


Essa queda acentuada da bolsa de valores ocorrida nos últimos dias deve-se especialmente à tensão provocada pelo coronavírus ou existem outros componentes embutidos?

Certamente que a apreensão está relacionada aos impactos que o coronavírus está causando nas economias da China e Ásia, países Europeus, Estados Unidos, e já atingem o Brasil. Na realidade, o mercado reflete as expectativas dos investidores. Essa situação está impactando a economia chinesa, que, por ser a segunda maior economia do mundo, com um PIB elevadíssimo, deve enfrentar uma redução no seu crescimento e uma consequente retração de suas importações, impactando negativamente nos negócios dos países parceiros exportadores, como o Brasil. O mercado está com um viés de baixa porque os agentes econômicos acreditam que a situação do coronavírus, que está se alastrando pelo mundo, pode ou não sair do controle. Com isso, existe a tendência de um crescimento menor, com as empresas faturando menos e com menores resultados, o que cria uma situação de risco, de apreensão, e, com isso, a movimentação de investidores abandonando os mercados de risco e provocando queda na bolsa. É um fato de momento, mas o mercado está agindo com uma expectativa negativa.

Qual a dimensão dessa crise?

É muito cedo ainda para se ter uma dimensão do impacto, mas basicamente é em razão dessa situação que os mercados estão estressados e com maior volatilidade. A queda na bolsa de valores no Brasil foi muito forte no primeiro dia após o feriado de carnaval, em torno de 7%, mas nos mercados asiáticos, europeus e norte-americano essa queda iniciou imediatamente após a informação de que o coronavírus está atingindo muitos países da Europa, EUA e Brasil. A preocupação é como controlar a doença, já que ainda não surgiu um tratamento eficaz, e isso faz com que os mercados de maior risco, como a bolsa de valores, tenham maior oscilação. As informações ainda não estão muito claras, e a tendência é, como referido antes, de que os investidores saiam dos mercados de maior risco até que o cenário fique mais claro. O que ocorre, num primeiro momento, é que as previsões de crescimento das economias sejam revisadas para baixo e, como conseqüência, afetarão o resultado das empresas, nível de emprego e renda, gerando um ambiente de tensão no mercado. Os investidores, neste momento, tendem a ir para ativos menos arriscados como o dólar e ouro, por exemplo. A bolsa cai e as moedas mais fortes se valorizam.

Qual o conselho para os investidores da bolsa neste momento?

Eu diria para esses investidores esperarem, já que bolsa é um investimento de longo prazo, e oscilações de curto prazo fazem parte do negócio. Se olharmos a taxa de juros que está no Brasil, de 4,25% ao ano, a expectativa da economia brasileira, mesmo crescendo menos do que previsto inicialmente, está retomando o seu crescimento. A turbulência vai passar. Por isso é preciso ter calma e, inclusive, aproveitar as oportunidades de investimento, já que boas ações poderão ser compradas a preços atrativos. É preciso entender que o mercado de ações é de “renda variável” e se o investidor se assusta e vende ações neste momento, certamente vai perder dinheiro. Por isso a recomendação é de esperar a recuperação, que certamente chegará mais adiante.

Este é o melhor bom momento para comprar ações?

Pode haver oportunidades neste momento, mas não sei se já é o momento para isso, pois a queda poderá ser mais acentuada ainda. Mas acredito que os papeis já estão com um desconto bem interessante. Quem tiver dinheiro, deve olhar com atenção, que vai aparecer muita oportunidade de compra.

Nesses momentos de oscilação tão radical de preços na bolsa existem negócios de venda?

A bolsa tem liquidez. Então, se alguém quiser vender, sempre vai haver outro para comprar. Quando os preços estão caindo, sempre há alguém que está imaginando que vão subir lá na frente e acaba gerando a compra. Quem está olhando no longo prazo deve saber que a volatilidade faz parte do mercado.

A tendência é que os preços das ações na bolsa continuem oscilando?

A tendência é de que continuem oscilando porque ainda não foram encontradas soluções para conter o avanço do problema que afeta vários países. Isso não muda a tendência de médio e longo prazos. A menos que se perca o controle dessa situação, o que não acredito que vá acontecer. Os governos desses países deverão agir para controlar o avanço do coronavírus.

 

Neste cenário de apreensão da economia mundial, as bolsas de valores dos países em desenvolvimento tendem a sofrer os maiores impactos?

As bolsas caíram no mundo inteiro e não apenas em países em desenvolvimento. No caso do Brasil, às vezes a bolsa oscila mais porque como nosso mercado é liquido e tem investidores estrangeiros que alocam recursos, também as pessoas vendem mais rápido. Nos mercados emergentes, nessas situações, normalmente as oscilações dos preços da bolsa acontecem com maior intensidade, com movimentos mais bruscos. Mas isso é normal, em função do volume de recursos que se movimenta. O que devemos ficar atentos é que ainda não se pode dimensionar o tamanho do impacto na economia real. Isso será determinante para que se verifique até onde vai a queda na bolsa. É difícil para o investidor ter calma em momentos de tensão e de risco elevado, mas é preciso ser racional para não tomar decisões precipitadas.

O Enoturismo em Pinheiro Preto



Bianca Batista Serafim

Bacharel em Ciências Econômicas, 2º Lugar Prêmio Corecon-RS 2019,
Categoria Monografias ou Trabalhos de Conclusão de Curso

 


Qual a proposta do trabalho “O Potencial Econômico do Enoturismo no Município de Pinheiro Preto/Santa Catarina”, 2º Lugar no “Prêmio Corecon-RS 2019”?

O objetivo do trabalho foi demonstrar o potencial econômico do enoturismo no município de Pinheiro Preto, localizado na região do Meio-oeste do Estado de Santa Catarina. De colonização italiana, Pinheiro Preto possui cerca de 3513 habitantes e 22 vinícolas ativas em seu território, sendo conhecida como Capital Catarinense do Vinho e município que possui o maior número de vinícolas ativas de Santa Catarina, fazendo da uva a sua principal vertente econômicaeconômica. Para atingir o objetivo do trabalho, além do contexto teórico, realizei uma pesquisa de campo, a fim de explorar e conhecer melhor a região. Dessa forma, pude identificar o desenvolvimento econômico regional, o enoturismo e o perfil socioeconômico do município de Pinheiro Preto.

 

Qual a importância do enoturismo para as economias locais?

O segmento ganhou força significativa no mercado brasileiro a partir de 1990, com a abertura do mercado brasileiro às importações, pelo então presidente Fernando Collor de Mello. Desta forma, as vinícolas tiveram que enfrentar a concorrência dos vinhos estrangeiros e como forma de diversificar e aumentar suas receitas as vinícolas brasileiras abriram suas portas para os turistas, investindo em novos atrativos e na qualidade de seus produtos, o que possibilitou o desenvolvimento de roteiros enoturísticos cujo foco concentra-se no vinho e na cultura local, proporcionando crescimento e desenvolvimento das regiões e do enoturismo, bem como alavancagem econômica das vinícolas. Estima-se que o enoturismo atraia cerca de 1,5 milhões de pessoas no Brasil.

 

As propostas para desenvolvimento do enoturismo em Pinheiro Preto poderiam se aplicar a outros municípios, em especial aos municípios produtores gaúchos?

Com certeza! No estudo propôs-se a criação de um cluster turístico voltado ao enoturismo, que beneficia seus integrantes e o município de Pinheiro Preto, fortalecendo-se por meio de conhecimentos e de ações em conjunto. As suas atividades fomentariam a produtividade, a inovação e o desenvolvimento local, gerando negócios, ampliando o acesso a empregos e incentivos a qualidade. Nesse contexto, a caracterização do cluster, bem como a maioria de suas propostas poderiam sim serem aplicadas em outros municípios, principalmente municípios com aptidões vitivinícolas e turísticas, como é o caso de muitos municípios gaúchos.

Quais as principais conclusões do teu estudo?

Com base nos indicadores apresentados, no interesse por parte das vinícolas e no diagnóstico realizado, identifiquei que há potencial econômico para o enoturismo, evidenciado na estruturação das 22 vinícolas presentes no território, respondendo, assim, ao objetivo do estudo. Porém, para que haja desenvolvimento desse segmento no município, é necessário que as propostas e ações sugeridas sejam executadas, principalmente, que o agrupamento de vinícolas seja formalizado e transformado em um cluster de turismo. Dessa forma, integrando as vinícolas e fazendo-as cooperarem entre si, impulsionando o desenvolvimento de toda a cadeia produtiva ligada a esse setor. Chamo atenção para a colaboração que esse agrupamento necessitará, sugerindo que haja expressiva cooperação entre o poder público e privado.

 

O Comércio intraindústria e a economia


Nadine Führ Steffen


Bacharel em Ciências Econômicas, 1° Lugar Prêmio Corecon-RS 2019,

Categoria Monografias ou Trabalhos de Conclusão de Curso

 


Como surgiu a proposta do trabalho “Os efeitos do Comércio Intraindús-tria sobre a Complexidade Econômica: Uma Abordagem a Partir do Padrão Tecnológico”, 1º Lugar no “Prêmio Corecon-RS 2019”, Categoria Mono-grafias ou Trabalhos de Conclusão de Cursos?

Imaginou-se previamente uma possível associação entre comércio intraindús-tria - os países que compram e vendem, simultaneamente, produtos de uma mesma indústria, sejam partes e peças ou bens finais - e complexidade eco-nômica, sofisticação e diversificação do tecido produtivo do país. Esta última, conforme aponta a teoria, requer a existência de largas redes produtivas, com firmas integradas dentro e fora do país. Mais tarde, acrescentou-se a especifi-cação de padrões tecnológicos à proposta de estimar os efeitos do comércio intraindústria sobre a complexidade econômica, sugerindo que pudessem ocorrer efeitos em graus e sentidos distintos de acordo com maior ou menor padrão tecnológico dos produtos.

Que tipos de padrões foram levados em consideração no estudo?

Optou-se pelo uso da já conhecida taxonomia de Pavitt, originalmente de 1984, para a segmentação de todos os produtos importados e exportados pelos países em padrões tecnológicos. Os produtos com maior complexidade eco-nômica são industriais, como equipamentos médicos, elétricos e eletrônicos e químicos. Portanto, foi considerado apenas o recorte dos quatro padrões tec-nológicos compostos de produtos industriais: intensivos em trabalho, como calçados e bolsas; intensivos em escala, como automóveis e lâmpadas; de for-necedores especializados, como máquinas sob encomenda; e intensivos em P&D, como aviões, semicondutores e antibióticos.

O que fez parte dos procedimentos para a estimação proposta?

Supondo a correspondência entre maior complexidade econômica, maior pa-drão tecnológico e maior intensidade de comércio intraindústria, a amostra da pesquisa foi composta pelos 43 principais países exportadores, observados de 2002 a 2016. Foi calculado o índice de comércio intraindústria para os quatro diferentes padrões tecnológicos na relação de comércio de cada país com o mundo. Para a composição da base de dados, além do Índice de Complexida-de Econômica, elaborado e disponibilizado pela Universidade de Harvard e pelo MIT, foram utilizados ainda indicadores de participação da indústria no PIB, investimento em P&D, anos de educação, entre outros. A partir disso, e, em cumprimento ao objetivo do trabalho, foram especificados quatro modelos econométricos, relativos aos padrões tecnológicos do comércio intraindústria, caracterizados na estrutura de dados em painel, e utilizados dois tipos de esti-madores: Mínimos Quadrados Ordinários de Dois Estágios (MQO2) e Método Generalizado dos Momentos (MGM), com instrumentos de Arellano e Bond e de Blundell e Bond.

Qual a aplicação do comércio intraindústria na economia?

Nos últimos 50 anos ganharam cena as novas teorias de comércio internacio-nal. Essas vêm a acolher melhor a evidência empírica dos fluxos de comércio intraindústria entre países, isso é, do comércio de produtos tão similares entre si a ponto de pertencerem a uma mesma indústria. Diferente das teorias tradi-cionais, colaboraram, assim, para a explicação de redes produtivas regionais ou globais pela integração de firmas além dos países, seja na relação de pro-dutor e fornecedor ou na relação entre plantas de uma multinacional, por exemplo. Tais fluxos de produtos fazem emergir uma série de questões impor-tantes em tópicos de organização industrial, desenvolvimento econômico e inovação, no sentido de determinar qual a participação e a posição do país no mapa da produção global.

Quais as principais conclusões do trabalho?

Assim como esperado, verificou-se que as estimativas sugerem efeitos distin-tos de acordo com o padrão tecnológico. Aos modelos de comércio intraindús-tria intensivo em P&D, de fornecedores especializados e intensivo em escala estão associados efeitos positivos e significativos na complexidade econômi-ca. Já o modelo intensivo em trabalho não gerou resultados estatisticamente significativos. Logo, os efeitos estão em torno dos maiores padrões tecnológi-cos. De uma análise mais aprofundada, o Japão, que tem sido nos anos re-centes o país com maior índice de complexidade econômica, foi um dos que mostrou mais notável avanço do comércio intraindústria de produtos intensivos em P&D. Por outro lado, países menos desenvolvidos em geral ainda não atingiram os índices de comércio intraindústria, a partir dos quais as estimati-vas notaram efeitos na complexidade econômica.

E como se comportaram, na análise, os países em desenvolvimento?

Também neste contexto, sobretudo com relação aos países latino-americanos, ressalta-se como oportunidade o incremento do comércio em produtos intensi-vos em escala, fonte essa já esgotada pelos países desenvolvidos. Tal reco-mendação pode ser solidificada pelo que se resume das teorias de desenvol-vimento econômico e inovação relacionadas ao comércio internacional: os processos são cumulativos, por meio dos quais os países criam e avançam na combinação de recursos disponíveis, criando pouco a pouco a capacidade de desenvolver produtos mais sofisticados. Por fim, observa-se a produção de in-tensivos em trabalho, realizada em estruturas produtivas simples e com poucas ligações de conhecimento tácito, essas comuns a países menos desenvolvi-dos. Todavia, considerando como proxy o Índice de Complexidade Econômica, o fortalecimento das trocas comerciais entre tais produtos de menor padrão tecnológico não constitui uma oportunidade de desenvolvimento econômico.

Jornalismo de Economia e a arte das fontes


Giane Heidrich Guerra

Jornalista de Economia do Ano/Corecon-RS 2019
Colunista Multimídia de Economia Rádio Gaúcha, GaúchaZH,
Zero Hora, RBS TV, Rádio 102.3

 

O que é necessário para trabalhar com o jornalismo econômico?

Acho importante não ter pavor de números. Mesmo que ainda não saiba lidar com eles, é importante estar disposto a aprender. Entender os discursos também é importante. Há vários lados na notícia, assim como em qualquer outra Editoria. Praticamente nenhum assunto é unânime.

Como elaboras tuas pautas diárias?

Elaboro minhas pautas como se fosse um quebra-cabeças porque trabalho em espaços variados, de audiências bem diferentes. O que fecha o noticiário da rádio dificilmente é o que gera mais audiência na internet. E eu quero os dois, e ainda falar de educação financeira, de estratégias, de negócios. Essa vontade de produzir para todos os públicos me deixa um tanto zureta. Mas o resultado e alcance são incríveis e muito compensadores.

Como fazes a checagem das informações, já que tens que priorizar a precisão e rapidez da notícia?

Eu faço a checagem das informações com minhas fontes, que me abastecem em outros momentos e que costumam passar pautas que procedem. Há uma troca essencial na relação. Recebo tentas pautas e provocações diárias, que vou selecionando aquelas que serão minhas apostas. Raramente uso fontes para análise apenas. Em geral, estão relacionadas à pauta. Mas, quando há análise, costumo usar fontes que, em outras momentos, me passaram boas informações. Em tempo, fora minhas fontes TOP 5, os leitores e ouvintes são de onde vêm, em geral, as melhores pautas.

Até que ponto o viés político da fonte pode influenciar na construção da notícia de economia?

Meu viés político é fugir totalmente do partidarismo. Tanto que sou xingada de ser dos dois lados. Ou mais lados, quando há. E, tudo bem. Não deixa de ser um sinal de que estamos no caminho certo. Hoje, por exemplo, noticiei várias coisas. Entre elas, dois empreendimentos. Um, de empresário ligado à esquerda, e outro, ligado à direta. E tomei elogio e chumbo dos dois lados. É do jogo. E quem não sabe brincar que não desça para o play.

O que consideras uma excelente fonte?

Minhas fontes mais legais são aquelas que me passam fatos. Me contam coisas. As melhores contam coisas que sequer dizem respeito a elas, mas que estão de olho no que pode me interessar. Claro que elas, muitas vezes, têm seus interesses. Como eu disse antes, é do jogo, e tudo bem. Sendo informação verídica e não plantada, ótimo. As fontes mais bacanas ainda deixam claro o interesse e, aí, acaba ficando realmente mais transparente a relação. Essas moram no meu coração!

Que tempo sobra do teu dia quando se exerce simultaneamente uma atividade de repórter, colunista e comentarista de economia de um grande grupo de Comunicação?

Tempo, tempo... Eu adoro “reportear”. Então, não deixa de ser um prazer trabalhar bastante. Sou casada com um colunista também, o Jocimar Farina, que fala de infraestrutura. As coisas se misturam e, de forma saudável. Nos ajudamos bastante. Trocamos pautas, fontes, percepções, nos ajudamos nas apurações. Descobri a gravidez da primeira filha, Atena, enquanto voltava de uma indústria que fui conhecer. A gravidez do Gael foi descoberta no banheiro da rádio após eu ter aberto o programa Chamada Geral. Durante a semana, eu realmente me dedico bastante às apurações. No final de semana, eu tento ficar pouco no celular, vou para lugares próximos da natureza. Ainda praticamos dança, meditamos, fazemos musculação e cozinho a alimentação da família. Quero voltar a ler mais livros. Com jeitinho, organização e uma boa rede de apoio, que tenho com meu marido e meus pais, tenho conseguido fazer tudo. Recentemente, o Daniel Giussani começou a trabalhar na coluna comigo e tem sido minha salvação, junto com outros colegas em quem me apoio diariamente.

 

Cadastro Positivo e inadimplência


Oscar Frank Junior

Economista-Chefe do CDL Porto Alegre,
Articulista de Economia Lócus
Corecon-RS Nº 8080

 


Como está o endividamento das famílias?

De acordo com o Banco Central, o tamanho da dívida das famílias brasileiras em relação à renda acumulada em 12 meses vem aumentando desde o segundo semestre de 2018, após retração verificada nos anos anteriores. Durante a grande recessão, que atingiu o Brasil entre meados de 2014 até o fim de 2016, os consumidores reduziram parte dos seus passivos com o objetivo de lidar com a incerteza política e econômica característica da época. Já nos últimos 18 meses, a demanda reprimida e a queda estrutural da Taxa Selic, que serve para balizar o custo das operações de empréstimo, são, na minha opinião, os principais vetores que ajudam a explicar a dinâmica do endividamento. É importante notar também que esse movimento recente de alta não é determinado pelo crédito habitacional, de longo prazo e mais estável, mas sim por outras modalidades. Devemos, portanto, estar atentos aos sinais emitidos pelo mercado.

Qual o índice de inadimplência do consumidor brasileiro?

Conforme a amostragem representativa da Boa Vista SCPC, 28,0% dos consumidores brasileiros possuem algum restritivo.

Como reduzir a indadimplência?

Dentre as ações necessárias para evitar que a inadimplência se torne um problema estrutural, acredito que a sequência da agenda de reformas é premente. Cada vez mais dependeremos de produtividade para a geração de crescimento sustentado, uma vez que a quantidade de entrantes no mercado de trabalho tende a encolher sistematicamente nas próximas décadas. Da mesma forma, a disseminação de educação financeira de qualidade apresenta relevância. A ideia é conscientizar a população sobre o uso inteligente e parcimonioso do crédito, em suas diferentes formas. Promover essa sustentabilidade é fundamental, pois, segundo a literatura especializada, nos momentos em que o crédito se expande acima de sua tendência histórica, ou seja, quando o hiato é positivo, a inadimplência sobe dois ou três trimestres à frente.

Qual a finalidade do Cadastro Positivo?

O Cadastro Positivo é um banco de dados sobre adimplemento. Ou seja, toda a vez em que se vende a prazo para pessoas físicas e jurídicas e o pagamento das parcelas da operação ocorre dentro do limite de tempo estipulado, gera-se uma informação positiva. A partir desse novo conjunto, o processo de mapeamento do histórico de crédito ganha em assertividade. Até a implementação desse sistema, em vigor desde 2011 e sob novas regras desde abril de 2019, tínhamos acesso apenas a uma fotografia sobre a capacidade de pagamento de cada agente, observando tão somente o comportamento restritivo. Agora, temos acesso a um filme, com todos os seus detalhes e nuances, a partir da combinação entre informações positivas e negativas.

Que tipo de benefício o cidadão consumidor tem com o Cadastro?

A experiência internacional é rica em evidências no tocante aos benefícios que países de diferentes matizes econômicas, políticas e ideológicas colheram a partir da implementação de mecanismos semelhantes ao Cadastro Positivo no Brasil, incluindo Egito, Arábia Saudita, Itália e China. Creio que o fortalecimento dessa instituição ajudará na democratização do mercado de crédito, possibilitando queda da inadimplência, juros mais baixos e ampliação dos prazos. Aqui, por exemplo, uma parcela razoável da população não é bancarizada. Agora, as informações positivas geradas junto aos serviços de utilidade pública, como água, luz, telefone, internet, consórcios, entre outros, também compõem o histórico de crédito, viabilizando a abertura de contas por parte desse grupo e, consequentemente, a utilização dos serviços das instituições financeiras. Sabemos que o estoque de crédito como proporção do PIB no Brasil é baixo no comparativo internacional. Logo, todas as medidas que visem dar robustez e dinamismo às operações de empréstimo precisam ser comemoradas. Os efeitos da injeção esperada de recursos no sistema financeiro são ainda mais relevantes quando ponderados pela atual conjuntura, de recuperação letárgica do nível de atividade.

De que forma o Cadastro pode estimular a redução da inadimplência no País?

As simulações conduzidas pela Boa Vista SCPC indicam que o percentual de consumidores com acesso a financiamentos no Brasil subiu de 64% (considerando apenas informações negativas) para 88% (cenário que combina dados positivos e negativos) – mantendo a inadimplência constante. Se, por outro lado, a aprovação de crédito permanece intacta, o efeito sobre a inadimplência é de -32%. Trata-se de um resultado relevante porque, na prática, a liberação de novos recursos está muitas vezes vinculada a critérios mais lenientes para a concessão, que se traduzem em maior inadimplência. Todavia, com o Cadastro Positivo, esse fenômeno não ocorre. Levantamento do Banco Central revela que a inadimplência é um dos principais componentes na formação do chamado ICC – Índice do Custo do Crédito. Ou seja, a expectativa é de barateamento dos empréstimos na ponta final. O Cadastro não é a bala de prata que vai resolver o problema dos juros elevados, até porque existem outros componentes em sua formação, como os impostos, a despesa dos bancos com a captação dos recursos, a ineficácia da recuperação de garantias, entre outros. Porém, certamente trará sua parcela de contribuição.

 

Corede Serra e seus municípios

 



Mônica Beatriz Mattia

Economista, presidente do Corede Serra
Corecon-RS Nº 6022

 

 

Qual a função dos Conselhos Regionais de Desenvolvimento (Coredes)?

Os Coredes foram criados pela Lei nº 10.283, de 17 de outubro de 1994, e regulamentados pelo Decreto nº 35.764, de dezembro de 1994. Pela Lei, têm um leque de objetivos muito amplo, que passam pela promoção do desenvolvimento regional sustentável, melhoria da qualidade de vida da população, distribuição equitativa da riqueza produzida e, mesmo, preservação e recuperação do meio ambiente e estímulo à permanência do homem em sua região. Busca promover a participação de todos os segmentos da sociedade regional no diagnóstico de suas necessidades e potencialidades, para a formulação e implementação das políticas de desenvolvimento integrado da região; elaborar planos estratégicos de desenvolvimento regional. Da mesma forma, busca orientar e acompanhar, de forma sistemática, o desempenho das ações do Governo Estadual e Federal, na região, respaldando as ações do Governo do Estado na busca de maior participação nas decisões nacionais.

Quantos municípios o Corede Serra atende?

O Corede Serra é formado por 32 municípios. São eles Antônio Prado, Bento Gonçalves, Boa Vista do Sul, Carlos Barbosa, Caxias do Sul, Coronel Pilar, Cotiporã, Fagundes Varela, Farroupilha, Flores da Cunha, Garibaldi, Guabiju, Guaporé, Montauri, Monte Belo do Sul, Nova Araçá, Nova Pádua, Nova Prata, Nova Roma do Sul, Paraí, Pinto Bandeira, Protásio Alves, Santa Tereza, São Jorge, São Marcos, São Valentim do Sul, Serafina Corrêa, União da Serra, Veranópolis, Vila Flores e Vista Alegre do Prata.

Qual o perfil socioeconômico desses municípios?

Dos 32 municípios, 17 deles possuem população menor de quatro mil habitantes. A grande região possui o segundo maior núcleo habitacional do Estado, com 948.165 habitantes. Tratam-se de municípios de grande e médio portes, como é o caso da capital regional Caxias do Sul, com 468.919 habitantes, e da sub-capital Bento Gonçalves, com 121.826 habitantes. Com uma área total de área de 6.947,5 km², apresenta atividades produtivas diferenciadas. Reconhecida como região altamente industrializada, concentra, também, empresas e empregos em setores de média e alta tecnologia. Alguns, totalmente dependentes da agropecuária e, outros, com forte atividade turística consolidada. A região também apresenta taxa de analfabetismo de pessoas com 15 anos ou mais, de 2,66% (2010) e coeficiente de mortalidade infantil de 9,29 por mil nascidos vivos (2017).

Como os Coredes obtêm recursos para realizar suas ações?

Uma das ações relevantes dos Coredes refere-se à gestão do Plano Estratégico de Desenvolvimento Regional. O último Plano produzido refere-se ao período 2015-2030, com propostas de infraestrutura logística, energia, urbanismo e habitação, meio ambiente, turismo, setor produtivo, saúde, educação e segurança. Os projetos dependem, na maioria, de recursos da União e do Estado e das articulações com o setor produtivo e, em menor número, da captação de recursos de agências de financiamento, como Finep, Fapergs e outras. Para manutenção das atividades da secretaria executiva, conta com recursos do Governo Estadual, de municípios e com apoio da Universidade de Caxias do Sul, que sedia a secretaria, disponibilizando recursos humanos e tecnologias.

Quais os seus projetos nesta sua gestão à frente do Corede Serra?

O foco das atividades está no acompanhamento da execução dos projetos que contam com recursos da Consulta Popular 2018 e 2019 nas áreas da Saúde, Inovação, Turismo e Arranjos Produtivos Locais. Também o acompanhamento e apoio das articulações referentes à busca de soluções para as rodovias e ao aeroporto regional, o apoio na implantação da Região Metropolitana da Serra Gaúcha, às iniciativas do Comitê de Gerenciamento das Bacias Taquari-Antas, estímulo aos municípios para fazerem adesão aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), implementando políticas públicas para melhoria de seus indicadores; articulações para a execução de projetos, constantes no Plano Regional de Desenvolvimento da Serra 2015-2030, a serem definidos pela nova Diretoria Executiva. Além dessas atividades, atuaremos muito próximos da Associação dos Municípios do Nordeste (Amesne e CIC Serra) e participaremos, também, de articulações que envolvem o desenvolvimento do Estado, uma vez que integramos a Diretoria do Forum dos Coredes, que reúne os 28 Coredes do Estado do RS.

De que forma o Corede Serra tem atuado na região?

Na realização de reuniões microrregionais para discussão anual dos projetos prioritários que integram a Consulta Popular e para a elaboração do Plano de Desenvolvimento Regional, que acontece a cada quatro anos. Tem atuado na articulação com órgãos estaduais instalados na região, com entidades empresariais e com a representação regional dos prefeitos e vereadores. Tais articulações visam o desenvolvimento de ações para reduzir os gargalos regionais que atrasam o crescimento dos indicadores sociais e econômicos da região. Participa, também, do aprofundamento de debates que contribuam com um desenvolvimento baseado na inovação, na adoção de novas tecnologias pelos setores tradicionais e na transformação do setor público e produtivo em agentes de desenvolvimento modernos e com total aderências às transformações mundiais impactadas pela automação, por novas plataformas digitais, tecnologias de logística, entre outras.

Qual a importância dos trabalhos realizados pelo Corede para a região serrana e para a economia gaúcha?

Sua importância está em buscar soluções regionais para problemas que afetam o desenvolvimento socioeconômico dos municípios integrantes, a partir de uma visão integrada de desenvolvimento e baseada no Plano Estratégico 2015-2030, que se caracteriza como um documento base para a definição de investimentos do Governos federal e estadual. Também, no acompanhamento e estímulo à adesão aos novos programas e projetos dos governos que assumiram a gestão em 2019. É um elo suprapartidário entre a sociedade e o Governo, no sentido de sinalizar prioridades regionais que possam melhorar a qualidade de vida da população, bem como aspectos relativos ao desenvolvimento do setor produtivo. Um dos papéis do Corede é manter-se vigilante para assegurar a manutenção do grau de desenvolvimento regional.

De que forma o Corede Serra vem interagindo com empresas, governo e universidades da região?

O Corede Serra está vinculado diretamente à Secretaria Estadual de Governança e Gestão Estratégica, que se constitui em canal direto de comunicação com o Governo do Estado. Com as empresas, se relaciona através das entidades de classe e dos Arranjos Produtivos Locais, além de outras instituições de apoio ao setor produtivo. Os Coredes contam com uma representação junto ao Conselho do Fundopen e, junto às Universidades, seu relacionamento é umbilical, uma vez que foram essas instituições que abrigaram os Coredes desde sua instalação, como no caso da Serra, Universidade de Caxias do Sul, além de subscrever projetos de desenvolvimento regional desenvolvidos com recursos advindos de agências de financiamento e de secretarias estaduais. Exemplo de projetos são os vinculados ao Polo de Modernização Tecnológica, ao Arranjos Produtivos Locais, ao Meio Ambiente, ao projeto de Parques Tecnológicos e Incubadoras, entre outros. A presidência do Corede Serra foi indicada pela Universidade de Caxias do Sul, sendo que a UERGS integra a Diretoria Executiva.

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