Banrisul, a certeza do dever cumprido

mota
 
Luiz Gonzaga Veras Mota
Economista, presidente do Banrisul (2015/2019), presidente da Associação dos Bancos do Estado do RS
Corecon-RS Nº 3575

 

O que significa para o corpo de funcionários do Banrisul ter um presidente de carreira a frente da Instituição?
O Banrisul possui um quadro técnico de longos anos e muito bem qualificado. O Banco é um emprego de carreira fechada, em que o funcionário, na sua grande maioria, entra no início de sua trajetória profissional e fica até se aposentar. Temos economistas, contadores, administradores, advogados, enfim, profissionais de todas as formações, muitos desses que, pela sua capacidade, acabam chegando, ao longo de sua trajetória profissional, ao nível de gestores ou de governança corporativa. Para o quadro, isso é muito importante. E eu, particularmente, tive a sorte de ser premiado nessa missão, ao ser, pela primeira vez na história de nosso banco, como funcionário de carreira, escolhido para a função de presidente. Vinha atuando também como vice-presidente do Conselho de Administração do Banco, assumindo ainda há oito meses, a função de presidente do Conselho, em substituição ao então secretário da Fazenda, Luiz Antônio Bins. É, portanto, a primeira vez na história, que um funcionário concentrou tanto poder hierárquico no Banco.

E como foi essa experiência?
Procurei desempenhar com melhor governança possível, porque é um cargo público e um cargo de peso para o Estado do RS, já que o Banrisul é uma das maiores empresas gaúchas e, também, pela relevância da atividade econômica, porque é um banco, e banco, por natureza, é uma atividade muito complexa. Tanto do ponto de vista de risco, como de relacionamento com o cliente, de responsabilidade com a sociedade. Afinal de contas, a sociedade gaúcha tem grande parcela de suas economias na confiança do Banrisul, o que é compreensível já que trata-se de uma instituição respeitável e que possui todos os fundamentos para que a sociedade confie ali seus recursos e, em contrapartida, seja bem compensada por isso. E isso requer também, da parte do gestor, do administrador, uma hiper-responsabilidade com aquilo que é seu dever de ofício, que é fazer a gestão do banco. Então, vimos procurando a contento de fazer essa entrega em todos os campos para o mercado, para os funcionários, para os acionistas, e para a sociedade de uma forma geral, a entrega de um banco renomado, um banco transformado, um banco muito mais jovem do que a gente encontrou.

Os desafios que sua gestão tinha pela frente ao assumir o Banco foram alcançados?
O grande desafio era transformar e preparar o Banrisul para uma nova geração de bancos. Nos próximos anos, o sistema financeiro nacional sofrerá uma grande transformação, e esse era o nosso principal desafio. Buscar o equilíbrio, uma entrega de lucro e de resultados para os investidores. E os resultados vêm aparecendo. Foi o que ocorreu neste último ano que se encerrou em dezembro, e também deverá ocorrer neste trimestre que já fechou em março, e que divulgaremos em maio próximo. Somos hoje um banco com um resultado equânime junto aos três principais bancos privados do país, Santander, Bradesco e Itaú, com o mesmo nível de entrega de rentabilidade sobre os ativos e de entrega de rentabilidade sobre o patrimônio líquido. Esse era o grande desafio. Mas não só isso, que é muito importante para os investidores e para os acionistas. Mas, também, um reconhecimento à sociedade gaúcha, que é o nosso nicho aqui no RS. Somos um banco regional, que atua predominantemente no RS e que é o orgulho dos gaúchos e essa a grande responsabilidade e o grande desafio para o gestor. Manter essa placa, esse conceito para a sociedade.

Como o Banrisul vem enfrentando o desafio diário da evolução tecnológica?
Manter o Banco com alto nível de tecnologia, como requer o sistema, é um outro grande desafio. E, também existe o contraponto. Se o Banrisul é altamente rentável, também deve ser muito bom para os funcionários, e este equilíbrio que é o nosso grande desafio. Manter um banco com ativo de qualidade e rentável, tanto para a sociedade como para investidores e, ao mesmo tempo, possibilitar que os funcionários se sintam realizados e satisfeitos em trabalhar para uma empresa de qualidade, como é o Banrisul. Esse equilíbrio das coisas que, ao mesmo tempo é a beleza para o gestor que está fazendo e, também, o desafio para se alcançar essa equação, procurando deixar satisfação a todas as partes interessadas. Esse era mesmo o grande desafio que eu tinha.

Como o senhor vê a função do Banrisul neste novo contexto econômico vivenciado pelo país e pelo RS?
A economia privada do RS é uma das melhores do pais, puxada pelo agronegócio. Já o ente Estado está passando por dificuldade fiscal, cuja solução é de longo prazo. O Banrisul encontra-se no contexto do mercado privado, apesar de ele ter um controlador que vive momentos de dificuldades. Mas essas coisas não se misturam. As regras do mercado são muito claras. As leis do Banco Central, da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), das Sociedades Anônimas (SAs), também são muito claras. O Banrisul é uma empresa que trabalha para a sociedade gaúcha e, neste contexto, está inserido como uma empresa que no ano passado colocou na economia do RS, através da realocação de diversos empréstimos, R$ 47 bilhões. Isso, pela sociedade de consumo, de pessoas físicas, que puxam a economia, que puxam o comércio e que desenvolvem o estado através do fomento do crédito da pessoa física. Das mais diversas formas, desde a venda nos supermercados, mas, principalmente, no comércio de bens de consumo, como geladeira, televisão, etc, e, mesmo das pequenas e médias empresas, o Banrisul é o maior agente fomentador de crédito e de investimento. Pelo lado do crédito imobiliário, por exemplo, o nosso Banco é o maior gerador de empregos, financiando a indústria da construção civil no estado do RS, como importante banco de fomento para o setor imobiliário. Pelo lado do crédito agrícola, também o Banrisul está fortemente presente, sendo o terceiro maior banco de fomento do setor, e se prepara para alcançar posições bem mais fortes em futuro próximo no financiamento do agronegócio. O Banrisul está atuante na cadeia produtiva, desde a produção da máquina, o trator, até a outra ponta, da venda dos insumos agrícolas, através do adubo para a colheita ou do óleo diesel para o trator. Desses R$ 47 bilhões, representamos mais de 20% do fomento do crédito do RS. Então, um banco público, porque tem um controlador público, que faz a economia gaúcha andar, e, o mais importante de tudo, somos daqui, somos regionais, estamos presentes em todas as nossas comunidades. E, quando a economia está pujante, estamos junto. E, quando a economia não está bem, estamos juntos também. Nós não fugimos da nossa meta. Nós ficamos financiando os nossos clientes e, nas horas que eles mais precisam e têm dificuldades, o Banrisul está presente, colaborando com a economia do RS. Essa é a diferença do banco público. Temos mais de 200 mil pessoas jurídicas, que alimentam a economia gaúcha, geram emprego, geram renda. E temos mais de quatro milhões de pessoas físicas, que também são clientes do Banrisul.

E qual o grande desafio do setor agora?
O grande desafio para o setor bancário é o mundo digital, onde o Banrisul está fortemente inserido. Estamos no nível dos três principais bancos do país, e trabalhando fortemente com nossas empresas de serviços, que também são muito importantes para a economia gaúcha. Com a nossa empresa de consórcios, que é voltada a agentes jurídicos que precisam de transporte, de veículos para tocar o seu negócio, estamos muito fortes nesse setor. No mundo de adquirência também somos fortes, assim como na área de seguro e previdência, onde temos a maior empresa voltada a pessoas físicas, que é a Rio Grande Seguros e Previdência, uma empresa nova, que já e a líder do setor no RS. E, existe também, o novo mundo bancário que vem por aí. As transferências eletrônicas vão favorecer muito a comunidade para o serviço bancário poder ser todo feito por plataformas via celular, que são a mesma ferramenta do Blockchain, das moedas bitcoins que são transacionadas. Da mesma forma, a plataforma nova que está vindo por aí, que é o Open Bank, ou banco aberto, que vai beneficiar o setor de serviços bancários. Dentro de dois anos todos os bancos estarão no mesmo nível tecnológico. Ninguém será diferente do outro. Os bancos têm muito capital para investir em tecnologia e o Banrisul, por sua vez, já investiu mais de R$ 400 milhões este ano, só nesse nicho. As fintechs ainda são iniciantes já que ainda não têm o capital necessário. Também estão surgindo as grandes plataformas de guarda de cartões de pessoas físicas, a getway e a plataforma aberta. Três ferramentas de mercado e que vão continuar a disputa tecnológica do dia a dia dos bancos, e as fintechs, por sua vez, estarão concorrendo nesse mundo. É uma grande transformação para as pessoas físicas no dia a dia do sistema bancário. Cada vez terá mais tecnologia e menos dependência das pessoas, além de serviço mais barato, o que é bom para a sociedade.

Educação financeira e ensino formal


Cleusa Karina Warken

Economista, 2° Lugar “Prêmio Corecon-RS 2018”,
Categoria Monografias ou Trabalhos de Conclusão de Curso
Corecon-RS Nº 8657

Sobre o que aborda o trabalho “Educação financeira na formação básica como alicerce para o futuro: estudo da proficiência dos estudantes de Ensino Médio de Caxias do Sul”, 2 Lugar no “Prêmio Corecon-RS 2018”, Categoria Monografias ou Trabalhos de Conclusão de Curso?


A monografia trata de um dos problemas que impede o desenvolvimento pessoal dos indivíduos, a falta de conhecimento em finanças. A modernização do mercado financeiro e a diversidade de modalidades de investimento dificulta na escolha do investimento que melhor se adeqúe ao perfil de cada indivíduo. Além disso, a falta de conhecimento em juros e custos de transação influencia o consumo exacerbado e eleva os níveis de endividamento e inadimplência.

Qual o objetivo do estudo?

O trabalho dedicou-se a determinar o nível de proficiência em educação financeira dos estudantes de ensino médio de Caxias do Sul e comprovar a necessidade de introdução da educação financeira como disciplina na grade curricular do ensino formal.

Quais as conclusões?

Foi possível constatar que os estudantes de escolas privadas têm melhor desempenho em educação financeira entre os grupos analisados, seguido do grupo de estudantes que tem maior vivência financeira no seu dia a dia, e após, o grupo de estudantes que pelo menos assistiu a palestras ou cursos de educação financeira. Com o menor desempenho na pesquisa encontram-se os estudantes que não têm qualquer contato com assuntos ligados à educação financeira. Além disso, constatou-se uma diferença de performance entre gêneros. O sexo masculino tem desempenho inferior ao feminino. No entanto, mesmo com as diferenças nas pontuações médias entre os grupos, todos se enquadraram no nível de proficiência 3, que dá alicerce apenas para a realização de tarefas simples, como escolhas financeiras de curto e médio prazos. O resultado da pesquisa de campo comprova a necessidade da introdução da educação financeira para os estudantes do ensino médio de Caxias do Sul, pois, em pouco tempo esses indivíduos estarão tomando decisões de longo prazo, como, por exemplo, o uso de um financiamento estudantil ou a compra de um automóvel. A proficiência de nível 3 em educação financeira não dá suporte a esse tipo de decisão financeira ocasionando más escolhas e comprometendo o futuro próximo desses indivíduos.

O que falta para o poder público tornar realidade essa medida?

O poder público, nos últimos anos, dedicou-se a estimular o consumo no intuito de aquecer a economia. No entanto, quando os indivíduos não têm conhecimento em finanças, o planejamento dos seus gastos não leva em consideração a restrição orçamentária, e, quando ele se dá conta, não está conseguindo honrar seus compromissos. É necessário que o poder público reconheça que essa política não funciona quando a população não é preparada para tanto.

Não existem iniciativas práticas de educação financeira na região?

Atualmente há muitas iniciativas privadas e públicas que oferecem cursos e palestras sobre educação financeira, mas já não é o suficiente. Para que haja realmente a mudança de comportamento é importante que este ensino seja contínuo. Uma mobilização da sociedade, com o respaldo de órgãos representativos como o Corecon e o Cofecon, pode tornar explícita a relevância do tema, inclusive com a retaguarda dos números como os apresentados nesse trabalho. Nesse sentido, uma proposta de projeto de educação financeira na educação formal, do ensino fundamental ao médio, é muito importane para que as pessoas possam administrar melhor suas finanças, escolher melhor seus investimentos e, em consequência, viver melhor.

Cenários de flutuação do dólar


Denilson Alencastro
Economista-Chefe da Geral Asset Management
Corecon-RS Nº 6678

 
A que pode se atribuir essa relativa estabilidade da moeda norte americana em relação ao real?

Para começar, é importante lembrar 2018. Nesse período, a moeda brasileira sofreu uma desvalorização frente ao dólar, passando de R$ 3,29 no final de 2017 para R$ 3,87 no final de 2018, e chegando, no período próximo às eleições, a R$ 4,20. Mais recentemente, em função de uma expectativa de aperto monetário no mercado internacional, pelo fato de que os EUA estavam adquirindo mais robustez em sua economia na comparação com as outras nações e pela aversão ao risco em relação aos emergentes, o investidor global acabou migrando e pressionando o dólar para cima, elevando a volatilidade no exterior. Logicamente que, em período pré-eleitoral, com o mercado projetando em algum momento uma vitória do partido contrário a uma pauta mais liberal da economia, também acabou influenciando significativamente. Passadas as eleições, com a vitória do atual governo, aconteceu a lua de mel com o mercado, pelo menos no início de 2019, fazendo com o dólar voltasse a ser cotado a R$ 3,65 no fim de janeiro. Já, de fevereiro até meados de março, a moeda norte-americana voltou a oscilar a cotação na casa dos R$ 3,80. Isso, devido a uma valorização internacional da moeda e de perspectivas um pouco menos animadoras em relação à economia brasileira. Em suma, vejo que essa oscilação da taxa de câmbio entre R$/US$ 3,65 e 3,95, que, para alguns poderia ser uma “estabilidade”, se deve às questões relatadas anteriormente. Mas esse intervalo de oscilação pode mudar substancialmente, dependendo do resultado de aprovação ou não da reforma da previdência. E pesa bastante no câmbio agora a modificação dos principais bancos centrais do globo em relação à política monetária.

E também a expectativa de maior crescimento do PIB e a realização das reformas?

Também. Logo no início deste ano, havia uma expectativa maior de crescimento do PIB de 2,5%, uma expectativa de um de um mercado menos “dream” e, ainda, uma expectativa de aprovação das reformas, principalmente a da previdência, trazendo um cenário mais positivo para a moeda brasileira em relação à norte-americana, o que fez com que o real voltasse a se valorizar frente ao dólar, passando de R$ 3,70 para R$ 3,87.

Mas essa realidade cambial pode mudar novamente?

Sim, como dito anteriormente. Os bancos centrais dos países desenvolvidos, principalmente o FED, banco central dos EUA, e o BCE, Banco Central Europeu, estão sinalizando a continuidade de um afrouxamento monetário e de um ajuste menor para cima (se ocorrer) da taxa de juros. Então, isso faz com que acabe ajudando, pelo lado financeiro, as outras moedas. Só que a Europa, na perspectiva de um crescimento para baixo, e por isso até pesou essa decisão do BCE de continuidade do afrouxamento monetário, somado ao fato de a economia americana ter ficado mais robusta na comparação com a europeia principalmente, fez com que o dólar acabasse se valorizando mais nesse período, em detrimento de outras moedas. Então, é um dos fatores que acaba mantendo uma pressão um pouco maior sobre o real, que dias atrás chegou nos R$ 3,90 novamente e agora se encontra na casa dos R$ 3,80. É bom levar em consideração também que existe uma relação muito importante entre o mercado de commodities e o dólar. Num momento em que as comoddities acabam pesando um pouco mais pra baixo, em função de uma perspectiva menor de demanda da economia mundial, e principalmente da China, também tem a questão da guerra comercial, que provoca uma redução natural do fluxo comercial mundial e que acaba impactando nas commodities, com o dólar se beneficiando dessa relação. Então, existe uma pressão um pouco maior do dólar em relação a outras moedas do mundo e essa comunicação um pouco complicada aqui no Brasil.

Existem fatores internos também?

Tem o fator Brasil. Neste momento, os principais fatores que interferem na pauta econômica interna relacionam-se a alguns ruídos no tipo de comunicação que o governo vem empreendendo e a algum fogo amigo que tumultua um pouco o ambiente da votação da reforma da previdência, o que acaba pesando um pouco contra a estabilidade da moeda, e que, somado a uma economia mais pujante dos EUA, acaba levando a moeda a um patamar um pouco maior. A reforma da previdência pode mudar, não conjunturalmente, mas a estrutura da economia, e pode levar a moeda norte-americana a um nível um pouco mais baixo que o atual. Na visão do mercado, isso traria o dólar para um patamar de R$ 3,50, tendendo para baixo. Lógico que uma perspectiva de ter essa reforma aprovada, somada, por exemplo, a um encaminhamento para a solução do endividamento público, que seria uma força muito grande para a economia brasileira, na visão do mercado, seria um cenário melhor e estaríamos possivelmente com o real num patamar menor na comparação com o dólar. Mas, mesmo assim, temos que ter presente que uma reforma da previdência, por si só, ainda estaria muito longe de ser a solução dos problemas econômicos no Brasil. Ainda temos uma perspectiva de crescimento do PIB, que antes era de 2,5% a 3% e que, agora, revisada, chega a 1,5% ou 2%. Isso pesa contra mesmo a questão da moeda, com uma oscilação do dólar um pouco maior. Por fim, cabe acrescentar que o FED sinalizou que ao longo desse ano discutirá a forma de condução da política monetária, de modo a ancorar melhor as expectativas de inflação, ou seja, parece indicar uma mudança estrutural na política monetária, o que pode ter impacto de mais longo prazo na economia. Para entender melhor esse último ponto, recomendo a leitura da carta de gestão da Verde Asset, divulgada nesse mês. Link da carta
http://files.verdeasset.com.br/pdf/rel_gestao/158094/Verde-REL-2019_02.pdf

 

A bolsa de valores e a volatilidade dos retornos financeiros

tainan Tainan de Bacco Freitas Boff
Economista, 3º Lugar “Prêmio Corecon-RS 2018”,
Categoria Monografias ou Trabalhos de Conclusão de Curso
Corecon-RS Nº 8633

 

Sobre o que aborda o trabalho “Comparação do desempenho de medidas realizadas para previsão de volatilidade de ações da B3”, 3º Lugar “Prêmio Corecon-RS 2018”, Categoria Monografias ou Trabalhos de Conclusão de Curso?
O tema central do trabalho é a previsão da volatilidade de retornos financeiros. Este tema é relevante na medida em que permeia problemas econômicos importantes, tais como o apreçamento de ativos, o gerenciamento de riscos e a elaboração de estratégias de investimento, entre outros. Ao contrário dos preços dos ativos, a volatilidade não é diretamente observável no mercado, precisando, portanto, ser estimada. Em teoria, é possível estimar a volatilidade diária de um ativo com maior precisão, utilizando uma amostra de dados de alta frequência, isto é, preços registrados em intervalos de tempo tão pequenos quanto milissegundos. A estes estimadores, chamamos de “medidas realizadas”. A literatura tem sido ativa na proposição de diferentes formas de cálculo destas medidas.

Qual o objetivo do estudo?
A monografia visa comparar o desempenho de diferentes medidas realizadas na geração de previsões de volatilidade de ações negociadas na bolsa de valores B3. A utilização de medidas realizadas em modelos econométricos envolve um grande número de escolhas que, em geral, são feitas ad hoc. Exemplo disso é que estimador utilizar entre os diversos propostos na literatura, que frequência amostral (segundos, minutos, etc.) deve ser escolhida. Há, inclusive, evidências de que o bônus de desempenho associado ao uso de dados de alta frequência está justamente relacionado a estas decisões. Por isso, o objetivo principal do trabalho é fornecer orientação para a seleção da medida realizada e da frequência amostral a serem utilizadas em aplicações na área de econometria financeira com ações da B3.

Quais as conclusões?
Após a conclusão da monografia, a pesquisa continua evoluindo. No estágio atual, aumentamos a amostra de 2 para 41 ações e os resultados favorecem a utilização da medida conhecida como “variação realizada bipotente”, com preços amostrados a cada 1 ou 5 minutos. Além disso, os resultados sugerem que a frequência amostral ideal depende da medida realizada que será empregada e que é benéfico estimar a volatilidade como uma média das estimativas obtidas utilizando sub-amostras dos dados.

Arranjos familiares e a questão educacional



Julia Sbroglio Rizzotto

Economista, Vencedora “Prêmio Corecon-RS 2018”,
Categoria Artigos Técnicos ou Científicos
Corecon-RS Nº 8625

 

Sobre o que trata o trabalho “Os arranjos familiares importam no momento de decidir em qual rede de ensino matricular os filhos?”, elaborado em parceria com os economistas Marco Túlio Aniceto Franca e Gustavo Saraiva Frio, vencedor do “Prêmio Corecon-RS 2018”, Categoria Artigos Técnicos ou Científicos?

O artigo analisou se os arranjos familiares, monoparentais ou biparentais, afetam a escolha parental de em qual rede de ensino, se pública ou privada, matricular os filhos. A contribuição do presente estudo está em considerar os arranjos familiares na questão educacional. A transição demográfica tem reduzido o número de filhos por família e esse aspecto gerará, no futuro, readequação no número de escolas e remanejamento de professores. Além disso, a diversidade da organização familiar, uma vez que o arranjo tradicional - de casal com filhos - tem se reduzido em relevância, aponta para novas necessidades, entre elas, o aumento da oferta de creches e educação infantil, permitindo que a mulher chefe de família, em um arranjo monoparental, feminino possa ofertar trabalho. O crescimento no número de arranjos monoparentais masculinos também pode exigir modificações na política pública, no sentido de dar ao homem condições de cuidar da prole.

Qual o objetivo do estudo?

O objetivo do artigo é analisar se os arranjos familiares afetam a probabilidade de matricular os filhos em um tipo de rede de ensino em detrimento de outro. Além disso, consideramos se as chances se modificam de acordo com o nível de ensino, o sexo e a ordem de nascimento da criança, pois os investimentos parentais podem ser diferentes segundo as suas preferências. Neste trabalho foram utilizados os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2015.

A que conclusões chegaram?

Os principais resultados mostram que 14,88% das crianças e jovens da amostra selecionada para este estudo viviam em arranjos monoparentais femininos. Essa configuração familiar está em residências menores, com renda per capita inferior aos demais arranjos .Nessa configuração familiar, a filha tem maiores chances de frequentar uma escola privada. Esse resultado apontaria para um comportamento altruísta da mulher, além de mostrar que essa preferência pode ser uma tentativa de empoderamento da menina para que ela não passe pelas mesmas dificuldades que a mãe. Nos domicílios com casais e filhos ou nos monoparentais femininos, os filhos mais velhos têm maior probabilidade de estarem matriculados em escolas privadas em relação aos seus irmãos mais jovens. Além disso, os pais têm maior propensão a gastar em educação infantil do que em ensino fundamental, pois estão mais propensos a pagarem a matrícula em uma escola privada. Esse resultado pode ser ocasionado pela falta de creches públicas, o que afetaria os arranjos monoparentais em proporções maiores do que os arranjos com ambos os pais presentes, dado o aumento no custo de entrada no mercado de trabalho.

A nova composição da família também acarreta numa pressão cada vez maior por vagas em creches?

Sim. As evidências do estudo suportam a implementação de políticas públicas voltadas para as creches públicas, a fim de poder dar oportunidade a todos. De acordo com James Heckman, vencedor do Prêmio Nobel em Economia no ano de 2000, investir na educação nos anos iniciais é fundamental para a vida da criança. Os investimentos no ensino infantil são os que trazem um maior retorno e, portanto, não existe política pública mais eficaz do que investir na educação das crianças nos primeiros anos de vida. A redução no número de membros das famílias brasileiras, juntamente com os incentivos à entrada das mulheres no mercado de trabalho, coloca uma pressão sobre a demanda de vagas em creches. Porém, a escassez de opções ou vagas obriga os pais a arcarem com os custos da creche. A redução das chances de frequentar o ensino privado à medida que aumenta o nível de ensino pode ser acarretada pelo crescimento da oferta das escolas públicas nos ensinos fundamental e médio ou por causa da competição, em que duas crianças precisam competir pelos mesmos recursos e independe do arranjo familiar no qual o filho se encontra.

Hz, uma moeda pelo desenvolvimento

 

Stephan Sawitzki
Economista, coordenador do Curso de Economia Faculdade de Horizontina (Fahor)
Corecon-RS Nº  7591

 

 

O que é o Hz?

Hz é uma moeda bônus local, própria de Horizontina, criada pelo Curso de Economia da Fahor e pela Associação Comercial e Industrial de Horizontina (ACIAP), justamente para tentar valorizar o comércio local. Diferente de muitas moedas existentes no mercado, o Hz não é uma moeda social e sim uma moeda bônus comercial, com o objetivo fim de incentivar e estimular o comércio do município, gerando fidelização.

Como funciona, na prática, essa moeda?

Na prática, ela serve como um bônus em que o empresário, o comerciante, o prestador de serviços, pode fornecer, como um prêmio, ao seu funcionário ou ao seu cliente. Ou seja, ao invés de dar um desconto, ou dar um desconto menor, ele pode doar um Hz, já que ela é uma moeda física, manual, e o cidadão, a partir daí, poderá utilizá-la em qualquer loja ou prestador de serviço do município, para pagar sua compra ou um serviço realizado, com essa moeda Hz. O Hz é uma moeda lastreada. Para cada Hz em circulação existe um real depositado numa conta específica para dar segurança ao processo, permitindo uma conversão perfeita com o real, numa relação de um por um. Então, o Hz, como uma moeda de circulação, serve para fortalecer o giro de recursos dentro do município e para tentar amenizar um pouco a evasão de recursos pela internet ou para fora do próprio município.

Quem mais participa desse projeto?

Além da parceria entre o Curso de Economia da Fahor e a ACIAP, tivemos o apoio da Secretaria de Desenvolvimento Econômico do município de Horizontina, que aportou recursos para fazer a divulgação da moeda.

Quais as espectativas?

Esperamos que, com o Hz, o comércio de Horizontina acabe crescendo e se valorizando, gerando emprego e desenvolvimento. Então, o objetivo é justamente gerar desenvolvimento, fazendo com que mais dinheiro circule dentro do município e que se consiga fazer com que a renda do comércio e dos serviços cresça e gere mais empregos, promovendo efetivamente o desenvolvimento social e econômico do próprio município.

Há quanto tempo está em atividade a moeda?

O projeto foi lançado em setembro de 2017 e uma das primeiras iniciativas do Hz foi o Natal Fantástico daquele ano. Agora, na edição do Natal Fantástico de 2018, a moeda completou um ano de circulação, com premiações de Natal em Hz, e mesmo com bônus de final de ano doados em Hz pelas empresas do município, como presentes de Natal a seus funcionários, fornecedores e clientes. Para atender ao projeto Hz foram impressos mais de 200 mil hzs e essa é a possibilidade de giro de hzs dentro do município de Horizontina. Todas as cédulas foram impressasem papel moeda com cédulas numeradas e todos os dispositivos de segurança, inclusive QR Code. Portanto, é uma moeda normal.

Os objetivos estão sendo atingidos?

Alguns objetivos já conseguimos atingir, como a confiança na moeda, o que é muito importante. O público em geral tem confiança no Hz e utiliza a moeda. A gente sente ainda algumas resistências por parte dos empresários, não em sua aceitação, mas no giro da moeda, que é muito importante para a economia. Alguns empresários ainda, ao invés de fazer o Hz girar, acabamrealizando a conversão do Hz em reais, o que faz com que o principal objetivo não seja atingido neste primeiro momento. Estamos buscando correções pontuais para que se consiga realmente fazer uma Hz forte e que todos valorizem isso.

Por que está acontecendo isso?

Existe a questão do giro, que é importante para o empresário, que quer e precisa de liquidez para fazer o giro e pagar fornecedores. Esperamos que em 2019 esse comportamento melhore e, para isso, estamos trabalhando em visitas, mostrando como o Hz pode ser mais efetivo, que é manter essa moeda girando, e, assim, possa cumprir o seu papel na íntegra. O Hz surgiu como uma idéia inicial de um ano e, junto com a ACIH, achamos por bem deixar o Hz circulando por tempo indeterminado. Então, o Hz hoje virou uma moeda de Horizontina, de circulação absolutamente normal. Venceu esse período de um ano, que era um período sabático, e ocorreu tudo bem. Agora estamos providenciando correções pontuais para que se consiga fazer o Hz cada vez mais forte.

Todos os empresários da região participam?

Não. Apenas os empresários localizados dentro do território físico de Horizontina. O que acontece é que alguns empresários de municípios vizinhos aceitam o Hz, mas no momento em que eles aceitam, somente poderãoconsumir em Hz em Horizontina ou doar em forma de bônus para algum cidadão de Horizontina que vai comprar em sua loja. Mas nada impede que ele aceite. Apenas ele não conseguirá fazer diretamente a conversão do Hz em reais. Em Horizontina, aaceitação da moeda é muito boa e o destino mais comumdo Hz são nos supermercados, o que é bem compreensível.

Um Cofecon desalinhado

Clovis Benoni Meurer

Economista, Sócio-Diretor da CRP Companhia de Participações,
Ex-presidente do Corecon-RS, Conselheiro Cofecon
Corecon-RS Nº 1934

 

 

O que lhe levou a disputar a uma vaga para Conselheiro Federal?

Esse foi um caminho natural construído pelos economistas e lideranças aqui do Estado, que sugeriram que eu colocasse meu nome na disputa federal por uma vaga de membro efetivo do Conselho. O RS já vem sendo muito bem representado, nos últimos três anos, de 2016 a 2018, pelo economista Henri Bejzman, que fez um excelente trabalho. Eu já estava como conselheiro suplente em 2018 e, num esforço muito grande, aqui do Corecon e do nosso presidente Rogério Tolfo, para manter essa vaga, para que o RS pudesse continuar tendo uma forte representatividade no Conselho Federal, uma vez que o período do conselheiro Henri estava sendo concluído.

Já tinha experiência anterior com as pautas nacionais?

Isso também foi uma das razões para o surgimento do meu nome como candidato ao conselho federal. Como eu já tinha estado em algumas reuniões do Cofecon, como presidente do Corecon-RS em 2017, e, ainda, como suplente do Henri em 2018,nossas lideranças locais entenderam no meu nome uma forma de garantir essa continuidade da vaga de conselheiro titular para o RS. Acho que temos excelentes nomes no RS que poderiam preencher essa vaga, mas também entendo que, pelo relacionamento desses últimos anos e talvez por meus posicionamentos naquele fórum, é que as lideranças gaúchas entenderem que eu deveria continuar representando o estado no Cofecon. Passei a ser conselheiro federal de 2019 ao final de 2021 ao lado do nosso colega Henri, eleito como suplente.

Qual a linha de ação como conselheiro federal?

Sabemos que está em andamento uma transformação muito grande na política brasileira desde as eleições do ano passado e que, na área econômica, o Brasil sofreu muito especialmente nos últimos anos. De meados de 2014 até meados 2017 o país teve PIB negativo, com uma atividade econômica muito reduzida e um número extremamente grande de desempregados. Por tudo isso, estão acontecendo mudanças importantes. Com as eleições de 2018, e, a partir de agora, temos um novo governo, com uma linha mais liberal e bem diferente do que vinha sendo colocado desde os anos 2000. Mudanças importantes na política brasileira, com a necessidade de reformas trabalhista, da previdência, tributária e política. Da mesma forma, existem projetos de recuperação da área de segurança, do judiciário,e de outros tantos segmentos da sociedade, que todos nós, como cidadãos, estamos acompanhando. E neste contexto, estão processos envolvendo sindicatos, associações, conselhos, que devem também sofrer mudanças importantes. Vivenciamos, por exemplo, as transformações na contribuição sindical e vimos que os próprios sindicatos estão se reestruturando. E,de uma maneira ou de outra, essas mudanças podem influenciar os conselhos profissionais, como dos médicos, dos advogados, dos contadores ou dos economistas. Pode ser que haja uma nova cultura governamental com relação à legislação para essas associações profissionais, que podem, da mesma forma, sofrer ajustes. Então, o Conselho Federal deve estar muito atento na defesa da profissão dos economistas e sobre a importância do economista no processo socioeconômico brasileiro. E essa é a razão pela qual o Corecon-rs preocupa-se em ter lá em Brasília uma voz forte para poder fazer a defesa da profissão, a defesa do sistema, para alinhar um pouco mais o pensamento do Conselho Federal com a política socioeconômica brasileira que se instala a partir desse novo governo, buscando sempre, de forma coerente, um equilíbrio entre todas as idéias e posições.

Os conselheiros federais eleitos para esse novo mandato vêm com novas propostas?

As lideranças atuais do Cofecon ainda vêm de um período do governo anterior e conduzem a Entidade com muita força. E os novos conselheiros que assumiram agora em janeiro possuem uma tendência clara de buscar um equilíbrio maior na proposta de colocar o papel do economista num cenário mais alinhado a esse novo momento, contribuindo de forma positiva na construção de caminhos que possam resgatar o nosso crescimento. Quero fazer um agradecimento a essas nossas lideranças que indicaram meu nome e que, tenho certeza, iremos trabalhar juntos para exercer esse mandato no Cofecon da melhor maneira possível, na luta pelos reais interesses da nossa profissão, de nossa economia e de nosso País.

 

Rodada Doha e os benefícios para o Brasil

alessandra biavati rizzottoAlessandra Biavati Rizzotto
Economista, 3º Lugar “Prêmio Corecon-RS 2018”,
Categoria Dissertações de Mestrado
Corecon-RS Nº 8618

 

Sobre o que trata o trabalho “Rodada Doha e a possível redução de barreiras tarifárias e não tarifárias: Uma estimativa dos benefícios para o Brasil por meio do Modelo de Equilíbrio Geral Computável”, 3º Lugar no “Prêmio Corecon-RS 2018”, Categoria Dissertações de Mestrado?
Diversas teorias de comércio internacional, das mais antigas até as mais atuais, apontam para os benefícios de uma maior liberalização comercial. Sendo assim, o trabalho tem como tema o comércio multilateral, com ênfase na atual rodada de negociações da Organização Mundial do Comércio (OMC). A Rodada Doha iniciou em 2001 e se estende até os dias atuais. Inúmeros impasses no contexto multilateral afloraram das mesas de negociação na OMC, principalmente na área agrícola, de especial interesse para o Brasil. A Rodada também é conhecida semi-oficialmente como a Agenda de Desenvolvimento de Doha, visto que um objetivo fundamental é melhorar as perspectivas comerciais dos países em desenvolvimento.

Qual o objetivo do estudo?
O objetivo da dissertação foi simular reduções de barreiras tarifárias e não tarifárias, no âmbito multilateral, e verificar quais seriam os benefícios para o Brasil, com ênfase sobre o setor primário. Ao longo das rodadas de negociações, os países de fato se engajaram em reduzir as barreiras tarifárias. Pioneiramente, foram os desenvolvidos que ativamente participaram das mesas de negociações e liberalizaram suas economias, principalmente nos setores de maior interesse para eles. Os países em desenvolvimento, até a Rodada Uruguai (1986/1994), ficaram às margens do processo, e, assim, os setores primários e têxteis ainda permanecem com tarifas mais elevados em relação aos manufaturados. Porém, o término da Rodada Uruguai trouxe avanços nessas questões, com uma mudança de postura por parte dos países em desenvolvimento e o início da queda de tarifas no setor primário. Contudo, um efeito colateral dessa bem-sucedida redução tarifária foi o aumento do uso das barreiras não tarifárias. As BNTs podem ter efeitos adversos que mitigam ou anulam o ganho de bem-estar que deveriam gerar.

De que forma foi estimado o impacto dessas reduções sobre o comércio?
Quatro cenários foram simulados, todos no âmbito multilateral, por meio de um modelo de equilíbrio geral computável, com o software GTAP. O primeiro apresentou redução parcial de 50% das tarifas de importação. O segundo, liberalização tarifária total. O terceiro, redução de 50% de BNTs. E, por último, liberalização total de tarifas, combinada com redução de 50% de BNTs. As BNTs utilizadas no estudo foram, no âmbito industrial, medidas de controle de preços, restrições quantitativas, medidas monopolísticas e regulações técnicas. Já no setor primário, foi utilizado o apoio doméstico à agricultura.

Quais as conclusões?
Os resultados mostram que, especificamente para o Brasil, nos cenários em que só são incorporadas reduções de tarifas, o setor primário e de agroindústria seriam os mais beneficiados. Já a redução multilateral das BNTs favoreceria, especialmente, os setores industriais, de maior conteúdo tecnológico. Quando simulados ambos, reduções de BNT combinados com reduções tarifárias, todos os setores aumentariam as exportações, principalmente a pecuária, agroindústria e manufaturas de alta intensidade tecnológica. Os ganhos de bem-estar dos países/regiões que participam do processo de liberalização comercial advêm, principalmente, da melhor alocação dos recursos e/ou melhoria nos termos de troca. Quando se incorpora barreiras não tarifárias no modelo, também há ganhos referentes aos efeitos tecnológicos, pela forma como eles são modelados. Espera-se que os efeitos da eficiência tecnológica gerem ganhos positivos de modo geral, visto que os choques de eficiência reduzem o preço das importações, levando a um aumento da demanda à custa dos bens domésticos. Também, ganhos de eficiência aumentam a produção real de cada unidade única exportada. Isso implica que são necessárias menos exportações para atender a demanda do país importador. Os resultados do impacto sobre o bem-estar mostram que os cenários que incorporam redução de BNTs ou reduções combinadas de BNTs e tarifas são os mais benéficos para todas as regiões incluídas no estudo, com ganhos mundiais que podem alcançar mais de US$ 1 trilhão.


Como as decisões nas rodadas de negociações da OMC são em forma de consenso, os atuais 164 países membros precisam estar alinhados nos objetivos. Isso acaba dificultando a maior liberalização no âmbito multilateral, e tem feito com que os países optem por Acordos Preferenciais de Comércio com parceiros específicos.

A persistência inflacionária no Brasil entre 1999 e 2016

eduarda mendonca

Eduarda Fernandes Lustosa de Mendonça

Economista, 2º Lugar “Prêmio Corecon-RS 2018”,
Categoria Dissertações de Mestrado
Corecon-RS Nº 8660

 

Sobre o que trata o trabalho “Análise da persistência inflacionária no Brasil (1999-2016)”, 2º Lugar “Prêmio Corecon-RS 2018”, Categoria Dissertações de Mestrado?
O meu trabalho discute a persistência inflacionária do Brasil entre 1999 e 2016. O conceito de persistência pode ser entendido como uma resiliência da inflação, no sentido de que, na ocorrência de qualquer choque, ela não se estabiliza rapidamente, pois tem uma tendência a elevação. Em termos estatísticos, podemos dizer que é uma característica de memória longa na série.

Qual o objetivo do estudo?
O objetivo do estudo foi analisar a persistência da inflação brasileira após 1999, de forma a investigar as suas possíveis causas, seus mecanismos, e estimar o seu grau. Parto da hipótese de que ela ainda possui um grau significativo mesmo após a implantação do regime de metas.

Quais as conclusões?
O grau de persistência inflacionária ainda é significativo, sendo mensurado em 0,29%. Isso significa que a inflação tem uma memória longa no Brasil, isto é, ainda é influenciada por valores do passado distante. Mediante choques que a elevem, ela não cairá rapidamente no mês seguinte, em função de seu grau de resiliência que a faz resistir às políticas de contenção.

Quais causas de inflação poderiam estar sendo desconsideradas?
No Brasil, assim como em muitos outros países, o Banco Central é responsável pela contenção inflacionária através da política monetária. A política monetária, por sua vez, utiliza-se primordialmente da taxa de juros para cumprir essa função, baseando-se na Regra de Taylor. Essa estrutura não conseguiu neutralizar o grau de persistência inflacionária desde 1999. Dessa forma, suscita-se a possibilidade da resiliência da inflação ser advinda de causas que não são atacadas através da taxa de juros. A literatura que levanta essa hipótese é vasta. No entanto, para fins do meu estudo, optei por usar as contribuições estruturalistas e keynesianas. Estas ressaltam o papel de subtipos de inflação de custos, tais como a taxa de produtividade/rendimentos decrescentes, a taxa de salários e lucros, os impostos regressivos, o coeficiente de importações e o repasse cambial assimétrico. Esses elementos evidentemente recebem atenção dos policy-makers, mas não no que tange as suas influências sobre a taxa de inflação. O regime de metas, embora cumpra seu papel no controle do nível de inflação, não se propõe a levar esses elementos em consideração, dificultando a neutralização da persistência.

Se fossem considerados, a situação inflacionária do Brasil seria distinta?
É difícil determinar como seria na prática a dinâmica da inflação no Brasil caso esses elementos fossem levados em consideração para as políticas anti-inflacionárias. No entanto, em termos de teoria econômica, podemos dizer que sim, haveriam diferenças significativas. O combate à inflação é importante para processos de desenvolvimento econômico. Nesse sentido, não podemos negligenciar quaisquer fatores de pressão sobre os preços. Considero este assunto promissor e, por isso, pretendo continuar pesquisando o tema para tentar responder melhor essas questões.

Sistemas de previdência e políticas públicas

henrique sitja

 

Henrique Serra Sitja
Economista, 1º Lugar Prêmio Corecon-RS, Categoria Dissertações de Mestrado
Corecon-RS Nº 8659

 

Sobre o que trata o trabalho “Previdência dos servidores públicos e concentração de renda: teoria e evidências empíricas para os municípios brasileiros no período 2000 a 2010”?
O estudo trata da caracterização dos sistemas de previdência como política pública e da avaliação dos impactos redistributivos da implementação dos regimes de previdência dos servidores públicos nos municípios brasileiros.

Qual o objetivo do estudo?
Foram dois os objetivos. Demonstrar que a previdência social possui funções econômicas relevantes, além do clássico papel de manutenção dos padrões de renda dos idosos, e estimar o efeito da criação de um regime diferenciado de aposentadoria para os servidores públicos municipais no perfil de distribuição de rendimentos nas respectivas cidades.

Quais as conclusões?
Concluiu-se, primeiramente, que a manutenção do sistema de previdência social pode ser justificada, tendo em vista seu papel na redistribuição de renda. Por outro lado, verificou-se que, entre os anos 2000 e 2010, embora não se tenha observado uma concentração de renda como resultado da instituição de regimes diferenciados para empregados públicos ou privados, tampouco se verificou um efeito redistributivo duradouro.

Por que os regimes públicos de aposentadoria podem ser compreendidos como ferramenta para distribuição de renda?
Os regimes de previdência são, de forma bastante simplificada, programas sociais que utilizam receitas tributárias – na forma de contribuições específicas, mas, existindo déficits, também advindas de impostos gerais – para pagamento de aposentadorias e pensões. Logo, é razoável esperar que tais sistemas impactarão no padrão de distribuição de renda de uma economia, tanto entre diferentes gerações, vez que as contribuições dos trabalhadores ativos representam grande parte das receitas previdenciárias, como dentro da mesma geração, já que há tributos gerais que também são utilizados para financiamento dos sistemas de previdência, como PIS, Cofins e CSLL, no caso do INSS, e o orçamento fiscal do ente público, no caso dos RPPS. Assim, os sistemas de previdência, se bem estruturados, podem auxiliar na redução da concentração de renda, desde que seu financiamento e suas despesas sejam desenhadas de maneira progressiva. Considerando os estudos atuais indicando que desigualdades de renda são prejudiciais ao desenvolvimento econômico, os regimes de previdência, que tendem a se tornar cada vez mais representativos nos orçamentos públicos em face do – bem-vindo, diga-se de passagem – aumento na expectativa de vida da população em geral, podem ter sua existência economicamente justificada ao serem utilizados como ferramentas redistributivas.

Mercado de Capitais e o novo Governo


José Junior de Oliveira

Economista, Analista de Mercado de Capitais, Presidente da Apimec-Sul, Conselheiro eleito Corecon-RS
Corecon-RS Nº 5500

 

 

Quais as expectativas do mercado de capitais com o Governo Jair Bolsonaro?

O mercado de capitais reagiu positivamente à eleição de Jair Bolsonaro, principalmente porque há alguns anos não vem sendo utilizadode maneira mais ativa, como meio de alocar investimentos para o setor produtivo. O mercado foi muito penalizado nos últimos anos, e, até, subutilizado, devido ao papel mais intervencionista do governo. Também,em razão da crise econômica que vivemos, com elevadas incertezas afastando o investidor, tanto da bolsa de valores como na alocação de recursos na criação ou ampliação de empresas. A eleição de Bolsonaro trouxe melhora na expectativa dos investidores, o que influencia positivamente o mercado. Na cerimônia de posse o novo ministro da Economia demonstrou conhecimento profundo do cenário atual e fez um discurso forte da necessidade de implementação de uma agenda econômica mais liberal e de ajuste fiscal o que está alinhada com as expectativas dos investidores. Isso fez com que o mercado reagisse positivamente nos primeiros dias do ano, com o Ibovespa subindo forte e os juros futuros caindo, o que é muito positivo. Entretanto, é necessário o novo governo confirmar a expectativa com a implementação de uma agenda positiva, com as reformas necessárias, como a da previdência e o saneamento das contas públicas, para recuperar a confiança no país e os investimentos serem retomados na prática.

Que balanço pode ser feito pelo mercado de capitais sobre esses últimos anos de crise econômica?

O mercado de capitais perdeu espaço nos últimos anos, mesmo antes da crise se iniciar, sobretudo pela elevação da participação do Estado na economia. O governo anterior tinha um entendimento de que o mesmonão era relevante para o investimento, o que, em minha opinião, é um enorme equívoco. O mercado de capitais é uma forma dos empreendedores alocarem capital de risco em diversos setores da economia, para obter melhores retornos e ao mesmo tempo impulsionar a atividade econômica e gerar emprego, renda e mais arrecadação para o próprio governo. Adicionalmente, a crise econômica corroborou para a piora no cenário, o que acabou atrapalhando muito o crescimento do mercado de capitais. Não somente alocação de recursos em bolsa de valores, mas investimentos em Venture Capital,Private Equity e até mesmo investimento direto. Outro fator a destacar é que em um cenário de juros elevados, como o que tivemos até meados de 2017, direcionou o investidor para títulos de renda fixa com menor risco e com uma remuneraçãoatrativa. A medida que os juros (taxa Selic Meta) começa a ter uma trajetória de queda, o investidor tende a buscar investimentos de maior retorno, porém, com risco mais elevado, o que é natural. Porém, para isso ocorrer na prática é preciso melhorar a confiança na condução da política econômica, o que parece estar ocorrendo neste momento.

Como o mercado está vendo a composição da equipe econômica que deveassumir a partir de janeiro próximo?

O mercado em geral está otimista. Alguns fatores positivos na equipe que está sendo montada podem ser destacados: (i) o presidente indicado para o Banco Central veio do mercado financeiro, bem com o novo “Super-Ministro” da Economia, o que é visto com bons olhos pelo mercado;(ii) a ideia de tornar o Banco Central independente, com mandato do presidente e diretores descasado do mandato do executivo,também é positiva; (iii) a proposta de tornar o tamanho do estado menor e mais eficiente, atuando nas áreas em que realmente precisam de sua presença, também anima o mercado. Entretanto, tem-se observado que investidores, principalmente internacionais, nos Estados Unidos e Europa, demonstram um grau maior de ceticismo com a capacidade de o governo do presidente eleito tornar realidade a reforma da Previdência Social em 2019 e conseguir um ajuste fiscal eficiente. Para eles, o ponto mais complicado para a nova administração é a articulação política, que será fundamental para conseguir a aprovação, no Congresso, desta mudança estrutural do sistema de benefícios a aposentados e ajustar as contas públicas, que é essencial para a sustentabilidade da dívida pública no longo prazo.Em síntese, a expectativa é positiva, mas precisará ser confirmada. O que se viu no discurso de posse do novo ministro da Economia foi uma fala do cenário real da economia e da necessidade de ajustes fortes, inclusive da redução do tamanho do Estado e melhora de sua eficiência, o que é visto de maneira positiva pelos investidores.

Com a chegada do novo governo, a tendência é de aumentarem os investimentos e diminuírem os riscos?

Alguns investidores postergaram seus investimentos em capital de risco, ou suas decisões, esperando o resultado das urnas. Muitas empresas que estavam preparando oferta pública inicial de Ações (IPO) também postergaram para esperar um melhor momento de mercado e isso poderá ocorrer e ser um fator positivo a partir de 2019. Outro exemplo é o mercado de Fusões e Aquisições de empresas, que já está se movimentando e retomando muitos negócios que estavam em compasso de espera.Com um ambiente econômico favorável, os investimentos devem ser retomados. Já, os riscos podem ser mitigados com a diversificação na alocação dos ativos (risco não sistemático) e com um governo que implemente uma política econômica mais previsível (risco sistemático), o que melhora muito o ambiente e reduz as incertezasno cenário doméstico. O que se vê, por enquanto, é melhora no ânimo dos investidores, que ficam mais propensos a alocar recursos via mercado de capitais, ou seja, a tendência é de aumentarem os investimentos. Mas as decisões vão depender do cenário e das ações efetivas do próximo governo.

Que tipo de mercado deve reagir mais positivamente à chegada do novo governo?

Se o cenário construído pelo governo for positivo e o mesmo conseguir colocar em prática um ajuste fiscal forte para sanear as contas públicas, com reforma da previdência e a retomada gradual da atividade econômica, o mercado de ações tende a ser o que vai reagir mais rapidamente (se valorizar mais). Mas é importante destacar que o cenário externo também influencia no mercado de capitais brasileiro. Do volume negociado em nossa bolsa de valores (B3), uma parte significativa é proveniente do investidor estrangeiro. Quando esse investidor vai decidir onde alocar seus recursos, ele considera uma série de fatores, inclusive o cenário nos países desenvolvidos. Alguns pontos a serem observados, que podem influenciar o mercado e o desempenho da nossa bolsa e, como consequência, nos recursos que serão direcionados, são a elevação dos juros norte-americanos, mesmo que em menor escala, em 2019; as tensões comerciais entre Estados Unidos e China, que devem continuar; a desaceleração do crescimento da economia chinesa; e os impactos e a forma desaída da Inglaterra da União Europeia (Brexit).O otimismo atual é maior do que a retomada da atividade econômica. As empresas brasileiras indicam uma melhora nos resultados, mas, para as ações voltarem a subir de forma consistente na bolsa brasileira e o mercado de capitais atrair recursos, é necessário que o novo governo implemente as medidas pró-mercado que prometeu e que faça as reformas.

 

Mercado de Capitais e o novo Governo

José Junior de Oliveira
Economista, analista de Mercado de Capitais, presidente da Apimec-Sul, conselheiro eleito Corecon-RS
Corecon-RS Nº 5500

 

Quais as expectativas do mercado de capitais com o Governo Jair Bolsonaro?

O mercado de capitais reagiu positivamente à eleição de Jair Bolsonaro, principalmente porque há alguns anos não vem sendo utilizadode maneira mais ativa, como meio de alocar investimentos para o setor produtivo. O mercado foi muito penalizado nos últimos anos, e, até, subutilizado, devido ao papel mais intervencionista do governo. Também,em razão da crise econômica que vivemos, com elevadas incertezas afastando o investidor, tanto da bolsa de valores como na alocação de recursos na criação ou ampliação de empresas. A eleição de Bolsonaro trouxe melhora na expectativa dos investidores, o que influencia positivamente o mercado. Na cerimônia de posse o novo ministro da Economia demonstrou conhecimento profundo do cenário atual e fez um discurso forte da necessidade de implementação de uma agenda econômica mais liberal e de ajuste fiscal o que está alinhada com as expectativas dos investidores. Isso fez com que o mercado reagisse positivamente nos primeiros dias do ano, com o Ibovespa subindo forte e os juros futuros caindo, o que é muito positivo. Entretanto, é necessário o novo governo confirmar a expectativa com a implementação de uma agenda positiva, com as reformas necessárias, como a da previdência e o saneamento das contas públicas, para recuperar a confiança no país e os investimentos serem retomados na prática.

Que balanço pode ser feito pelo mercado de capitais sobre esses últimos anos de crise econômica?

O mercado de capitais perdeu espaço nos últimos anos, mesmo antes da crise se iniciar, sobretudo pela elevação da participação do Estado na economia. O governo anterior tinha um entendimento de que o mesmonão era relevante para o investimento, o que, em minha opinião, é um enorme equívoco. O mercado de capitais é uma forma dos empreendedores alocarem capital de risco em diversos setores da economia, para obter melhores retornos e ao mesmo tempo impulsionar a atividade econômica e gerar emprego, renda e mais arrecadação para o próprio governo. Adicionalmente, a crise econômica corroborou para a piora no cenário, o que acabou atrapalhando muito o crescimento do mercado de capitais. Não somente alocação de recursos em bolsa de valores, mas investimentos em Venture Capital,Private Equity e até mesmo investimento direto. Outro fator a destacar é que em um cenário de juros elevados, como o que tivemos até meados de 2017, direcionou o investidor para títulos de renda fixa com menor risco e com uma remuneraçãoatrativa. A medida que os juros (taxa Selic Meta) começa a ter uma trajetória de queda, o investidor tende a buscar investimentos de maior retorno, porém, com risco mais elevado, o que é natural. Porém, para isso ocorrer na prática é preciso melhorar a confiança na condução da política econômica, o que parece estar ocorrendo neste momento.

Como o mercado está vendo a composição da equipe econômica que deveassumir a partir de janeiro próximo?

O mercado em geral está otimista. Alguns fatores positivos na equipe que está sendo montada podem ser destacados: (i) o presidente indicado para o Banco Central veio do mercado financeiro, bem com o novo “Super-Ministro” da Economia, o que é visto com bons olhos pelo mercado;(ii) a ideia de tornar o Banco Central independente, com mandato do presidente e diretores descasado do mandato do executivo,também é positiva; (iii) a proposta de tornar o tamanho do estado menor e mais eficiente, atuando nas áreas em que realmente precisam de sua presença, também anima o mercado. Entretanto, tem-se observado que investidores, principalmente internacionais, nos Estados Unidos e Europa, demonstram um grau maior de ceticismo com a capacidade de o governo do presidente eleito tornar realidade a reforma da Previdência Social em 2019 e conseguir um ajuste fiscal eficiente. Para eles, o ponto mais complicado para a nova administração é a articulação política, que será fundamental para conseguir a aprovação, no Congresso, desta mudança estrutural do sistema de benefícios a aposentados e ajustar as contas públicas, que é essencial para a sustentabilidade da dívida pública no longo prazo.Em síntese, a expectativa é positiva, mas precisará ser confirmada. O que se viu no discurso de posse do novo ministro da Economia foi uma fala do cenário real da economia e da necessidade de ajustes fortes, inclusive da redução do tamanho do Estado e melhora de sua eficiência, o que é visto de maneira positiva pelos investidores.

Com a chegada do novo governo, a tendência é de aumentarem os investimentos e diminuírem os riscos?

Alguns investidores postergaram seus investimentos em capital de risco, ou suas decisões, esperando o resultado das urnas. Muitas empresas que estavam preparando oferta pública inicial de Ações (IPO) também postergaram para esperar um melhor momento de mercado e isso poderá ocorrer e ser um fator positivo a partir de 2019. Outro exemplo é o mercado de Fusões e Aquisições de empresas, que já está se movimentando e retomando muitos negócios que estavam em compasso de espera.Com um ambiente econômico favorável, os investimentos devem ser retomados. Já, os riscos podem ser mitigados com a diversificação na alocação dos ativos (risco não sistemático) e com um governo que implemente uma política econômica mais previsível (risco sistemático), o que melhora muito o ambiente e reduz as incertezasno cenário doméstico. O que se vê, por enquanto, é melhora no ânimo dos investidores, que ficam mais propensos a alocar recursos via mercado de capitais, ou seja, a tendência é de aumentarem os investimentos. Mas as decisões vão depender do cenário e das ações efetivas do próximo governo.

Que tipo de mercado deve reagir mais positivamente à chegada do novo governo?

Se o cenário construído pelo governo for positivo e o mesmo conseguir colocar em prática um ajuste fiscal forte para sanear as contas públicas, com reforma da previdência e a retomada gradual da atividade econômica, o mercado de ações tende a ser o que vai reagir mais rapidamente (se valorizar mais). Mas é importante destacar que o cenário externo também influencia no mercado de capitais brasileiro. Do volume negociado em nossa bolsa de valores (B3), uma parte significativa é proveniente do investidor estrangeiro. Quando esse investidor vai decidir onde alocar seus recursos, ele considera uma série de fatores, inclusive o cenário nos países desenvolvidos. Alguns pontos a serem observados, que podem influenciar o mercado e o desempenho da nossa bolsa e, como consequência, nos recursos que serão direcionados, são a elevação dos juros norte-americanos, mesmo que em menor escala, em 2019; as tensões comerciais entre Estados Unidos e China, que devem continuar; a desaceleração do crescimento da economia chinesa; e os impactos e a forma desaída da Inglaterra da União Europeia (Brexit).O otimismo atual é maior do que a retomada da atividade econômica. As empresas brasileiras indicam uma melhora nos resultados, mas, para as ações voltarem a subir de forma consistente na bolsa brasileira e o mercado de capitais atrair recursos, é necessário que o novo governo implemente as medidas pró-mercado que prometeu e que faça as reformas.

 

Políticas sociais e prevenção à violência no RS

 

Ana Maria Viana Severo
Economista, Ex-diretora Departamento de Justiça/SDSTJDH do RS
Corecon-RS Nº 4908


 

Que tipo de políticas públicas foram implementadas pela sua área na Secretaria?

As principais políticas a serem destacadas são as de prevenção à violência juvenil, baseada na oferta de oportunidades, o Programa de Oportunidades e Direitos (POD). É o grande guarda chuva. Uma política voltada à redução de violência em segmentos específicos, focalizada, não universal, e georeferenciada, ou seja, voltada a grupos ou territórios com grande vulnerabilidade social e risco de violência. As políticas de prevenção à violência são a melhor estratégia de segurança pública, tanto em termos de efetividade quanto custo-benefício.

Em quais territórios estão localizados?

O programa POD está focalizado em seis territórios de grande índice de violência no RS. São eles Lomba do Pinheiro, Rubem Berta, Restinga e Cruzeiro do Sul, em Porto Alegre, Alvorada e Viamão, regiões que têm uma taxa de mortalidade, de vitimização juvenil, muito superior a mesma faixa etária do estado.

Que tipos de atividades são oferecidos pelo Programa?

O Programa é financiado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), através de política específica para investimento nos jovens, coordenadas pelo Departamento da Juventude e um Escritório de Projetos. Em cada bairro funciona um Centro da Juventude, operado por instituição civil parceira, que foi selecionada por chamamento público. Esse Centro oferece para os jovens todo um leque de opções de cultura, lazer, além de apoio psicossocial e profissional, de forma que eles descubram alternativas ao caminho da delinqüência. Esse projeto, de prevenção primária, foi iniciado em setembro de 2017 e, até o momento, já atendeumais de seis mil jovens. Alguns dos jovens, ao concluírem a trajetória de um ano e que mostraram perfis de liderança, são selecionados como multiplicadores e passam a receber uma bolsa de estudo para atuarem como lideranças dentro de suas próprias comunidades e, assim, ajudarem a buscar outros jovens para se incorporarem nessa trajetória.

Que outros programas pode ser destacados?

Outro programa, que já existe há muito mais tempo, é o POD Socioeducativo, que, criado em 2009, transcendeu aos governos seguintes. Trata-se de uma política que proporciona ao jovem egresso da FASE, o mesmo acompanhamento do Centro da Juventude, desde que esteja na escolaridade formal. Se ele cumpre todos os pré-requisitos do Programa, recebe uma bolsa de meio salário mínimo e é encaminhado para o mercado de trabalho, como aprendiz ou como estagiário. Esse programa funcionava apenas para as regiões de Porto Alegre, e em 2018 foi ampliado para todas as regiões do estado, passando das 180 vagas iniciais para 1.100 vagas agora em 2018. Somente neste ano já passara pelo Programa em torno de 800 jovens.

Que tipo de resultados esses programasvêm apresentando?

O POD Socioeducativo tem sido objeto de várias pesquisas já com resultados medidos quanto a impacto na reincidência delitiva, inserção no mercado de trabalho e mortalidade. .Avaliação recente da trajetória de vida após cinco anos constatou que a chance de um jovem que não participou do POD reincidir na FASE ou no sistema prisional adulto é quase o dobro comparativamente àqueles que participam do programa. Considerando-se a inserção no mercado de trabalho, 64% dos jovens que saíram da FASE e fizeram POD tiveram emprego formal, o dobro da chance de quem não fez o programa. O resultado que mais comemoramos é a proteção à vida: a chance de um jovem egresso da FASE que não participa do POD ir à óbito é 2,4 vezes a daqueles que seguiram a proposta.Os investimentos são muito baixos, comparados com os investimentos ao jovens dentro da FASE ou na própria Susepe.Ainda não se possa reduzir o valor de uma vida a termos econômicos, o custo social para um país da perde de vidas juvenis é enorme – perde-se o bônus demográfico num período em que essa pessoa estaria produzindo.

Como funciona o programa Paz nas Escolas?

O Programa de Cultura de Paz nas Escolas, também vinculado ao POD, é uma política extremamente importante porque envolve uma estratégia de pacificação. A ideia é a difusão de uma cultura de paz e solução de conflitos de forma não violenta a partir das comunidades escolares dos territórios. De julho a dezembro, promovemos, em parceria com a Associação dos Juízes do RS (Ajuris) a formação de 591 professores e jovens que receberam certificados como facilitadores do círculo de paz, na metodologia de apoio em territórios de extrema violência. Tratam-se de metodologias para a construção de soluções de conflitos de forma não violenta.

Como a comunidade vem recebendo a iniciativa?

As crianças são extremamente receptivas e levam o conhecimento para as famílias e comunidade. Um dos jovens que formamos em Alvorada relatou que fez um círculo com vizinhos, outra na família, o efeito multiplicador é exponencial. Uma mãe veio à escola relatando o que tinha aprendido com seu filho de 8 anos cuja professora passou a utilizar práticas circulares na aula. O programa Escola+Paz é transformador.

De que forma o governo que está assumindo deverá tratar esses programas?

Essas iniciativas certamente não serão interrompidas, já que hoje estão se transformando em políticas de estado. Assim como o RS Socioedicativo, criado no ano de 2009, não apenas continuou como foi ampliado por este governo. Esperamos que os futuros gestores não apenas mantenham, como também, ampliem os programas em andamento.

 

Políticas sociais e prevenção à violência no RS

 

Ana Maria Viana Severo
Economista, Ex-diretora Departamento de Justiça/SDSTJDH do RS
Corecon Nº

 

Que tipo de políticas públicas foram implementadas pela sua área na Secretaria?

As principais políticas a serem destacadas são as de prevenção à violência juvenil, baseada na oferta de oportunidades, o Programa de Oportunidades e Direitos (POD). É o grande guarda chuva. Uma política voltada à redução de violência em segmentos específicos, focalizada, não universal, e georeferenciada, ou seja, voltada a grupos ou territórios com grande vulnerabilidade social e risco de violência. As políticas de prevenção à violência são a melhor estratégia de segurança pública, tanto em termos de efetividade quanto custo-benefício.

Em quais territórios estão localizados?

O programa POD está focalizado em seis territórios de grande índice de violência no RS. São eles Lomba do Pinheiro, Rubem Berta, Restinga e Cruzeiro do Sul, em Porto Alegre, Alvorada e Viamão, regiões que têm uma taxa de mortalidade, de vitimização juvenil, muito superior a mesma faixa etária do estado.

Que tipos de atividades são oferecidos pelo Programa?

O Programa é financiado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), através de política específica para investimento nos jovens, coordenadas pelo Departamento da Juventude e um Escritório de Projetos. Em cada bairro funciona um Centro da Juventude, operado por instituição civil parceira, que foi selecionada por chamamento público. Esse Centro oferece para os jovens todo um leque de opções de cultura, lazer, além de apoio psicossocial e profissional, de forma que eles descubram alternativas ao caminho da delinqüência. Esse projeto, de prevenção primária, foi iniciado em setembro de 2017 e, até o momento, já atendeumais de seis mil jovens. Alguns dos jovens, ao concluírem a trajetória de um ano e que mostraram perfis de liderança, são selecionados como multiplicadores e passam a receber uma bolsa de estudo para atuarem como lideranças dentro de suas próprias comunidades e, assim, ajudarem a buscar outros jovens para se incorporarem nessa trajetória.

Que outros programas pode ser destacados?

Outro programa, que já existe há muito mais tempo, é o POD Socioeducativo, que, criado em 2009, transcendeu aos governos seguintes. Trata-se de uma política que proporciona ao jovem egresso da FASE, o mesmo acompanhamento do Centro da Juventude, desde que esteja na escolaridade formal. Se ele cumpre todos os pré-requisitos do Programa, recebe uma bolsa de meio salário mínimo e é encaminhado para o mercado de trabalho, como aprendiz ou como estagiário. Esse programa funcionava apenas para as regiões de Porto Alegre, e em 2018 foi ampliado para todas as regiões do estado, passando das 180 vagas iniciais para 1.100 vagas agora em 2018. Somente neste ano já passara pelo Programa em torno de 800 jovens.

Que tipo de resultados esses programasvêm apresentando?

O POD Socioeducativo tem sido objeto de várias pesquisas já com resultados medidos quanto a impacto na reincidência delitiva, inserção no mercado de trabalho e mortalidade. .Avaliação recente da trajetória de vida após cinco anos constatou que a chance de um jovem que não participou do POD reincidir na FASE ou no sistema prisional adulto é quase o dobro comparativamente àqueles que participam do programa. Considerando-se a inserção no mercado de trabalho, 64% dos jovens que saíram da FASE e fizeram POD tiveram emprego formal, o dobro da chance de quem não fez o programa. O resultado que mais comemoramos é a proteção à vida: a chance de um jovem egresso da FASE que não participa do POD ir à óbito é 2,4 vezes a daqueles que seguiram a proposta.Os investimentos são muito baixos, comparados com os investimentos ao jovens dentro da FASE ou na própria Susepe.Ainda não se possa reduzir o valor de uma vida a termos econômicos, o custo social para um país da perde de vidas juvenis é enorme – perde-se o bônus demográfico num período em que essa pessoa estaria produzindo.

Como funciona o programa Paz nas Escolas?

O Programa de Cultura de Paz nas Escolas, também vinculado ao POD, é uma política extremamente importante porque envolve uma estratégia de pacificação. A ideia é a difusão de uma cultura de paz e solução de conflitos de forma não violenta a partir das comunidades escolares dos territórios. De julho a dezembro, promovemos, em parceria com a Associação dos Juízes do RS (Ajuris) a formação de 591 professores e jovens que receberam certificados como facilitadores do círculo de paz, na metodologia de apoio em territórios de extrema violência. Tratam-se de metodologias para a construção de soluções de conflitos de forma não violenta.

Como a comunidade vem recebendo a iniciativa?

As crianças são extremamente receptivas e levam o conhecimento para as famílias e comunidade. Um dos jovens que formamos em Alvorada relatou que fez um círculo com vizinhos, outra na família, o efeito multiplicador é exponencial. Uma mãe veio à escola relatando o que tinha aprendido com seu filho de 8 anos cuja professora passou a utilizar práticas circulares na aula. O programa Escola+Paz é transformador.

De que forma o governo que está assumindo deverá tratar esses programas?

Essas iniciativas certamente não serão interrompidas, já que hoje estão se transformando em políticas de estado. Assim como o RS Socioedicativo, criado no ano de 2009, não apenas continuou como foi ampliado por este governo. Esperamos que os futuros gestores não apenas mantenham, como também, ampliem os programas em andamento.

 

Cenário de menor incerteza e o crescimento do PIB

 

 

Giovani Baggio
Economista Sênior da Federação das Indústrias do RS (Fiergs)
Corecon-RS Nº 8365

 

Com base em que cenários a Fiergs está prevendo crescimento para a economia brasileira em 2019?

Uma combinação de fatores contribui para essa aceleração de 2,8% que estamos estimando para 2019. Podemos dividir os principais elementos que indicam tendência nesse sentido em quatro blocos. Em primeiro lugar, já temos um cenário de menor incerteza em função dos resultados das eleições, onde um governo que mostra comprometido com uma agenda de reformas saiu vitorioso. O que já estamos percebendo, nas primeiras pesquisas após as eleições, é um cenário de maior confiança, tanto pelo lado dos consumidores quanto pelo lado dos empresários, o que tende a aquecer a economia e tornar o ambiente mais favorável para a geração de empregos. Junto com essa confiança elevada, tem-se um cenário de inflação controlada e juros baixos que já vem desde o ano passado, deixando mais renda disponível para as pessoas consumirem e a expectativa de crédito mais barato na economia. Além disso, as fábricas estão operando com ociosidade, ou seja, a utilização da capacidade instalada está baixa, o que faz com que se tenha uma resposta rápida da produção sem a necessidade de grandes investimentos, caso a demanda venha a aumentar. Por fim, o mercado de trabalho ainda bastante desaquecido, com uma taxa de desemprego que segue em patamares elevados, o que torna a disponibilidade de mão de obra mais um item a colaborar nesse contexto.

De que forma essa taxa elevada do desemprego colabora na retomada do crescimento?
Neste cenário atual da economia, onde há um número grande de pessoas disponíveis no mercado, muitas delas com boa qualificação, proporcionaria uma rápida absorção da mão de obra existente, caso haja necessidade por parte das empresas. O que nossas pesquisas aqui da FIERGS retratavam antes da crise é que a falta de trabalhador qualificado era um dos principais problemas enfrentados pelas empresas e essa dificuldade deixou de estar entre as mais apontadas pelos empresários. Entretanto, o nosso cenário base não contempla uma aceleração muito forte nas contratações em 2018, pois o emprego tende a apresentar resposta mais demorada nas recuperações.

Como a Fiergs está vendo o perfil da futura equipe econômica?
Estamos vendo com bons olhos, principalmente pelo perfil técnico dos membros da equipe econômica do futuro governo, com uma formação de caráter mais liberal. A equipe que está sendo formada parece ter o diagnóstico correto daquilo que o Brasil precisa para melhorar o ambiente econômico, especialmente no que diz respeito às finanças públicas, e isso é fundamental para a condução dos trabalhos. Nesse sentido, qual proposta será apresentada para a Previdência será crucial para consolidar a confiança.

Uma reforma na previdência já traria resultados a curto prazo?
Por um lado, em termos de contas públicas, o impacto não deve ser tão grande no curto prazo, pois os gastos com aposentadorias e pensões entram na categoria de gastos obrigatórios e, portanto, já estão contratados para os próximos anos. Nesse contexto, a importância de sua aprovação é para mudar a trajetória atual dos gastos públicos, onde uma parcela cada vez maior do orçamento está sendo destinada a cobrir o rombo previdenciário. Por outro lado, o impacto imediato seria no sentido de sinalizar que no médio e longo prazo as contas do governo não serão sufocadas pelos gastos com previdência, levando a um aumento da confiança dos agentes econômicos de que o governo conseguirá horar seus compromissos.

E o que falta para isso?
Antes de tudo, um Congresso que se convença da real importância dessas mudanças para a economia do país. Certamente haverá grande dificuldade nessa etapa, o que exigirá um poder de negociação muito grande para alcançar a aprovação, principalmente do núcleo político do governo.

Essa previsão de 2,8% também se deve à base de comparação muito baixa?
Exatamente. E isso é o que chamamos de uma recuperação cíclica. Passamos por alguns anos de crise, com uma queda muito forte da atividade econômica. O PIB ficou praticamente estagnado em 2014, caiu em 2015 e 2016, e, em 2017, recuperou um pouquinho. Neste ano de 2018, esperávamos um crescimento mais forte, o que acabou não se concretizando, em função de uma série de eventos que atingiram a economia, como a greve dos caminhoneiros, uma mudança no cenário internacional e a elevada incerteza provocada pela indefinição da disputa eleitoral. Após um período de recessão, diversos fatores começam a influenciar para que a atividade econômica volte a acelerar, como a desalavancagem de empresas e famílias, e o elevado grau de ociosidade das empresas e do mercado de trabalho. Soma-se a esses fatores, um ambiente com inflação controlada e juros baixos. Portanto, esperamos uma continuidade da recuperação em 2019 como um processo natural de esgotamento do ciclo recessivo.

E o ajuste das contas públicas deve entrar na pauta do próximo governo para colaborar com a continuidade do crescimento?
Sim, é fundamental que entre. Aliás, sempre é importante frisar que o Brasil pode crescer no próximo ano em torno de 2,8%, no outro, na faixa dos 2,5%, mas sem o conserto das contas públicas, dificilmente conseguiremos ir muito longe. O nosso horizonte de crescimento será absolutamente curto se não conseguirmos encaminhar a solução desses problemas fiscais. Além do quadro fiscal, ações no sentido de melhorar o ambiente de negócios do Brasil são fundamentais para o crescimento de longo prazo, das quais incluem destravar os investimentos em infraestrutura, melhorar a qualidade da educação, fazer acordos comercias e promover uma reforma que torne o nosso sistema tributário mais eficiente. Sem fazermos o dever de casa, o nosso voo não será muito longo.

O RS entra na mesma onda do crescimento brasileiro?
Sim, o desempenho deve ser parecido. Até em termos de taxas, não é muito diferente, já que projetamos um crescimento de 2,4% da economia gaúcha para 2019. Nós nos beneficiamos nos momentos de alta da economia nacional, assim como somos penalizados nos momentos de baixa. Um dos fatores de diferença, que pode fazer com que o RS tenha um desempenho menor que o nacional, é o cenário externo, pois o RS possui um perfil exportador maior do que a média nacional. Os nossos dois principais parceiros comercias, China e Estados Unidos, devem apresentar desaceleração do crescimento em 2019, e a Argentina, o terceiro, deve sofrer com mais um ano de queda no PIB. Cabe destacar também a crise das finanças públicas do RS, que se encontra numa situação mais delicada do que a brasileira.

Como organizar os compromissos de final de ano

alexandre reis 2

 

Alexandre Reis
Economista, professor universitário, consultor financeiro
Corecon-RS Nº 7273

 

Quando uma pessoa pode ser considerada que está endividada?
Não há um critério único que estabeleça o endividamento de uma pessoa ou empresa. Porém, quando de fato as despesas superam as receitas e esta pessoa não possui renda extra para suprir essa demanda, com toda a certeza, este indivíduo encontra-se em situação de endividamento. Quando, por exemplo, alguém deixa de pagar uma conta no mês, isso não se caracteriza endividamento, mas a continuidade desse ato, ou seja, o acúmulo da dívida por falta de renda será sim uma questão de endividamento. Da mesma forma, quando uma pessoa adquire muitas dívidas, por exemplo, com carro, habitação, cartão, crédito consignado, etc, e essas contas, somadas, superam a sua renda mensal, também se torna um caso de situação de endividamento. O endividamento pode ser passageiro. O problema é quando se torna contínuo. Muitos fatos levam o indivíduo a se endividar. Porém, a falta de um planejamento pessoal é o principal fator desencadeante e explicativo do aumento do endividamento. De fato, temos que introduzir, na cultura e nos princípios das famílias, o aprendizado da educação financeira.

Quais os cuidados que as pessoas devem ter para não se endividarem com compras de final de ano?
O primeiro passo é ter organização financeira. Fazer um detalhamento de suas rendas e daquilo que você vai receber de extra, como o 13º salário. Não comprar por impulsão e sim o que realmente se está precisando. Procurar avaliar os produtos e serviços, como preço e qualidade, e ter certeza de que está necessitando mesmo daquele produto. Procurar comprar à vista e buscar condições que estão de acordo com o seu orçamento. Em suma, planejar é a melhor receita.

Que tipo de produtos costumam ser a "maior tentação" nesta época do ano?
Varia muito. Mas considero que, dado o momento de hoje, são os produtos tecnológicos que chamam mais atenção. A oferta desses produtos é constante e contínua e sempre tem uma oferta diferente.

Como separar os gastos destinados às festas de fim de ano dos principais compromissos financeiros que se renovam a cada início de ano, como tributos, impostos, despesas escolares, entre outros?
O ideal e o certo seria listar todas as despesas e fazer uma previsão de quanto se vai gastar com elas. Caso tenha promoção de algum produto indispensável, seria interessante antecipar sua aquisição. No caso dos materiais escolares, é importante, primeiramente, verificar esses preços, avaliar e acompanhar a lista solicitada na Escola para, depois sim, tomar a decisão de compra. Nem sempre optar pelo estoque pode ser uma boa alternativa. Normalmente, nesta época do ano, por se ter muitos compromissos financeiros, uma avaliação mais agregada pode ser a melhor resposta para a tomada de decisão, até porque podem surgir várias promoções nos meses posteriores. No caso dos tributos, como IPVA e IPTU, seria interessante verificar o percentual de desconto das contas a pagar, acompanhado de uma análise de compensações com aplicações financeiras. Comparar esses ganhos com juros do parcelamento e, depois, decidir de forma ponderada e de acordo com a sua organização orçamentária. É importante lembrar que cada família possui uma estrutura de contas. Podem existir semelhanças, porém a avalição é pontual e específica em cada família e empresa.

Que épocas do ano são mais propícias ao endividamento?
Todos os momentos podem gerar endividamento. No entanto, o final e início de ano normalmente são períodos mais complicados pelo acúmulo de compromissos a serem pagos pelas famílias e pelas empresas. É importante ressaltar que o cuidado com o orçamento doméstico deve ser diário e mensal para que se evite maiores problemas. Fazer qualquer tipo de poupança, por exemplo, pode minimizar esse fenômeno.

Depois de três anos de crise na economia brasileira, como estão os níveis de inadimplência das famílias?
Ainda se encontram bem acima do normal. Muitas famílias têm dívidas, em sua maioria, com os cartões, habitação, veículos e outros financiamentos. Ainda há o problema do desemprego, que é muito alto no país, e os parcelamentos de salários, que dificultam muito a organização financeira da família. Nas grandes cidades, a inadimplência e o endividamento são altos. Neste ano, principalmente no segundo semestre, percebeu-se uma leve retomada da trajetória da economia, mas uma retomada de forma lenta e gradual. Melhorando a distribuição de renda e o emprego, a tendência é a volta da dinâmica econômica e, assim, a diminuição da inadimplência e do endividamento, que de fato é o problema maior em nossa sociedade.

Qual o recado que fica?
Não esmorecer na tarefa de se preocupar e organizar a sua gestão financeira. Pode ser complexo, mas muito necessário para o seu futuro.

Nas mãos do Congresso

marcelo portugal1Marcelo Portugal
Economista, professor de Graduação e Pós-Graduação em Economia e em Administração UFRGS, Pesquisador CNPq
Corecon nº 7760

 

Como o senhor está vendo a formatação da equipe econômica do futuro governo de Jair Bolsonaro?
Estou esperando que dê certo. Mas a questão fundamental me parece que não é tanto os nomes da equipe econômica, até porque os nomes parecem ser bons. A questão é se eles realmente vão conseguir alcançar seus objetivos. Ou seja, contrata-se um pintor que trabalhou bem na casa do vizinho e precisa saber se ele vai fazer o mesmo a sua. O que quero dizer com isso é que vai depender do Congresso. Vai depender se o governo conseguirá realmente implementar a reforma da previdência no Congresso, se vão conseguir implementar as privatizações que estão querendo, enfim. Acho que a agenda correta o governo tem, mas temos que ver até que ponto conseguirão colocá-la em prática.

Depende do presidente também?
Acho que depende mais do Congresso do que do presidente. As pessoas tinham receio de que Jair Bolsonaro, que teve essa metamorfose recente, de que ele mesmo iria sabotar o processo. Mas isso realmente não está acontecendo. Ele está dando carta branca ao futuro titular da Fazenda. Nunca houve, por exemplo, o caso de se ter um ministro da Fazenda indicando o presidente da Petrobras. Nunca se teve um caso de um ministro da Fazenda indicar o presidente do BNDES. Em geral, quem escolhe esses cargos é o próprio presidente da República. E, desta vez, quem está escolhendo é o Paulo Guedes. Então, realmente, o futuro presidente deu muita autonomia e muito poder ao seu futuro Ministro da Fazenda.

Esse perfil da equipe econômica é absolutamente privatista ou racionalmente privatista?
Acho que é racionalmente privatista. Acredito que não vão privatizar nenhuma empresa realmente grande, como Banco do Brasil ou a Caixa Econômica Federal. Talvez apenas partes deles. Alguns negócios do BB e da CEF podem ser vendidos. Esses bancos podem “emagrecer” um pouco. A parte de extração de petróleo da Petrobras também acredito que não será privatizada. Existem muitas outras estatais por este país a fora que podem ser vendidas.

A racionalidade do mercado ilegal

ingrid

 

Ingrid Rafaele Rodrigues Leiria
Economista, 3º Lugar XXIV Prêmio Brasil de Economia, Categoria Dissertação de Mestrado
Corecon-RS N° 8383

Sobre o que trata o trabalho “A racionalidade no mercado ilegal: O efeito da demanda de bens ilícitos na taxa de criminalidade do Rio Grande do Sul entre 2002 e 2015”, 3º Lugar na categoria Dissertação de Mestrado, do “XXIV Prêmio Brasil de Economia”?
O trabalho tem como objetivo analisar se a demanda de bens ilícitos foi determinante para o aumento da taxa de assaltos no Estado do Rio Grande do Sul, entre 2002 e 2015. Para essa investigação utilizamos métodos econométricos, como o Método de Equações Estruturais e o Método de Momentos Generalizados (GMM). Os resultados mostraram que a demanda de bens ilícitos sofre influência positiva de indicadores, tais como taxa de desemprego, abandono no ensino fundamental, e posse de entorpecentes e negativo de indicadores como PIB per capita. Já a taxa de assaltos sofre influência negativa originada do PIB, bolsa família e taxa de mortalidade, com o tráfico de entorpecentes.

Por que a escolha deste tema?
A abordagem da criminalidade é um tema atual, que tem gerado preocupação e repercussão pelos meios midiáticos, órgãos públicos e pela própria população em geral, já que a taxa de criminalidade afeta toda a sociedade rio-grandense. Sendo que os indicadores criminais apenas de roubo de veículo no Rio Grande do Sul nos últimos 15 anos tiveram um aumento significativo. E o próprio custo das políticas públicas cresceu 62% entre 2002 e 2015. Atualmente, para o Brasil, não há estudos específicos sobre a demanda ou relacionados com o esquema de demanda e oferta do mercado de produtos decorrentes de ação criminosa, o que indica um gap teórico em relação aos determinantes da demanda de produtos decorrentes do crime e o impacto desses na taxa de criminalidade. Sendo assim, esta pesquisa colaborou também do ponto de vista teórico ao gerar informações sobre a influência da demanda na taxa de criminalidade.

Qual a relação entre bens ilícitos e os diversos indicadores sociais?
Nesta pesquisa analisamos os bens ilícitos adquiridos de maneira ilegal no mercado, fruto de roubo ou furto. Quando um bem é furtado ou roubado, ele é geralmente passado a diante rapidamente devido à busca pela liquidez que o criminoso necessita. Dos diversos indicadores sociais analisados, os que mostraram relação negativa com a demanda de bens ilícitos foi o PIB per capita. Já os indicadores que apresentaram relação positiva com a demanda de bens ilícitos foram taxa de desemprego, bolsa família, posse de entorpecentes e abandono no ensino fundamental. Com relação à oferta de bens ilícitos, os indicadores que apresentaram relação negativa foram bolsa família, renda da população ocupada, capacidade de presos nas prisões e quantidade de delegacias disponível. E os indicadores que apresentaram relação positivo com a oferta de bens ilícitos foram taxa de mortalidade, taxa de tráfico de entorpecentes, denúncias relacionadas a armas de fogo.

Esta é uma realidade do RS e do país?
Conforme os resultados apresentados, as taxas de demanda no Rio Grande do Sul são afetadas em grande parte pela condição econômica em que o indivíduo está inserido. Em momentos de crise econômica, em situações de perda, o agente tomador de decisão buscará evitar perdas, indo em busca de mercadorias mais adequadas aos seus rendimentos disponíveis, mesmo que estas sejam originárias do mercado ilegal. Assim como a demanda aumentou sua participação no mercado criminal, as taxas de oferta também vêm aumentando, especialmente em 2015. Os dados utilizados foram para o Rio Grande do Sul, mas poderíamos ter analisado em relação a outras regiões e para o próprio Brasil como um todo. A única questão é a falta de dados disponíveis para analisar detalhadamente todos os estados.

Qual a importância das políticas sociais como forma de amenizar esse problema?
A partir desta sensação quanto à falta de punição de criminosos, a população responde com a falta de confiança da real capacidade dos órgãos públicos em prover a segurança pública eficiente. Partindo desta desconfiança nas leis e nas instituições, há também uma discussão sobre o endurecimento das práticas legais e das ações policiais como inibidoras do crescimento da taxa de criminalidade. Apartir dos resultados gerados, é perceptível que são necessárias políticas públicas da área de segurança ou parcerias que busquem inibir a demanda por bens ilícitos. Como exemplo, pode-se destacar: maior conscientização pela mídia/estado quanto às consequências de aquisição de produtos ilegais; revisão do crime de receptação (Lei nº 9.426, de 1996); ações em conjunto entre Brigada Militar e Polícia Civil principalmente, em operações que visem a inibição de oferta de bens ilícitos, indo em locais onde estes bens são comercializados.

Qual a constatação do trabalho?
O trabalho contou com duas hipóteses principais, que foram testadas e validadas. Se a demanda de bens ilícitos influência diretamente na taxa de criminalidade do estado, à medida que os retornos monetários deste mercado aumentam. Considerando que na medida em que há uma crise econômica afetando as taxas de crescimento do país ou estado, as taxas de criminalidade tendem a aumentar, pois o indivíduo que adquiria bens originais quando estava empregado, não dispõe mais daquela renda. Ou, ainda, sua renda pode ter diminuído, levando o mesmo a procurar por bens mais baratos, não considerando ou não se importando com a procedência destes bens. Já, a segunda hipótese refere-se ao aumento da participação da mão de obra criminal no mercado à medida que há mais incentivos. Ou seja, na medida que os salários do mercado legal diminuem, há uma elevação da oferta de mão de obra disponível para atos criminosos. A oferta de mão de obra busca por incentivos suficientes, sendo estes, em sua grande maioria, monetários, que justifiquem a realização do ato ilegal.

Políticas públicas e combate às drogas no ambiente escolar

kalinca

 

Kalinca Léia Becker
Economista, 2º Lugar XXIV Prêmio Brasil de Economia, Categoria Artigo Técnico ou Científico
Corecon-RS N° 7029

 

 

Sobre o que trata o trabalho “Análise do efeito dos gastos públicos na área social sobre o consumo de drogas dos alunos nas escolas das capitais brasileiras”, 2º Lugar no XXIV Prêmio Brasil de Economia”, categoria Artigo Técnico ou Científico?
O estudo buscou evidências da influência dos gastos com educação e assistência social sobre a probabilidade de os alunos nas escolas das capitais brasileiras declararem que já experimentaram drogas, a fim de contribuir para a maior efetividade das ações de prevenção e controle do uso de substâncias ilícitas entre os jovens.

Por que a escolha deste tema?
O consumo de drogas entre os jovens é um fenômeno de grande preocupação social, pois, além de gerar um mercado consumidor para uma atividade ilícita, ocasionando problemas jurídicos, sociais e de violência, pode comprometer de forma permanente a capacidade cognitiva destes jovens, desencadear distúrbios neurológicos e outros problemas de saúde.

E esses problemas de saúde acabam, de alguma forma, impactando economicamente também?
Sim. Esta situação também causa problemas econômicos, pois aumenta a demanda pelo sistema público de saúde, gerando maiores gastos, e pode prejudicar a formação da força de trabalho, tanto pelo comprometimento cognitivo dos usuários como também pelas possíveis vítimas da violência ocasionada pelo tráfico de drogas. Seguindo principalmente o princípio de valorização da vida e também visando a redução dos custos para o sistema público, torna-se evidente a necessidade de políticas públicas para a prevenção do consumo de drogas entre os jovens.

Qual a importância dos investimentos na área social para restringir o consumo de drogas nas escolas?
Com o intuito de reduzir os fatores de risco e, assim, prevenir o consumo de drogas pelos adolescentes, o gestor público pode atuar, ou por meio de iniciativas que envolvam a família e a escola, ou através de políticas sociais e econômicas como, por exemplo, a distribuição de renda, o combate ao crime e a redução da violência.

E as ações no ambiente escolar também não são importantes?
Sim. As ações no ambiente escolar também podem contribuir para a prevenção do consumo de drogas, uma vez que é neste ambiente que as crianças passam grande parte do tempo e também podem obter informações sobre drogas e seus malefícios. Por outro lado, se houverem jovens usuários de drogas frequentando a escola, é possível que os colegas destes jovens também entrem em contado com substâncias ilícitas por meio das interações sociais que ocorrem no ambiente escolar. Por isso, é de extrema importância que o poder público seja capaz de garantir, além do acesso à escola, educação de qualidade e um ambiente de convivência saudável para as crianças.

Que tipo de fatores podem ser a porta de entrada do jovem nas drogas?
Podemos alocar os fatores de risco relacionados à decisão dos jovens de consumir drogas em três categorias: características pessoais, biológicas e psicológicas; características sociais, da família e amigos; e características do ambiente, escola e o entorno. Destas três categorias, as características do ambiente são as que o poder público tem maior poder de atuação, por meio de políticas educacionais, de assistência social, de segurança pública, entre outras.

Qual a constatação do trabalho?
Os resultados indicaram que as características das famílias dos alunos são determinantes importantes do consumo de drogas dos jovens. Para atuar nesse sentido, o governo pode utilizar-se de políticas públicas de assistência social que visem reduzir o número de famílias em situação de risco e vulnerabilidade, uma vez o aumento de 1% nos gastos assistência social diminuiu em 1,1 pp a chance de o aluno experimentar drogas.

As evidências do movimento conjunto dos preços das commodities

priscila linck
Priscila Linck
Economista, 1º Lugar “XXIV PBE” Monografia de Graduação
Corecon-RS Nº 8527


Qual a proposta do trabalho “A Dinâmica de movimento conjunto dos índices de preços das commodities: Uma aplicação Econométrica”, 1º Lugar no XXIV Prêmio Brasil de Economia, categoria Monografia de Graduação?
O trabalho buscou identificar a existência de um movimento conjunto dos índices de preços de diferentes grupos de commodities, como energia, metais, matéria prima agrícola e alimentos e bebidas. Partindo de uma crítica à proposta de Fernando Ribeiro (2009), amparado pela teoria tradicional, que propõe que a diversificação das exportações, indiferente do produto, ainda que dentro do grupo de commodities, libertaria o país da vulnerabilidade externa e da susceptibilidade a problemas de restrição de balanço de pagamentos. Para identificar a existência de co-movimento entre os índices de preços supracitados, foram utilizados os Modelos de Mudança de Regimes Markovianos e os Modelos Vetoriais de Correção de Erros (VAR/VEC).

Por que defendes a tese da diversificação das exportações?
Nos últimos anos o tema tem sido abordado com grande frequência, em função do aumento da participação de bens primários na pauta de exportações brasileira e da dualidade das linhas de pensamento quanto aos efeitos dessa concentração para o desenvolvimento econômico. Em 1997, os produtos não classificados como indústria de transformação (NCIT) representavam 17% da pauta de exportações do Brasil. Vinte anos depois, em 2017, a participação passou para 38%. Neste último ano, os bens de baixa intensidade tecnológica, como alimentos, bebidas, couro, representaram 26% das exportações. Já os bens de média-baixa, média-alta e alta intensidade tecnológica, juntos, correspondem a 36% da pauta de exportações. Nesse contexto, surgiu a proposta de Fernando Ribeiro (2009), além de outros autores, de que a diversificação da pauta exportadora, indiferente do tipo de produto, é capaz de quebrar o pressuposto de restrição de balanço de pagamentos abordado na escola estruturalista.

Com base nessas linhas de pensamento, o que buscaste com o trabalho?
Justamente em função dessa contradição, busquei, através de uma análise empírica, comprovar se a diversificação apenas no segmento de commodities seria suficiente, visto que, se há um movimento padrão entre todos os preços de diferentes commodities, a diversificação no segmento não é suficiente para livrar o Brasil da vulnerabilidade externa e problemas de balanço de pagamentos, refreando o desenvolvimento econômico e justificando a necessidade de diversificação ampla das exportações.

Quais as constatações obtidas através de modelos de mudanças de regimes markovianos e dos modelos vetoriais de correção de erros?
Os modelos de mudança de regimes markovianos possibilitaram visualizar que existe a permanência de diferentes índices de preços em regimes coincidentes em semelhante período, ou seja, os níveis de preços altos e baixos são análogos no tempo entre diferentes commodities. Além disso, os modelos permitiram a percepção de que o comportamento dos preços dos alimentos e bebidas e matéria prima agrícola apresentam maior proximidade entre si, assim como energia e metais. Ambos os modelos vetoriais de correção de erros constataram a existência de cointegração entre as séries, resultado que corrobora a existência de comportamento análogo dos preços das commodities. Por fim, os resultados de impulso-resposta indicam que, de mesmo modo, dado um choque generalizado nos índices de preços das commodities, ambas apresentam a mesma resposta de expansão no curto prazo, e efeito final a níveis de preços mais elevados em relação ao período anterior ao choque.

De uma forma geral, a que conclusões chegaste?
Os resultados empíricos, através dos Modelos de Mudança de Regimes Markovianos e dos Modelos Vetoriais de Correção de Erros (VAR/VEC) comprovaram a existência de comovimento entre os preços das commodities, demonstrando quebras comuns nas séries, além de uma relação estável no longo prazo, o que invalida a hipótese de redução da fragilidade frente aos choques externos e à volatilidade de preços pela diversificação entre commodities, dado que os diferentes preços se comportam de forma análoga, como um único produto em períodos de preços baixos ou elevados, não surtindo resultado diversificar as exportações dentro do segmento. Tal conclusão abre a discussão para a questão do tipo de especialização produtiva da região, abordada no presente trabalho pela teoria estruturalista de Raúl Prebisch, Anthony Philip Thirlwall e Nicholas Kaldor.

O mercado e o novo governo

gustavo moraes

 

Gustavo Inácio de Moraes

Economista, Coordenador Curso de Ciências Econômicas PUCRS
Corecon-RS Nº 7863

 

O recado sobre economia dado pelo candidato eleito Jair Bolsonaro em seu discurso de vitória tem como objetivo confirmar suas pretensões liberais?

Sem Dúvida, tem pretensões de acalmar e estimular o mercado na tentativa de angariar o seu apoio no encaminhamento das propostas que o governo pretende apresentar, especialmente na busca pelo melhor ordenamento das contas públicas federais. Uma vez que dispõe do apoio popular, o apoio do mercado financeiro é uma outra maneira de criar legitimidade para melhor comunicar o que se pretende nas medidas em relação à sociedade. As pretensões liberais, contudo, serão confirmadas no decorrer do governo. Há, talvez, uma tensão dentro dos grupos de assessoramento e apoio político sobre a condução da política econômica, item reconhecido como de frágil compreensão própria pelo novo presidente. Assim, pode-se esperar polêmicas em temas como privatização, orçamento das forças armadas e previdência do regime próprio, civil e militar.

Como o mercado recebe a eleição do Bolsonaro?
Acredito que o mercado receba com a melhor das impressões, mesmo que o candidato, agora eleito, não tenha aprofundado suas temáticas durante a campanha. Por incrível que possa parecer, a crise econômica não foi o principal item de discussão e análise, mas antes pautas como segurança pública e questões de comportamento.

Mas e por que o otimismo do mercado?
A principal razão para o otimismo do mercado é a companhia de Paulo Guedes ao candidato e sua equipe de assessores, dentre os quais destaco a presença do professor e ex-deputado federal Marcos Cintra, com propostas para a reforma tributária. A perspectiva de, portanto, o novo governo adotar pautas liberalizantes, especialmente privatizações e reformas tributárias e previdenciárias, são potenciais agentes de atração de recursos na forma de investimentos em portfólio ou investimentos diretos estrangeiros. Contudo, é preciso cautela, pois essa mesma equipe econômica tem limitada vivência política, bem como a base de deputados aliados ao Bolsonaro, sobretudo em seu partido, o PSL, formada em sua maioria por novatos no processo político parlamentar. Outro risco é ainda a perda de popularidade, visto que estamos falando de alguém que até o momento cresceu politicamente conectado ao sentimento popular. Na hipótese de a popularidade diminuir, acredito que a perspectiva de um populismo econômico não estaria descartada. As pesquisas de popularidade serão um termômetro para o mercado também.

O empresariado já pode se sentir mais seguro para investir ou ainda deverá esperar a posse propriamente dita?
Acho que dependerá da forma como o governo irá se consolidar. O candidato demonstra uma maturidade inédita em sua carreira política, em seus pronunciamentos recentes. Há que se observar a consistência desse estado de espírito. De outra parte, o governo reúne excelentes condições para alcançar maioria no Congresso, realizando uma aliança com partidos como DEM, PP, PR, PRB, PTB, PSC e, até mesmo, o MDB e o PSD, pelo menos, que, juntos ao PSL, somam 239 cadeiras, ou seja, próximos da maioria.

Que cuidados o governo Bolsonaro deve priorizar neste primeiro momento?
Será importante o novo governo diminuir, entretanto, o cenário de indefinição relacionado ao clima de confronto na sociedade e entender que pautas envolvendo comportamento e segurança podem ser encaminhadas posteriormente, legitimadas pelos resultados na economia. O primeiro grande nó da economia brasileira é um nó fiscal. As propostas que equacionem esse aspecto são as mais urgentes. O segundo grande nó é como encaminhar as questões relativas à produtividade e obtenção de crédito consistente para permanente atualização do parque produtivo da indústria e dos serviços.

Que setores deverão reagir com maior velocidade à expectativa de recuperação da economia?
Acredito que o setor de não duráveis já possui um comportamento que mostra reação. A recuperação dos demais setores dependerá da retomada do emprego. Minha expectativa pessoal é de que a reforma trabalhista, recentemente aprovada, possa contribuir positivamente para a criação de empregos em um momento de recuperação, embora exponha o trabalhador em momentos de recessão. De toda forma, pode-se evidenciar que os resultados fiscais equilibrados contribuem para a geração de empregos, uma vez que estimulam investimentos e sua previsibilidade. Os setores de investimento dependentes do crédito, como construção civil, bens duráveis e serviços e produtos de tecnologia serão os maiores beneficiados da retomada.

O mercado e a lua de mel com as reformas

joao fernandesJoão Fernandes

Economista Quantitas Asset Management
Corecon-RS Nº 8151

 

Como o mercado está vendo essa reta final do processo eleitoral?
O mercado está, já há algum tempo, oscilando conforme as perspectivas econômicas de 2019. É sabido que o Brasil hoje precisa de reformas quase emergenciais, principalmente a da previdência. Ela tem que sair logo. Já está atrasada, em função do déficit fiscal que se tem. Então, quanto mais houver a perspectiva de uma reforma em 2019, o mais cedo possível, especialmente no primeiro semestre do ano, mais o mercado fica otimista ao ver que as coisas vão realmente ter condições de melhorar.

De que forma o mercado reage a essas perspectivas?
Aí começa a precificação com o Brasil e o movimento que se percebe, com o dólar caindo, saindo de um patamar recente, de R$ 4,10 e, agora, chegando a R$ 3,70. Para tudo isso é preciso ter uma política econômica reformista para 2019 porque o candidato que está liderando nas pesquisas, através de seu assessor econômico Paulo Guedes, que tem muita ciência do problema fiscal no Brasil, já vem há algum tempo acenando com uma proposta de governo reformista e indicando que vai atacar esse problema de forma muito agressiva, com uma reforma forte. É claro que existem desafios e dúvidas se de fato o candidato, eleito, irá respaldar o Paulo Guedes até o final e, se assim o fizer, se irá conseguir aprovação no Congresso. Não que as metas já tenham sido dadas, mas a partir do momento que você tem um economista muito bem visto, muito técnico, muito qualificado, liderando uma equipe econômica que deverá ser muito competente, e mostrando publicamente que é favorável às reformas o mercado naturalmente passa a adquirir uma postura mais otimista com o Brasil.

A tendência é de que quando as perspectivas da economia são boas, a cotação das empresas na bolsa sobe e o preço do dólar no mercado cai?
Lógico que ocorrem alguns dias em que os movimentos de volatilidade não necessariamente estão alinhados com essa concepção teórica. Não necessariamente existe essa correlação. A bolsa é uma conjunção de ações de diferentes no mercado de renda variável, no mercado de ações, que tende a refletir o valor de empresas no mercado. O dólar tem a ver com a nossa moeda, já que está relacionado ao fluxo de capitais, de entrada e saída de recursos do Brasil. Então, são movimentos impulsionados por fatores diferentes. As ações no Brasil têm relação com perspectiva de crescimento, com perspectiva lá fora de entrada de capital aqui dentro, no mercado de ações, de empresas de outros países. O dólar é influenciado mais por fluxo de capital que entra no país, independentemente de mercado. Para entrar em um mercado qualquer, você estará operando na moeda real e não necessariamente no mercado de ações. Muitas empresas aqui no Brasil fazem operações em dólar quando vêem que esse mercado começa a buscar travas para poderem aproveitar esses valores de moeda, seja para importar ou exportar, dependendo do objetivo delas. O ponto é que não se pode concluir que seja uma relação mecânica de que quando o preço do dólar sobe a cotação da bolsa, obrigatoriamente, teria que cair ou vice e versa. Isso não existe. Claro que há uma correlação, mas não é mecânica nem perfeita.

Passadas as eleições, a tendência é de estabilização de expectativas?
Vamos perceber o mercado precificando a perspectiva de fazer reformas, já que o momento nos apresenta uma tendência de fazer reformas. É certo que o Brasil agora, nesse movimento inicial que atingimos, experimenta uma valorização significativa dos ativos, inclusive muito maior que em países emergentes. É difícil prever esse comportamento, uma vez que o mercado ainda está com essa perspectiva de reformas. E, neste cenário de lua de mel com reformas, para existirem movimentos efetivos de valorização, tem que ser entregues as reformas. Tem que construir, mostrar uma boa proposta, articular a sua aprovação com o Congresso a aprovação. É o que o mercado está, definitivamente, esperando acontecer.

O Economista e a mediação e arbitragem

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Luiz Antônio Rubin

Economista, Mediador e Árbitro Câmara de Mediação e Arbitragem CREA-PR, Câmara de Mediação e Arbitragem do Paraná, Mediador e Conciliador no TJPR, Coordenador CTC/IMA
Corecon-PR Nº 1778

 


Como a mediação e a arbitragem podem ser um campo de trabalho para o economista?
Eu sempre digo em palestras e cursos que ministro, que a área da mediação e da arbitragem também é um campo muito forte de atuação para o economista. O economista também tem todo o direito legal de exercer tais atividades, uma vez que elas não são exclusividade de qualquer outra profissão.

O que é necessário para atuar nessa área?
Em primeiro lugar, o interessado em entrar nessa área da mediação e da arbitragem tem que preparar-se muito bem. Estudar a mediação e estudar a arbitragem. Conhecer os temas com bastante profundidade para que consiga desenvolver um trabalho eficiente, um trabalho que produza resultados e, principalmente, para que seja um trabalho responsável.

Onde podem ser encontradas as oportunidades no mercado de trabalho?
Oficialmente, existem as Câmaras de Mediação e Arbitragem, onde o economista, como qualquer outro profissional, pode se inscrever-se. Cada Câmara tem suas peculiaridades e seus próprios critérios para a inscrição. Ele deve dirigir-se até a Câmara, ver quais as exigências para atuação e ver se ele atende a esses critérios. No entanto, é importante ressaltar que, ao procurar determinada Câmara, primeiro busque informações sobre a idoneidade dessa instituição perante a sociedade. É que você pode estar entrando em uma Câmara que não seja suficientemente séria e que, através dela, possa correr riscos de ser contaminado por uma imagem negativa, refletindo em seu nome profissional. Primeiro informe-se sobre quem instituiu a Câmara, qual o grau de seriedade, que instituição está por trás dela, e qual a possibilidade dessa Câmara ter um trabalho continuado e sério.

Onde se busca a qualificação para exercer a atividade de mediação e arbitragem?
Tanto a lei da arbitragem quanto a da mediação não exigem uma qualificação específica, com exceção da mediação judicial. Você não é obrigado a ter um curso de mediação e arbitragem. Porém, como isso é um trabalho que atinge diretamente as pessoas, é necessário que você faça um trabalho correto e eficiente, o que será alcançado através de uma boa qualificação e conhecimento. Isso pode dar-se através de um curso, onde, ressalto mais uma vez, é importante atentar para a importância da seriedade da instituição. O Conselho Nacional das Instituições de Mediação e Arbitragem (Conima) tem, em seu site, informações básicas sobre o tema. Porém, é muito importante fazer esse curso com profissionais da área, que possam dar-lhe informações e conhecimentos assistidos. Hoje, segundo o Conima, o curso de mediação e arbitragem possui uma carga horária que oscila entre 80 e 100 horas, no mínimo. Em Curitiba, por exemplo, nós temos o Instituto de Resolução de Conflitos, Mediação e Arbitragem (IMA), que ministra cursos com 100 horas. Lá, após fazer um estágio complementar, o indivÍduo sai com qualificação muito firme sobre os dois institutos de resolução de conflitos.

Qual a diferença entre conciliação, mediação e arbitragem?
Na conciliação, o conciliador é um agente diretamente ativo. Ele ajuda as partes a caminharem numa direção. Ele sugere, pondera e encaminha uma solução. O mediador não pode fazer isso. Ele ajuda as próprias partes a refletirem sobre o problema, de forma que elas mesmas, entre si, cheguem a uma solução. O conciliador pergunta: “Por que vocês não fazem assim, que tal vocês dividirem essa diferença”. Já o mediador diz: “Como vocês pensam em resolver o problema”. Ou seja, a resposta tem que ser, obrigatoriamente, das partes. O mediador só conduz o processo. A mediação é regulada pela Lei 13.140/15 de 26/06/2015. Já, na arbitragem, que resolve conflitos sobre bens patrimoniais disponíveis, as partes delegam ao árbitro a atribuição de decidir sobre o litígio, através de sentença arbitral, que é um título executivo judicial e não possibilita recurso. A arbitragem é regulada pela Lei 9307/96, de 23/09/1996 e pela Lei 13.129/2015, de 26/07/2015. É importante enfatizar que a mediação e a arbitragem são institutos de resolução de litígios que já estão fazendo parte do cotidiano das pessoas e passam a ser alternativas de atuação para os economistas. É preciso preparar-se.

Economia serrana e reação à crise

tarcianoTarciano Melo Cardoso

Economista Chefe e Sócio da área de M&A da Ferrari Gestão de Ativos, presidente da
Associação dos Economistas da Serra Gaúcha (Ecoserra)
Corecon-RS Nº 7901

 

Qual o perfil da economia da Região de Caxias do Sul?
O perfil econômico da Serra Gaúcha é bastante concentrado na indústria, principalmente na metalmecânica. Além da indústria, desenvolveu-se ao longo dos anos uma grande quantidade de empresas nas áreas de comércio e serviços, além do turismo nas cidades em torno de Caxias do Sul.

Como a economia local enfrentou esse período de recessão?
A economia da Serra Gaúcha passou por uma forte escalada, nos custos de produção, muito alicerçada por uma demanda acima da oferta, fazendo com que alguns setores, aumentassem seus custos fixos com investimentos necessários para atenderem a demanda, além de aumentos consecutivos no custo da mão de obra, custo de logística e principalmente custo com produtividade ou com a falta desta. Ao se entrar no período recessivo, tais custos fixos, como mão de obra e de produtividade, sobressaíram aos balanços encolhendo as margens dos negócios e tornando os balanços das companhias negativos. Vieram as demissões em grandes quantidades, as reduções de jornadas e por consequência refletidas em salários, que outrora eram engordados com grande quantidade de horas extras nas indústrias, fator este, que, já incorporado mentalmente ao salário, fora base garantidora para financiamentos de longo prazo para os trabalhadores. Com a redução deste excedente, o volume de endividamento das famílias aumentou, agravando a crise via redução do consumo, encolhendo, na sequência, setores do comércio e serviços. Não me recordo de ver antes, quadras inteiras com salas fechadas esperando por meses uma mudança de viés para que as placas de “aluga-se” fossem sucedidas por nomes de novos negócios e destaques publicitários para alcançar o público alvo.

Já se pode perceber sinais de retomada da economia da região?
Se não há sinais de escalada de crescimento, ao menos nota-se uma estabilidade, diferente dos períodos anteriores de queda livre de indicadores. Tínhamos ao início do ano, um brilho no olhar dos empresários, que aparecia como um suspiro de esperança após longos períodos de duras perdas. Todavia, ao passo em que alguns tropeços de políticas e de reformas estruturais vinham tomando forma, traduzindo-se em indicadores econômicos mais tímidos, a confiança dos agentes econômicos acaba relembrando o passado recente e os projetos que estavam em trajetória ascendente para implantação de curto, médio e longo prazo, perdem sua velocidade de execução. Claro que, comparada ao ano anterior, a evolução da economia local é sem dúvida perceptível, com aumento de produção, redução da ociosidade nas fábricas e nos estoques.

Que setores vêm se destacando positivamente?
No acumulado de 12 meses todos os setores vêm apresentando indicadores positivos. Merece destaque a indústria, que é o grande motor da economia de Caxias do Sul, o qual chega a 8,5% no acumulado de 12 meses findos em agosto. Este setor emprega grande quantidade da população e sua retomada acaba aquecendo os setores do comércio e serviço, onde este último, alcançou a marca de 9,6% em 12 meses. No caso do comércio, o retardo na chegada do inverno fez com que os resultados dos comerciantes fossem prejudicados, principalmente aqueles dependentes das datas festivas, ocasionando um aumento significativo nos prazos médios de estocagem e por consequência, aumento na necessidade de capital de giro.

Algum setor ainda apresenta dificuldades de reação?
Dificuldade de reação é uma questão muito delicada de se tratar. Nota-se que há uma evolução em todos os setores, todavia a confiança dos agentes econômicos foi muito prejudicada nos últimos períodos. Logo, ao passo que os resultados vão se consolidando, esta confiança aumenta e a retomada ganha robustez. Fato recente foi a crise dos caminhoneiros que, mesmo afetando a economia, não fez mudar o viés de retomada. Por outro lado, acionou um sinal de alerta, visto que instabilidades podem surgir e, a depender da intensidade destas instabilidades, o grau de confiança dos agentes econômicos pode ser prejudicado, reduzindo a intensão de consumo, bem como, de investimentos.

Como está o índice de desemprego na região?
O mercado formal de trabalho vem apresentando índices positivos no agregado de 12 meses de 2018, com exceção do comércio em Caxias do Sul, que ainda apresenta índice negativo. Em geral o mercado vinha em redução acelerada nos postos de trabalho, onde em quatro anos foram mais de 20mil postos de trabalho extintos em Caxias do Sul, porém em 2018 mais de 25% desta queda foi recuperada, com forte representatividade na indústria.

Que tipo de experiência se pode tirar dessa crise?
Vejo que os principais ensinamentos que deveremos guardar é que, planejamento deve ser estudado e revisado com muita cautela. O que mais se ouviu nos últimos tempos foi “a culpa é da crise”. Claro que diante de crises agudas como a recente, não há instrumentos que possam precificar, até porque, sua evolução e amplitude se dão no agregado e com redução expressiva da confiança nos agentes econômicos. Todavia, a Economia é a ciência que estuda a utilização dos recursos escassos, quando passamos por tempos de bonança ou falsa bonança, financiados por algum consumo acima do ponto de equilíbrio, que apresentará em sua sequência um ajuste para o centro da meta ou para o ponto de equilíbrio. Porém, estávamos acostumados a receitas de gestão de negócios, onde a análise superficial de indicadores macroeconômicos era utilizada sem filtro ou a devida análise de variações em cenários e seus respectivos planos de ação preventivos, fora descartada em prol de agilidade no processo orçamentário. E quando instaurou-se a desconfiança dos agentes econômicos, nos restou apenas culparmos a crise, pela falta de gestão público e privada.

De que forma os empresários vêm acompanhando o cenário mundial?
Caxias e a Serra Gaúcha, tornaram-se uma região, assim como, praticamente todas as outras extremamente conectadas com o mundo. Bastante prejudicada com a questão de logística para chegada de matéria prima e saída de produto acabado, mas que tem seus olhos voltados para a economia e tendências globais. Assim como os aspectos acima citados, todo o movimento nas transações comercias entre as nações, taxações americanas e restrições a produtos de outras nações, fazem com que o empresário, insira em suas análises mais um fator de risco a ser condicionado em seus planos de ação para mitigar possíveis resultados contrários ao planejamento. Entretanto, isto gera da mesma forma oportunidades de negócio e tudo passa por uma questão de análise e capacidade de adaptação às incertezas presentes, tanto no cenário nacional, quanto internacional.

Como a alta do dólar nos últimos dias vem sendo recebida pelos empresários?
A alta do dólar é um fator preocupante, pois ela afeta nos custos de matéria prima, bem como, de logística. Entretanto, para setores exportadores o dólar em alta e algo positivo. O que torna a capacidade de gerir mais vulnerável são as oscilações da moeda, bem como, a estrutura de instrumentos de hedge e equilibrar esta volatilidade cambial, ao nível ótimo de produção, custo marginal e necessidade de capital de giro.

Existem expectativas de ampliação dos negócios?
No setor real da economia e estruturada como está a matriz econômica da Serra Gaúcha, a ampliação de negócio é algo natural. Não há outra forma. Existe uma grande quantidade de pessoas nesta região, que precisam suprir suas necessidades básicas de sobrevivência. Claro que existem riscos e questionamentos quanto a cenários macroeconômicos, mas os conceitos da microeconomia, onde o interesse individual prevalece e acaba por beneficiar a sociedade a sua volta vão sobressair. Pode haver alguma consolidação de mercado, a capacidade de mutação dos agentes econômicos é significativa. O setor privado e a população são demandantes de reformas estruturais, às quais vão acontecer. Investimentos precisam acontecer, se não com administração pública direta, parcerias público privadas ou totalmente privadas, surgirão remodelando a logística, equilibrando a equação de capital e trabalho, movimentando a economia, retomando a confiança, investimento e consumo.

RS e cenários das economias do Sul

Izete fotoIzete Pengo Bagolin
Economista, professora da PUCRS,
Bolsista de Produtividade em Pesquisa CNPQ
Corecon-RS N° 7597

 

O Rio Grande do Sul corre algum risco de perder a quarta posição no ranking nacional?
Sim. Os investimentos e negócios existentes no Rio Grande do Sul vêm perdendo dinamismo, e o ambiente atual não tem se mostrado atrativo para novos investimentos. Em função disso, o estado está ameaçado de perder a quarta posição para o estado do Paraná em futuro bem próximo.

O que falta acontecer para que essa tendência se reverta?
Falta o estado conseguir, aos poucos, ir enfrentando seus desafios e retomar o rumo do desenvolvimento. Diante da atual conjuntura do estado não é prioridade focar na posição comparativa com o Paraná ou qualquer outro estado. A prioridade é retomar a capacidade do estado de cumprir seu papel de garantir serviços públicos de qualidade como segurança, educação e saúde e viabilizar um ambiente adequado para atrair investimentos.

Qual a estrutura atual da economia gaúcha?
Apesar de ser um estado conhecido pela importância da agropecuária, este é o setor que possui a menor participação no valor adicionado bruto (VAB) do estado. O Setor de serviços é o que apresenta maior participação no VAB e também o que possuí maior número de pessoas ocupadas.

O RS está no caminho certo para a solução das finanças públicas?
Ainda é prematuro afirmar se o estado está ou não no caminho certo, pois não é evidente que o caminho tenha sido encontrado. O que é possível perceber é que existe um esforço para encontrar saídas e uma maior conscientização sobre essa necessidade e urgência.

Que tipo de cenário aguarda as três economias do sul do país para os próximos anos?
Certamente um cenário de desafios e de oportunidades, que exigirá muita maturidade, competência e capacidade de tomar decisões, tanto dos gestores públicos quanto dos empreendedores. Certamente, os desafios do Rio Grande do Sul são maiores, uma vez que, além de retomar as atividades que arrefeceram em função da crise nacional, precisa também continuar buscando soluções para as crises internas (das finanças, da segurança e da infraestrutura).

Os desafios da economia catarinense

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Rose Irene Souza Neves
Economista, Analista de Projetos para financiamento a prefeituras do BRDE
Corecon-SC Nº 1840

 

Qual a estrutura atual da economia do estado de Santa Catarina?
A economia catarinense é bastante diversificada e regionalizada por setores de produção bem definidos. A Grande Florianópolis destaca-se nos setores de tecnologia, turismo, serviços e construção civil. A região oeste concentra atividades de produção alimentar e de móveis. O Planalto Serrano tem a indústria de papel, celulose e da madeira. A região sul do estado destaca-se pelos segmentos do vestuário, plásticos descartáveis, carbonífero e cerâmico. O Vale do Itajaí concentra a indústria têxtil e do vestuário, naval e de tecnologia, e na região norte, predomina o setor metal-mecânico, moveleiro e polo tecnológico. Essa diversificação e concentração em arranjos produtivos explica o maior equilíbrio do mercado, em relação à média brasileira, em tempos de crise. Outro fator importante a se destacar é a potencialidade turística do estado. Nesse cenário, com um vasto litoral, praias paradisíacas e infraestrutura capaz de receber milhares de visitantes anualmente, o turismo impulsiona a economia regional como um todo.

Qual a situação atual da economia do estado de Santa Catarina?
A economia catarinense acelera, mesmo diante de um contexto desfavorável. Destaca-se pelo grande número de micro e pequenas empresas, economia diversificada e espírito empreendedor de seu povo. Talvez, por isso, tenha sofrido menos os impactos da atual conjuntura em comparação à média brasileira. O índice da atividade econômica do estado, com base nos indicadores dos últimos 12 meses até junho, teve um crescimento de 4,7%, sobre o mesmo período anterior. O Brasil, segundo o IBC-Br do Banco Central, considerado uma prévia do PIB, cresceu 1,3% no mesmo período. Apesar dos problemas econômicos e expectativas quanto ao cenário político para o próximo período, houve uma intensificação do ritmo da atividade econômica de Santa Catarina em 2018. A indústria catarinense, na comparação de 12 meses, teve crescimento de 4,8%, permanecendo acima da média nacional de 3,2%, com destaque para os setores metalúrgico (29,7%) e automotivo (12,4%). O setor agropecuário ainda está se recuperando dos embargos havidos em dezembro de 2017, com relação à carne suína, e em abril de 2018, com carnes de aves, além dos efeitos da greve dos caminhoneiros, pela falta de insumos e perda de plantel. Já o setor de serviços, depois de três anos de retração, está em recuperação, refletindo o avanço dos demais setores. Com relação às exportações, Santa Catarina mantém-se como oitavo estado exportador, com 3,73% do total do país, tendo exportado US$ 5,08 bilhões no acumulado do ano.

Que fatores vêm sendo definitivos para o crescimento da economia catarinense?
Apesar dos efeitos da conjuntura nacional/internacional, cujo reflexo impacta de forma contundente nos setores produtivos diretamente expostos às políticas de fornecimento e preços, Santa Catarina aposta em tecnologia e novos nichos de mercado. O que se pode observar, como resultado dos indicadores econômicos-fiscais apresentados, é que, mesmo nessa fase de retração, diversos setores continuam investindo em suas atividades, o que é fundamental para a retomada do crescimento. Há uma expectativa de PIB para Santa Catarina, em 2018, de 4,7% , acima da média do país (1,3%), o que já ocorreu em 2017, quando o estado teve um PIB de 4,0%, superior à média do Brasil, de 1%. A expansão dos polos tecnológicos, a crescente onda de startups e aceleradoras, e outros nichos de mercado, vêm sinalizar que a economia catarinense tem muito espaço pra crescer, mesmo em tempos de crise, retração ou expectativa. Também, a atenção às atividades relacionadas ao turismo estão sendo fundamentais para o crescimento da economia catarinense.

Como está a situação financeira do estado?
A capacidade de o estado investir em suas atividades fins, como saúde, educação, segurança, entre outros, depende de seu equilíbrio orçamentário. Mesmo com passivos elevados, se o saldo patrimonial do ente for confortável, à vista de suas obrigações de médio e longo prazos, no curto prazo, sua preocupação deve se concentrar no balanço orçamentário, equilibrando receitas e despesas. O saldo patrimonial do estado, verificado no Balanço Anual/2017 é da ordem de R$ 20 bilhões. Já o balanço orçamentário, em 2017, apresentou receitas e despesas correntes da ordem de R$ 21 bilhões. Em julho, a Receita Corrente Líquida foi R$ 1,8 bilhão; no acumulado do ano, apresentou uma elevação de 4,7%, onde a Receita Tributária contribuiu com um crescimento de 9,5%, sinalizando melhora no resultado orçamentário. Para equilibrar suas contas, o governo busca reduzir despesas e expandir receitas, resultantes do aumento da atividade econômica, com a consequente elevação da receita tributária.

Santa Catarina está no caminho certo para a solução das finanças públicas?
As soluções para equilíbrio das finanças públicas são diversas e estão nos planos e propostas dos candidatos ao governo do estado. Um dos grandes problemas para resolver em Santa Catarina, entre outros, tidos como “esqueletos”, segundo Estela Benetti, em trabalho intitulado “Os desafios nas contas de Santa Catarina em 2018”, é o déficit da previdência dos servidores. Difícil responder se estamos no caminho certo, quando não há muita opção de caminho. A Lei de Responsabilidade Fiscal já impõe diversos limites e condições para os gastos do governo. Portanto, sem aumento de receitas e/ou redução de despesas, não há solução para equilíbrio. Dependemos de políticas públicas apropriadas e o que define se uma política é ou não apropriada é como ela é estruturada. Por exemplo, como aumentar receitas, sem aumentar a carga tributária; e, pela despesa, como reduzir gastos sem diminuir serviços públicos. Enfim, há que haver comprometimento do governo e da população. Há que se cobrar eficiência do serviço público.

Que tipo de cenário aguarda as três economias do sul do país para os próximos anos?
Acredito que o Brasil como um todo está em compasso de espera. Podemos vislumbrar diversos cenários, dependendo do candidato que vencer as eleições. Teremos um governo de direita, de extrema-direita, de esquerda, de coalisão? Já existem esses cenários generalistas, atualizados diariamente, conforme as prévias eleitorais, para fins de investimento e mercado de capitais. Resta-nos ficar atentos para focar nas oportunidades. Seja qual for o plano de governo do próximo presidente, há regras pré-estabelecidas a cumprir, o que nos dá fôlego para redirecionar estratégias e se reposicionar economicamente.

Paraná, rumo à quarta economia!

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Carlos Magno Andrioli Bittencourt

Economista, Professor universitário, Consultor de Empresas
Corecon-PR Nº 5207

Qual a situação atual da economia do Paraná?
No Paraná, hoje, há um fórum, organizado pela Associação Comercial do Estado do Paraná, denominado “Rumo à quarta Economia” que, como o nome diz, busca discutir as condições para que o estado alcance a quarta posição no ranking da economia brasileira, hoje ainda ocupada pelo Rio Grande do Sul. O Paraná vem, desde 1948, ocupando a quinta posição nesse ranking brasileiro e, agora, estamos disputando diretamente essa posição com o estado gaúcho.

Que fatores têm sido definitivos para o Paraná estar conquistando essa nova posição?
As potencialidades existentes no estado é que nos tem acenado com essa nova posição. O agronegócio do Paraná tem tido uma preponderância, assim como o setor industrial que, com suas montadoras e toda a cadeia produtiva que acompanha o setor, vem criando um ciclo com geração de riqueza de toda a indústria. Também tem o setor serviços que, como a exemplo de todo o Brasil, se destaca por sua pujança. Apenas para se ter uma ideia, no primeiro semestre deste ano, fomos o quarto estado do país que mais gerou empregos, segundo dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), do Ministério do Trabalho. Então, há uma combinação, acompanhado também de duas grandes empresas relacionadas à geração de energia: a Refinaria da Petrobras e a Itaipu Binacional. É um conjunto de competências e de potenciais que vem crescendo a todo momento.
O Paraná vem ganhando espaço na renda industrial do País. Segundo a Pesquisa Industrial Anual (PIA) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE, a indústria de transformação do Estado é a terceira maior do Brasil, ficando atrás apenas de São Paulo e Minas Gerais.

Qual a estrutura atual da economia do Paraná?
Hoje predomina o setor de serviços, que é muito forte. Depois, temos o agronegócio e a indústria. Então, esses três fatores atuam em equilíbrio, na busca por um desenvolvimento mais homogêneo da economia paranaense.

Como está a situação financeira do estado?
O estado do Paraná continua fazendo investimentos em relação à receita corrente líquida (RCL) dos investimentos, que têm sido elevados. Também há uma estabilidade na economia como um todo. É que o governo anterior conseguiu adotar medidas e ações governamentais, de tal forma que se conseguisse esse equilíbrio. O pagamento do funcionalismo, do servidor público e dos aposentados e pensionistas, por exemplo, encontra-se rigorosamente em dia.

Que tipo de cenário aguarda as três economias do Sul?
Visamos fazer uma absoluta sinergia entre os três estados do Sul, de tal maneira que possamos, pelo potencial que nossas economias possuem e pela riqueza que geramos, nos unir cada vez mais, colaborando, assim, para o crescimento e desenvolvimento econômico do Sul do país e do Brasil como um todo.

O peso da previdência na dívida dos estados

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Darcy Francisco Carvalho dos Santos
Economista, Auditor-Fiscal Sefaz-RS aposentado, Conselheiro Corecon-RS
Corecon-RS Nº 3755

 

 

Como está a situação financeira atual dos estados brasileiros?
A situação financeira dos estados brasileiros é altamente preocupante. A receita corrente líquida (RCL) nos anos de 2015 a 2017 decresceu, em média, 3,7%, em termos reais. Com exceção do Amapá, que não divulgou os dados, dos 26 estados, 18 registraram crescimento negativo da RCL nesse período. O que apresentou o maior crescimento foi o estado do Mato Grosso (6,2%), seguido de Paraná (5,6%). O Rio Grande do Sul cresceu apenas 0,5%, enquanto o Rio de Janeiro apresentou decréscimo de 10,4%. O Espírito Santo ficou em último lugar, com -15,6%, e São Paulo, com -8,8%. Em 2017, 16 estados apresentaram déficits orçamentários, 13 registraram déficits primários e 11 tiveram margem negativa para investir.

Que estados enfrentam piores níveis de endividamento?
Em 2017, o estado de endividamento era o Rio de Janeiro, com 2,32 vezes a RCL, seguido do Rio Grande do Sul, com 2,13, Minas Gerais com 2,03 e São Paulo com 1,75. A relação média é 0,71, e a mediana, 0,50. Isso que dizer que a metade dos estados deve menos de 50% da RCL e a outra metade deve mais de 50%.

Que estados enfrentam piores condições com a previdência?
Os que ocupam piores posições na questão previdenciária são Minas Gerais, com 39,9% da RCL, seguido do Rio Grande do Sul, com 38,7%, e Rio de Janeiro com 36,9%. Depois vem Rio Grande do Norte (35,7%), Sergipe (27,8%) e Santa Catarina (27%). Em todos eles, a comparação é em termos brutos, já que nem todos adotam a mesma alíquota de contribuição previdenciária.


Por que o controle dos gastos com previdência é fundamental para o equilíbrio das contas públicas?
Os gastos excessivos com previdência acabam retirando recursos de outras funções básicas dos estados e, ainda, impedindo um pagamento melhor para os servidores ativos, resultando em prejuízo para os serviços públicos e déficits orçamentários.

Como está a situação dos três estados do Sul, Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina, na questão previdenciária?
O Rio Grande do Sul, com um gasto bruto de 38,7% é o que apresenta pior situação na Região Sul, seguido de Santa Catarina, com 27%, e Paraná, com 23,3%. O mais preocupante é o crescimento, já que em 2008 as suas despesas previdenciárias eram de 29,5%, 16,8% e 17,6%, respectivamente. É importante lembrar que o estado do Paraná editou lei, em 2015, permitindo o uso dos recursos do fundo previdenciário, em capitalização, para atender despesas do fundo financeiro, em repartição simples, para pagar benefícios previdenciários de quem, até 30 de junho daquele ano, tivesse 73 ou mais anos de idade. Santa Catarina cancelou a segregação das massas, anulando o regime de capitalização, embora tenha criado a previdência complementar. Nossos vizinhos estão em situação muito melhor que a nossa, mas se nada for feito, no longo prazo, poderão apresentar dificuldades semelhantes às que o Rio Grande do Sul está apresentando hoje.

O que falta para esses estados resolverem seus problemas previdenciários?
Falta uma reforma da previdência, sem o que a maioria dos estados brasileiros ficará autofágica, ou seja, muitos existirão para sustentar a própria máquina, porque o valor da folha de inativos e pensionistas será maior que a de ativos, como já acontece no Rio Grande do Sul.

Esses estados conseguem sair sozinhos da crise, sem a ajuda da União?
No momento, alguns estados, especialmente RS, RJ e MG, que apresentam as piores situações, só poderão sair da crise aderindo ao Regime de Recuperação Fiscal (RRF). Sabe-se que a RRF não é a melhor solução, mas sem ele os déficits serão enormes, já que possibilitará a volta dos pagamentos da dívida que, no caso do RS, estão suspensos por medida liminar junto ao STF. O estado do Rio de Janeiro também já aderiu ao RRF. Uma advertência, no entanto, precisa ser feita aos estados que aderirem ao RRF. Se eles não aprofundarem o ajuste fiscal e a economia não voltar a crescer, no final dos seis anos de vigência do Regime, a situação poderá ficar pior do que está.

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Link para artigo sobre o assunto

Até onde vai o dólar

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Cecília Hoff
Economista, professora da Escola de Negócios da PUCRS
Corecon-RS Nº 7659

 

O que está acontecendo com o dólar?
Essa situação do câmbio é meio paradoxal. É que, do ponto de vista dos fundamentos das contas externas, a situação brasileira é favorável. Temos praticamente equilíbrio nas transações correntes e o fluxo de investimento direto no país, até caiu um pouco, mas ainda está elevado, na casa dos U$ 60 bilhões este ano. Então, do ponto de vista do balanço de pagamentos, o país está bem. E ainda, temos em torno de U$ 380 bilhões de reservas e o Banco Central reduziu a exposição em swaps. Então, haveria fôlego para colocar swaps cambiais para tentar reduzir a volatilidade do dólar, mesmo que não exista a intenção do Bacen de interferir para que a taxa encontre o seu novo patamar, seja ele qual for.

Onde entra a volatilidade da moeda, que faz com que o dólar esteja subindo tanto nos últimos dias?
O real é muito negociado nos mercados futuros mundiais. Só para se ter uma ideia, o real é a terceira moeda mais negociada nos mercados de derivativos financeiros, segundo os dados do Banco de Compensações Internacionais (BIS). Só perde para o euro e o dólar. É algo que não tem proporção, nem com a nossa participação no PIB mundial e nem com a nossa participação no comércio. Em função disso, o real acaba sendo uma moeda muito volátil.

Mas por que isso?
Pode ter uma série de explicações, não há uma explicação única e é uma agenda de pesquisa ainda em aberto. Contribuem para isso diferencial de juros, que por muito tempo foi elevado e o fato de o real ser uma moeda commodity de um país emergente, mas que tem um mercado de derivativos desenvolvido. O resultado disso é que a moeda fica muito mais volátil diante de qualquer acontecimento, tanto no mercado interno como no mercado externo. Então, qualquer turbulência, por menor que seja, faz com que se alterem as posições no mercado futuro, que acabam se transmitindo para o mercado à vista. Por exemplo, no segundo trimestre deste ano, quando houve uma mudança na expectativa em relação à política de juros dos EUA e se consolidou a ideia de que o juro subiria mais rápido do que o esperado, o real se desvalorizou junto com outras moedas de países emergentes. Esse movimento aconteceu mais pela compra de dólar no mercado futuro do que por uma saída de dólar físico de dentro do país. Uma expectativa de crescimento maior nos EUA, que leva a uma expectativa mais rápida de alta de juros, provoca essa realocação de portfólios no mercado futuro, repercutindo no mercado à vista.

E a greve dos caminhoneiros também não acabou trazendo impactos para o câmbio?
Sim. Logo depois disso, houve a greve dos caminhoneiros que, por sua vez, também fez com que muitos investidores estrangeiros vendessem ações da Petrobras, e, ao fazer isso, também foram desmontadas posições no mercado futuro, o que também ajudou o dólar a alcançar a casa dos R$ 3,80.

E essa alta recente está mais relacionada a questões internas?
Existem questões externas, ainda relacionadas com os eventos da economia americana, mas também com a crise na Turquia, mas a alta recente parece refletir questões mais internas, relacionadas aos resultados das pesquisas eleitorais. É que as incertezas com as eleições geram um certo pânico no mercado, principalmente nos investidores estrangeiros, que passam a comprar dólar futuro, trazendo essa volatilidade à moeda.

Essa situação é semelhante a que ocorreu por ocasião da primeira eleição do Lula?
A situação hoje, do ponto de vista dos fundamentos, é muito diferente daquela de 2002, quando o Lula ganhou as eleições. A incerteza daquela época levou o dólar a R$ 4,00 e hoje, se fossemos atualizar aquele valor, seria algo entre R$ 7,00 e R$ 8,00, o que seria uma grande desvalorização. Acho mais difícil acontecer isso hoje porque a nossa situação do ponto de vista do balanço de pagamentos é mais confortável.

Por que?
Naquela época, as reservas internacionais eram baixas, o déficit de transações correntes era elevado como proporção do PIB e o investimento direto no país era mais reduzido. Acho que a alta recente reflete muito mais um movimento provocado por essas mudanças de portfólio nos mercados futuros, que se ajustam às novas expectativas em relação às eleições e aos eventos da economia dos EUA. Cenário que, por sinal, ainda está muito incerto e deve continuar trazendo volatilidade.

Economia e eleições

gorskiGustav Gorski
Economista-Chefe GAP Economics
Corecon-RS Nº 6931

A economia brasileira ainda vive o impacto da greve dos caminhoneiros?
O país viveu um choque de ofertas, por ocasião da greve dos caminhoneiros, que teve um impacto nas projeções de crescimento para o ano, já que estavam em torno de 2,5% e os números hoje estão mais próximos de 1,5%, talvez até um pouco mais baixo que isso. Teve uma questão inflacionária, que estávamos esperando em torno de 3,2% ou 3,5% e esse número está mais próximo de 4% ou 4,1% em função do choque de ofertas que tivemos ali naquele período de maio, junho.

O que nos espera até o final do ano?
O que fica para o segundo semestre é uma recuperação econômica tímida, com uma inflação que deve se manter baixa, por mais que esse câmbio tenha se desvalorizado ao longo do ano. O choque foi claramente temporário. A inflação agora no mês de julho já voltou para patamares mais baixos e estamos percebendo uma melhora ainda não muito grande da atividade econômica, mas que realmente está acontecendo. O comércio melhorou um pouco, a indústria melhorou bastante. Ainda não vimos outros indicadores, mas tudo indica que seguirão nesse mesmo ritmo. A grande questão é o resto do semestre, o resto do ano. Não se vê uma recuperação muito forte da economia brasileira, justamente porque também há uma expectativa muito forte em relação às eleições, que pode colocar algo de novo para o país.

De que forma as eleições podem impactar na economia?
Talvez se experimente alguma melhora após as eleições, na medida em que os cenários vão ficando mais claros no ambiente eleitoral e notadamente na questão das reformas que serão implementadas mais a frente. Do ponto de vista eleitoral, por mais que os candidatos tenham pouca aceitação do publico, já que o número de votos em branco e de indecisos é muito grande, na minha visão, as equipes econômicas dos candidatos não são ruins, com exceção do pessoal do PT. Até mesmo o pessoal que esta junto com o Ciro Gomes é uma equipe econômica razoável, mas, apesar de serem desenvolvimentistas, não são malucos. O pessoal da Marina é muito bom, o do Bolsonaro também. O Pérsio Arida, junto com o Alckmin, é muito bom. Então, esses candidatos que têm chances de vencer o processo eleitoral, está muito bem assessorado do ponto de vista econômico. E todos eles anunciaram que vão fazer reformas, inclusive o PT, e cada um ao seu estilo. Então não vejo alguma hecatombe acontecendo do ponto de vista das eleições.

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