PUCRS e FEE promovem Encontro da Economia Gaúcha


O Programa de Pós-Graduação em Economia da PUCRS (PPGE/PUCRS) e a Fundação de Economia e Estatística (FEE) promovem, nos dias 24 e 25 de maio, na PUCRS, o 9° Encontro de Economia Gaúcha (EEG). O objetivo do Encontro é propiciar a discussão dos problemas econômicos do Rio Grande do Sul, sob uma perspectiva metodologicamente pluralista e tematicamente variada.

O Encontro acontecerá no auditório do 9º andar do Prédio 50, localizado nas dependências da Escola de Negócios da PUCRS, no Campus Central, localizado na Av. Ipiranga, 6681, Porto Alegre/RS.

Mais informações em https://goo.gl/jjR4rM

O Imposto de Renda e a histórica distorção da correção da tabela

gustavo moraesGustavo Inácio Moraes

Economista, Coordenador do Curso de Ciências Econômicas da PUCRS
Corecon-RS Nº 7863

 


Qual a realidade que envolve a atual correção da tabela de Imposto de Renda retido na fonte?
Desde 1996 o governo federal não tem reajustado as faixas do imposto de renda adequadamente à inflação. Normalmente os valores devidos ao IR, principalmente faixas de isenções e trocas de tributações de alíquotas, seguem a inflação. Toda a vez que havia inflação, essas faixas eram corrigidas, preservando o valor real de isenção e de faixas consequentes. Desde 1996, as restrições fiscais brasileiras e o final da inflação impuseram uma realidade diferente do orçamento publico brasileiro. Então desde essa época não se reajusta essas faixas de acordo com a inflação.

 

Qual o impacto financeiro dessa falta de correção nas camadas mais baixas da população?
Comparado ao IPCA, isso já acumula uma defasagem de 89% ao longo do tempo. Como exemplo, hoje quem ganha cerca de dois salários mínimos, algo em torno de 1,95 mil reais, já paga imposto de renda, através da retenção de valores na fonte. Se houvesse a correção adequadamente à inflação, apenas quem ganhasse mensalmente 3,5 mil reais pagariam imposto de renda retido na fonte. Então, isso é uma política de aumento de tributos não combinada com a sociedade, já que não implica em imposto novo. Portanto, questões legais decorrentes da criação de imposto não são enfrentadas e, ao mesmo tempo, não percorre aumento de alíquota. É uma forma de aumento de tributação mascarada que é imposta à sociedade. Isso, acumulado no tempo, além de proporcionar uma faixa de isenção muito menor, alguém que ganha dois salários mínimos, por todo o critério de justiça tributária, talvez não devesse estar pagando impostos sobre a renda.

 

O que representa isso em termos de números de contribuintes?
No projeto Gestão Pública Eficaz, elaborado em parceria da PUCRS com o Sescon-RS, calculamos que a base de assalariados que têm registro em carteira ou estatutários, é equivalente a 16 milhões de pessoas, sendo que, desse universo, 10 milhões deixariam de pagar imposto de renda retido na fonte, caso houvesse essa correção do IR. Em outras palavras, esses 10 milhões estariam situados numa faixa salarial média entre 1,9 mil reais e 3,5 mil reais, que está dentro da média salarial do trabalhador brasileiro, que, segundo o IBGE, é de 2,2 mil reais. Portanto, nós tiraríamos 10 milhões de pessoas desse imposto de renda retido na fonte. Dessa forma, o IR seria efetivo no sentido de tributar daqueles que tem maior capacidade contributiva, e proporcionaria uma justiça tributária, que desde 1996 nós não temos.

 

Isso também tem um impacto nos maiores salários?
Sem dúvida. Tem toda uma cadeia pelos níveis das faixas, que é afetada. Então, você começa a tributar lá na qualidade 27,5%, por exemplo, a partir de seis mil reais, quando na realidade essa tributação deveria incidir para aqueles que ganham quase nove mil reais. E falando de impactos, em número de arrecadação, que acho que esclarece melhor, mas esse número é assustador, temos hoje uma arrecadação estimada de cerca de 97 bilhões de reais no IR retido na fonte. Caso houvesse a correção dessa tabela de IR desde 1996, dessa defasagem de 39%, nós deixaríamos 41 bilhões de reais nas mãos dos assalariados. Então veja dos 97 bilhões de reais hoje arrecadados na fonte, 41 bilhões não seriam arrecadados caso houvesse essa correção.

 

Esse dinheiro aumentaria o poder de compra do assalariado das faixas mais baixas?
Aumentaria o poder de compra, aumentaria a circulação da moeda na economia, especialmente aos mais carentes, que se encontram na faixa entre dois e quatro salários mínimos, que estão pagando imposto de renda retido na fonte indevidamente. Estamos falando de uma massa de população que tem como consumo principal, itens como alimento, transporte, carro, gasolina, e até algum tipo de lazer, já que estamos falando de uma classe média C- típica, que estaria sendo impedida no seu poder de compra.

 

Que saída vocês veem para correção dessa distorção?
Visto o montante de 41 bilhões que é arrecadado extraordinariamente, isso é um impacto muito grande dentro do orçamento público brasileiro. Veja que hoje o País tem um furo de 150 bilhões de reais no orçamento de 2018, e de 130 bilhões de reais para o orçamento de 2019. Então, são déficits consideravelmente importantes. E hoje, abrir mão de 41 bilhões de reais de receita é impensável face à situação difícil das contas públicas brasileiras. Uma solução de transição, já que temos 89% de defasagem acumulada, seria voltar a reajustar as faixas de IR de acordo com a inflação, acrescentando sempre 1% de ganho real nessas faixas de IR. Isso resultaria que em 67 anos nós recuperaríamos os 89% de defasagem. Se fizéssemos a reposição da inflação mais 2%, talvez em 33 anos conseguíssemos repor esses 89%. Então, não existe saída fácil nesse contexto em que a sociedade brasileira não contratou exatamente que tipo de estado ela deseja. E é uma situação bastante difícil para ser reorganizada em uma medida apenas. Teria que ser pautada no tempo e, aí sim, corrigir uma justiça histórica dentro do IR retido na fonte do Brasil.

 

Quem são os demais autores do trabalho Gestão Pública Eficiente?
Também são autores desse estudo o professor Milton Andre Stela, Pedro Tonon Zuanazzi e Pedro Vargas Cabral, recentemente graduado em Economia.

Emprego formal no agronegócio gaúcho aumenta nos primeiros meses do ano

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Rodrigo Feix
Economista, pesquisador da FEE
Corecon-RS Nº 7851

O representa para a economia gaúcha o saldo positivo de empregos formais registrados no agronegócio no mês de fevereiro último?
A pesquisa realizada pela FEE acompanha o emprego formal, com carteira assinada, no agronegócio do Rio Grande do Sul. As características da estrutura produtiva desse setor no Estado confere um caráter sazonal aos dados. No primeiro trimestre de cada ano, em função da elevação do número de admissões para as atividades direta e indiretamente vinculadas à colheita da safra de verão, os saldos são positivos. Nesse ano, em fevereiro, foram criados mais de sete mil empregos. Em janeiro, foram mais de dez mil. O impacto dessa demanda temporária por mão de obra se concentra, principalmente, em municípios de pequeno e médio portes do interior do Estado, onde é mais expressiva a participação das atividades agropecuária e agroindustrial na geração de renda. Ressalvando que os empregos criados nesse setor - especialmente nesse período - serem de baixa ou média remuneração, sua relevância é expressiva, pois o agronegócio constitui a base econômica e produtiva dessas regiões.

A que se deve esse resultado?
Basicamente, os resultados derivam da nossa estrutura produtiva e das especificidades do ciclo das culturas mais relevantes da agropecuária gaúcha. Em fevereiro, por exemplo, o setor que mais contribuiu para a geração de empregos no agronegócio foi o de fabricação de produtos do fumo (mais 2.834 postos). Obviamente, isso decorre do encerramento da colheita e preparação das folhas do fumo pelos agricultores. A disponibilidade da oferta dessa matéria prima é concentrada no tempo, daí o motivo de a indústria fumageira manter um nível elevado de admissões de janeiro a abril. Fenômeno similar ocorre nas culturas da maçã e da uva, intensivas em mão de obra no período da colheita.

Como foi esse movimento, comparado aos meses anteriores?
Considerando os dois primeiros meses do ano, pode-se afirmar que o agronegócio está gerando mais empregos em 2018, apesar de a safra agrícola ter se reduzido. Enquanto em 2017 foram gerados 12.670 empregos, nesse ano, de janeiro a fevereiro, o número supera os 17 mil. Essa diferença resulta, em primeiro lugar, da antecipação de desligamentos nos setores de fabricação de sementes e de conservas, ocorridas em dezembro. Além disso, alguns setores se beneficiaram com a leve recuperação do mercado doméstico ou com o aumento dos volumes exportados. Esse foi o caso da indústria de carnes, que, considerando os vínculos com carteira assinada, é a maior empregadora do agronegócio gaúcho. Em função da aceleração do ritmo de abates e da retomada da atividade em plantas fechadas, houve maior demanda por mão de obra nesse setor.

Que segmentos do agronegócio mais contribuíram para esses resultados?
Nos dois primeiros meses do ano, os maiores saldos positivos foram verificados nos setores de produção de lavouras permanentes (mais 7.848 postos) e da indústria fumageira (mais 3.679 postos). Trata-se dos casos ilustrativos da sazonalidade do agronegócio gaúcho, citados anteriormente (maçã, uva e fumo). Além desses setores, também se destaca a indústria da moagem e beneficiamento de cereais (mais 1.403 empregos), especialmente em função do arroz, e de comércio atacadista de produtos agropecuários e agroindustriais (mais 1.395 postos).

Algum setor se destacou negativamente?
Nos primeiros meses do ano a tendência geral é que as admissões superem os desligamentos nos principais setores do agronegócio gaúcho. Em 2018, os principais saldos negativos ocorreram nos setores de produção de sementes e mudas certificadas (-277 empregos), fabricação de conservas (-245 empregos) e laticínios (-76 empregos). Em todos esses setores a perda de empregos em 2018 foi inferior a igual período de 2017.

Mesmo que esses movimentos estejam relacionados à sazonalidade, podem ser considerados de relevância para a economia?
Sem dúvida são importantes para a economia das regiões em que essas atividades estão concentradas. No Rio Grande do Sul muitos municípios e regiões são conhecidos a partir da sua estrutura produtiva agropecuária e agroindustrial. Vacaria com a maçã; Santa Cruz do Sul e Venâncio Aires com o complexo fumageiro; o Vale do Taquari com o complexo lácteo e a indústria da carne; a Campanha com a bovinocultura de corte etc. Por óbvio, o dinamismo econômico dessas regiões guarda relação com o desempenho do agronegócio. O alcance desse dinamismo em termos de desenvolvimento é diverso, variando, por exemplo, segundo a eficiência produtiva alcançada, o comportamento da demanda, o perfil da mão de obra exigida e os encadeamentos locais entre a agropecuária e a indústria de transformação.

Ensino público e gestão

 

Sérgio Firpo
Economista, pesquisador CNPq, professor titular da Cátedra Instituto Unibanco no Insper

Recente pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) revelou resultados sobre o nível de insatisfação dos brasileiros com as escolas públicas de nível médio. Como o senhor vê a situação da educação pública no país?

De uma forma geral, a qualidade do ensino na educação pública é inferior a do setor privado, embora isso não signifique não haja casos de melhor qualidade, inclusive até superior a várias instituições de ensino privado. Sabe-se, no entanto, que há grandes possibilidades de ganhos, sobretudo de gestão do setor púbico. Ou seja, há uma serie de escolas que têm potencial para serem melhor geridas do que realmente são.

É problema de gestão?

Trata-se de uma questão de falta de incentivos para o gestor, de forma que possa melhorar suas ações, que tenha uma carreira não temporária, mais profissional. A pessoa entra como gestor de escola sem ter uma perspectiva do que vai acontecer com ele depois. Ele não será compensado por isso, nem em termos salariais e nem em termos de progressão na carreira. Acaba tendo apenas uma motivação intrínseca para fazer uma boa gestão. E não podemos contar apenas com uma motivação intrínseca de gestores de escola para fazerem uma boa administração o tempo inteiro. Então, tem-se que pensar em maneiras de criar incentivos para que se tenha uma gestão mais profissional, através da qualificação contínua ou da criação de incentivos, proporcionando-se capacidade para que possam alterar certos insumos dentro da instituição, como por exemplo, capacidade de definir os professores que devem ou não trabalhar naquela escola. Isso, eles não têm na escola pública. No setor publico, tem professores que estão engajados com a melhora do aprendizado dos alunos e tem outros gestores que não possuem esse mesmo nível de comprometimento. Então, o gestor tem pouca flexibilidade para alterar o quadro de professores.

É uma realidade muito diferente do setor privado?

No setor privado existe a competição entre escolas. O efeito do ENEM, por exemplo, que no fundo é para mostrar que competição é importante pra se criar um incentivo para que as escolas e gestores busquem aumentar a sua demanda por serviços prestados.

O distanciamento entre o gestor da instituição pública e o agente que concentra o poder de decisão também não gera maiores dificuldades?

Na verdade, as nossas redes públicas são muito centralizadas, fazendo com que gestor acabe tendo muito pouca capacidade de tomar decisões, diferente de outros modelos educacionais, como por exemplo o inglês, onde o gestor tem muito mais autonomia na série de decisões. Aqui é tudo muito mais centralizado, o que faz com que fique esse jogo de empurra. Outro problema, é que muitas vezes essas decisões acontecem muito lentamente, dificultando o bom nível das ações que venham em benefício da escola, até porque normalmente são decisões uniformes, para todas as escolas. E muitas vezes as decisões uniformes não são a melhor política, ao contrário das decisões especificas para cada escola, cada regional.

Temos exemplos no Rio Grande do Sul de escolas públicas com bons resultados em avaliações nacionais. O rigor da disciplina tem a ver com essa distorção?

Não necessariamente esses resultados são oriundos da questão disciplinar. Tem modelos de gestão que geram um resultado de clima escolar diferente. Tem o mais tradicional, o hierárquico, que muitas vezes funciona, mas nem sempre é o modelo que se aplica. Obviamente, essas escolas têm um processo de seleção de entrada mais apurado, proporcionando maior concentração de alunos com melhor rendimento. É muito diferente, por exemplo, de uma gestão de escola pública municipal ou estadual, onde, a princípio, todos os candidatos devem ser atendidos e que deve garantir o acesso a uma educação de qualidade para todos, inclusive para aqueles que estão a ponto de evadir. São modelos diferentes e, obviamente, sempre ocorrerão esses exemplos de sucesso, onde não se consegue definir exatamente se acontece em função do formato de estrutura da escola, se é fruto do processo de seleção ou, mesmo, algo que tenha a ver com hierarquia ou disciplina, que não necessariamente refletem boas práticas de gestão.

O sistema de cotas é uma política que vem dando certo no país?

É uma política clara de inclusão. Mas para sabermos se está dando certo, depende da métrica que se quer utilizar. Do ponto de vista do bem estar social, que leva em conta o bem estar de todos os indivíduos na sociedade, pode ter resultados ambíguos, já que temos indivíduos que foram penalizados com isso e existem muitos outros que obtiveram ganhos. Percebe-se que essa política gera uma série de incentivos, sobretudo para os alunos do ensino médio da rede pública, que acabarão se dedicando mais ao estudo, já que veem com mais clareza as chances de acesso à universidade pública, o que não acontecia anteriormente. Da mesma forma, aqueles alunos não cotistas, que se imaginam prejudicados pela nova política, também podem vir a estudar mais para disputarem o mesmo espaço na instituição pública.

 

Impasse na despesa com pessoal, qual a saída?

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Darcy Francisco Carvalho dos Santos
Economista, Conselheiro Corecon-RS

 


Qual o impacto da exclusão, por parte do Tribunal de Contas do Estado (TCE), do rol da despesa com pessoal, de itens como pensões, entre outros, nas contas públicas do estado do RS?
Entre 2000 e 2015, em valores atuais, a despesa desconsiderada, excedente ao limite, alcançou R$ 49 bilhões. Nesse período, os investimentos do RS foram de R$ 22 bilhões e os déficits, de R$ 18 bilhões. Isso quer dizer que, se a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) tivesse sido cumprida, os déficits não existiriam e, ainda, seria possível fazer mais do que o dobro dos investimentos realizados. A LRF, por si só, tinha a solução para o problema dos déficits, porque aplicando 60% em pessoal, o 40% restantes eram suficientes para cobrir o resto da despesa, inclusive os investimentos. Como retiraram 15%, o que sobra não cobre o resto. Daí os déficits.

Até que ponto esse procedimento fere os princípios da Lei de Responsabilidade Fiscal?
Fere a LRF porque não cumpre o seu artigo 18 e lhe retira a eficácia. A lei perde o sentido, porque lhe retira a principal finalidade, que é proporcionar o equilíbrio das contas públicas.

Por que foi feito isso?
O argumento é que o artigo 169 da Constituição Federal refere-se apenas a servidores ativos e inativos. Mas as despesas retiradas não existem isoladamente, mas sim em função de um servidor ativo e ou inativo. São despesas indiretas, com pessoal. Por exemplo, se eu morrer, minha esposa fica com grande parte da minha aposentadoria como pensão. Só muda de nome, mas a origem é despesa com pessoal. Na prática, foi um sofisma utilizado para poder fugir dos limites da LRF.

Essa decisão pode trazer empecilhos ao acordo de adesão do RS ao Regime de Recuperação Fiscal (RRF)?
Traz empecilho, sim, porque, para aderir à Lei, precisa despender com pessoal mais a dívida 70% da LRF e, com essa interpretação, o Estado despende bem menos, cerca de 57% de sua Receita Corrente Líquida (RCL).

Feito isso, qual a saída?
A saída é o TCE mudar seus critérios, até porque existe a Lei de Responsabilidade Fiscal Estadual (LRFE), que assume o que a LRF (federal), em seu artigo 18, estipulou. Só que aí alguns poderes vão ficar fora dos limites. Diante disso, a pergunta que o governo deveria ter feito ao TCE é se ele vai manter os critérios adotados, que estão em desacordo com a lei estadual, ou se vai aceitar seus termos e exigir seu cumprimento, caso em que tornaria o Estado enquadrado nas exigências do Tesouro Nacional.

A Teoria Econômica e o crime financeiro

 

 

 

Mauro Salvo

Economista
Corecon-RS Nº 5630

 

 

Do que trata a teoria econômica do crime?

A teoria busca compreender a racionalidade do agente criminoso pela ótica econômica. Limita-se a estudar os crimes que, de alguma forma, ferem o direito à propriedade. Ocorrem sempre que um indivíduo ou organização criminosa se apropria indevidamente da renda ou riqueza de terceiros ou exerce uma atividade econômica proibida por lei. Pode ocorrer mediante fraude, como, por exemplo, os crimes de colarinho branco, sonegação fiscal, contrabando, corrupção, tráfico de drogas, lavagem de dinheiro, entre outros. Podem ocorrer, também, com uso da força, como casos de roubos e sequestros. Os crimes que não geram ganhos econômico-financeiros, como crimes passionais, por intolerância religiosa ou racial, entre outros, não são abordados pela teoria econômica do crime, pois não podem ser avaliados pelo ferramental teórico da ciência econômica.

O Brasil vive hoje um clima de descontrole dos crimes financeiros?

Os crimes financeiros são de difícil apuração por diversos motivos. Entre os mais comuns, pode-se citar as zonas cinzentas inerentes a qualquer regulamentação existente. As normas raramente conseguem prever todas as situações possíveis, o que causa o surgimento de brechas ou situações nas quais não se pode afirmar com certeza absoluta sobre a ilegalidade de determinada transação. Os criminosos são especialistas em encontrar essas áreas sombrias. A impressão de “descontrole” é causada pela maior divulgação de alguns casos de elevado impacto na mídia e, também, por um avanço qualitativo das normas e da fiscalização. Não se pode dizer que atualmente há mais crime que no passado, apenas que hoje tomamos conhecimento de mais crimes que anteriormente.

Qual o impacto dessas ações nas economias dos municípios, estado e da União?

Todo tipo de crime provoca danos a terceiros de forma direta ou indireta, e o mesmo ocorre com os crimes econômicos. Cada tipo de crime tem impacto diferente sobre as contas públicas em todas as esferas e também sobre o orçamento das famílias. Dessa forma impactam negativamente o bem-estar social e individual. Por exemplo, alguém que disponha de R$ 1 mil pode gastar numa festinha de aniversário para sua filha ou, alternativamente, optar por instalar uma cerca elétrica de segurança. Qualquer que seja a escolha movimentará a atividade econômica, porém a primeira opção provavelmente gerará maior bem-estar econômico. Raciocínio análogo pode ser feita para os entes públicos que, em vez de serem obrigados a alocar recursos na segurança, poderiam alocá-los em infraestrutura, educação ou saúde.

De que forma fiscalizar e controlar esse tipo de ação?

De forma bastante sintética, com inteligência. Inteligência em todos os níveis, como monitoramento, fiscalização, governança e repressão. Adicionalmente, muito trabalho. Não há uma única fórmula mágica.

A falta de punições pode ser uma das causas?

Gary Becker, com o artigo seminal de 1968, “Crime and punishment: an economic approach”, impôs um marco à abordagem sobre os determinantes da criminalidade ao desenvolver um modelo formal em que o ato criminoso decorreria de uma avaliação racional em torno dos benefícios e custos esperados, comparados aos resultados da alocação do seu tempo no mercado de trabalho formal. A ideia central é a de que as ações ilícitas dos criminosos de carreira subentenda uma avaliação individual, da parte deles, da relação custo/benefício em delinquir. Segundo essa teoria, o cometimento da ação criminosa, na avaliação do potencial delinquente, dependeria de três fatores: o tamanho da recompensa proporcionada pelo cometimento do crime (caso a ação criminosa seja exitosa); a probabilidade de ser preso e condenado; e o rigor da pena a cumprir (caso a ação malogre). Ou seja, quanto maior o tamanho da recompensa potencial em delinquir, maiores serão os índices de criminalidade, enquanto que, ao contrário, quanto maiores as probabilidades de prisão e de apenamento rigoroso, menores serão os índices de criminalidade.

Se a tecnologia nos proporciona tantos instrumentos de fiscalização porque esses crimes ainda acontecem?

As ferramentas tecnológicas têm sido usadas e aprimoradas e têm possibilitado que se desvendem vários crimes. Todavia, essas tecnologias de combate ao crime são desenvolvidas com base na experiência dos investigadores e das tipologias conhecidas. Lembrando o que já foi dito acima, os criminosos são agentes racionais e aprendem rapidamente como as autoridades atuam. Assim, aprimoram também suas maneiras de praticar seus delitos. Além disso, a tecnologia está disponível para todos, inclusive para os criminosos. Em suma, o jogo fica cada vez mais complexo, o que exige cada vez mais esforços tanto pelo lado do bem como do mal.

Evidências do movimento conjunto dos preços das commodities

 

 

 

Priscila Linck
Economista, 1º Lugar “Prêmio Corecon-RS” de Monografias/2017
Corecon-RS Nº 8527

 


Qual a proposta do trabalho “A Dinâmica de movimento conjunto dos índices de preços das commodities: Uma aplicação Econométrica”, 1º Lugar no “Prêmio Corecon-RS 2017”, categoria Monografias?

O trabalho buscou identificar a existência de um movimento conjunto dos índices de preços de diferentes grupos de commodities, como energia, metais, matéria prima agrícola e alimentos e bebidas. Partindo de uma crítica à proposta de Fernando Ribeiro (2009), amparado pela teoria tradicional, que propõe que a diversificação das exportações, indiferente do produto, ainda que dentro do grupo de commodities, libertaria o país da vulnerabilidade externa e da susceptibilidade a problemas de restrição de balanço de pagamentos. Para identificar a existência de co-movimento entre os índices de preços supracitados, foram utilizados os Modelos de Mudança de Regimes Markovianos e os Modelos Vetoriais de Correção de Erros (VAR/VEC).

Por que defendes a tese da diversificação das exportações?


Nos últimos anos o tema tem sido abordado com grande frequência, em função do aumento da participação de bens primários na pauta de exportações brasileira e da dualidade das linhas de pensamento quanto aos efeitos dessa concentração para o desenvolvimento econômico. Em 1997, os produtos não classificados como indústria de transformação (NCIT) representavam 17% da pauta de exportações do Brasil. Vinte anos depois, em 2017, a participação passou para 38%. Neste último ano, os bens de baixa intensidade tecnológica, como alimentos, bebidas, couro, representaram 26% das exportações. Já os bens de média-baixa, média-alta e alta intensidade tecnológica, juntos, correspondem a 36% da pauta de exportações. Nesse contexto, surgiu a proposta de Fernando Ribeiro (2009), além de outros autores, de que a diversificação da pauta exportadora, indiferente do tipo de produto, é capaz de quebrar o pressuposto de restrição de balanço de pagamentos abordado na escola estruturalista.

Com base nessas linhas de pensamento, o que buscaste com o trabalho?

Justamente em função dessa contradição, busquei, através de uma análise empírica, comprovar se a diversificação apenas no segmento de commodities seria suficiente, visto que, se há um movimento padrão entre todos os preços de diferentes commodities, a diversificação no segmento não é suficiente para livrar o Brasil da vulnerabilidade externa e problemas de balanço de pagamentos, refreando o desenvolvimento econômico e justificando a necessidade de diversificação ampla das exportações.

Quais as constatações obtidas através de modelos de mudanças de regimes markovianos e dos modelos vetoriais de correção de erros?

Os modelos de mudança de regimes markovianos possibilitaram visualizar que existe a permanência de diferentes índices de preços em regimes coincidentes em semelhante período, ou seja, os níveis de preços altos e baixos são análogos no tempo entre diferentes commodities. Além disso, os modelos permitiram a percepção de que o comportamento dos preços dos alimentos e bebidas e matéria prima agrícola apresentam maior proximidade entre si, assim como energia e metais. Ambos os modelos vetoriais de correção de erros constataram a existência de cointegração entre as séries, resultado que corrobora a existência de comportamento análogo dos preços das commodities. Por fim, os resultados de impulso-resposta indicam que, de mesmo modo, dado um choque generalizado nos índices de preços das commodities, ambas apresentam a mesma resposta de expansão no curto prazo, e efeito final a níveis de preços mais elevados em relação ao período anterior ao choque.

De uma forma geral, a que conclusões chegaste?

Os resultados empíricos, através dos Modelos de Mudança de Regimes Markovianos e dos Modelos Vetoriais de Correção de Erros (VAR/VEC) comprovaram a existência de comovimento entre os preços das commodities, demonstrando quebras comuns nas séries, além de uma relação estável no longo prazo, o que invalida a hipótese de redução da fragilidade frente aos choques externos e à volatilidade de preços pela diversificação entre commodities, dado que os diferentes preços se comportam de forma análoga, como um único produto em períodos de preços baixos ou elevados, não surtindo resultado diversificar as exportações dentro do segmento. Tal conclusão abre a discussão para a questão do tipo de especialização produtiva da região, abordada no presente trabalho pela teoria estruturalista de Raúl Prebisch, Anthony Philip Thirlwall e Nicholas Kaldor.

2018: Recuperação cíclica

 



Patrícia Palermo
Economista-Chefe da Fecomércio-RS
Corecon-RS Nº 6589




Quais as perspectivas para a economia em 2018?

As perspectivas para a economia brasileira em 2018 são positivas. Nossa expectativa é de um crescimento de 2,8% para o PIB do país, com inflação sob controle e juros reais reduzidos. O ambiente externo continua favorável a países emergentes, como é o caso do Brasil, o que contribui para manter o câmbio estável. O cenário eleitoral, por mais incerto que se apresente, deverá apresentar pouco potencial para reverter o processo de recuperação da atividade econômica no ano. O imbróglio não resolvido das contas da previdência vai cobrar seu preço, ainda que a fatura só venha em 2019.

Pode-se afirmar que o pior já passou e a retomada está garantida?

Os números mostram que a recessão passou, mas a recuperação é um tanto frágil. Estamos vivenciando uma retomada cíclica. Para que ela se consolide e que tenhamos taxas de crescimento altas no longo prazo é fundamental que haja uma agenda de reformas que promova o ajuste fiscal, a justiça distributiva, o aumento da eficiência, enfim, a melhoria do ambiente de negócios.

Considerando os cenários, que setores deverão se destacar nessa retomada?

O ano de 2018 deverá favorecer a atividade produtiva em geral. Na agropecuária, é provável que tenhamos um resultado baixo, mas não porque esperamos que haja quebras de safra, mas porque a base de comparação é muito alta, o que dificulta uma performance alta, dado que o ano de 2017 foi extraordinário. A indústria, em especial a indústria de transformação, está vivendo um processo de recuperação bastante interessante. Ao longo de todo ano de 2017, o setor apresentou crescimento na comparação com o trimestre imediatamente anterior. Além de a recuperação interna favorecer o consumo interno, o cenário externo também favoreceu as exportações, em especial de alguns ramos da indústria. Nos serviços, o cenário é favorável ao varejo, uma vez que se acredita que o consumo das famílias deverá ser a força motriz do crescimento em 2018. A recuperação, ainda que marginal, do mercado de trabalho teve impacto positivo na confiança dos indivíduos, retomando o consumo. A inflação sob controle diminuiu a pressão sobre o orçamento das famílias e os juros mais baixos vêm contribuindo para a retomada do acesso ao crédito das pessoas físicas.

Como estão as expectativas do empresariado? Ainda persiste algum temor para o investimento?

As expectativas dos empresários melhoraram nos últimos tempos. Se, por um lado não temos um otimismo disseminado, por outro lado, podemos afirmar que no último ano o pessimismo se reduziu sensivelmente. Entre os empresários do comércio gaúcho, por exemplo, desde setembro de 2017, registramos indicadores levemente acima da neutralidade no indicador que mede a confiança dos empresários do comércio. Na indústria do RS, o indicador de confiança não alcançava patamares tão altos desde meados de 2010. A melhora da confiança, em outros momentos, certamente seria um fator relevante para o aumento do investimento, entretanto a incerteza ligada à consolidação da recuperação econômica e a grande capacidade ociosa da economia ainda adia investimentos. Por mais que durante 2017 tenhamos observado uma escalada do investimento (crescimento marginal nos últimos 3 trimestres), em especial em máquinas e equipamentos, em grande parte isso se dá em virtude da necessidade de se evitar a obsolescência tecnológica e não para aumentar a capacidade produtiva. O ano de 2017 foi o quarto ano consecutivo de queda do investimento brasileiro, algo muito ruim para um país que precisa, e muito, aumentar sua produtividade. Em 2018, espera-se um aumento significativo do investimento, mas a base deprimida deverá ter alto grau de relevância nas variações que vierem a ser registradas.

Até que ponto este ano eleitoral pode ser um entrave para a economia?

O cenário eleitoral deve repercutir no ritmo de crescimento em 2018, devido à natural volatilidade de uma eleição repleta de incertezas, mas que dificilmente deverá reverter a retomada e trazer o país novamente à recessão em 2018. Como o consumo será a mola propulsora do crescimento e ele é menos suscetível a tensões eleitorais, isso acaba promovendo uma certa “tranquilidade” à economia no ano corrente, isto é, de certa forma temos um crescimento contratado para 2018. Basicamente as nossas escolhas para o executivo e para o legislativo também mostrarão seus impactos especialmente em 2019. Tomara que façamos boas escolhas! Nosso futuro agradece.

Cenário de retomada?

 

 

 

Vanessa Sulzbach
Economista, pesquisadora da FEE
Corecon-RS Nº 8193

 

 

O Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, divulgado na última quinta-feira pelo IBGE, apontam crescimento de 1,0% da economia brasileira no ano passado. Esse número já era esperado?

Sim. Tanto o IBC-Br quanto as expectativas de mercado do Relatório Focus apontavam para um crescimento de 1,0% do PIB do Brasil em 2017. Apesar do bom desempenho da agropecuária (13,0%), com safra recorde de grãos, e do consumo das famílias (1,0%), que refletem a retomada das condições do mercado de trabalho, a indústria e os serviços permaneceram estagnados em 2017, o que já era esperado. O que chama atenção é que mesmo com a melhora nas condições macroeconômicas, a formação bruta de capital fixo caiu 1,8% em relação a 2016, sinalizando que ainda existem entraves a serem enfrentados pelo país para a retomada consistente do crescimento econômico.

O Índice de Atividade Econômica, divulgado dias antes pelo Banco Central (IBC-Br) já apontava um crescimento de 2,13% do PIB gaúcho em 2017. A que se devem esses resultados?

O crescimento de 2,1% do IBC-R (regional), do RS, reflete a expansão das vendas do comércio e da produção de importantes grãos do Estado. Em 2017, as vendas do comércio, ampliado, cresceram 13,3%, com avanços importantes nos segmentos de Tecidos, vestuário e calçados, Combustíveis e Materiais para escritório, informática e comunicação. O segmento se beneficiou da melhora nas condições econômico-financeira das famílias, por exemplo, com a redução do endividamento e aumento da renda. A produção de soja e milho, por sua vez, trouxeram ganhos para os produtores gaúchos e contribuíram para um novo recorde de produção de grãos em 2017 no Estado, que contou também com a retomada da produção de uva e tabaco. O resultado de ambos os segmentos da economia (comércio e agropecuária) compensou os efeitos da estagnação da indústria gaúcha, cuja produção variou 0,1% em 2017, da queda no volume de serviços (-3,3%) e da redução dos postos de trabalho na Construção Civil.

Que outros fatores contribuíram para isso?

Em suma, a melhora nas condições econômicas, com inflação e juros em patamares historicamente baixos, as boas condições climáticas e o momento favorável do mercado internacional contribuíram para o aquecimento da atividade econômica do Estado em 2017, com índice de crescimento superior ao esperado para o ano.

Por que o PIB do Brasil foi tão inferior ao gaúcho, diferentemente do período anterior quando a economia brasileira cresceu mais que a gaúcha?

Apesar de a dinâmica econômica gaúcha ser muito semelhante à brasileira, sobretudo no que diz respeito aos efeitos das reformas econômicas e decisões de política macroeconômica em curso no País, o desempenho dos setores não são exatamente os mesmos. Os dados do IBGE mostram que, a despeito dos recordes de produção agrícola que resultaram em crescimento da produção de importantes grãos acima do registrado no Estado e do bom desempenho do consumo das famílias, as vendas do comércio no nível nacional ficaram bastante aquém do registrado no RS. O volume de vendas expandiu 4,0% frente uma expansão de 13,3% no RS. Pelo lado da indústria nacional, o resultado negativo da indústria de construção civil compensou o desempenho positivo das indústrias de transformação e extrativa, resultando em estagnação no período, à semelhança do que aponta o IBC-R para o RS. Como o volume de serviços registrado pelo Brasil não se diferenciou substancialmente do que ocorrera no RS, o impacto do desempenho do comércio tem mostrado ser o principal fator que explica as taxas distintas de crescimento do índice entre o Brasil e o RS.

Até que ponto os números divulgados pelo IBGE, assim como a prévia do Banco Central, refletem uma realidade de retomada da economia brasileira?

O IBC-Br é um indicador utilizado para avaliar o ritmo da atividade econômica do Brasil de maneira mais contemporânea dos fatos do que o PIB, cuja divulgação tem uma defasagem de alguns meses. Ele se baseia em pesquisas econômicas mensais como Produção Industrial, Vendas do Comércio e dos Serviços, Emprego, Produção Agrícola, entre outras, e apresenta uma metodologia distinta da do PIB, que, além dessas variáveis, também considera os tributos, as exportações e importações, etc. Por esse motivo, o IBC-Br não antecipa perfeitamente o resultado do PIB, mas se configura como uma boa aproximação para o resultado oficial do mesmo. O resultado do PIB brasileiro de 1,0% divulgado recentemente aponta bem essa relação.

Este ano de 2018 deverá continuar essa trajetória de recuperação?

O cenário econômico continuará desafiador em 2018. Por um lado, os efeitos das reformas aprovadas entre 2016 e 2017 tendem a potencializar seus efeitos na economia depois de alguns meses de maturação, assim como os impactos da queda dos juros, a estabilidade da inflação, a geração de empregos e a melhoria na oferta de crédito. Por outro lado, as incertezas em relação às eleições e a redução na probabilidade de aprovação da Reforma da Previdência reduzem os potenciais resultados positivos derivados dessas reformas, sobretudo porque o ajuste fiscal depende de outras aprovações além do Teto dos Gastos. Por outro lado, as boas perspectivas vindas da economia internacional tendem a beneficiar os exportadores brasileiros e gaúchos. Nesse sentido, espera-se um crescimento mais elevado em 2018 para ambas as economias, ainda que no caso gaúcho haja um risco de frustação nas receitas do setor primário devido à possibilidade de eventos climáticos desfavoráveis à produção de grãos.

O que está faltando para o empresário retomar investimentos de maior peso?

Apesar da melhora no ambiente econômico, algumas incertezas ainda permanecem afetando as decisões de investimentos dos empresários. O ambiente político instável ainda atribui probabilidade positiva ao abandono de reformas macroeconômicas ainda necessárias para garantir um ambiente de negócios mais favorável, como simplificação tributária, redução de entraves burocráticos em áreas como a ambiental, melhorias na infraestrutura energética e logística, e incentivo à inovação e às parcerias público-privadas.

Depressão e economia

eduardoEduardo Fernandes da Silveira

Economista, 1º Lugar “Prêmio Corecon-RS”, Dissertações de Mestrado
Corecon-RS Nº 6708

Qual o objetivo do trabalho “Fatores socioeconômicos e psicossociais relacionados à prevalência da depressão no Brasil”, 1º Lugar no “Prêmio Corecon-RS”, categoria Dissertações de Mestrado?

O objetivo central do trabalho foi mensurar os impactos dos efeitos de fatores socioeconômicos e psicossociais sobre prevalência da depressão, a fim de identificar grupos socioeconômicos mais vulneráveis ao distúrbio e, portanto, direcionar políticas públicas baseadas em evidências a estes indivíduos. Outro objetivo da dissertação foi mensurar as causas da marcante diferença entre as prevalências do distúrbio depressivo entre homens e mulheres observada na literatura especializada.

Quais as principais constatações?

De acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde (2013), a prevalência da depressão no Brasil é de 8,3%. No entanto, a proporção de mulheres que declara já ter recebido o diagnóstico de depressão é de mais de 11,04%, enquanto, entre homens, esta estatística é de apenas 3,87%.

Por que isso acontece?

O elemento complicador é que mulheres, em média, têm renda mais baixa, têm mais atribuições na criação dos filhos, são mais vulneráveis à violência, etc. Assim sendo, surge a dúvida se esta diferença é causada pelas variáveis explicativas ou se há algum fator intrínseco à condição feminina que explicaria esta maior prevalência. Em outras palavras, buscaram-se evidências de que mulheres são intrinsicamente mais propensas à depressão. Para isto, utilizei uma adaptação para modelos não lineares da metodologia Oaxaca-Blinder, comumente utilizada para medir diferenciais de salários entre grupos populacionais (por gênero, etnia, etc.).

Qual o universo pesquisado?

Dentre os fatores estudados, destaco características dos indivíduos como gênero, idade, renda, grau de escolaridade, estabilidade da renda, situação conjugal e situação empregatícia; características regionais como áreas urbanas ou rurais e grandes regiões brasileiras; fatores psicossociais, como ter sofrido algum tipo de violência, sofrer de doença crônica ou ter filhos com doenças crônicas, ser usuário de álcool, entre outras.


Que tipo de impacto a depressão pode causar na renda e no emprego?

A depressão é uma doença que afeta a produtividade do indivíduo e sua capacidade de interagir socialmente. Portanto, no curto e médio prazos, quem sofre de depressão, com frequência, tem um rendimento reduzido no trabalho pelo absenteísmo e o presentíssimo, ou seja, quando o indivíduo está presente no trabalho, mas tem o rendimento reduzido. Isso aumenta a probabilidade de demissão. É que muitas pessoas sofrem de depressão sem saber e, portanto, não podem justificar suas ausências ao trabalho, com atestados médicos, por exemplo. No longo prazo, além de sofrer os efeitos cumulativos da baixa produtividade no trabalho, indivíduos com depressão crônica podem ter suas formações acadêmica e profissional comprometidas, o que especialmente mais grave entre jovens.

Que tipo de desafios enfrentaste ao longo do trabalho?

O maior desafio do trabalho foi lidar com variáveis endógenas e correlacionadas entre si, isto é, variáveis que têm relações de causalidade bidirecionais com a variável estudada, como probabilidade de alguém apresentar um quadro depressivo. A pergunta que se faz é se a pessoa está deprimida porque está desempregada ou se está desempregada porque está deprimida? Certamente, ambos casos podem ser verdadeiros, inclusive, simultaneamente. A pessoa perde o emprego por baixo rendimento em função da depressão, o que agrava o quadro da doença e a mantém desempregada. Para mitigar este problema, os efeitos do desemprego foram avaliados isoladamente contra diversas variáveis, apresentando resultados semelhantes, dado que não foi possível encontrar variáveis instrumentais.

Dependendo da dimensão, pode afetar diretamente no rendimento de uma economia?

Certamente. A depressão é uma doença debilitadora e, muitas vezes, silenciosa. Segundo a Organização Mundial de Saúde, cerca de 5% da população mundial sofre de depressão, o que representa cerca de 350 milhões de pessoas. Também, segundo a OMS, a depressão é hoje a segunda doença mais custosa para a sociedade, ficando atrás apenas das doenças cardiovasculares. Só para se ter uma ideia, até 2030 a depressão deverá ser a doença mais prevalente do mundo.

Isso, certamente, acaba gerando um custo à cadeia social?

Sim. Este custo recai sobre a sociedade de diversas maneiras. Como citado anteriormente, a primeira e mais imediata maneira que a depressão afeta a economia de um país, é pela redução da produtividade dos trabalhadores, que, em média, aumentam suas taxas de absenteísmo, presenteísmo, em que o trabalhador está presente, mas com a produtividade comprometida e afastamento por motivos de saúde. A segunda maneira está relacionada com o fato de a depressão ser uma doença mais prevalente entre pessoas jovens. Isso tem um efeito especialmente deletério sobre indivíduos, pois pode atrasar, comprometer ou até impedir as formações acadêmica e técnico-profissional do indivíduo dependendo da gravidade do caso. A terceira é que, a exemplo de outras doenças mais graves, frequentemente, as famílias das pessoas deprimidas, acabam precisando dedicar parte do seu tempo para cuidar do doente ou realizar tarefas que ela normalmente realizaria. A quarta maneira que a doença onera a sociedade é o custo que recai sobre o SUS e o INSS, seja pelo custo do afastamento do trabalho, seja pelo tratamento direto, seja pelo tratamento indireto da doença como uma comorbidade de outras doenças crônicas. Por fim, pode-se dizer que a depressão ainda traz efeitos negativos sobre as vidas das pessoas, afetando relacionamentos, convívio social, entre tantos outros problemas mais difíceis de mensurar.

Qual a importância da metodologia Oaxaca-Blinder, que utilizaste no trabalho?

Sobre a diferença entre as prevalências da depressão entre homens e mulheres, constatou-se que, à exceção da variável “desemprego”, as mulheres são afetadas mais intensamente pelos fatores estudados. Por este motivo, optou-se por incluir a análise de decomposição Oaxaca-Blinder. Esta análise, indicou que, mesmo ao descontarmos os efeitos de diversas variáveis como renda, escolaridade, violência, traumas, etc., cerca de 67% da diferença entre as prevalências da doença entre homens e mulheres ainda permanece. Portanto, com cautela, pode-se afirmar é a parte que pode estar associada a questões intrínsecas a variáveis não observáveis e à condição feminina.

Que tipo de políticas públicas poderiam ser elaboradas com o objetivo de reduzir o impacto da depressão na produtividade dos trabalhadores?

Atualmente, a maior dificuldade na elaboração de políticas públicas é a questão fiscal da União, estados e municípios. Em função disso, é necessário que, além de eficazes, tais políticas sejam viáveis do ponto de vista orçamentário. Portanto, deve-se focar as políticas preventivas à depressão nos grupos mais vulneráveis, como mulheres de baixa renda e baixa escolaridade, especialmente, no que se refere às suas formações acadêmica e profissional. Além disso, é importante que seja aproveitada ao máximo a estrutura já existente e à disposição do Estado. Alguns exemplos, envolveriam o uso dos agentes de saúde e de serviço social, aproveitando visitas para entrevistar pessoas que se enquadrem no perfil de risco. Isso, entre outros benefícios, pode auxiliar a detecção precoce do transtorno, o que aumenta as chances e o custo da recuperação do paciente. Ainda na parte da detecção precoce, treinamento pode ser dado a professores para identificarem crianças e adolescentes com possíveis sinais da doença para que sejam encaminhados a especialistas. Outra possibilidade que pode auxiliar muito e não diz respeito somente a pessoas com risco de depressão é a de creches para mulheres de baixa renda que estudam, no ensino superior ou no ensino técnico-profissionalizante. Por fim, a criação de grupos de convívio em comunidades carentes para idosos, adolescentes e demais pessoas podem ajudar tanto na prevenção quanto no tratamento da depressão.

Quais as principais conclusões do trabalho?

A maior parte dos resultados se mostraram concordantes com a bibliografia especializada e robusta, dado que resultados semelhantes foram obtidos a partir de diferentes metodologias, especificações de modelos e, até mesmo bases de dados. Dentre os resultados principais, destaca-se que a depressão está positivamente associada a pessoas jovens, economicamente vulneráveis - baixa renda e/ou financeiramente dependente de outras pessoas, com baixa escolaridade e desempregadas -, pessoas com doenças crônicas e que sofreram algum trauma como ter sido vítima de violência.

Depressão e economia

eduardoEduardo Fernandes da Silveira

Economista, 1º Lugar “Prêmio Corecon-RS”, Dissertações de Mestrado
Corecon-RS Nº 6708

Qual o objetivo do trabalho “Fatores socioeconômicos e psicossociais relacionados à prevalência da depressão no Brasil”, 1º Lugar no “Prêmio Corecon-RS”, categoria Dissertações de Mestrado?

O objetivo central do trabalho foi mensurar os impactos dos efeitos de fatores socioeconômicos e psicossociais sobre prevalência da depressão, a fim de identificar grupos socioeconômicos mais vulneráveis ao distúrbio e, portanto, direcionar políticas públicas baseadas em evidências a estes indivíduos. Outro objetivo da dissertação foi mensurar as causas da marcante diferença entre as prevalências do distúrbio depressivo entre homens e mulheres observada na literatura especializada.

Quais as principais constatações?

De acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde (2013), a prevalência da depressão no Brasil é de 8,3%. No entanto, a proporção de mulheres que declara já ter recebido o diagnóstico de depressão é de mais de 11,04%, enquanto, entre homens, esta estatística é de apenas 3,87%.

Por que isso acontece?

O elemento complicador é que mulheres, em média, têm renda mais baixa, têm mais atribuições na criação dos filhos, são mais vulneráveis à violência, etc. Assim sendo, surge a dúvida se esta diferença é causada pelas variáveis explicativas ou se há algum fator intrínseco à condição feminina que explicaria esta maior prevalência. Em outras palavras, buscaram-se evidências de que mulheres são intrinsicamente mais propensas à depressão. Para isto, utilizei uma adaptação para modelos não lineares da metodologia Oaxaca-Blinder, comumente utilizada para medir diferenciais de salários entre grupos populacionais (por gênero, etnia, etc.).

Qual o universo pesquisado?

Dentre os fatores estudados, destaco características dos indivíduos como gênero, idade, renda, grau de escolaridade, estabilidade da renda, situação conjugal e situação empregatícia; características regionais como áreas urbanas ou rurais e grandes regiões brasileiras; fatores psicossociais, como ter sofrido algum tipo de violência, sofrer de doença crônica ou ter filhos com doenças crônicas, ser usuário de álcool, entre outras.


Que tipo de impacto a depressão pode causar na renda e no emprego?

A depressão é uma doença que afeta a produtividade do indivíduo e sua capacidade de interagir socialmente. Portanto, no curto e médio prazos, quem sofre de depressão, com frequência, tem um rendimento reduzido no trabalho pelo absenteísmo e o presentíssimo, ou seja, quando o indivíduo está presente no trabalho, mas tem o rendimento reduzido. Isso aumenta a probabilidade de demissão. É que muitas pessoas sofrem de depressão sem saber e, portanto, não podem justificar suas ausências ao trabalho, com atestados médicos, por exemplo. No longo prazo, além de sofrer os efeitos cumulativos da baixa produtividade no trabalho, indivíduos com depressão crônica podem ter suas formações acadêmica e profissional comprometidas, o que especialmente mais grave entre jovens.

Que tipo de desafios enfrentaste ao longo do trabalho?

O maior desafio do trabalho foi lidar com variáveis endógenas e correlacionadas entre si, isto é, variáveis que têm relações de causalidade bidirecionais com a variável estudada, como probabilidade de alguém apresentar um quadro depressivo. A pergunta que se faz é se a pessoa está deprimida porque está desempregada ou se está desempregada porque está deprimida? Certamente, ambos casos podem ser verdadeiros, inclusive, simultaneamente. A pessoa perde o emprego por baixo rendimento em função da depressão, o que agrava o quadro da doença e a mantém desempregada. Para mitigar este problema, os efeitos do desemprego foram avaliados isoladamente contra diversas variáveis, apresentando resultados semelhantes, dado que não foi possível encontrar variáveis instrumentais.

Dependendo da dimensão, pode afetar diretamente no rendimento de uma economia?

Certamente. A depressão é uma doença debilitadora e, muitas vezes, silenciosa. Segundo a Organização Mundial de Saúde, cerca de 5% da população mundial sofre de depressão, o que representa cerca de 350 milhões de pessoas. Também, segundo a OMS, a depressão é hoje a segunda doença mais custosa para a sociedade, ficando atrás apenas das doenças cardiovasculares. Só para se ter uma ideia, até 2030 a depressão deverá ser a doença mais prevalente do mundo.

Isso, certamente, acaba gerando um custo à cadeia social?

Sim. Este custo recai sobre a sociedade de diversas maneiras. Como citado anteriormente, a primeira e mais imediata maneira que a depressão afeta a economia de um país, é pela redução da produtividade dos trabalhadores, que, em média, aumentam suas taxas de absenteísmo, presenteísmo, em que o trabalhador está presente, mas com a produtividade comprometida e afastamento por motivos de saúde. A segunda maneira está relacionada com o fato de a depressão ser uma doença mais prevalente entre pessoas jovens. Isso tem um efeito especialmente deletério sobre indivíduos, pois pode atrasar, comprometer ou até impedir as formações acadêmica e técnico-profissional do indivíduo dependendo da gravidade do caso. A terceira é que, a exemplo de outras doenças mais graves, frequentemente, as famílias das pessoas deprimidas, acabam precisando dedicar parte do seu tempo para cuidar do doente ou realizar tarefas que ela normalmente realizaria. A quarta maneira que a doença onera a sociedade é o custo que recai sobre o SUS e o INSS, seja pelo custo do afastamento do trabalho, seja pelo tratamento direto, seja pelo tratamento indireto da doença como uma comorbidade de outras doenças crônicas. Por fim, pode-se dizer que a depressão ainda traz efeitos negativos sobre as vidas das pessoas, afetando relacionamentos, convívio social, entre tantos outros problemas mais difíceis de mensurar.

Qual a importância da metodologia Oaxaca-Blinder, que utilizaste no trabalho?

Sobre a diferença entre as prevalências da depressão entre homens e mulheres, constatou-se que, à exceção da variável “desemprego”, as mulheres são afetadas mais intensamente pelos fatores estudados. Por este motivo, optou-se por incluir a análise de decomposição Oaxaca-Blinder. Esta análise, indicou que, mesmo ao descontarmos os efeitos de diversas variáveis como renda, escolaridade, violência, traumas, etc., cerca de 67% da diferença entre as prevalências da doença entre homens e mulheres ainda permanece. Portanto, com cautela, pode-se afirmar é a parte que pode estar associada a questões intrínsecas a variáveis não observáveis e à condição feminina.

Que tipo de políticas públicas poderiam ser elaboradas com o objetivo de reduzir o impacto da depressão na produtividade dos trabalhadores?

Atualmente, a maior dificuldade na elaboração de políticas públicas é a questão fiscal da União, estados e municípios. Em função disso, é necessário que, além de eficazes, tais políticas sejam viáveis do ponto de vista orçamentário. Portanto, deve-se focar as políticas preventivas à depressão nos grupos mais vulneráveis, como mulheres de baixa renda e baixa escolaridade, especialmente, no que se refere às suas formações acadêmica e profissional. Além disso, é importante que seja aproveitada ao máximo a estrutura já existente e à disposição do Estado. Alguns exemplos, envolveriam o uso dos agentes de saúde e de serviço social, aproveitando visitas para entrevistar pessoas que se enquadrem no perfil de risco. Isso, entre outros benefícios, pode auxiliar a detecção precoce do transtorno, o que aumenta as chances e o custo da recuperação do paciente. Ainda na parte da detecção precoce, treinamento pode ser dado a professores para identificarem crianças e adolescentes com possíveis sinais da doença para que sejam encaminhados a especialistas. Outra possibilidade que pode auxiliar muito e não diz respeito somente a pessoas com risco de depressão é a de creches para mulheres de baixa renda que estudam, no ensino superior ou no ensino técnico-profissionalizante. Por fim, a criação de grupos de convívio em comunidades carentes para idosos, adolescentes e demais pessoas podem ajudar tanto na prevenção quanto no tratamento da depressão.

Quais as principais conclusões do trabalho?

A maior parte dos resultados se mostraram concordantes com a bibliografia especializada e robusta, dado que resultados semelhantes foram obtidos a partir de diferentes metodologias, especificações de modelos e, até mesmo bases de dados. Dentre os resultados principais, destaca-se que a depressão está positivamente associada a pessoas jovens, economicamente vulneráveis - baixa renda e/ou financeiramente dependente de outras pessoas, com baixa escolaridade e desempregadas -, pessoas com doenças crônicas e que sofreram algum trauma como ter sido vítima de violência.

Depressão e economia

eduardoEduardo Fernandes da Silveira

Economista, 1º Lugar “Prêmio Corecon-RS”, Dissertações de Mestrado
Corecon-RS Nº 6708

Qual o objetivo do trabalho “Fatores socioeconômicos e psicossociais relacionados à prevalência da depressão no Brasil”, 1º Lugar no “Prêmio Corecon-RS”, categoria Dissertações de Mestrado?

O objetivo central do trabalho foi mensurar os impactos dos efeitos de fatores socioeconômicos e psicossociais sobre prevalência da depressão, a fim de identificar grupos socioeconômicos mais vulneráveis ao distúrbio e, portanto, direcionar políticas públicas baseadas em evidências a estes indivíduos. Outro objetivo da dissertação foi mensurar as causas da marcante diferença entre as prevalências do distúrbio depressivo entre homens e mulheres observada na literatura especializada.

Quais as principais constatações?

De acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde (2013), a prevalência da depressão no Brasil é de 8,3%. No entanto, a proporção de mulheres que declara já ter recebido o diagnóstico de depressão é de mais de 11,04%, enquanto, entre homens, esta estatística é de apenas 3,87%.

Por que isso acontece?

O elemento complicador é que mulheres, em média, têm renda mais baixa, têm mais atribuições na criação dos filhos, são mais vulneráveis à violência, etc. Assim sendo, surge a dúvida se esta diferença é causada pelas variáveis explicativas ou se há algum fator intrínseco à condição feminina que explicaria esta maior prevalência. Em outras palavras, buscaram-se evidências de que mulheres são intrinsicamente mais propensas à depressão. Para isto, utilizei uma adaptação para modelos não lineares da metodologia Oaxaca-Blinder, comumente utilizada para medir diferenciais de salários entre grupos populacionais (por gênero, etnia, etc.).

Qual o universo pesquisado?

Dentre os fatores estudados, destaco características dos indivíduos como gênero, idade, renda, grau de escolaridade, estabilidade da renda, situação conjugal e situação empregatícia; características regionais como áreas urbanas ou rurais e grandes regiões brasileiras; fatores psicossociais, como ter sofrido algum tipo de violência, sofrer de doença crônica ou ter filhos com doenças crônicas, ser usuário de álcool, entre outras.


Que tipo de impacto a depressão pode causar na renda e no emprego?

A depressão é uma doença que afeta a produtividade do indivíduo e sua capacidade de interagir socialmente. Portanto, no curto e médio prazos, quem sofre de depressão, com frequência, tem um rendimento reduzido no trabalho pelo absenteísmo e o presentíssimo, ou seja, quando o indivíduo está presente no trabalho, mas tem o rendimento reduzido. Isso aumenta a probabilidade de demissão. É que muitas pessoas sofrem de depressão sem saber e, portanto, não podem justificar suas ausências ao trabalho, com atestados médicos, por exemplo. No longo prazo, além de sofrer os efeitos cumulativos da baixa produtividade no trabalho, indivíduos com depressão crônica podem ter suas formações acadêmica e profissional comprometidas, o que especialmente mais grave entre jovens.

Que tipo de desafios enfrentaste ao longo do trabalho?

O maior desafio do trabalho foi lidar com variáveis endógenas e correlacionadas entre si, isto é, variáveis que têm relações de causalidade bidirecionais com a variável estudada, como probabilidade de alguém apresentar um quadro depressivo. A pergunta que se faz é se a pessoa está deprimida porque está desempregada ou se está desempregada porque está deprimida? Certamente, ambos casos podem ser verdadeiros, inclusive, simultaneamente. A pessoa perde o emprego por baixo rendimento em função da depressão, o que agrava o quadro da doença e a mantém desempregada. Para mitigar este problema, os efeitos do desemprego foram avaliados isoladamente contra diversas variáveis, apresentando resultados semelhantes, dado que não foi possível encontrar variáveis instrumentais.

Dependendo da dimensão, pode afetar diretamente no rendimento de uma economia?

Certamente. A depressão é uma doença debilitadora e, muitas vezes, silenciosa. Segundo a Organização Mundial de Saúde, cerca de 5% da população mundial sofre de depressão, o que representa cerca de 350 milhões de pessoas. Também, segundo a OMS, a depressão é hoje a segunda doença mais custosa para a sociedade, ficando atrás apenas das doenças cardiovasculares. Só para se ter uma ideia, até 2030 a depressão deverá ser a doença mais prevalente do mundo.

Isso, certamente, acaba gerando um custo à cadeia social?

Sim. Este custo recai sobre a sociedade de diversas maneiras. Como citado anteriormente, a primeira e mais imediata maneira que a depressão afeta a economia de um país, é pela redução da produtividade dos trabalhadores, que, em média, aumentam suas taxas de absenteísmo, presenteísmo, em que o trabalhador está presente, mas com a produtividade comprometida e afastamento por motivos de saúde. A segunda maneira está relacionada com o fato de a depressão ser uma doença mais prevalente entre pessoas jovens. Isso tem um efeito especialmente deletério sobre indivíduos, pois pode atrasar, comprometer ou até impedir as formações acadêmica e técnico-profissional do indivíduo dependendo da gravidade do caso. A terceira é que, a exemplo de outras doenças mais graves, frequentemente, as famílias das pessoas deprimidas, acabam precisando dedicar parte do seu tempo para cuidar do doente ou realizar tarefas que ela normalmente realizaria. A quarta maneira que a doença onera a sociedade é o custo que recai sobre o SUS e o INSS, seja pelo custo do afastamento do trabalho, seja pelo tratamento direto, seja pelo tratamento indireto da doença como uma comorbidade de outras doenças crônicas. Por fim, pode-se dizer que a depressão ainda traz efeitos negativos sobre as vidas das pessoas, afetando relacionamentos, convívio social, entre tantos outros problemas mais difíceis de mensurar.

Qual a importância da metodologia Oaxaca-Blinder, que utilizaste no trabalho?

Sobre a diferença entre as prevalências da depressão entre homens e mulheres, constatou-se que, à exceção da variável “desemprego”, as mulheres são afetadas mais intensamente pelos fatores estudados. Por este motivo, optou-se por incluir a análise de decomposição Oaxaca-Blinder. Esta análise, indicou que, mesmo ao descontarmos os efeitos de diversas variáveis como renda, escolaridade, violência, traumas, etc., cerca de 67% da diferença entre as prevalências da doença entre homens e mulheres ainda permanece. Portanto, com cautela, pode-se afirmar é a parte que pode estar associada a questões intrínsecas a variáveis não observáveis e à condição feminina.

Que tipo de políticas públicas poderiam ser elaboradas com o objetivo de reduzir o impacto da depressão na produtividade dos trabalhadores?

Atualmente, a maior dificuldade na elaboração de políticas públicas é a questão fiscal da União, estados e municípios. Em função disso, é necessário que, além de eficazes, tais políticas sejam viáveis do ponto de vista orçamentário. Portanto, deve-se focar as políticas preventivas à depressão nos grupos mais vulneráveis, como mulheres de baixa renda e baixa escolaridade, especialmente, no que se refere às suas formações acadêmica e profissional. Além disso, é importante que seja aproveitada ao máximo a estrutura já existente e à disposição do Estado. Alguns exemplos, envolveriam o uso dos agentes de saúde e de serviço social, aproveitando visitas para entrevistar pessoas que se enquadrem no perfil de risco. Isso, entre outros benefícios, pode auxiliar a detecção precoce do transtorno, o que aumenta as chances e o custo da recuperação do paciente. Ainda na parte da detecção precoce, treinamento pode ser dado a professores para identificarem crianças e adolescentes com possíveis sinais da doença para que sejam encaminhados a especialistas. Outra possibilidade que pode auxiliar muito e não diz respeito somente a pessoas com risco de depressão é a de creches para mulheres de baixa renda que estudam, no ensino superior ou no ensino técnico-profissionalizante. Por fim, a criação de grupos de convívio em comunidades carentes para idosos, adolescentes e demais pessoas podem ajudar tanto na prevenção quanto no tratamento da depressão.

Quais as principais conclusões do trabalho?

A maior parte dos resultados se mostraram concordantes com a bibliografia especializada e robusta, dado que resultados semelhantes foram obtidos a partir de diferentes metodologias, especificações de modelos e, até mesmo bases de dados. Dentre os resultados principais, destaca-se que a depressão está positivamente associada a pessoas jovens, economicamente vulneráveis - baixa renda e/ou financeiramente dependente de outras pessoas, com baixa escolaridade e desempregadas -, pessoas com doenças crônicas e que sofreram algum trauma como ter sido vítima de violência.

Uma nova crise global?

stefano
 
Stefano José Caetano Silveira
Economista, professor Pós-graduação Uniritter
Corecon-RS Nº 6865

 

 

Quais as principais características da crise ocorrida na economia mundial nos anos 2008 e 2009?
A crise mundial de 2008/2009 teve como causa principal a desregulação do mercado. Com o fim do padrão-ouro nos EUA, em 1971, e, sobretudo, com a implantação da chamada Revolução Conservadora em solo norte-americano em 1981, o período conhecido como Síntese Neoclássica deu lugar a outro momento dominado pela ortodoxia. A última crise global iniciou no mercado mobiliário norte-americano denominado subprime, dado à incapacidade das pessoas que nele estavam inseridas de honrar seus compromissos hipotecários nos bancos devido ao aumento dos juros naquele país, que chegou a 5,25% em 2006, estabelecendo um nível bastante elevado para aquela economia.

Por que isso aconteceu?
Em resposta aos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, os EUA passaram a atuar com maior estrutura em pelo menos duas frentes, Iraque e Afeganistão. Com isso, houve aumento considerável nos gastos governamentais e, consequentemente, nos índices inflacionários. Isso levou o Federal Reserve a majorar a taxa básica de juros, efeito este que logo se espalhou por todo o mercado, encarecendo o crédito. Com o financiamento mais restrito, houve uma queda na demanda dos imóveis e, por resultado, em seus preços de mercado. Isso criou dificuldades para a renovação dos contratos hipotecários concedidos a clientes que não possuíam uma boa avaliação de crédito nos Estados Unidos.

Essa crise poderia vir a se repetir?
Sim. Primeiramente, porque na concepção ortodoxa as crises são cíclicas no capitalismo. Depois, na avaliação de alguns economistas e investidores, devido a algumas variáveis, como o arrefecimento do crescimento chinês, cujo PIB anual não ultrapassou 7% nos últimos três anos, bem distante de um passado recente quando facilmente alcançava entre 12% e 14%. Também, pela queda no preço internacional do barril de petróleo, que já custou mais de US$ 100 e terminou o ano de 2015 orbitando em torno de US$ 30 – a despeito da recuperação recente, quando atingiu cerca de US$ 70 o barril, muito em função do endividamento dos produtores de gás Xisto. Outro motivo seria o preço das ações em Wall Street, dado o nível atual de tais papéis estar abaixo somente daqueles verificados em 1929 e 2000, períodos em que ocorreram ou precederam duas das piores crises globais que se tem notícia. Nível este que, na opinião de alguns especialistas, seria insustentável.

O que falta para que esse cenário de crise se estabeleça?
Que a recuperação dos postos de trabalho perdidos durante a crise de 2008-2009, ainda paulatina, sobretudo na Europa, seja interrompida; que crescimento chinês diminuiu não por uma adaptação a um novo modelo econômico em um quadro de normalidade, mas sim por perda de eficiência; que a recuperação do preço do barril de petróleo seja consequência apenas do aumento da demanda em função do endividamento dos produtores de gás Xisto e não pelo crescimento dos produtos nacionais; e que o atual nível dos preços das ações negociadas nas bolsas norte-americanas se deva apenas a um caráter especulativo e não produtivo.

De que forma a economia brasileira sentiria uma nova crise mundial?
Vivemos em um mundo globalizado. Para honrar seus compromissos no mercado internacional, o Brasil necessita de moeda estrangeira. Uma nova crise mundial pode prejudicar a entrada de dólares, tanto via balança comercial como no arrefecimento do chamado Investimento Estrangeiro Direto (IED). Além da maior dificuldade de manter as contas em dia, a taxa cambial deve subir e, mesmo em um cenário de restrição de crédito, provocar um crescimento inflacionário. Nesse cenário, o preço da matéria-prima estrangeira aumentaria, tornando o produto mais caro ao consumidor final. Como opção à subida dos preços no varejo, o produtor poderia espremer suas margens de lucro, podendo compensar tal perda, mesmo que parcialmente, com a diminuição de seu quadro funcional, ou poderia demitir funcionários devido ao seu produto não sair da prateleira de venda. Nesse quadro, a receita fiscal deverá cair, devido ao desaquecimento da economia, remetendo o governo a arrecadar menos e ter mais dificuldades de cumprir com suas obrigações financeiras.

Qual a importância das commodities no cenário internacional?
Sendo as commodities produtos primários ou semielaborados cotados em bolsa internacional, são direcionadas principalmente à alimentação ou à produção. Seu recuo ou recrudescimento servem de termômetro em relação ao nível da atividade econômica global.

Qual o papel da China nesse contexto?
Desde a morte de Mao Tsé-Tung, em 1976, até o início do século XXI, a China maturou seu modelo de crescimento econômico. Apesar de algumas tentativas de mudança não tão bem sucedidas, principalmente a partir de 2011, o país optou por um modelo voltado ao comércio exterior. Colocado em prática desde o inicio do atual século, quando a nação passou a ser reconhecida como uma economia de mercado. A despeito de algumas acusações de dumping, a China, com seu exército industrial de reserva, formado por sua extensa população de 1,4 bilhão de pessoas, provocou uma queda no valor da mão de obra global. Disso, resultou um recuo na queda de juros mundial. Algumas nações intensivas na produção e exportação de commodities, como o Brasil, foram duplamente beneficiadas. Por um lado, pelo aumento no preço das commodities que a maior demanda chinesa proporcionou, e, por outro, pelo menor custo na captação de recursos estrangeiros causados pelo arrefecimento da taxa de juros internacional. Assim, tomando como exemplo o papel que desempenhou durante a incidência da crise global de 2008/2009 ao liderar as ações dos países emergentes, sobretudo os pertencentes ao grupo dos BRICS, na reação à crise, a China, atual segunda economia do planeta, serve, ao lado dos EUA, como uma espécie de esteio da economia global. Ou seja, se a China vai mal o mundo todo tende a ir mal.

Desoneração da folha de pagamentos: Devemos reverter?

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Felipe Garcia
Professor Departamento de Economia UFPel, Coordenador PPGOM-UFPel,
Conselheiro Corecon-RS
Corecon-RS Nº 8506

 

Qual o objetivo da política de desoneração da folha de pagamentos, implementada em 2011, durante o governo Dilma?
O objetivo foi reduzir o custo do fator trabalho, para impulsionar a competitividade internacional das empresas brasileiras, de alguns setores, além da criação de postos formais de trabalho. Vale lembrar que em 2011 a taxa de câmbio esteve próxima de R$/US$ 1,50. Portanto, para muitos, políticas públicas que estimulassem a indústria eram imperativas.

De onde foram retirados esses recursos?
A desoneração da folha de pagamentos foi acompanhada da incidência de um imposto previdenciário sobre a receita das empresas, exceto aquelas oriundas de exportações. No entanto, a alíquota imposta sobre as receitas foi a que os economistas chamam de alíquota não-neutra, uma vez que a nova arrecadação diferiu da antiga. No caso, a arrecadação foi inferior. O tesouro teve que aportar recursos na previdência. O dinheiro veio dos contribuintes. Foi um subsídio.

Qual a metodologia utilizada para o estudo do IPEA, de sua autoria, em conjunto com os pesquisadores Adolfo Sachsida e Alexandre Xavier Ywata de Carvalho?
Utilizamos o estimador de triplas diferenças. É uma metodologia econométrica amplamente difundida nas diversas linhas de pesquisa em Economia. De forma resumida, nosso método permitiu que identificássemos os efeitos da lei sobre o volume de emprego livre da influência de efeitos de aspectos setoriais, de características das empresas, como o tamanho, e de aspectos conjunturais, como a crise econômica.

Por que, ao contrário do que se previa, a lei acabou não gerando emprego?
A geração de emprego era apenas uma das muitas possibilidades dos efeitos da lei. Pode ter ocorrido, por exemplo, aumento da jornada da força de trabalho já empregada, ou investimentos em tecnologia que a longo prazo podem gerar inclusive substituição de trabalho por capital. Não se pode descartar, também, a possibilidade de que as empresas tenham ampliado a sua margem de lucro.

O que faltou para que esses objetivos fossem realmente atingidos?
Teoria econômica, como de costume na formulação de políticas públicas do país. Antes de qualquer desoneração, precisamos é de uma reforma tributária que aproxime o Brasil da normalidade. Desatar os “nós” da nossa complexa legislação tributária é o primeiro passo. Despontamos no ranking internacional de tempo que empresas gastam para pagar impostos. E aqui não me refiro ao tempo destinado para geração de riqueza que abastece os cofres do governo, mas sim ao tempo perdido com papelada, com burocracia. Uma empresa de tamanho médio gasta duas mil horas por ano com burocracia tributária, enquanto na Argentina, por exemplo, o tempo perdido é pouco mais de 300 horas. Há algo de muito errado, e a reforma tributária é uma urgência. Apenas em um ambiente mais simples para o pagamento de impostos, combinado com um ajuste verdadeiro dos gastos, podemos pensar em medidas que reduzam impostos de forma horizontal, em todos os setores.

Qual o tamanho do prejuízo que essa Lei vem trazendo aos cofres públicos e à sociedade?
Entre 2012 a 2016, a renúncia do governo chegou a quase R$ 70 bilhões, ou R$ 14 bilhões por ano em média. Este montante médio representa praticamente metade dos recursos aportados no programa Bolsa Família ano a ano. Há opções melhores de programas sociais e serviços públicos para se alocar tanto dinheiro.

O próprio governo da época reconhece que a lei foi um erro. Como reverter o processo se o empresariado agora não quer abrir mão da margem de lucro obtida?
No Congresso. Já há material suficiente e nosso trabalho não foi o único que documenta a ineficácia da desoneração para geração de empregos. Agora é pela política.

E o governo não tem força política para acabar com isso?
Pelas manifestações públicas de membros da equipe econômica do governo, percebe-se que há uma clara intenção de se rever muitos dos subsídios diretos e indiretos que afetam a produtividade da economia. A Taxa de Longo Prazo para os financiamentos do BNDES vai nesse sentido e é uma vitória do governo. Mas, diante de tantas incertezas e reformas importantes que ainda estão na mesa, fica difícil de se fazer qualquer prognóstico neste sentido. O fato é que, desde o ano passado, algumas empresas de alguns setores retornaram a contribuir para evidência com impostos sobre a folha de pagamentos.

Controle de gastos e o pós-crise

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Victor de Fraga Sant'Ana

Corecon-RS n°8287
Economista CDL Porto Alegre, Conselheiro Corecon-RS


Quais os principais riscos que as pessoas correm, neste período do ano, de assumirem endividamentos?
O maior risco é que agora, no início do novo ano, ocorre uma série de despesas que podem surpreender as pessoas num momento mais fragilizado, em função da crise. Aqueles que estiverem com as despesas sob controle vão conseguir passar por este momento de forma bem mais traquila. Quem soube se planejar e utilizar o seu 13º salário, por exemplo, certamente estará numa situação mais confortável.

Essa situação mais complicada deve-se aos gastos com presentes de Natal, de férias?
Tudo na verdade. Depende de onde a pessoa gastou o seu dinheiro. Pode ter sido numa compra de Natal um pouco maior, num gasto de férias mal planejado. O importante para a saúde financeira é o planejamento. É saber quanto e como gastar, e quanto guardar para eventuais gastos de emergência.

E agora tem os gastos com material escolar?
Sim. Agora tem os gastos com material escolar, matrículas, IPVA, IPTU, entre outros, que acabam pesando para a classe média como um todo. Todos esses gastos devem estar mais ou menos previstos no orçamento. O consumidor que conseguiu se planejar para as férias e, também, para esse período, que, através de planejamento fez com que esses gastos coubessem no seu orçamento, não vai ter problema.

Como está o nível de inadimplência das pessoas?
Tivemos, a partir do final do ano passado, uma melhora nos níveis de inadimplência em nível de Brasil. É que, de 2014 a 2016, o País enfrentou a pior crise econômica da sua história recente. Foi uma crise não só muito profunda, mas muito intensa. E mais ainda, foi muito intensa para o consumidor, já que houve aumento da taxa de desemprego e diminuiu a renda do trabalhador, acarretando numa queda vertiginosa da confiança do consumidor, algo que, desde a série histórica original da Fundação Getúlio Vargas (FGV) ainda não havia registrado comportamento semelhante. Também, nesse período de crise, o crédito havia ficado muito complicado. Agora a situação é diferente. Percebemos um novo cenário da economia para este ano.

Um cenário mais otimista?
Embora estejamos vivendo uma crise política, está ocorrendo um descolamento do cenário político com o cenário econômico. O ano de 2017 deve fechar com um índice de crescimento do PIB de cerca de 1%, o que é significativo se considerarmos essa violenta crise que passamos nos últimos dois anos. Da mesma forma, temos uma expectativa para 2018 de crescimento do PIB em torno de 2,7%. Lógico que ainda vivemos um cenário de incerteza relativa, decorrente do ano eleitoral. E vai demorar mais alguns meses até que haja uma definição mais clara desse cenário.

E, nesse contexto de incertezas, quais as expectativas em relação ao consumo para o início deste ano?
Estamos vivendo um cenário bem mais otimista para a economia, mas o consumidor tende a ser um pouco mais tímido, mais controlado, com relação aos gastos, e ainda está longe do que se poderia chamar de euforia do consumo. Mas lógico que, com a retomada da confiança no cenário politico, com a economia entrando nos eixos, o consumidor deve certamente retornar ao patamar de consumo do período anterior ao da crise.

O crédito e os juros deverão ser facilitadores nesse processo de recuperação?
Para o consumidor que tem dinheiro guardado e que tem interesse de comprar um bem de maior valor agregado, como um imóvel, por exemplo, e estou falando do ponto de vista de Porto Alegre, é um bom negócio em função dos juros mais baixos, já que a taxa de Selic, que já está baixa, ainda deve cair um pouco mais.

Até que ponto economia e política conseguirão manter-se descoladas uma da outra, nesse período de recuperação?
Nós já estamos vivendo um cenário de descolamento da economia e da política nesse processo de recuperação. Basta olharmos o comportamento e a credibilidade da equipe econômica do governo em relação ao núcleo do próprio governo. Então, existe um descolamento. Claro que toda ação política mais radical que possa a vir a ocorrer, trará algum tipo de impacto na economia. Isso pode acontecer. Quanto mais incerteza tivermos com relação ao que acontecerá no período eleitoral, logicamente acarretará em eventuais impactos à economia. Vimos isso nos fatos do dia 24 de janeiro último, quando ocorreram impactos no mercado e na economia em função de uma determinada ação política. Então, estamos ainda sujeitos a essas oscilações, até porque no Brasil, neste cenário político, fica muito complicado fazer previsões na economia.

O espaço do Brasil no comércio internacional

silvia

 

Sílvia Letícia Bampi
Economista, 2º Lugar “Prêmio Corecon-RS” Dissertação de Mestrado
Corecon-RS Nº 8258

 

Sobre o que trata o trabalho “Uma abordagem gravitacional da evolução do comércio potencial entre o Brasil e parceiros asiáticos selecionados”, 2º Lugar no “Prêmio Corecon-RS”, categoria Dissertação de Mestrado?
Dada à relevância da influência dos países asiáticos no comércio internacional como um todo, além do expressivo crescimento registrado em comparação com África, América Latina e principalmente em relação ao Brasil, o estudo buscou avaliar a inserção asiática no comércio mundial, bem como, a evolução e o perfil das relações comerciais do Brasil com as principais economias da Ásia no período compreendido entre 2000 a 2014. Para a partir de então, através de ferramentas que vêm sendo utilizadas para “medir” as potencialidades de comércio entres as nações, estimar o comércio potencial do Brasil com o continente asiático.

O que foi constatado ao longo do estudo?
O crescimento das exportações mundiais em proporções maiores que o PIB mundial elevou o nível de integração das economias. A partir de então, diversos estudos relacionaram o nível de crescimento do produto/renda dos países com a expansão do comércio internacional. Foi, principalmente, a partir do final da década de 1980 que o comércio internacional passou a ter um papel mais relevante para a economia brasileira, com intuito de ampliar a sua competitividade e modernização. Apesar disso, o Brasil continua sendo uma economia fechada quando considerada a participação das exportações e importações no PIB.

Por que aconteceu isso?
Se usarmos a comparação do trabalho dos autores Canuto, Fleischhaker e Schellekens (2015), a abertura comercial dos parceiros brasileiros do BRICS (Brasil, Índia, Rússia e China), o termo difundido pelo economista Jim O’ Neill (2001), vinculado ao banco Goldman Sachs, atingiu uma proporção em relação ao PIB de cerca de 50%, enquanto em 2013, no Brasil, esta proporção foi de apenas 27,6%. Paralelamente à essa expansão do comércio, acontecia, de forma global, uma mudança na direção dos fluxos comerciais, o que apresentava como relevante o crescimento de economias asiáticas, como por exemplo, a China e a Índia. O crescimento chinês, por exemplo, reforçou a conceitualização dos BRICS como potências emergentes globais.

Que ferramenta métrica foi utilizada no trabalho?
A ferramenta econométrica que foi a utilizada no estudo é o modelo gravitacional, que correlaciona o comércio com as distâncias geográficas e níveis de renda dos países. Estuda o comércio bilateral entre os países e verifica que este é diretamente proporcional ao produto de seus PIBs e inversamente proporcional à distância entre eles.

Qual o objetivo do estudo?
O estudo objetivou verificar se existiam possibilidades de expansão do comércio brasileiro com as principais economias asiáticas, utilizando o ferramental econométrico, através da estimativa do comércio potencial do Brasil. Essas estimativas foram realizadas através do modelo gravitacional, considerando as principais economias da região, como China, Japão, Índia, Coréia do Sul e de alguns países membros da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), como Filipinas, Indonésia, Malásia, Tailândia, Singapura e Vietnã, no período de 2000 a 2014.

De que forma ocorreram essas alterações dos modelos de consumo das economias industrializadas?
As desagregações sociais causadas pela segunda guerra mundial trouxeram consigo uma reforma nos direcionamentos da economia no fim do século XX. Neste cenário, as preocupações dos norte-americanos, até então, poderio econômico mundial, voltam-se para a Ásia, opondo-se à sua postura anterior em relação à Europa. O emergente sucesso de países asiáticos ocasionou efeitos reais ao sistema econômico mundial. Com uma política industrial, comercial e macroeconômica voltada a uma grande estratégia social e nacional, conquistaram uma posição internacional autônoma e preeminente.

Esse movimento foi benéfico ao comércio internacional?
De modo geral, tais efeitos podem ser considerados positivos, pois esse evidente sucesso asiático, principalmente da China, trouxe desenvolvimento via investimento externo em diversos países, provocou diminuição nos preços mundiais de produtos e enfatizou a necessidade de renovação tecnológica para a sobrevivência das empresas no mercado mundial. Assim, a fragmentação geográfica de inúmeras regiões configurou um novo padrão de comércio. Com isso, a criação de cadeias globais especializadas em determinada produção refletiu as mudanças de percepção com relação à política comercial. O que, de acordo com informações da Organização Mundial do Comércio (OMC), começou com uma alteração nos modelos de consumo das economias industrializadas, que encontraram um potencial de oferta em alguns países em desenvolvimento. Isso, por sua vez, veio a reconfigurar o funcionamento da estrutura internacional de comércio.

Quais as principais constatações do estudo?
De forma geral, os resultados encontrados destacaram que o comércio do Brasil com a Ásia vem perdendo espaço ao longo dos anos. No entanto, o último período analisado, que foi 2014, apresentou um potencial de expansão de 2,52%. O fluxo potencial foi calculado para os anos de 2001, 2007 e 2014, sendo possível analisar as modificações ao longo do período abrangido pela amostra. Nos três anos examinados, as importações brasileiras da Ásia ficaram aquém das importações efetivas. As importações estimadas dos parceiros asiáticos do Brasil, por sua vez, ficaram acima das efetivas em 2001 e 2014, resultando em um potencial de expansão de 21,1% nesse último ano.

Neste contexto, a percepção é que ainda existe espaço para expansão das exportações brasileiras?
Sim. Uma das constatações é que ainda haveria significativa oportunidade de expansão das exportações brasileiras para esses destinos, dado o baixo grau de acessibilidade a estes mercados, identificado ao longo do estudo. Verificou-se a possibilidade de expansão em termos absolutos de U$$ 22.540 milhões das exportações brasileiras para os destinos asiáticos. Destaque para possibilidade de expansão dos fluxos de exportação do Brasil com Filipinas, China e Coréia do Sul, 313,57% (U$$ 538 milhões), 36,99% (U$$ 19.115 milhões) e 33,63% (U$$ 1.650 milhões), respectivamente. Além destes, Tailândia, Singapura e Malásia também apresentaram um potencial de comércio acima do efetivo, quando observado o Brasil como exportador. Portanto, pode se observar que existem significativas possibilidades de expansão de comércio brasileiro com a Ásia.

Qual a importância da ampliação desse comércio com as economias asiáticas?
Esse fator tenderia a alavancar diversos setores da economia brasileira, com melhorias em tecnologia e eficiência, dado o alto grau tecnológico de países como o Japão, por exemplo, que caracterizou um potencial de aumento de suas exportações para o Brasil de 10,36%, em 2014. Também, um maior relacionamento com essas economias seria uma via de abertura para relações com economias da Ásia-Central e demais países do continente, favoreceria a abertura comercial brasileira e, também asiática, aumentando a inserção destes nas cadeias de produção global.

O setor imobiliário e o pós-crise

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Jorge Luis Tonetto
Economista, Auditor-Fiscal da SefazRS, Conselheiro Corecon-RS
Corecon-RS Nº 5096

 

 


Como está reagindo o mercado imobiliário nesse contexto de recuperação da economia brasileira?
O mercado imobiliário está dando alguns sinais. O valor dos imóveis caiu ao longo desses dois últimos anos de crise da economia brasileira. O aluguel já tinha caído há bastante tempo. É que, nesse contexto de crise um pouco mais duradoura, o proprietário tinha que negociar com o inquilino o valor do aluguel, sob risco de perder uma renda mensal garantida. Sem o inquilino, teria que arcar os custos de condomínio, IPTU, que ele, obrigatoriamente, teria que honrar. Então ele se viu obrigado a negociar e, em alguns casos, nos últimos dois anos, houve uma queda geral média de 20% nos preços dos aluguéis.

Como estão se comportando os preços dos imóveis?
Nos preços dos imóveis, aconteceu uma queda mais recente, o que acabou acontecendo a partir de março de 2016, quando os preços não acompanharam mais o IPCA. É que a crise já estava instalada, num contexto de pouca demanda para compra. Só para se ter uma ideia, o volume do Imposto de Transmissão de Bens Imóveis (ITBI), que é o cobrado na compra e venda de imóveis, caiu cerca de 15% em 2017 comparado a 2016, na cidade de Porto Alegre. Verificamos, no entanto, que alguns segmentos sofrem um pouco mais que outros.

Que tipo de segmento está sendo mais afetado?
Em Porto Alegre, por exemplo, o mercado de imóveis de três o quatro dormitórios não apresentou muita queda nos preços. Diferentemente dos imóveis de um e dois dormitórios, que já atinge uma população com uma renda um pouco mais apertada. Neste segmento, a crise nos últimos dois anos afetou mais diretamente, restringindo, por consequência, a demanda. Por outro lado, percebe-se que há segmentos que, naquele momento, fizeram promoções com o intuito de diminuir o excesso de estoques e, agora, como se tratam de ativos, essas empresas, equilibradas financeiramente, não torram o preço e esperam que eles sejam naturalmente absorvidos pelo mercado. De qualquer forma, as empresas menores precisam vender e é onde se pode conseguir uma boa oportunidade de preço para aquisição do bem. Mas, em termos de ativos, o imóvel não chegou a perder grande valor, mesmo com essa crise. Os preços não estão acompanhando a inflação nos últimos dois anos, e o que se vê é que, por mais que o mercado possa estar se reativando, a taxa de juros de 7% ainda não chegou na ponta porque não existe volume suficiente de dinheiro para sustentar esse patamar de juro. Ainda existem muitas restrições ao crédito e, por outro lado, as pessoas ainda não têm segurança suficiente para, depois de conquistar uma renda mais estável, uma expectativa de emprego mais sólida, assumirem compromissos de médio e longo prazos, como é o caso da compra de imóvel.

Qual a tendência?
A tendência é que o mercado se ative um pouco mais e, principalmente pelo entendimento também das incorporadoras, sobre qual é o perfil desse novo consumidor. Hoje as famílias são menores, então existe a necessidade de entender esse consumidor e lançar produtos específicos para esse mercado. É um consumidor que privilegia a localização, exige serviços próximos. Não prioriza mais uma unidade tão grande, desde que tenha serviços compartilhados, áreas de lazer, segurança, etc. Se as incorporadoras conseguirem entender bem esse novo perfil de consumo, assim que o mercado tiver uma reação um pouco mais positiva, com uma retomada do PIB e da renda, tudo isso se reativa, sem que os preços caiam muito. Até porque nas regiões metropolitanas existe hoje a escassez de terrenos em áreas mais bem localizadas e, somado a isso, existe toda uma questão de custos na construção civil. Tivemos inflação alta em dois dos últimos três anos e isso tudo repercute nos custos, na mão de obra.

Tem espaço para redução dos preços dos imóveis?
Em termos de custos não se pode esperar que vá haver uma redução muito grande nos preços dos imóveis. Mas, sim, uma retomada gradual da economia, com crédito mais barato, podem gerar condições que o consumidor venha adquirir novamente o bem.

E a inadimplência não pode dificultar o acesso a esse mercado?
A inadimplência do Brasil encontra-se meio estagnada. Tivemos um ponto forte em 2016 e 2017, quando as pessoas já começaram a pagar as contas, aproveitando a queda da inflação e do juro. Mas a retomada do emprego ainda é lenta e temos que esperar um pouco mais. Algumas regiões metropolitanas têm mais dificuldades porque estavam com o estoque de imóveis muito alto, a pleno vapor, antes da crise, o que acabou gerando um estoque grande, e, pelo lado da indústria da construção civil, esperasse uma retomada um pouco mais lenta.

Uber e economia compartilhada

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Paola Behs
Economista, 2º Lugar “Prêmio Corecon-RS” de Monografias
Corecon-RS Nº 8592

Qual o foco da monografia “Uber no Brasil: regulamentação e economia compartilhada”, 2º Lugar no Prêmio Corecon-RS 2017”, categoria Monografias?
Apresentei uma análise sobre a inserção da Uber no Brasil à luz da regulamentação, a partir de um estudo comparativo entre as regulamentações já aprovadas em São Paulo, Brasília, Vitória e Porto Alegre, sendo o último o mais recente até então, de 2017. Apesar de ser um serviço legalizado e previsto na Lei Nacional de Mobilidade Urbana, cada cidade é responsável por normatizar o serviço e propor as regras que devem ser cumpridas, se assim sentir necessidade. E isso tem gerado muitas controvérsias e discussões nas cidades em que a Uber atua.

Por que essa polêmica?
A Uber foi a primeira grande empresa de economia compartilhada a ter tanto protagonismo no Brasil. O mercado de aplicativos de transporte privado causou uma grande mudança na mobilidade das grandes cidades brasileiras, que não estavam preparadas para regulá-lo adequadamente. E, evidentemente, a falta de uma orientação nacional para os governos municipais acabou agravando essa situação.

A que conclusões chegaste no teu trabalho?
Na análise comparativa, percebeu-se algumas similaridades nos projetos, como a limitação da idade veicular, a necessidade de cadastramento junto às prefeituras e a não fixação de tarifas ou de limites de carros. É importante ressaltar que após a publicação deste estudo, as regulamentações já sofreram alterações, principalmente em São Paulo. Essas questões parecem estar resolvidas, apesar de já terem sido pontos de grande discussão no passado, principalmente no que tange ao limite de carros. As quatro regulamentações em vigor criaram um padrão nesse sentido. Já, outras questões ainda possuem grandes variações, como a cobrança de taxas, já que basicamente cada cidade adotou um padrão, o compartilhamento de dados de viagens e motoristas, e as exigências relacionadas aos motoristas parceiros. Ainda é difícil identificar um modelo regulatório claro do serviço no Brasil, tanto em relação aos objetos e principais pontos da regulamentação, como em relação à sua própria jurisdição, podendo ser municipal, estadual ou nacional.

Por que a dificuldade em prospectar algum tipo de modelo regulatório desse serviço no país?
O Brasil não difere muito de outros países nesse ponto. Nos Estados Unidos, por exemplo, também há uma grande diversidade nas regulamentações em vigor. Verifica-se que poderia haver um ganho caso houvesse uma uniformidade maior nos projetos. Poderia se diminuir os custos municipais, de transação e das empresas envolvidas com todo o processo de regulamentação com um framework pré-definido. No entanto, o governo federal, ao definir na Lei Nacional de Mobilidade Urbana, que cada município deverá criar suas próprias regras, acaba incentivando a falta desse framework.

Impactos da liberalização financeira

pedro perfeito

 

Pedro Perfeito da Silva
Economista, 3º Lugar Prêmio Corecon-RS de Monografias
Corecon-Rs Nº 8158

 

 

Qual o objetivo do trabalho “Os efeitos da liberalização financeira externa sobre o desempenho macroeconômico brasileiro, entre 1995 e 2014: um estudo a partir dos modelos MS-VAR e VEC”, 3º Lugar no Prêmio Corecon-RS de Monografias?

O trabalho discute o processo de liberalização financeira externa da economia brasileira no período entre 1995 e 2014, com o objetivo de avaliar os efeitos desse processo sobre diversas variáveis macroeconômicas, como oferta de crédito ao setor privado, produto nominal, reservas internacionais, risco-país, taxa de juros e volatilidade cambial.

 

Quais as principais constatações?

A estimação de dois modelos econométricos (MS-VAR e VEC) aponta que um avanço no grau de liberalização financeira externa pode ser associado a efeitos problemáticos, como o aumento da taxa de juros, do risco-país e da volatilidade cambial. Além disso, nota-se que a evolução do grau de liberalização financeira externa da economia brasileira responde aos movimentos do ciclo financeiro global.

 

Quais as principais conclusões?

Os resultados apontam que, se não é possível descartar os benefícios da abertura financeira, há que se redobrar a atenção frente a seus riscos, considerando também as consequências negativas no que tange ao grau de integração financeira e à influência do ciclo financeiro global.

2018, onde economia e eleições se encontram

Lucas Aronne Schifino

 

 

Lucas Aronne Schifino

Economista, Conselheiro eleito Corecon-RS

Qual o cenário econômico é esperado para 2018, ano de eleições no Brasil?
O cenário básico é de recuperação cíclica da economia. No entanto, ele estará sujeito às intempéries, em decorrência de uma corrida eleitoral que, hoje, ainda é cercada por grandes incertezas. Faltando cerca de 10 meses para as eleições, a concentração de intenções de votos nos três candidatos mais bem posicionados nas pesquisas é mais de 20 pontos percentuais inferior à concentração de intenções que os três principais candidatos tinham na mesma época na última corrida presidencial.

Pode-se esperar um ano sem avanços econômicos para o País?
O grande avanço que poderíamos ter está na reforma da previdência, da qual depende o equilíbrio das contas públicas federais. Anos eleitorais são péssimos para se fazer esse tipo de reforma, pois dependem da aprovação do Congresso Nacional, que já estará com outro foco. É muito difícil formar uma maioria qualificada com a fragmentação que existe no parlamento brasileiro. Especialmente, quando as eleições se aproximam e o poder de coalizão de um governo impopular, com poucas chances de reeleição, vai vencendo seu prazo. Se acontecer, será um grande feito. Fora isso, passar um ano inteiro convivendo com juros e inflação baixas e algum crescimento da economia, depois do que vimos nos últimos anos, também não pode deixar de ser considerado um avanço.

Até que ponto a economia conseguirá se desprender dos fatos políticos esperados para o próximo ano?
Hoje, o conjunto geral de condicionantes da recuperação pela qual está passando a economia brasileira é formado por inflação e câmbio bem comportados, além de juros baixos. Esse quadro é altamente sensível a incertezas políticas. Então, a economia só conseguirá se desprender dos fatos políticos, caso os indicativos dos grupos políticos que sairão vencedores nas eleições - e falo de grupos pois as eleições para o Congresso Nacional também serão fundamentais - não apontem para uma ruptura nesse conjunto de condicionantes.

Que tipo de impacto poderá ocorrer na economia, levando-se em conta tendências ideológicas de candidatos que estiverem liderando as pesquisas?
Os condicionantes que mencionei anates dependem, fundamentalmente, do equilíbrio fiscal no longo prazo. Este, por sua vez, passa por uma mudança nas regras da previdência, que é, de longe, a maior conta do orçamento do governo e estruturalmente deficitária. Portanto, caso haja a iminência de vitória de grupos com tendências ideológicas que ameacem esse equilíbrio fiscal de longo prazo, o bom comportamento de inflação, câmbio e juros não se sustenta, o que prejudica o desempenho da economia.

Que segmentos da economia estarão mais vulneráveis a essas expectativas?
Em um cenário extremo, de elevação mais brusca de juros, todos os segmentos serão prejudicados. Alguma exceção para segmentos exportadores, que se beneficiam diretamente do câmbio depreciado. No caso de um cenário "meio-termo", em que haja riscos para o equilíbrio fiscal de longo prazo, porém com pouco impacto sobre câmbio, inflação e juros, já no ano que vem, acredito que os segmentos mais ligados ao consumo, como varejo, uma parte grande dos serviços e uma parte da indústria, sejam menos vulneráveis. Já, os segmentos ligados ao investimento, como a indústria mais pesada, sofrerão um pouco mais. O consumo tem um caráter mais de curto prazo. Depende menos das perspectivas para um futuro mais longínquo, caso os condicionantes básicos, como crédito e emprego, continuem se recuperando no curto prazo.

Um trimestre puxado pelo Serviços

roberto rocha

Roberto Rocha

Economista, pesquisador da FEE
Corecon-RS Nº 6788

 

Como explica o fato de o crescimento do PIB do RS no terceiro trimestre de 2017 ter sido nulo, comparado a um mesmo período do ano passado, quando o ambiente era de crise no país?
Acontece que a agropecuária, cujo desempenho este ano é muito bom, teve, neste terceiro trimestre, um comportamento muito fraco, já que, sazonalmente falando, este período não contempla a soja, o arroz ou o trigo. É o trimestre que normalmente quem puxa mais é a indústria, mas o que aconteceu é que alguns segmentos desse setor, que vinham tendo um desempenho diferenciado, como máquinas e equipamentos e veículos, neste trimestre acabaram experimentando resultados muito baixos. Além da própria atividade da celulose que, em função da parada que a planta nova da Celulose Riograndense teve que fazer, para fins de manutenção. Como tinha incorporado um crescimento muito grande no ano anterior, essa queda de produção se torna muito significativa. Então, esses elementos, somados, acabaram frustrando o resultado do PIB no trimestre.

O trimestre foi salvo pelo setor serviços?
Sim. O setor serviços, e principalmente o comércio, teve um desempenho bastante forte nesse trimestre e, em certa medida, acabou compensando o resultado final. Nós tivemos uma produção fraca, mas os serviços associados a renda mais estável possibilitou que tivéssemos um crescimento bastante satisfatório no trimestre.

A que se deve esse comportamento?
Como a nossa economia é mais desenvolvida do ponto de vista da estrutura etária, escolaridade e renda média, a estrutura de serviços acaba tendo maior importância, fazendo com que os serviços do Rio Grande do Sul tenham, de uma forma geral, um desempenho mais forte do que o do Brasil nesse momento de crise. Mas neste trimestre especificamente, o nosso comércio teve um desempenho muito bom, maior que o desempenho do Brasil, fazendo puxar o PIB para cima. É uma taxa que só foi maior no primeiro trimestre de 2014. Além disso, ainda havia demanda reprimida, como celulares, eletrodomésticos, veículos, entre outros. O consumo estava reprimido e a sensação, talvez não de melhora, mas de estabilização das condições em relação ao que era no ano passado, fez com que as pessoas se motivassem para compra, impactando positivamente no comportamento do PIB no trimestre.

De uma forma geral, o comportamento do PIB gaúcho neste trimestre acompanhou o resultado do PIB do Brasil?
De uma forma geral, teve a mesma oscilação que o PIB do Brasil, sim. Se formos analisar a taxa dessazonalizada, ou seja, aquela que acontece em relação ao ritmo da economia, o nosso caiu e a do Brasil cresceu muito pouco. A do RS vinha crescendo um pouco mais, então nós ainda viemos tendo um desempenho acumulado no ano melhor que o do Brasil, muito influenciado pelo próprio ritmo que a economia brasileira tem. Estimamos que cerca de 70% da renda da nossa indústria é gerada por vendas para o resto do pais. Então, enquanto a indústria do resto do pais não se reergue, acabamos sofrendo o impacto dessa estagnação. Basta ver que nesse trimestre a indústria de São Paulo está mal e a indústria gaúcha, que fornece muito componente para a atividade da indústria paulista, acaba, por consequência, indo mal. Então, existe uma parte que é muito associada a esse desempenho da indústria brasileira.

E o mercado internacional não ajuda?
Vimos tendo um desempenho muito bom no mercado internacional, no que diz respeito a commodities. O Mercosul, e em especial a Argentina, tem ajudado muito na venda de veículos neste trimestre. Nesses últimos anos, tem sido até uma saída, dada as dificuldades do mercado interno. O RS tem tido um desempenho geral do mercado internacional, desde a crise de 2011 ou 2012, menos vigoroso do que tinha antes da crise de 2008. Ou seja, antes o comércio crescia mais que o PIB e, agora, o PIB cresce mais que o comércio. Isso faz com que os espaços no comércio internacional não estejam tão fáceis como estiveram num período recente. Esse seria um canal muito interessante para a economia gaúcha, caso melhorasse, já que, por ser uma economia voltada à exportação, seria mais beneficiada. De uma forma geral, o nosso desempenho é um pouco melhor porque temos capacidade de vender para fora, enquanto que as economias que não possuem essa característica e dependem apenas do mercado interno, enfrentam mais dificuldades.

Mas, neste contexto, existe espaço para ampliar mercados?
O RS ainda possui esse canais para prospectar novos mercados. Basta ver o setor de calçados que, em 2015 e 2016 aproveitou a desvalorização do real para conquistar mercados e reestabelecer canais de comercialização. Mas o comércio internacional também não está muito fácil.

Que tipo de impacto o anúncio do governo do estado de liberar o 13º salário para o funcionalismo pode representar à economia gaúcha?
Essa noticia é bastante positiva do ponto de vista da atividade econômica. Basta lembrar que, no ano passado, tivemos um quarto trimestre com taxas negativas do comércio, comparado ao mesmo trimestre de 2015. É que o ano já havia sido muito ruim. E, nesse contexto, tudo que servir para amenizar a situação ajuda muito. Como uma grande parte da população ocupada em Porto Alegre é funcionário público, o fato de saberem que terão o décimo terceiro salário já dá um alívio, criando perspectiva para o setor do comércio, já que deve gerar uma arrecadação mais positiva do que tivemos no ano passado.

Programas Sociais e Desenvolvimento

 

 

Felipe Garcia
Economista, conselheiro eleito Corecon-RS, professor da UFPel


Por que o Brasil é tão desigual em termos de distribuição de renda?
A péssima distribuição de renda no Brasil é em parte consequência da má distribuição de oportunidades e do inadequado funcionamento de muitos dos mercados. Ambos podem ser atribuídos a episódios históricos pouco inclusivos materializados até hoje na forma de um ambiente institucional não propício a investimentos em capital humano, capital físico e em tecnologia. A condução equivocada de política econômica em diversos momentos da nossa história também tem papel relevante neste cenário pouco animador. Mas, especificamente sobre as oportunidades, temos, por exemplo, algumas pessoas que têm acesso à educação de muita qualidade, enquanto há uma parcela muito grande que fica à margem dessa situação. É evidente que nos últimos anos algumas políticas de expansão da educação geraram melhoras de alguns indicadores quantitativos de educação. Mas em termos de qualidade a gente sabe que ainda há uma parcela significativa da população que não tem acesso a bons serviços educacionais. E isso acaba repercutindo lá na frente, no mercado de trabalho, porque sabemos muito bem que um nível elevado de capital humano, de educação, de conhecimento, de habilidades, é altamente correlacionado com melhores salários no mercado de trabalho.

Como mudar essa realidade em termos de educação?
Ampliando as capacitações, ou os meios, que levam a melhores níveis de aprendizado. Os economistas têm estudado ao longo dos últimos 15 ou 20 anos, que a primeira infância é muito importante, tanto para o desenvolvimento da cognição, da nossa capacidade de aprender, de se desenvolver intelectualmente, quanto para o desenvolvimento de habilidades socioemocionais, a nossa capacidade de interagir adequadamente com o resto do mundo, com as outras pessoas. Ambas habilidades, cognitivas e socioemocionais, são importantes para o nosso desempenho no mercado de trabalho. Então, políticas sociais cujo foco seja o desenvolvimento do ser humano, o desenvolvimento dessas habilidades, têm se destacado como relevantes para mitigar desigualdades futuras.

O Brasil tem adotado com eficiência alguma dessas políticas?
Na minha opinião, entre as ações que merecem destaque está o Bolsa Família, que tenta tanto amenizar os agravos da pobreza a curto prazo, quando transfere recursos monetários às famílias, quanto a longo prazo através da exigência que as famílias coloquem seus filhos na escola e que essas crianças tenham que apresentar uma frequência escolar elevada. Da mesma forma, também vejo como positivas as ações mais direcionadas ao desenvolvimento pleno e adequado das crianças, como aquelas de zero a três anos, ou de zero a cinco anos. Destaco o programa Primeira Infância Melhor, aqui do Rio Grande do Sul, e o programa Criança Feliz, do governo federal. São políticas públicas cruciais no sentido de fazer com que as crianças cheguem na escola com uma boa capacidade de aprendizagem, de absorção dos conteúdos requisitados a cada faixa etária.

O programa Bolsa Família pode ser considerado eficiente?
O programa Bolsa Família apresentou alguns resultados muito interessantes em termos de redução da desigualdade no país, junto com as condições favoráveis do mercado de trabalho na década passada. Existem diversas pesquisas que documentam isso. Teve bastante êxito no sentido de fazer com que as crianças das famílias beneficiárias estivessem matriculadas na escola e que as frequentassem, mesmo que o programa não tenha surtido efeitos significativos no aprendizado, o que pode ter ocorrido em consequência da má qualidade dos serviços educacionais prestados pelas escolas. Em termos de alguns outros efeitos colaterais, o Bolsa Família também desempenha algum papel no sentido de proporcionar proteção de saúde para famílias beneficiárias. Existem pesquisas que documentam que municípios com maior cobertura do programa apresentam indicadores de mortalidade infantil bem menores. Outra questão que merece destaque é que o Bolsa Família não possui aquele problema indesejado sobre a fecundidade das beneficiárias.

E as denúncias não pouco frequentes de mau uso do Programa?
Como em todos os programas, algumas coisas indesejadas ocorrem. No caso do Bolsa Família, há estudos que apontam que o programa possa estar gerando algum estímulo para que as pessoas abandonem os postos formais de trabalho e passem a optar pela informalidade. Ou seja, uma tendência das pessoas trocarem a formalidade pela informalidade, obviamente para poder ficar dentro dos critérios de elegibilidade do programa. E isso é extremamente negativo porque postos de trabalho informal são postos que têm pouco uso de tecnologia e experimentam baixa inovação. Então os ganhos de salário ao longo da vida, relacionados à experiência e à acumulação de capital humano específico, tendem a ser menores, o que torna mais difícil a mobilidade social das famílias beneficiárias ao longo do tempo. Esse é um ponto bem indesejável que tem que ser aprimorado.

E de que forma pode ser aprimorado?
Redesenhando a tecnologia de seleção dos beneficiários. Ao invés de selecionar as famílias exclusivamente com base na renda per capita familiar, a seleção poderia ocorrer com base em um índice gerado a partir de indicadores sociais, econômicos e demográficos das famílias. Estas informações existem no Cadastro Único. Em outros países da América Latina, que possuem programas muito parecidos com o nosso, normalmente é utilizado esse mecanismo de construir um índice de pobreza e desenvolvimento e em cima desse índice fazer a alocação de quem pertence ao programa e distribuir os recursos. Essa é uma forma de fazer com que as pessoas percam a capacidade de monitorar ou fazer escolhas que as tornem elegíveis em função da renda. Mas, de qualquer forma, é um programa que tem uma boa inclusão, com uma boa cobertura sobre as pessoas que são do público alvo e tem um baixo índice de exclusão, ou de deixar de fora quem deveria estar contemplado. Mas, por outro lado, possui um erro grande de inclusão indevida, ou seja, acaba colocando para dentro do benefício muitas pessoas que não pertencem ao público alvo. E esse é um fenômeno mais marcante em regiões, estados e municípios com uma renda média mais alta.

O custo benefício desses programas vale à pena para um país como o Brasil?
O Bolsa Família vale à pena, sim. Ele pode ser aprimorado, mas traz um retorno importante em termos de combater pobreza a longo prazo, que é estimular as crianças a frequentarem as escolas. E a gente sabe que as pessoas com mais escolaridade são pessoas que lá na frente vão ter mais condições de enfrentar o mercado de trabalho. É um programa que não tem um custo muito alto frente aos benefícios que apresenta. As estimativas que temos é que seu custo anual representa apenas 0,5% do PIB, ficando o gasto por beneficiário pouco mais de 500 reais por ano. Ou seja, não é um programa demasiadamente oneroso. Para se ter uma ideia de comparação, um aluno de educação superior custa mais de 20 mil reais por ano. O PIM vai no mesmo sentido do Bolsa Família. As experiências similares ao PIM que se tem no mundo dão conta que o custo beneficio é absolutamente positivo, já que os retornos são elevados nas mais diversas dimensões do desenvolvimento humano. Segundo uma estimativa do economista James Heckman, prêmio nobel de economia, cada dólar investido em intervenções na primeira infância gera um retorno anual de 14 cents ao longo de toda vida. Então, são programas absolutamente rentáveis. O PIM, para se ter uma ideia, custa em torno de 800 reais por ano por criança ou por gestante atendida. É, portanto, um programa que também não é demasiadamente oneroso e cujos retornos são enormes ao longo da vida das pessoas.

A glamourização da informalidade do trabalho no Brasil

lucia garcia
 
 
Lúcia Garcia
Economista do Dieese Nacional, coordenadora da Pesquisa de Emprego e Desemprego Nacional (Dieese)
Corecon-RS Nº 5317


O desemprego ficou em 12,4% no trimestre encerrado em setembro, a menor taxa do ano, segundo o IBGE. A que se deve isso?
Nós tivemos uma ruptura muito grande na situação do mercado de trabalho, a partir do último trimestre de 2014. O desemprego começou a patinar, crescendo muito lentamente, já na virada de 2014 para 2015 e a partir de meados de 2015 houve uma alta muito clara do desemprego, elevando-se a patamar muito elevado , o que aconteceu até o momento atual. Tivemos uma divulgação de taxa de desemprego agora, para o trimestre encerrado, em agosto ou setembro, que já apresenta um declino da taxa de desemprego nacional no conceito IBGE. Esse declínio é um movimento já esperado para o segundo semestre.

Esse resultado pode estar ligado à sazonalidade?
Sim, mas, também, já dá conta de uma acomodação do mercado de trabalho em novo ponto de equilíbrio. Ou seja, acompanhamos no mercado de trabalho nacional, a partir da mudança institucional brasileira, com o impeachment da presidente Dilma, uma disputa de poder no país, que paralisou a economia e que tinha como objetivo fazer cair o custo do trabalho. Então, o desemprego e o mercado de trabalho expressam esse processo e seu resultado- os salários e rendimentos laborais efetivamente declinaram e o desemprego começa dar sinais de acomodação. Esse movimento, rumo a um novo equilíbrio do mercado de trabalho, é tendencial e o identificaremos por uma estabilidade em novo patamar.

Mas até quando deve continuar esse movimento?
Acredito que até o mês de março próximo deveremos chegar a um patamar entre 10% e 11% do desemprego e um rendimento ou remuneração dos trabalhadores equivalente à remuneração da primeira metade da década de 90. Ou seja, o mercado de trabalho é a seara, a tribuna, o teatro, o campo de guerra de forças dentro da estrutura produtiva, que se espelha no poder político do país, com o objetivo de baixar o custo do trabalho, traduzindo-se num projeto nacional. Se alguns países no mundo vão articular soluções diferentes na base da tecnologia, na base do rearranjo produtivo e com um declínio mediano da força de trabalho, para o Brasil nós já temos esse projeto. Trata-se de uma linha que está vencendo no momento e que se propõe redesenha o arranjo produtivo nacional ,no sentido tecnológico, mas sim tem o claro objetivo da desindustrialização e do rebaixamento do custo do trabalho. O mercado de trabalho nos próximos meses deve ter um desemprego menor, mais inserções informais e menos protegidas e remunerações mais baixas

E onde entra a Economia nesses resultados?
Em tudo e sempre. Na fase mais aguda de desestruturação do mercado de trabalho, entre meados de 2015 até meados de 2017, e, agora. No momento atual, em que haverá gradual adesão ao novo estatuto do trabalho, recém aprovado, tende a haver euforia e acomodação da economia. Contudo, não acredito que venhamos a ter um crescimento importante da economia brasileira. A questão é que a percepção imediata será de alívio após o inferno vivenciado nos últimos dois anos, o que tenderá a iludir e a satisfazer os brasileiros cansados de más noticias.

Como se dará esse processo?
Variações positivas do PIB irão acontecer. O próprio movimento sindical vai ter que conviver com menos poder e com uma economia que apresentará resultados pífios, mas positivos. Evidentemente, isso será capturado como discurso pelo poder central, proporcionando um tempo de ilusão da classe trabalhadora. Entendo que, se a elite econômica, ou segmento empresarial, for muito agressiva, essa ilusão perdurará por pouco tempo e passaremos a vivenciar a eclosão de outros problemas sociais. Enfim, a economia brasileira não terá muito espaço para um crescimento importante. Inclusive porque os países centrais têm apostado muito mais na nova onda tecnológica, na quarta revolução tecnológica, com grandes investimentos em inovação e tecnologia, e o Brasil não se coloca de forma alguma nesse novo cenário.

Essa ilusão do trabalhador pode se concretizar através do aumento da informalidade?
Acredito que, num primeiro momento, teremos algum crescimento do emprego propriamente dito, do trabalho subordinado, assalariado, que pode criar essa euforia de curto prazo, e, também da ideia que já está sendo o difundida de uma informalidade positiva. A informalidade aparece glamourizada, gourmetizada, para a população em geral. Programas de TV, como o “Fora da Caixa” e outros, enaltecem o empreendedorismo, encantando no curto prazo. Assim, vemos atividades empreendedoras florescerem, como barbearias, restaurantes, cervejarias artesanais, salões de beleza, cafeterias e outras iniciativas do tipo, materializando isso. Essa não é uma tendência apenas nossa. O problema do trabalho, a crise capitalista e essa nova organização de capital do trabalho não é uma peculiaridade do Brasil. Essa onda vem de fora, da glamourização. A questão é que, na medida em que esses negócios não tiverem mais mercado, eles não serão sustentáveis.

Cenários para o Pólo

MadailJoão Carlos Madail
Economista, conselheiro Corecon-RS
Corecon-RS Nº 3356

Como está a situação do Polo Naval de Rio Grande?
O Polo Naval de Rio Grande foi construído a partir de um projeto político do governo Lula, com o objetivo de recuperação de regiões deprimidas, como a Zona Sul do Estado. O projeto estava previsto para ser desenvolvido em, no mínimo 20 anos, o que exigiu do município investimentos em infraestrutura e serviços para atender as demandas dele advindas. No auge, o projeto chegou a empregar 23 mil pessoas, movimentando o mercado imobiliário, transporte, comércio e serviços, não só no município de Rio Grande, mas em toda a Região Sul. A situação atual é de completa decepção para quem acreditou no projeto, investiu e só acumulou prejuízos. O Polo, formado pelos estaleiros QGI, da Queirós Galvão e Iesa Óleo e Gás, e Rio Grande, da ECOVIX, já paralisados e, posteriormente o EBR, da SOG Óleo e Gás e Toyo Engineering, no município de São José do Norte, cujas construções encerram no primeiro trimestre de 2018.

Porque ocorreu esta situação?
A crise que atingiu diretamente a Petrobras no episódio da Lava-Jato foi decisiva para interrupção do projeto, que não mais recebeu os recursos previstos, promovendo um verdadeiro caos nos negócios, na vida dos trabalhadores e na economia do município de Rio Grande e demais envolvidos de forma direta ou indireta com as ações do projeto. A esperança da retomada foi descartada pelo presidente atual da Petrobras, Pedro Parente, que alegou que a empresa não poderia ser responsável por políticas públicas e que atrasos nas entregas das plataformas e a prática de preços acima dos estipulados nas encomendas, prejudicou sobremaneira a Companhia. Correntes de opinião alegam que a região não estava preparada para desenvolver projeto desta ordem e que precisaria de um prazo mais longo para formar técnicos e empresas capazes de concorrer com o mercado mundial em custos e produtividade.

Quais os impactos dessa crise na economia da região?
Os impactos são extremamente negativos. No auge da execução do projeto chegou-se a empregar 23 mil pessoas. Hoje são apenas dois mil, até o início de 2018 quando deverão ser encerradas as atividades em São José do Norte. Em 2017 a prefeitura do município de Rio Grande deixou de arrecadar entre R$ 60 e R$70 milhões em ISSQN e ICMS, o que representa 10% do orçamento de 2016. As demissões de empregados tiveram repercussão direta no comércio do município porque muita gente foi embora e, quem ficou, perdeu o poder de consumo. Para uma população de 208 mil habitantes, em que 11% dependiam do Polo Naval como fonte de sustento, o desemprego tem gerado frustrações, ausência de perspectivas e, por conseguinte, aumento do índice de criminalidade.

Quais as perspectivas de retomada para o setor?
O porto do Rio Grande é considerado o segundo porto nacional na movimentação de contêiner e o terceiro em cargas totais. Com localização geográfica privilegiada para negócios no Cone Sul, afora suas atividades normais de cargas, acumulou certa experiência na construção de plataformas marítimas e ainda mantém infraestrutura para continuar produzindo, desde que haja interesse da iniciativa privada na produção competitiva de plataformas e assemelhados. Por outro lado, a população da Região Sul aposta na instalação, no município de Rio Grande, de um complexo termelétrico, o que, de certa forma, poderá recuperar parte dos empregos perdido. É possível, por outro lado, segundo opiniões de lideranças empresariais da região, que o Polo Naval de Rio Grande possa ser reativado a partir do novo governo que se instalará no Brasil em 2018, visto que se trata de projeto político com forte apelo social.

O que está faltando para a recuperação, ao menos parcial, das atividades do Setor?
Em se tratando de atividade que envolve pesados recursos, será difícil a retomada apenas com recursos da iniciativa privada. A indústria naval em Rio Grande começou em 2005 e, em uma década, foram investidos cerca de R$ 15 bilhões na construção de estaleiros e plataformas. Partes destes recursos foram desviados pela corrupção. Neste segmento, o Brasil concorre com os asiáticos, que produzem plataformas com custos bem menores, para onde a Petrobras tem direcionado os seus pedidos. É possível, porém, manter atividades de menor porte e custo utilizando as estruturas existentes que requeiram reparos ou outras demandas. Uma parceria público-privada também pode ser uma alternativa para a recuperação da atividade no município do Rio Grande.

Impacto do desemprego na população negra

Iracema Branco
 
Iracema Castelo Branco
Economista da FEE, Supervisora PED/RMPA
Corecon-RS Nº 6953

 

 

Quais as principais constatações da Pesquisa de Emprego e Desemprego sobre a população negra na Região Metropolitana de Porto Alegre (RMPA)?
Através da Pesquisa de Emprego e Desemprego na Região Metropolitana de Porto Alegre, realizada pela FEE, em parceria com o Dieese e a FGTAS, é analisada anualmente a inserção da população negra no mercado de trabalho. Os dados revelam que a taxa de desemprego cresceu mais entre os negros do que entre os não negros. O desemprego aumentou, entre 2015 e 2016, de 12,6% para 16,1% para os negros e de 8,1% para 9,9% para os não negros, o que revela que a crise econômica foi relativamente mais severa para esta parcela da população.

Os outros indicadores da Pesquisa também apontam nessa direção?
Se olharmos, por exemplo, o rendimento médio, constata-se que a queda foi maior para a população negra. Com relação à ocupação, verificamos que a queda do nível ocupacional entre os negros foi de 17,9%, enquanto para os não negros foi de 2,7%. Em 2016, a redução no nível de ocupação aconteceu para todos os setores e principalmente nos empregos considerados de melhor qualidade, que são os trabalhadores assalariados com carteira assinada e os trabalhadores do setor público. Como a população negra já tem uma inserção mais precária no mercado de trabalho, as perdas desses postos de trabalho acabam gerando um maior impacto para essa população, tendo como resultado um aumento das desigualdades.

Em algum período houve redução dessas desigualdades entre negos e não negros?
Ao longo da série de 25 anos da Pesquisa, verifica-se uma desvantagem da população negra no que se refere aos indicadores de mercado de trabalho. Entretanto, ao longo dos anos 2000, houve uma redução nas desigualdades entre negros e não negros frente à melhoria dos principais indicadores de mercado de trabalho e a adoção de políticas afirmativas. Mas no momento em que a crise econômica rebate sobre o mercado de trabalho observa-se um crescimento das desigualdades com clara desvantagem para a população negra.

Em que setores a população negra está mais representada?
Quando analisamos a distribuição dos ocupados por setores, observamos que os serviços e a construção continuam sendo os setores em que os negros possuem presença relativa maior que os não negros. Em 2016, 18,9% dos homens negros estavam ocupados na construção contra 11,8% dos homens não negros. Além disso, os homens negros estavam muito mais presentes na construção, como trabalhador braçal, enquanto os homens não negros ocupavam postos de melhor qualidade, como engenheiro e arquiteto, por exemplo. Já no setor de serviços, o destaque é o emprego doméstico, responsável por 20,5% das mulheres negras ocupadas. Esse índice é de 10,4% entre as mulheres não negras.

Qual o impacto da PEC do emprego doméstico no mercado de trabalho da população negra?
Nos meses de abril, fazermos a análise para o emprego doméstico. Ao contrário do que muitos diziam na época da aprovação da PEC das domésticas (Emenda Constitucional n° 72 em 2013, e da Lei Complementar nº 150 em 2015), houve um aumento do número de mulheres ocupadas e da formalização das relações de trabalho nesse segmento. Em 2016, 50% das trabalhadoras domésticas da RMPA eram mensalistas com carteira assinada, 15,7% sem carteira e 34,3% de diaristas. Em termos gerais, a regulamentação dessa atividade com o aumento da proteção social para essas trabalhadoras produzem um impacto positivo para a população negra. Mas seus efeitos são pequenos, ou seja, ainda temos muito no que avançar para reduzir as desigualdades.

Que mais se pode concluir dessa Pesquisa?
Historicamente, quando se tem um período de intensa recessão econômica, a piora dos indicadores de mercado de trabalho atinge de forma mais intensa as populações consideradas mais vulneráveis, como os negros, as mulheres e os jovens. Nessa crise, o que se detectou nesses indicadores é que no primeiro momento o impacto foi semelhante entre negros e não negros, já que lá em 2015, os mais atingidos foram os homens que tinham rendimento mais elevado devido ao aumento da rotatividade. Entretanto, no ano de 2016 se observou claramente que a população negra foi a mais atingida pela crise diante do aumento mais intenso do desemprego, queda mais acentuada na ocupação e no rendimento médio real. Esses dados revelam a importância de pesquisas, como a PED, para acompanhamento dos indicadores de mercado de trabalho e os seus efeitos sobre os segmentos da população e da necessidade de ampliação das políticas públicas capazes de reduzir essas desigualdades.

A difícil situação dos municípios brasileiros

marioMário de Lima

Economista SMF/Porto Alegre, professor Universidade La Salle
Corecon-RS Nº 7103

De uma forma geral, como está a situação financeira dos municípios brasileiros?
A situação fiscal dos municípios brasileiros é grave. A maioria das prefeituras tem apresentado um significativo desequilíbrio entre o montante de receitas e a arrecadação própria. As receitas próprias são formadas basicamente pelos tributos municipais, dívida ativa e outras taxas de serviços públicos municipais, ou seja, recursos que fazem os municípios realizarem as políticas públicas sem depender dos Estados e da União. No ano de 2016, 3.714 municípios não geraram 20% de suas receitas. Isso demonstra que existe uma gestão crítica das receitas próprias em 81,7% dos municípios brasileiros. Somente 136 cidades tiveram mais de 40% de toda a sua receita formada por receitas próprias. Além disso, os gastos com pessoal em 406 prefeituras atingiram o limite prudencial de 57% da Receita Corrente Líquida (RCL), conforme os limites estabelecidos pela Lei de Responsabilidade Fiscal. Mas numa situação ainda pior aparecem 575 municípios que já ultrapassaram o limite legal da LRF. Apenas 144 municípios (3,2%) gastam 40% do orçamento com pessoal. Além disso, despesas obrigatórias por meio de fundos, geram problemas de liquidez levando os municípios a postergarem para o exercício seguinte o pagamento com fornecedores. Em 2016, 15,7% dos municípios brasileiros encerraram o ano sem pagar um total de R$ 6,3 bilhões, que foi passado para os novos gestores que entraram em 2017.

A que se deve essa situação?
Isso tudo tem como um dos fatores principais o problema fiscal brasileiro, que impacta não só nos Estados e na União, como também os municípios. Isso está relacionado com as despesas obrigatórias e com as despesas de pessoal, pois em momentos de queda de receita há pouca margem para soluções de gestão, no que diz respeito ao corte de despesas. Logo, adequar as despesas com a capacidade de arrecadação se torna difícil, deixando as finanças públicas fragilizadas e expostas à conjuntura econômica, especialmente, por que os municípios dependem muito das transferências dos Estados e da União.

A capacidade de investimentos fica muito baixa?
Totalmente. Além da falta de receitas próprias e transferências, os municípios têm limitações no acesso ao crédito e ao endividamento, o que reduz drasticamente o nível de investimentos para a população.

Como reverter esse cenário?
Mudanças passam pelas suas câmaras de vereadores. Os vereadores são representantes do povo. Chegou o difícil momento histórico em que a população, através desses representantes, deverá definir que tipo de setor público deseja para suas cidades. Se quiserem mais investimentos e mais serviços públicos terão de realizar reformas que, em muitos casos, poderão ser considerados choques de gestão. Doença braba, remédio amargo. Logo, as mudanças estruturais que os governos responsáveis vêm propondo para o setor público, não são ações para o seu fim, mas ações para a manutenção da sua existência. O que ameaça o setor público não é a realização das reformas. O que ameaça o setor público é deixar de fazê-las enquanto há tempo.

Com a retomada do crescimento da economia, a tendência é de melhora da situação fiscal desses municípios?
Obviamente, uma retomada da economia surtiria efeitos positivos nas finanças públicas municipais. Porém, nos municípios que registram problemas estruturais, como é o caso de Porto Alegre, serão necessárias reformas urgentes para não ficarem a mercê das condições econômicas que estão fora do controle dos prefeitos e de suas equipes.

Que regiões concentram os destaques positivos?
Os principais destaques positivos são os municípios de Gavião Peixoto, em São Paulo, que apresenta o melhor resultado do País, e, em seguida, estão as cidades de São Gonçalo do Amarante (CE), Bombinhas (SC), São Pedro (SP), Balneário Camboriú (SC), Niterói (RJ), Cláudia (MT), Indaiatuba (SP), São Sebastião (SP) e Ilhabela (SP). Entre as capitais, Manaus (AM) teve o melhor resultado. Rio de Janeiro (RJ) ocupa a segunda posição.

A situação do município de Porto Alegre é muito diferente dos demais municípios?
A cidade de Porto Alegre também enfrenta problemas parecidos com muitos municípios brasileiros. Os problemas com liquidez são evidentes, em especial no ano de 2016, quando o município acabou atrasando o pagamento a fornecedores e antecipando do IPTU no final do ano para o pagamento do 13º salário. Isso acabou contribuindo para a necessidade de atraso dos salários dos servidores municipais em 2017. Ainda no ano de 2016, Porto Alegre apresentou um dos piores níveis de investimentos, sendo superados apenas pelos anos de 2008 e 2015, mesmo apresentando uma gestão de excelência de suas receitas próprias.

Intenção de investimento do empresário gaúcho

ricardo
 
Ricardo Filgueras Nogueira
Economista, Assessor Econômico FIERGS
Corecon-RS Nº 6232

 

 

Qual a importância da Pesquisa que mede a intenção de investimento dos empresários gaúchos?

A Intenção de investimentos da indústria gaúcha, criada em novembro de 2013, é o indicador mais recente entre os divulgados mensalmente pela Sondagem Industrial do Rio Grande do Sul. Essa variável procura captar a tendência futura dos investimentos da empresa, como compras de máquinas e equipamentos, construção, pesquisa e desenvolvimento, inovação de produto ou processo. Seu objetivo e importância, portanto, é procurar antecipar o desempenho futuro dos investimentos da indústria gaúcha. Vale destacar que em março de 2018 a FIERGS deve divulgar a oitava edição de sua Pesquisa Anual de Investimentos na Indústria do RS 2017, que tem como objetivo identificar a evolução dos investimentos no ano, as expectativas para o ano seguinte, objetivos, estímulos e entraves à realização.

Qual o universo pesquisado?
O universo da Sondagem Industrial é a indústria gaúcha, extrativa e de transformação. A amostra mensal é de aproximadamente 250 empresas com no mínimo dez empregados.

O que foi detectado nesta última edição?
Antes de mais nada é importante explicar o significado do indicador, que varia de zero - quando não há expectativa de investimento - a 100 pontos. Quando maior que zero, mostra que alguma empresa pretende investir. Quanto maior é o valor, maior é a quantidade de empresas, que pode chegar, no limite, a 100, no caso de todas as empresas reportarem a intenção de investir. Nesse sentido, depois de atingir seu nível histórico mais alto, em março de 2014, com 62,4 pontos, o indicador mostrou uma forte trajetória de queda, com o acirramento da crise econômica e a maior instabilidade política, alcançando em março de 2016 seu valor mais baixo, 36,3 pontos.

Quais os pontos positivos e negativos detectados?
O ponto positivo é que os 49,7 pontos atingidos em outubro de 2017 representam a maior pontuação desde fevereiro de 2015, que foi 49,8 pontos. O ponto negativo é que o valor denota ainda uma baixa intenção a investir, revelando, portanto, que os investimentos das indústrias gaúchas devem continuar restritos nos próximos meses.

Mas o empresariado não acredita numa eventual recuperação da economia?
Acredita, sim. Tanto que outros indicadores da Sondagem mostram essa perspectiva. Por exemplo, o índice de expectativas com a economia brasileira para os próximos seis meses, subcomponente do índice de confiança do empresário industrial gaúcho (ICEI/RS), atingiu, em outubro de 2017, 54,4 pontos. Nesse caso, valores acima de 50 revelam que o otimismo é predominante entre os empresários.

Quais os principais entraves à tomada de decisões dos empresários?
Atualmente, a ociosidade elevada no setor, a incerteza econômica e a proximidade das eleições devem conter as decisões de investimentos das indústrias gaúchas no curto prazo. No médio e longo prazo, as reformas e o ajuste fiscal serão determinantes para a retomada dos investimentos.

Economia brasileira, expansão do futuro?

flavio fligenspan

 

Flávio Benevett Fligenspan
Economista, professor da UFRGS
Corecon-RS Nº 3214

Por que a indústria brasileira está demorando para dar sinais de recuperação?
A recuperação de curto prazo é frágil e se dá num contexto estrutural de desindustrialização, ou, em outras palavras, perda de espaço da indústria no PIB, ou, ainda, perda de densidade da indústria no total da economia brasileira. É um processo que vem de longa data. Em 2005, a indústria de transformação, que engloba vestuário, alimentação, metalurgia, automóveis, entre outros, detinha 18% do PIB. Atualmente está com 11% do PIB. Esses números demonstram de forma bastante nítida esse processo de perda de participação. Estou excluindo a indústria extrativa, que tem o petróleo e o minério de ferro, porque ela segue uma lógica muito especial, que depende muito do mercado internacional de commodities.

O que explica essa queda tão acentuada?
O que acontece com a indústria de transformação é muito importante por que representa a nossa situação estrutural, que não tem a ver com a retomada atual, uma ocorrência de curto prazo. Tem a ver, essencialmente, com três variáveis: um salário médio que cresceu nesse período, uma taxa de câmbio que subiu muito pouco e uma produtividade que ficou praticamente estagnada. Para se ter uma referência de competitividade internacional, divide-se o salário em dólar pela produtividade. Quando se misturam essas três variáveis, chega-se a outra variável, que é o custo unitário do trabalho, que, da metade da década de 2000 para cá, subiu 53%. Uma variação muito grande, que dá a ideia de quanto subiu o custo das empresas nesse período. Visto pelo lado da competitividade, significa perda de condições de competir com os produtores estrangeiros, tanto no mercado interno, quanto no mercado internacional.

O que gerou essa alta?
A partir da metade da década de 2000, os salários cresceram em função da elevação do salário mínimo e o dólar não cresceu. Portanto, os salários em dólar cresceram e a produtividade não acompanhou. Esse é o grande problema. Dizer que os salários cresceram no Brasil é excelente, dado o histórico de salários muito baixos. Isso é muito bom, tanto do ponto de vista de justiça social como do ponto de vista de criação de mercados, porque com os salários crescendo, as pessoas passam a ter mais renda para comprar e acabam ajudando a movimentar a atividade econômica. Só que o crescimento desses salários vai repercutir na folha de pagamento das empresas e, consequentemente, nos seus custos. Agora, se a produtividade avança, ou seja, se cada trabalhador, ao longo do tempo, por toda estrutura que a empresa e a economia oferecem, consegue produzir um pouco mais, esse aumento de salários se paga. Só que isso que não aconteceu ao longo de todo esse tempo na economia brasileira.

O que faltou para acontecer?
Não tivemos investimentos dentro das empresas nesse período, como não tivemos melhorias de infraestrutura por parte do estado e do setor privado em áreas como transportes, energia, entre outras. E também não tivemos mudanças institucionais consideradas importantes, como por exemplo a Justiça, que não anda, e que acaba ajudando a travar a economia, pois gera insegurança em relação às ações futuras das empresas, evitando investimentos. Diminuem as chances de comprar novos equipamentos, de criar novas plantas. Tudo isso impacta diretamente no ganho de produtividade, que não aconteceu.

Esses investimentos que não andaram poderiam ter sido feitos pela iniciativa privada ou pelo governo?
As duas coisas. Quando se diz que as empresas investiram pouco, quer dizer da porta da empresa pra dentro. Mas produtividade é algo que vale para a sociedade como um todo. Ao mesmo tempo, os governos deixaram de fazer ações importantes, como em infraestrutura, que seria uma área de ação dos governos, ou deles articulados com o setor privado. Isto acabou gerando elementos suficientes de entrave ao bom funcionamento da economia. Se tudo isso tivesse funcionado melhor, os ganhos de produtividade teriam sido outros.

Mesmo assim, a indústria vai sobrevivendo?
O que foi até aqui é um resumo rápido, falando da parte estrutural. Se falarmos de curto prazo, de conjuntura, percebe-se que a indústria brasileira está apresentando, desde novembro ou dezembro do ano passado, uma suave recuperação de sua atividade. Estou falando da indústria de transformação. Ou seja, está começando a sair da grande confusão dada pela recessão de 2015-2016 e que chegou no ponto mais baixo em outubro e novembro do ano passado. A partir dali, o setor contabilizou uma recuperação, até agosto deste ano, de 4%.

Importante sinal para a economia?
Se olharmos mais friamente os números, concluímos que batemos no fundo do poço em outubro ou novembro do ano passado e esses 4% representam, antes de tudo, que o pior já passou e que estamos, sim, começando a recuperar. O problema é que essa recuperação é muito pequena diante do tamanho da desgraça que aconteceu. Essa recuperação vem ocorrendo ao natural, mas o problema é que ela é muito suave, raquítica, diante da queda que já vinha acontecendo mesmo antes da recessão de 2015.

E nesse contexto, qual o cenário do desemprego?
Da mesma forma que a indústria, o desemprego também bateu no fundo e começa a recuperar um pouco. Tanto que se percebe que os dados nos últimos meses já são positivos. Mas, tal como no caso da retomada da produção, também se trata de uma reação pequena.

Os investimentos estrangeiros no Brasil também diminuíram nesse momento de crise?
Não. Se pegarmos a variável do Balanço de Pagamentos, que se chama investimento direto estrangeiro, percebe-se que o capital estrangeiro que entra no país para ser aplicado na produção, como construção de fábricas, ampliação e modernização de plantas, entre outros, continuou vindo, mesmo nos piores anos de crise, em 2015 e 2016, assim como em 2017, em volume muito grande. Isso é muito interessante. Desde 2015, 2016 e agora em 2017, a previsão é superior a U$ 70 bilhões de investimentos diretos. Isso é uma cifra invejável em qualquer lugar do mundo. A cada dois ou três dias, temos uma notícia importante de uma empresa de capital internacional, na maioria das vezes já estabelecida aqui, informando que está trazendo uma nova planta etc. E esses investidores estrangeiros costumam justificar esse movimento com a alegação de que seria um erro estratégico não participar da expansão de mercado que é projetada no Brasil para os próximos anos. Portanto, eles estão enxergando, sim, oportunidades de expansão no mercado, ou seja, uma luz de um pouco mais de otimismo em relação ao futuro da economia brasileira.
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E sua visão de expectativas para a economia segue essa mesma linha?
Acredito que sim. Acontece que o processo de distribuição de renda que ocorreu no miolo dos anos 2000 na economia brasileira é bastante importante, porque mostrou o potencial de mercado. E é isso que os investidores estrangeiros estão olhando. Lógico que isso pode ser revertido, especialmente diante de eventual quadro de inflação alta. O fato de o salário mínimo ter subido muito naquele período, arrastando a estrutura de salários em geral, apesar de ter sido um problema para as empresas que não conseguiram elevar junto a produtividade, é algo maravilhoso do ponto de vista de mercado consumidor. Provocou a abertura de novos mercados que nunca haviam sido pensados, especialmente nas áreas mais básicas, como por exemplo, alimentação e do vestuário. Isso tem a ver basicamente com redistribuição de renda para as camadas mais baixas da população, aumento do salário mínimo, e Bolsa Família. Esse processo, da maneira como foi construído, fica mais difícil de ser revertido, até porque geraria um ônus político grande. Então, nesse sentido, sou mais otimista, sim. Olho um pouco mais para frente, para a saída da crise, e vejo que há espaço para crescer. Contudo, não está definido qual modelo de crescimento vingará. Uma guinada política conservadora bem pode recolocar um modelo com expansão do consumo apenas das camadas médias e altas da população; seria um modelo com menos quantidade de produto e produtos mais sofisticados, com maior margem de lucro para as empresas. O debate eleitoral de 2018 deve tratar deste tema.

Taxa de juros e composição

bruno

 

Bruno Paim

Economista, pesquisador da FEE
Corecon-RS Nº 7715

 


Qual a importância da taxa de juros para a economia?
A taxa básica de juros é o principal instrumento utilizado pelos bancos centrais para tentar controlar a inflação. No Brasil, a taxa é determinada pelo Comitê de Política Monetária (Copom) e operacionalizada por meio do Sistema Especial de Liquidação e Custódia (Selic). Por isso é chamada de Taxa Selic. Como estabelece a remuneração dos títulos públicos, ativos de menor risco no mercado nacional, a taxa também serve como base para os demais ativos, por isso também é denominada de taxa básica de juros.

Como se dá a relação entre a taxa básica e os demais ativos?
Apesar de normalmente se divulgar a taxa nominal, as pessoas e empresas costumam tomar decisões descontando a inflação para obter a taxa real de juros. Nesse sentido, cabem ao menos duas formas de cálculo para diferentes objetivos. Uma forma de cálculo é a taxa esperada de juros, obtida por meio da taxa de juros esperada para o próximo ano, descontada a expectativa de inflação para o mesmo período. Essa taxa real esperada é considerada importante para guiar os incentivos dos agentes privados na alocação de recursos, uma vez que aponta qual será a remuneração real dos títulos indexados pela Selic no curto prazo. Dessa forma, ela serve como uma base de comparação para as pessoas decidirem onde alocar seu dinheiro.

E a outra forma de cálculo?
Deve-se também acompanhar a taxa efetiva de juros, que representa de fato qual foi o rendimento real da taxa Selic. É calculada com base no acumulado da Selic em 12 meses passados, descontada a inflação no mesmo período. Como é referência para outras taxas, serve também para se aferir a base de remuneração do restante da economia.

Como acontece a relação entre essas taxas?
Ao fim de agosto de 2017, a meta Selic estava em 8,25% ao ano. A taxa efetivamente proporcionada nos 12 meses anteriores era de 9,6% a.a., enquanto que a taxa esperada para este momento era de 7,8% a.a.. Ou seja, se descontarmos a inflação no período, as decisões do BC fizeram com que o rendimento dos títulos públicos superasse até a expectativa do mercado. Parte desta diferença deve-se à queda acelerada da inflação que atualmente se encontra abaixo do limite inferior da meta. Outra parte deve-se aos próprios modelos utilizados pelo BC para projetar a taxa de juros. Uma das variáveis considerada é a expectativa de crescimento econômico, que, em agosto de 2016, previa um aumento de 1,3% para 2017. Ao longo deste ano, ficou claro que este crescimento não se realizaria. De qualquer modo, o aparente retorno da confiança naquele momento prejudicou uma queda mais acelerada da taxa de juros, o que acabou a elevando em termos reais.

E qual a taxa esperada para o próximo ano?
Para setembro de 2018, espera-se que a taxa real de juros esteja em cerca de 3% a.a.. Este é um nível baixo para os padrões brasileiros, reconhecido internacionalmente por mantê-la em níveis elevados. Contudo, o presidente do Banco Central costuma utilizar o argumento de que a taxa esperada está abaixo da taxa de juros estrutural, e, com isso, ele estaria incentivando a retomada da atividade econômica. A taxa estrutural de juros, por sua vez, é uma referência teórica a uma possível taxa que equilibraria o crescimento da economia ao produto potencial, ou seja, aquele que maximizaria a utilização dos recursos sem acelerar a inflação. Há diversos questionamentos, não só sobre como se mede esta taxa estrutural, mas também quanto a sua existência. O próprio presidente reconhece que estimativas para ela “necessariamente envolvem julgamento”. Nesse sentido, deve-se reconhecer que até mesmo as decisões do BC, normalmente tidas como altamente técnicas e neutras a questões de interpretação, estão sujeitas à subjetividade inerente a qualquer decisão de política.

Quais os reflexos dessas decisões sobre a população em geral?
As taxas de juros cobradas pelos bancos comerciais também usam como referência a Taxa Selic, pois ela representa igualmente um custo de captação. Contudo, essa relação não é direta nem automática. No último ciclo de aumento da taxa básica, elevou-se de 7,25% a.a. em março de 2013 para 14,25% em julho de 2015, onde se manteve por 15 meses consecutivos. Se observarmos o comportamento da taxa de juros cobrada das pessoas físicas para tomada de crédito com recursos livres do início ao fim deste período, ela partiu de cerca de 40% a.a. para 74%, uma elevação de 34 pontos percentuais. Já no ciclo recente de queda da taxa de juros, iniciada em outubro de 2016, que a trouxe para 9,25% em agosto deste ano (atualmente está em 8,25%), a taxa de juros ao consumidor caiu apenas 12 pontos percentuais. Ou seja, apenas parcela da queda recente da taxa Selic chegou ao consumidor.

E como explicar esta diferença no repasse?
De modo simplificado, podemos dizer que os bancos comerciais adicionam uma margem sobre a taxa de captação para formar a taxa ao consumidor, o spread bancário. Na periodização anteriormente utilizada, o spread saiu de 31,7 pontos percentuais para 61,5 pontos percentuais ao fim do ciclo de alta, e depois caiu a 53,3 pontos percentuais. Como se pode perceber, há uma assimetria nos repasses das variações positivas e negativas, taxa básica de juros para as taxas efetivamente cobradas do consumidor. Outros elementos compõem o spread, como o comportamento da inadimplência, a administração do compulsório, impostos e os lucros bancários. Uma breve avaliação desses fatores referentes à modalidade de crédito anteriormente citada mostra que houve variação na inadimplência, mas que atualmente ela encontra-se em queda e em nível inferior aquele de março de 2013. Além disso, não houve alteração recente nos compulsórios ou nos impostos. Quanto aos lucros, o primeiro semestre trouxe lucros ao setor, mesmo em meio a uma das maiores crises da economia brasileira. Além disso, é necessário reconhecer que a mudança recente da gestão dos bancos públicos pode ter alterado as forças concorrenciais no setor, reconhecidamente concentrado.

 

Private Equity & Venture Capital, a força dos empreendedores

clovis meurer

 

Clovis Benoni Meurer
Economista, Sócio-Diretor da CRP Companhia de Participações, presidente do Corecon-RS
Corecon-RS Nº 1934

 

O que é Private Equity ou Venture Capital?
Private Equity, Venture Capital ou Seed Money é um tipo de atividade financeira realizada por instituições que atuam ou investem em empresas que normalmente não estão abertas no mercado de capitais. O PE&VC vira sócio nas empresas, através de investimento com aporte de recursos, em pequenos negócios na área de tecnologia, de inovação, empreendimentos ligados à internet, cujos produtos e serviços atingem toda a sociedade. No caso da CRP, que atua há mais de 30 anos nos três estados do Sul do Brasil e em São Paulo, também fazemos investimentos em negócios mais diversificados como em empresas do setor metal mecânico, agronegócios, energia, ou, mesmo, em negócios maiores, com o aporte de recursos mais substanciais

Qual o objetivo desse tipo de negócio?
É proporcionar recursos para alavancar as boas ideias. A atuação se dá através de investimento em empreendimentos ou empreendedores, onde o PE&VC se torna sócio, normalmente por três, cinco, oito anos, e depois vende sua participação para outros investidores, outros fundos ou grupo de empresas, nacionais ou mundiais. A atividade é de investir num negócio, apoiá-lo para que cresça, para que atinja sua maturação, agregando mais valor ao longo dos anos, e vende-lo no futuro, com ganho para os investidores.

De que forma são aportados esses recursos?
Os recursos são alocados nas empresas através de participação acionária. A empresa pequena, média ou grande transforma-se em sociedade anônima, constituída com ações, assim como uma empresa negociada em bolsa. Mas é uma empresa fechada, que emite novas ações e o PE&VC subscreve, integraliza essas ações, portanto, injeta recursos no caixa da empresa. Eventualmente, parte desses recursos pode até servir para pagar um sócio que está saindo da sociedade, o que chamamos de cash out, mas normalmente é utilizado para investimentos a serem realizados dentro da empresa, visando seu crescimento. Pode ser para lançamento de novos produtos, abertura de novos mercados, pagamento de campanha de marketing, pesquisas, desenvolvimento de novas tecnologias, enfim, para a expansão de seus negócios. O PE&VC fica sócio, normalmente minoritário, e ajuda o empresário naquelas áreas que tem mais conhecimento, como áreas gerenciais, estratégicas ou financeiras. No caso da CRP, auxiliamos o empreendedor, a família empresária, para que se consiga alcançar um valor maior para o negócio.

Qual o tempo médio de maturação de um projeto desses a partir do momento que o PE&VC se instala?
Não é um prazo curto, principalmente se comparado à compra de ações na bolsa. Alguém pode comprar ações na bolsa e vender em um dia, uma semana, um mês depois, ou até no mesmo dia. No caso do PE&VC, o tempo normalmente é medido pela maturação do projeto. Ou seja, uma empresa tem um plano ou projeto de lançar novos produtos ou conquistar novos mercados o que exige um período de maturação. Esse projeto, esse plano de negócios do empreendimento, mesmo em tecnologias mais avançadas, normalmente leva dois anos a quatro anos para maturar, gerar resultados e, portanto, criar mais valor para a empresa. Em média, os investimentos que nós, da CRP, fazemos, ficamos sócios dos negócios em torno de quatro ou cinco anos, que é um período relativamente longo.

Qual a importância desse tipo de atividade para a empresa e para a economia?
Primeiro, arriscamos, ou investimos, em empreendimentos novos. Novas tecnologias, produtos, serviços, que muitas vezes não existiam antes. Se olharmos para um passado recente, de não mais do que 10 anos, podemos citar vários exemplos de produtos e tecnologias que surgiram: o Iphone, que agora comemora 10 anos de vida, o Uber, ou qualquer outro aplicativo que hoje contratamos para nosso transporte. Tratam-se de produtos, serviços, empresas ou empreendimentos que facilitam nossas vidas e não existiam há alguns anos atrás. Para a empresa, os investimentos iniciais foram fundamentais para seu crescimento e consolidação de novos mercados. Para a economia, o aporte desses recursos para novos empreendimentos, novos produtos, novos serviços, que vem trazer conforto aos usuários, geram emprego, imposto, renda. Isso vale para tecnologia e vale também para empresas tradicionais.

A indústria da PE&VC entra em qualquer tipo de setor?
Praticamente todos os setores da economia são apoiados ou investidos por PE&VC. Industrias, comércio e serviços, como educação e saúde. Setores tradicionais, como alimentos, por exemplo, que a todo momento estão na linha de criação de novos produtos, mais saudáveis como orgânicos, sem glúten, sem lactose. Exemplo, também, é o setor de energia. Até poucos anos se falava apenas em energia gerada pelas hidrelétricas. Hoje, temos a eólica, a solar, enfim, inúmeras formas de geração de energias, que existem por uma evolução tecnológica, limpas, que não impactam negativamente no meio ambiente. Muitos desses negócios crescem, desenvolvem, trazem um bem para a sociedade porque foram investidas por empresas de PE&VC no passado.

Como os estudantes de economia e, mesmo, os profissionais da área, podem se aproximar da indústria do PE&CV?
Através da CRP, temos promovido uma série de treinamentos, coachings, com vários estudantes. Temos que apostar muito nos jovens de hoje. Tentar criar empreendedores, líderes nas mais variadas áreas da economia, da política, etc. Por isso é um dever nosso, e digo como presidente do Corecon-RS, e também como cidadão, de oportunizarmos aos jovens e estudantes alternativas de treinamento, de estudo. Particularmente no mundo financeiro, existem muitas áreas de atuação para economistas e também para outros profissionais. Especificamente, na área de mercado de capitais há muito espaço. Nessa área de PE&VC, que é uma área muito nova no País, uma indústria de mais ou menos 20 anos, existe espaço para estudantes de economia. Também para profissionais recém-formados que devem se preparar porque esse é um campo que vai crescer, a exemplo do que acontece nos EUA e outras economias mais avançadas, onde existem muitas empresas de PE&VC analisando e investindo em novos empreendimentos.

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