Conhecendo a Perícia Econômico-Financeira

Gustavo Raupp

Economista, Perito Judicial, 
Conselheiro do Corecon-RS e 
Coordenador da CAAPE
.


Corecon-RS Nº 5658 



Sobre o que trata a Perícia Econômico-Financeira e quais as áreas de atuação?

O termo “Perícia”, vem do termo em latim “peritia” e tem o sentido próprio de “conhecimento”, “experiência”. E a nossa atuação nada mais é do que disponibilizar este conhecimento e esta experiência nas demandas judiciais, seja atuando como um auxiliar do juiz, seja como auxiliar nas partes. Atuamos em relações extrajudiciais e em ambos os casos, que envolvam a necessidade desse conhecimento técnico, de exigência de um perito, para gerar provas ou quantificar esta demanda judicial. Especificamente, atuamos em diversas áreas, como, por exemplo, a apuração de haveres, cálculos trabalhistas, revisionais de contratos de uma maneira geral, família, e outras atividades demandadas pela justiça estadual, federal e de falências.

Quais atividades a Perícia Econômico-Financeira realiza?

No que diz respeito às provas, o perito econômico-financeiro realiza exames em documentos e diligências, sempre com o intuito de gerar as provas para elucidar a lide, independentemente da parte que estejamos atuando. Também, sobre a quantificação desta demanda judicial, nada mais é do que efetuarmos cálculos. Os cálculos na realidade traduzem as sentenças dadas pelos juízes em valores monetários. Essa é outra atividade que nós realizamos. E também, em relação às perícias extrajudiciais, buscamos a quantificação para defesa das teses. Não só a quantificação, mas a geração de prova também, para auxiliar as teses que estão sendo defendidas pelas partes.

E qual a função de um perito?

Eu diria que aproximadamente 95% dos processos judiciais utilizam a ferramenta da perícia, seja ela a perícia econômico-financeira, ou seja ela de engenharia, medicina, criminal. A perícia é uma ferramenta usual nos processos judiciais. Então, a função do perito nada mais é do que auxiliar tecnicamente as partes envolvidas e o judiciário. Esta é a função básica, pois, se percebermos, as partes e o judiciário não têm esse conhecimento técnico.Portanto, cabe a nós, como auxiliares dessas partes, colaborar com nosso conhecimento, adquirido com experiência profissional ou acadêmica.

Além do conhecimento adquirido no curso de Ciências Econômicas, é necessário algum tipo de conhecimento para atuar nessa área?

Legalmente não há esta necessidade de uma formação além do próprio curso de Ciências Econômicas. Porém, entendo que seja interessante, sim, uma especialização na área. Seja por conhecimento profissional ou acadêmico. O curso de Ciências Econômicas é muito rico em informações. Ele nos traz uma gama muito grande de conhecimentos. Porém, entendo que o Curso propriamente dito não tem uma unidade curricular que trate diretamente de perícia, mas sim uma soma de experiências que se tem em cada unidade curricular, em cada cadeira. A soma de todo esse aprendizado do Curso é que oferta, como a atuação na área de perícia, um conhecimento bastante consistente.

Onde pode ser encontrado mais conteúdo e informação para se qualificar na área?

Esta formação normalmente tem cursos livres, pontuais, ou, também, em pós-graduação, em quantidades até razoáveis no mercado. Penso que seja de fundamental importância ter um planejamento da carreira. E no que diz respeito especificamente ao perito econômico-financeiro, creio que a qualificação começa pelo conhecimento de causa. É muito importante saber e ter conhecimento da área que se vai atuar. Ou seja, nós devemos ser especialistas e não generalistas. E a partir daí, para poder se qualificar. É necessária uma definição dessa área que se quer atuar. Um exemplo que eu gosto de utilizar é que para atuar numa área bancária o profissional tem que ser um expert em matemática financeira. Essa qualificação tem que ser induzida de acordo com a área que se quer atuar. E alguns outros conceitos, que aí independem da área, mas requerem alguma qualificação. Nós temos um conhecimento dos trâmites processuais, da área do direito, principalmente no que diz respeito a interpretações dessas leis. E, por força dessa interpretação e de que todo nosso trabalho é feito de forma escrita, é necessário o domínio da língua portuguesa. Então, quando eu digo conhecimento de trâmites, domínio da língua portuguesa, interpretações de leis, não estou falando que devemos fazer um curso de direito, mas que devemos ter uma certa fluência nisso. A interpretação de texto é de fundamental importância na área da perícia, sendo, portanto, da mesma forma, essencial uma qualificação nesta área.

Qual a sua expectativa para o futuro do economista nessa área? 

Nós vimos atuando de forma muito intensa, com o intuito de divulgar a profissão. A Comissão de Auditoria, Avaliação e Perícia Econômico-Financeira (CAAPE), uma pasta de trabalho do Conselho de Economia, vem atuando muito fortemente com o intuito de regulamentar a profissão junto às procuradorias dos municípios, do Estado, junto às empresas, ao Judiciário e à sociedade de uma forma geral, para que consigamos garantir e ampliar nosso espaço. Claro que esta questão de futuro da profissão passa também sobre a concorrência, por políticas governamentais, no que diz respeito à legislação e à política do Judiciário. Significa dizer que existe uma dependência e uma correlação bem grande neste sentido. Mas eu julgo que é uma área que demanda mão de obra e com um futuro ainda bastante promissor. Nós já tivemos mais barreiras por conta de um desconhecimento de quem atua na área jurídica, sobre a área de atuação do economista perito. No passado, houve uma atuação forte de outros conselhos e hoje conseguimos consolidar nossa atuação e não só no Rio Grande do Sul, mas no Brasil inteiro. 

Quais dicas você daria para novos e futuros economistas com interesse na Perícia Econômico-Financeira?

Sabendo que o mercado é bastante competitivo, a primeira dica é ter persistência. Num mercado competitivo, sem persistência não vai conseguir entrar. E, a partir do momento em que esta oportunidade aparecer, o seu conhecimento de causa se faz extremamente importante, no sentido de que você deve suprir a carência do advogado ou do juiz, no que diz respeito às questões técnicas. Aí, a partir do momento em que você tem sucesso nisso, certamente o mercado vai começar a se abrir. E outra dica que eu considero muito importante é ter “networking” nessa área, que é por onde se começa a abrir os horizontes. Então, é insistir até aparecer uma chance na área, além, é claro, da boa rede de relacionamentos.

Com um olhar no South Summit

Clovis Meurer

Economista, superintendente da
CRP Participações, ex-presidente
do Corecon-RS, conselheiro do Cofecon,
especialista em Private Equity e Venture Capital.


Qual a importância, para a cidade e para o RS, de eventos como o South Summit, ocorrido em Porto Alegre?

O South Summit Brasil, realizado nos dias 04, 05 e 06 de maio último, no Cais Embarcadero, em Porto Alegre, já foi objeto de ampla divulgação, e repercutiu positivamente para todos os setores da sociedade que se envolveram, como governo, academia, imprensa, empresários e, principalmente, para uma geração de empreendedores, ávidos por mostrar seus projetos com inovações, de forma que pudessem interessar a um mercado consumidor e a convencer investidores. Foi, sem dúvida, um marco para a cidade de Porto Alegre e para o Estado do RS.

De que forma esta edição do South Summit pode servir como um divisor de águas na área da inovação?

A estatística impressiona, tanto pelo número de participantes, painelistas e palestrantes, como pelas inovações apresentadas, vindas das mais diversas regiões do Estado, do Pais e do exterior. Porto Alegre e região já têm excelentes ambientes de negócios, centros tecnológicos, hubs de inovação, etc. Mas o South Summit 2022 foi um divisor de águas, colocando a cidade e a região como um centro mundial para atrair mais ciência, tecnologia, criação e processos colaborativos nos negócios, não só com as startups mas com os mais diversos portes de empresas e setores da economia.

Quais as consequências dessa iniciativa no meio profissional da Economia?

Para os economistas abre-se um mercado ainda maior de trabalho, de participação em projetos, em organização de negócios, discussões da viabilidade dos empreendimentos, avaliações e retornos dos investimentos, quer financeiros, quer de conhecimento, educação e bem estar da sociedade. Por último, cabe destacar que os três dias de muita energia positiva do evento foram turbinados pelo local utilizado do Cais Mauá - ainda não 100% - mas com um Guaíba ao lado, que agradou e inspirou a muitos participantes. Parabéns a todos envolvidos!

Educação Financeira em projeto social


Mariliane Caramão

Economista, educadora financeira,
especialista em psicologia econômica,
criadora do Repen$e Kids

Corecon-RS Nº 8698


 

De que modo a educação financeira pode contribuir com projetos voltados a jovens?

Os jovens que ingressam no mercado de trabalho são presas fáceis no complexo mundo financeiro. Ao mesmo tempo que são estimulados a consumir, eles sentem o crédito como parte integrante da renda. Se não há orientação financeira, se deixam levar pela urgência da posse, por pressões sociais, e acabam endividados. Num Brasil de muitos desafios e sutilezas econômicas, iniciar a vida profissional despreparado para lidar com dinheiro custa caro.

Qual o nível de educação financeira dos jovens no Brasil?

Um estudo do Serasa Experian mostrou que jovens de 18 a 25 anos ocupam o segundo lugar no ranking dos inadimplentes no Brasil, representando mais de nove milhões de pessoas. No mesmo sentido, o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa, 2018) mostra – no quesito letramento financeiro – que, além de ocupar uma posição no final do ranking, o Brasil apresenta uma disparidade em relação ao conhecimento, que chega a 98 pontos. Os estudantes de classes econômicas mais elevadas são mais expostos a conversas que envolvem o trato com dinheiro, possuem mais confiança e interesse pelo assunto, enquanto os estudantes com menor renda recebem poucas instruções. Nesse contexto, é um diferencial à sustentabilidade financeira ser apresentado ao mundo econômico antes de ingressar no mercado de trabalho, principalmente para os jovens de famílias com rendas menores ou situação de vulnerabilidade.


Você participa de projeto social voltado à educação financeira de jovens, o que te motivou?


Eu já estava alinhada com o voluntariado. Mas esse é um exemplo de demanda social que saltou aos olhos durante a pandemia e senti que seria uma oportunidade de contribuir de forma mais eficiente. Hoje, não é aceitável que alguém tenha frustrada sua possibilidade de sonhar em função do lugar onde ela nasceu ou qualquer outra condição. Por isso, empenhar algum esforço para reduzir as disparidades sociais acaba sendo um desejo comum e me coloquei à disposição do Instituto Ascendendo Mentes, em Porto Alegre.


Onde está localizada a ONG e como atua?


O Instituto está localizado no bairro Glória, em Porto Alegre. É um espaço de socialização focado em desenvolver potencialidades para que os jovens ocupem seus espaços no mercado de trabalho. Está fundamentada em quatro pilares: educação socioemocional, educação profissional, educação socioeconômica e sinergia com mercado de trabalho. Além da geração de renda, via formação profissional, entendem que a preparação socioeconômica seja um elo para estabilizar a condição financeira. E é aí que entra a minha atuação. Ainda que as necessidades imediatas sejam supridas através da doação de cestas básicas às famílias envolvidas, o objetivo é estimular a independência e o empoderamento dos jovens.


Que tipo de trabalho estás desenvolvendo lá?


Como citei, a educação financeira entra no pilar socioeconômico como um meio de superar a fragilidade econômica. O programa segue uma estrutura baseada em atividades que exploram o conhecimento financeiro básico associado com tópicos comportamentais. Vai desde conceituar o que é uma compra à vista e a prazo, passando por ferramentas para montar o orçamento pessoal e formar reserva até relacionar o impacto de fatores econômicos no dia-a-dia. Além disso, sabemos que o comportamento econômico individual é resultado do que se pensa e sente em relação aos recursos envolvidos. Então, para encurtar o caminho entre conhecimento e aplicação, são estimulados recursos psicológicos para tomar decisões mais conscientes e autônomas. O participante treina como diferenciar necessidade e desejo, reconhecer armadilhas que estimulam gastos excessivos e analisar o próprio comportamento de consumo.


Qual o objetivo do programa e qual a duração?


O objetivo é dar condições para que os jovens possam ir mais preparados para a vida financeira, sabendo lidar com as situações comuns de quem ingressa no mercado de trabalho. A formação tem duração de quatro meses e, ao longo de 2022, atenderá 60 jovens entre 15 e 17 anos.


Qual é o grande desafio para os jovens?


O desafio está em atrasar recompensas. Para eles, isso se traduz em identificar e tolerar situações que o estimulam a comprar o que não precisa ou gastar dinheiro que não têm em benefício de poupar para comprar um bem pagando à vista, fazer uma viagem, um curso ou ajudar a família.


Tens percebido avanços nesse processo?


O voluntário também encontra desafios num projeto social. Posso citar três: reconhecer as carências na educação geral e criar estratégias para superá-las; necessidade constante de enquadrar o conteúdo (ele precisa ser aplicável ao contexto); por último, a necessidade de priorizar confiança e empatia, entendendo o ambiente ao qual cada um está inserido interfere nas suas decisões. Os alunos estão sendo muito rápidos em assimilar do papel das emoções associadas ao consumo e a maioria já incorporou a ideia de parar para pensar. Também estão evoluindo nas conversas. Elas já ultrapassam o campo das necessidades básicas e até alguns sonhos já foram compartilhados. Enxergo, nesses pequenos sinais, a capacidade de reformular a cultura econômica familiar, e isso me anima muito. Esse retorno, dentro do meu propósito, é muito gratificante.


Quem tiver interesse em contatar com o Instituto, como deve proceder?


O Instituto Ascendendo Mentes recebe doações para a manutenção dos seus projetos e quem desejar contribuir acessar o site: https://www.ascendendomentes.org.br/doapoa e as vagas para novos voluntários também segue abertas: https://www.ascendendomentes.org.br/contato

Indicadores para acompanhamento do desempenho das empresas


Cedenir Agliardi

Economista, especialista em Gestão Financeira,
Sócio da Matrix Consultoria Empresarial
Corecon-RS Nº 62227

 

 

Qual a importância da gestão financeira numa empresa?

A gestão financeira é fundamental para uma boa administração de uma empresa, seja qual for o tipo de atividade que ela atua. Qualquer decisão precisa estar em concordância com a parte financeira. Gestão financeira é cuidar do dinheiro. Cuidar do dinheiro é, literalmente cuidar de todo o caminho que o dinheiro faz na sua empresa, na sua família ou o seu dinheiro mesmo.

 

Como ter o total controle sobre o fluxo financeiro de uma empresa?

Fluxo de caixa diário, semanal, mensal são outras formas necessárias e eficazes de se ter o controle da empresa. Para ter um bom controle sobre o fluxo, primeiro precisamos ter um sistema adequado, o que não é fácil, principalmente para pequenas e médias empresas.  Definido o sistema, precisa de muita vontade e resiliência para mantê-lo em dia.

 

Que tipo de sistema seria esse?  Existem sistemas ERP com controle financeiro e fluxo integrado, mas estes costumam ser muito limitados.

O velho e bom excel ainda é a melhor ferramenta, pois você consegue fazer um fluxo personalizado, específico para sua empresa. Há uma ideia errônea de muitas empresas pequenas sobre uso de ferramentas como excel. Acredite, Wall Mart, GM e muitas outras gigantes fazem o planejamento em excel (ou outras planilhas eletrônicas). Claro, com uso das informações extraídas dos sistemas operacionais.

 

Qual a importância do uso de indicadores no acompanhamento do desempenho da empresa?

Extremamente importante. São os indicadores que servirão de base para a tomada das principais decisões. Toda empresa tem seus indicadores importantes. Precisa calcular e acompanhar.

 

Que tipos de indicadores são considerados essenciais para controle do fluxo de caixa?

Indicadores de desempenho são instrumentos internos utilizados para medir as atividades de uma empresa, que dificilmente conseguirá evoluir e crescer se não tiver parâmetros de acompanhamento de seus números. Muitas empresas até podem crescer sem esses indicadores, mas aí, basta uma pequena crise para o sucesso virar fracasso. Perde tudo o que ganhou porque não viu ou não percebeu a movimentação negativa de caixa. Cada empresa ou ramos de atividade possui seus indicadores específicos. Por exemplo, hotéis e aviões têm como principal indicador o índice de ocupação. Temos o ticket médio, que mostra o comportamento do cliente com a marca e também nos demonstra o nível de satisfação do cliente com a empresa, que serve para a grande maioria dos ramos de atividade, e assim por diante.

 

Qual a importância  da análise de oportunidades em uma empresa? 

Toda empresa, por menor que seja, precisa estar estudando e analisando constantemente seu negócio. Avaliar novas oportunidades, inovações e, principalmente, investir em novos modelos, novas formas de evoluir no seu ramo.

Mulher: Dona de si, líder de si mesma!

Dirlene Silva

Economista, Mentora, Coach e Consultora de Inteligência Financeira,
CEO na DS Estratégias e Inteligência Financeira, palestrante,
embaixadora e professora na Escola Conquer,
conselheira nos projetos Artigo 19 e Injeção de Autoestima,
embaixadora no Clube Mulheres de Negócios de Portugal,
membro coletivo Conexão Mulheres e Economia,
colunista de Finanças nos Blogs do Banco Pan, Prateleira de Mulher e Black Collab.
Em 2020 foi eleita LinkeIn Top Voices, sendo a única economista da lista,
em 2021 foi nomeada Linkedin Creator
e é umas das 50 pessoas mais criativas do Brasil segundo a Revista Wired.


Como tem acompanhado a participação da mulher no mercado de trabalho nos últimos anos?

Até 2020 a participação feminina no mercado de trabalho no Brasil era crescente. A prova disto, é que as mulheres brasileiras conquistaram o direito de trabalhar fora de casa livremente (sem precisar da permissão do pai ou do marido) em 1962, e hoje, passados apenas 60 anos, já representam 61,9% da força de trabalho do país. Ou seja, conquistamos espaços, mas ainda há um caminho considerável a percorrer na busca por equidade. Embora a participação feminina represente mais da metade da força de trabalho, quando se faz o recorte por cargos de gestão, essa participação é de 39,4%. Ainda, quando focamos no topo da pirâmide, somente 3,5% das mulheres ocupam a cadeira número 1 de CEO. Além disso, o salário recebido pelas mulheres é em média 34% inferior ao dos homens.

A pandemia trouxe algum impacto na evolução da participação da mulher no mercado de trabalho?

Sim, a pandemia representou para mulheres um retrocesso em termos participação no mercado de trabalho, pois elas representam a maioria absoluta da massa de desempregados na pandemia. Infelizmente, a pandemia interrompeu a evolução crescente de 30 anos da participação das mulheres no mercado de trabalho. Contudo, apesar dos números negativos, questões como profissões tipicamente femininas, acúmulo de tarefas, dupla jornada de trabalho e maternidade, que não eram anteriormente faladas, ganharam destaque na sociedade. As empresas passaram a discutir e, assim, refletir sobre os vários tipos diversidade, bem como os benefícios delas. Eu, particularmente, vejo esses fatos como uma intenção positiva. Agora, no mês de março, tenho agendadas várias palestras em empresas sobre a diversidade de gênero direcionadas a todos os públicos. A ideia é inspirar as mulheres e sensibilizar os homens, fomentando a discussão de como as competências das pessoas se complementam e que diversidade é saudável. Enfim, a sociedade está questionando o modelo patriarcal, bem como os tabus que envolvem a figura da mulher no mercado de trabalho. E sobre tabus, eu defendo que decretamos o “início do fim de um tabu quando começamos a falar sobre”.

De que forma as mulheres de hoje estão assumindo a sua condição de provedora da família?

A condição de cada vez mais mulheres assumirem o papel de provedora ou responsável pelo provimento da família, na mesma proporção que o cônjuge, está diretamente ligado às conquistas de direitos das mulheres (quadro abaixo) ao longo dos anos e, consequentemente, evolução da sociedade. Em 1970, mesmo trabalhando fora, dizia-se que a mulher apenas ajudava o marido. Minha mãe se divorciou em 1977 e o fato foi um escândalo. Nos anos 80, a mulher apanhar do marido não era um fato que chocava. Inclusive não era crime. Ouço relato de homens que cresceram nessa época e ouviam suas mães instruindo suas irmãs sobre cozinhar, lavar, passar, ou seja, a ser uma excelente dona de casa para que nunca apanhassem de seus maridos. Nossa constituição atual, de 1988, foi a primeira que reconheceu a igualdade de gênero entre homens e mulheres na teoria. Na prática, ainda não existe tal igualdade.

Toda a mulher já se sente preparadas para essa nova realidade?

Sem dúvida que sim. Como visto no quadro anterior somente em 1879, sendo em menos de 150 anos as mulheres conquistaram o direito de cursar uma faculdade. Hoje, elas já representam 57% dos estudantes do ensino superior. Elas estão presentes em 71,3% nos cursos de licenciatura e 54,90% nos cursos de bacharelado. Nos cursos de pós-graduação, este número aumenta, chegando a 64%. Já no mundo do empreendedorismo, mais de 51% dos novos empreendimentos são liderados pelas mulheres. Logo, a realidade é que as mulheres estudam mais e empreendem mais que os homens.

Qual a tendência?

A tendência é que cada vez mais ser “lugar de mulher é onde ela quiser”. As mulheres estão gradativamente mais cientes de seus direitos e que podem fazer escolhas. Há mulheres que optaram por focar na carreira, outras na maternidade, ainda outras, assim como eu, conciliam com maestria ambas as coisas. E também há as que são donas de casa e está tudo certo. Não há problema algum em ser dona de casa ou exercer uma profissão considerada tipicamente feminina, como professora ou enfermeira, por exemplo. O problema mesmo é não ter escolha. Não ter a outra opção de escolha pelo fato de ser mulher. Questões como gênero, cor da pele ou classe social não podem decretar o destino de ninguém.

Qual a sugestão para as mulheres que querem se dedicar cada vez mais à vida profissional?

Na verdade, minha sugestão é para todas as mulheres: Sejam donas de si, líderes de si mesmas. Façam suas opções e escolhas e, exijam respeito a suas vontades. Ratifico, que o fato de ser mulher não pode decretar o destino de alguém. Em relação às mulheres que querem se dedicar à vida profissional: Ainda que em nossa jornada as dificuldades sejam dobradas e se você for mulher, negra e de origem humilde como eu, as dificuldades são exponenciais, elas não são intransponíveis. Então, se eu posso deixar uma recomendação às mulheres é que estudem. Sejam lifelong learner, mas além de estudar as teorias, coloque-as em prática, pois o conhecimento só faz sentido quando é colocado em ação. Autoconhecimento é a mãe do conhecimento. Se permita aprender continuamente. Eleja uma mentora ainda que informal. Cerque-se de mulheres que você admira. Acredito no poder da sororidade e tenho convicção que “o caminho para o crescimento feminino é traçado em conjunto”.


Acompanhe Dirlene Silva nas redes sociais:
www.linkedin.com/in/dirlenesilva
www.instagram.com/dirlene.economista

Interações e relações entre Economia e Sociedade

Luiz ZagoLuiz Henrique Zago Gaston

Economista da Diretoria de Tarifas e Estudos Econômicos da
Agência Estadual de Regulação dos Serviços Públicos Delegados do RS (Agergs),
Mestre em Economia Aplicada PPGE/UFRGS, Conselheiro do Corecon-RS

 

 

 

Qual a importância da sua atividade para a sociedade?
Considerando todas as atividades que realizei ao longo de minha vida profissional e que desenvolvo atualmente, não tenho dúvidas de que se tratam de ações e iniciativas de grande importância para o crescimento econômico do nosso estado e o desenvolvimento cada vez maior de nossa sociedade.

Quais os principais requisitos exigidos para o exercício dessa atividade?
O mais importante de tudo é a qualificação e atualização constantes do profissional da Economia, sempre em sintonia com os novos desafios que se apresentam diariamente.

De que forma os interessados em iniciar esse tipo de trabalho podem ir se preparando para fazê-lo?
Curiosidade e proatividade são qualificações básicas para o crescimento profissional em qualquer ramo de atividade. E nessa área é muito importante a busca constante do aprendizado sobre as interações e relações entre Economia e sociedade. Ou seja, ler, estudar e aprender muito sobre Economia e as diversas áreas transversais que complementam a formação.


Os cursos de Economia conseguem, por si só, transmitir ao futuro profissional formação para atuação nesse mercado?
Penso que, de uma forma geral, os cursos de Economia no Brasil preparam excelentemente o aluno para o seu encaminhamento profissional, através de uma formação teórica sólida, que será fundamental para o desempenho de sua profissão logo ali na frente. Eles fornecem as bases e servem como ponto de partida para a qualificação profissional. Evidentemente, que a consolidação dessa caminhada de sucesso vai depender do esforço e vontade de cada um, ao não medir esforços pela busca da excelência.


Quais as dicas que darias para os estudantes e profissionais que querem entrar nessa área?
É muito importante sempre estar atento aos fundamentos oferecidos na Academia, nas áreas da Microeconomia, Macroeconomia, Estatística, Matemática e História Econômica, aprofundando e ampliando cada vez mais os conhecimentos, sem, entretanto, deixar de buscar as áreas transversais ao conhecimento econômico. Também considero muito importante a busca permanente de uma visão sistêmica da sociedade.

O Economista e a resposta à sociedade

João Carlos Medeiros Madail
Economista, Pesquisador Aposentado da Embrapa,
Professor Universitário, Conselheiro do Corecon-RS
Corecon-RS Nº 3356

 

Qual a importância da sua atividade para a sociedade?

A atividade econômica movimenta, diariamente, as pessoas, as instituições e o país. Por isso, demanda interesse de todos sobre os cenários econômico-financeiros presentes e futuros. E os profissionais capacitados, para darem respostas aos questionamentos da mídia, sobre temas econômicos, são os Economistas. Eu tenho me mantido atualizado para dar opiniões técnicas oriundas de entrevistas e debates em rádios, jornais, lives e palestras, quando convidado. A minha formação, aliada à experiência de 35 anos como pesquisador e de 20 anos como Professor, Mestre em Economia Rural (UFRGS), com cursos de especialização na área agrícola e empresarial no país e no exterior (ICRA-Holanda), tem me assegurado a seqüência de inúmeros convites. Atualmente como Diretor da Associação Comercial de Pelotas e do Corede-Sul, com uma coluna semanal no Diário Popular de Pelotas, tenho atuado como colaborador nos temas econômicos.

Quais os principais requisitos exigidos para o exercício dessa atividade?

Os principais requisitos são, evidentemente, a graduação em Ciências Econômicas, com a seqüência dos estudos no pós graduação em todos os níveis possíveis, concentrando numa determinada área de interesse, seja agrícola, empresarial, financeira e outras.

Como os estudantes dos Cursos de Economia e, mesmo, recém graduados, que tenham interesse, podem ir se preparando para direcionar suas atividades para esse tipo de trabalho?

O estudo da economia é fascinante, pois está presente no nosso dia a dia, seja na organização do orçamento familiar, nas empresas, públicas ou privadas, nas cooperativas e nas políticas públicas que mereçam avaliações de viabilidade econômico-financeiras. O campo da economia é grande com várias oportunidades. Mas é necessário estar próximo dessas oportunidades, via estágios, participando de debates, reuniões, congressos e tudo relacionado ao tema.

Até que ponto os cursos de Economia conseguem, por si só, transmitir formação para atuação nesse mercado?

Os cursos de Economia, em geral, são bastante teóricos, o que requer que os alunos não se acomodem e busquem a praticidade do que é transmitido. Ao ingressar no curso, aconselha-se buscar estágios ou aproximação com profissionais, o que facilitará associar à teoria a prática. Como Economia e Política estão muitos próximos, mesmo que a economia dependa de certa forma, da política, há que subtrair ideologias políticas que existem e são transmitidas por determinados professores, e buscar concentração nas questões técnicas, que garantirão credibilidade ao profissional.

Quais as orientações que daria para os estudantes e profissionais que querem entrar nessa área?

Entendo como imprescindível os estágios profissionais no decorrer do curso. Quando você consegue entender na prática o que lhe estão transmitindo em aula, por exemplo, nas disciplinas de microeconomia, que estuda problemas de alocação de recursos escassos em relação aos objetivos da empresa, ou na macroeconomia ou análise das questões do sistema econômico de determinada região ou país, fica mais claro o entendimento e o interesse pela profissão. Como pesquisador e professor de Economia, contribuí para a formação de vários economistas interessados em atuar na área agrícola, conduzindo-os, após os estágios para cursos de pós-graduação em todos os níveis. Ser Economista é detectar tendências na atividade econômica e contribuir, nas formas possíveis, para a confiança na atividade econômica em todos os níveis.

A Universidade e os desafios na gestão acadêmica

Ezequiel Insaurriaga Megiato

Economista, Pró-Reitor Acadêmico
da Universidade Católica de Pelotas (UCPel),
Presidente da Associação dos Economistas
da Zona Sul do Estado do RS (Aeconsul)
Corecon-RS Nº 8095

 




Qual a responsabilidade da Pró-Reitoria Acadêmica?


A Pró-Reitoria Acadêmica é responsável por direcionar e planejar, estrategicamente, a área acadêmica e pedagógica da Universidade.

Quais as principais metas a serem atingidas?

Queremos ser, enquanto Universidade Comunitária, uma instituição cada vez mais inovadora, atenta aos problemas do local/região onde estamos inseridos, contribuindo para soluções a partir do ensino, da pesquisa e da extensão.

Quais os desafios pela frente?

A educação vive uma intensa transformação em nível global, algo jamais visto. A pandemia, de alguma forma, acentuou essa transformação ainda mais. Essas mudanças atingem, ao fim, as profissões, o mundo do trabalho, etc. Assim, a Universidade deverá estar à frente, atualizando-se e, mais do que isso, propondo os caminhos que a nova economia demanda.

O que significa para um professor de carreira ser galgado a um cargo de Pró-Reitor?

Em nossa Universidade essa é a praxe, e isso, sem dúvida, é muito gratificante. Essa é uma das tantas ações que a UCPel vem adotando sob a liderança extraordinária do nosso Reitor, Dr José Carlos Pereira Bachettini Jr, que, ainda em 2012, instituiu um planejamento estratégico olhando para os próximos 20 anos e, preconizando, assim, a valorização do corpo docente e administrativo, com vistas a termos uma Universidade reconhecida, inspirada na mensagem de Cristo, formadora de profissionais éticos e que, ao fim e ao cabo, contribua para o desenvolvimento pleno - social, ambiental e econômico da nossa região.

 

A Universidade e os desafios na gestão de pessoas

 

Daniel Arruda Coronel
Economista, Pró-Reitor de Gestão de Pessoas da
Universidade Federal de Santa Maria (UFSM)
Corecon-RS Nº 7811

 

 

O que faz a Pró-Reitoria de Gestão de Pessoas de uma Universidade?

A pró-Reitoria de Gestão de Pessoas tem como finalidade o planejamento, a implantação, coordenação e a avaliação das atividades no que tange aos servidores docentes e técnico-administrativos em educação, no âmbito da UFSM.

Quais as principais metas a serem atingidas como Pró-Reitor de Gestão de Pessoas da UFSM?

Nós colocamos três metas como nossos grandes objetivos: um amplo processo de diálogo, uma gestão inovadora e uma gestão desburocratizada. Digo “nós” porque não farei nada sozinho. Muito pelo contrário, estará junto comigo nesse projeto uma equipe altamente qualificada, comprometida. Queremos, cada vez mais, que a Pró-Reitoria esteja mais próxima de sua comunidade. Queremos efetivamente ampliar as políticas de capacitação, acolher e cuidar melhor dos servidores da instituição, principalmente neste momento em que estamos retornando 100% à presencialidade. Pretendemos estar mais próximos da nossa comunidade, atendendo todas as suas demandas com eficiência, eficácia e com uma gestão inovadora e moderna.

Quais os desafios pela frente?

Neste período em que estarei à frente da Pró-Reitoria, vamos sempre rejeitar o autoritarismo, o quixotismo como bússola e como estandarte, e queremos cada vez mais buscar um amplo processo de diálogo, de concertação política, visando termos uma Pró-Reitoria cada vez melhor. Além disso, queremos cada vez mais validar nossas ações num processo de transparência, defendendo sempre a autonomia universitária através de uma luta constante contra o fascismo e o autoritarismo.

O que significa para um professor de carreira ser galgado a um cargo de Pró-Reitor?

Sou servidor docente da UFSM há mais de 10 anos. Tenho uma formação na área de gestão, sou economista, administrador, e nos últimos anos conquistei uma significativa experiência. Já fui diretor da Editora, editor de revista, presidente da Comissão de Ética, diretor de entidade científica e coordenador substituto de Curso. Então,tive a oportunidade de colher várias experiências ao longo dos anos. Mas, sem dúvida alguma, ocupar o cargo de Pró-Reitor de Gestão de Pessoas é o grande desafio da minha vida, já que esta pasta tem um papel estratégico e fundamental para o desenvolvimento da nossa instituição.

O que os conhecimentos na área da Economia podem lhe acrescentar na superação desses desafios?

A experiência como economista será fundamental, pois temos que ter dois princípios balizares: primeiro devemos ter organização e responsabilidade, e segundo, como todos os recursos são limitados, devemos elencar de maneira consciente prioridades visando ter uma gestão eficiente, eficaz, que atenda toda a comunidade universitária.

TART, uma via para a solução de conflitos tributários



Flávio Cardozo de Abreu
Administrador, Auditor-Fiscal da PMPA,
Presidente do TART

 

O que é o Tribunal Administrativo de Recursos Tributários (TART)?

O Tribunal Administrativo de Recursos Tributários (TART) é o órgão colegiado de segunda instância administrativa competente para decidir, em grau de recurso, sobre questões de natureza tributária, suscitadas entre a Fazenda Municipal e os sujeitos passivos das obrigações relativas aos tributos de competência do Município, conforme disposição da Lei Complementar n. 7, de 7 de dezembro de 1973. Criado em 1948 como o Conselho Municipal de Contribuintes, teve sua estrutura renovada e o seu nome alterado em 2005, por meio da Lei Complementar n. 534. Uma das principais alterações foi a divisão em duas Câmaras especializadas.

Quais as funções das Câmaras?

Cabe à 1ª Câmara julgar os recursos relativos ao imposto sobre serviços de qualquer natureza (ISS) e aos demais tributos não compreendidos na competência da 2ª Câmara. A esta compete processar e julgar os recursos relativos ao Imposto sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana (IPTU), à Taxa de Coleta de Lixo (TCL) e ao Imposto sobre a Transmissão "inter-vivos", a qualquer título, por ato oneroso, de bens imóveis (ITBI). Ao plenário compete julgar os conflitos de entendimento sobre legislação tributária entre as Câmaras e o recurso especial interposto por contribuinte.

Por que existem esses Tribunais?

Os tribunais administrativos-tributários da esfera federal, estadual e municipal representam uma possibilidade de solução administrativa dos litígios tributários, sem a necessidade do ingresso de ações no Poder Judiciário, contribuindo para a justiça fiscal, para a celeridade processual e como meio alternativo de solução de disputas à seara judicial.

Qual a composição do TART?

O TART é composto de 14 conselheiros e seus respectivos suplentes, sendo 7 na 1ª Câmara e outros 7 na 2ª Câmara. Há conselheiros indicados pelo Erário Municipal e outros indicados pela sociedade civil. Atualmente integram a 1ª Câmara representantes Conselho Regional de Economia do Rio Grande do Sul (Corecon-RS) do Conselho Regional de Administração (CRA-RS) e do Conselho Regional de Contabilidade (CRC-RS). Na 2ª Câmara atuam representantes da Associação Riograndense de Imprensa (ARI), da Sociedade de Engenharia do Rio Grande do Sul (SERGS) e do Sindicato das Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis e dos Edifícios em Condomínios Residenciais e Comerciais do Estado do Rio Grande do Sul (Secovi-RS).

De que forma as Entidades representativas da sociedade civil participam do TART?

O papel das entidades representativas da sociedade civil é fundamental, no sentido de trazer uma visão externa diferenciada sobre fatos e argumentos aduzidos na esfera recursal. Isso não significa que há algum comprometimento em votar neste ou naquele sentido, muito pelo contrário, há uma total liberdade e autonomia na formação da convicção, de modo que há situações em que os conselheiros indicados pelo Erário votam a favor dos contribuintes e outras em que os conselheiros indicados pelas entidades votam a favor do Fisco, em verdadeiro exercício democrático de manifestação do pensamento. A contribuição do Corecon-RS, ao longo do período de 2018 a 2021 foi sempre pautada pela técnica, independência, higidez e imparcialidade, em verdadeira demonstração da excelente qualificação dos Economistas do Rio Grande do Sul.

 

Caxias do Sul e cenários para a economia


Romário de Souza Gollo
Economista, professor da Universidade de Caxias do Sul (UCS),
Consultor Empresarial

Corecon-RS Nº 6808

 

Os números da economia de Caxias do Sul vêm apontando recuperação?

Sim. A economia de Caxias do Sul vem apresentando recuperação ao longo do ano de 2021 e já sinaliza uma retomada do crescimento, segundo dados da Câmara de Indústria e Comércio (CIC) e Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Caxias do sul. Entretanto, o crescimento deve acontecer de forma gradativa, pois depende de variáveis exógenas que podem interferir no desempenho.

Quais setores aparecem em destaque?

O setor da indústria apresenta o maior destaque. Em segundo lugar vem o comércio e em terceiro lugar o setor de serviços. Conforme apontam os dados da CIC e CDL de Caxias do sul, o setor de serviços vem mostrando resultados negativos. A indústria, por sua vez, é o setor mais pujante, compensando os resultados negativos dos demais setores.

A que se deve essa recuperação?

A recuperação se deve ao setor da indústria, ainda que pouco expressivo. O comércio já mostra sinais de recuperação e o setor de serviços também deve apresentar avanço, especialmente com o advento das datas comemorativas de final de ano.

O que falta para "normalizar" a caminhada de crescimento?

Para normalizar a trajetória do crescimento é necessário que a imunização atinja os percentuais desejáveis de pessoas vacinadas contra a Covid-19, para, assim, poder liberar a abertura (sem restrições) do comércio. Quando o comércio voltar à normalidade, certamente vai puxar os demais setores, ou, pelo menos, melhorar seus próprios resultados.

Quais os gargalos que impedem uma retomada mais efetiva?

Os gargalos que impedem a retomada do crescimento são justamente os relacionados às restrições das atividades econômicas. Esses gargalos serão eliminados a partir do momento que acabem as restrições e as atividades voltem a sua normalidade. Assim, não haverá mais falta de insumos, que é uma das principais causas dos resultados pífios, considerando o ambiente global.

Como estão as expectativas dos empresários?

Os empresários estão otimistas, alguns, inclusive, relatam que não tiveram maiores dificuldades para enfrentar a crise. Estão sinalizando uma retomada de crescimento, assim que a economia volte à normalidade. Isso fará com que o consumidor também volte a consumir mais, fomentando o fluxo real da economia.

E como estão as expectativas das famílias?

As expectativas das famílias também são otimistas. Ainda que algumas apontem dificuldades na retomada do consumo, devido à deterioração do poder de compra, causado pelo aumento da inflação, especialmente nos últimos meses. Outras, estão apostando na retomada das atividades do comércio, que pode gerar empregos mesmo que temporários. Por fim, a retomada do crescimento depende do avanço da vacina e da liberação das atividades econômicas, sem restrições.

 

O Brasil e a Economia dos Transplantes

Tallys Kalynka Feldens

Economista da Secretaria de Estado de Saúde
do Paraná (Sesa-PR), 
Mestre e Doutoranda
em Desenvolvimento Econômico na UFPR

Corecon-PR Nº 8493

 

Como está o Brasil, comparativamente aos demais países da América Latina, na oferta de doações de órgãos para transplante?

Os dados de 2019 indicam que o Brasil é o segundo maior transplantador do mundo, apenas atrás dos EUA (ABTO, 2020). Em relação à América Latina, o Brasil (18,1) está atrás do Uruguai (22,86) e da Argentina (19,6), em termos de doadores falecidos por milhão da população (IRODAT, 2021).

De que forma a legislação brasileira tem facilitado ações nesse sentido?

A legislação brasileira é do tipo opt-in, ou seja, nenhum indivíduo é considerado doador a não ser que a família do falecido expresse o desejo de doar os órgãos. Para os órgãos em que é possível a doação em vida, a legislação permite que seja realizada para cônjuges ou parentes até 4º grau, ou outra pessoa, mediante autorização judicial (Lei nº 9.434/1997).

Os governos têm facilitado, através de políticas sociais, a ampliação de doações de órgãos?

A maioria das secretarias dos estados apoia o movimento nacional “Setembro Verde” pela doação de órgãos, através de passeatas, palestras, banners, vídeos e programas de rádio. No dia 27 de Setembro é comemorado o Dia Nacional do Doador de Órgãos, onde, em muitos lugares, são realizadas cerimônias religiosas de homenagem aos doadores, bem como ações de conscientização Brasil afora.

No entanto, na pesquisa que tenho realizado, os resultados sugerem que as ações do Ministério da Saúde não estão sendo eficazes.
Sobre o que trata a sua pesquisa?

Minha dissertação em Economia dos Transplantes possui dois ensaios. Um deles visa responder como a mídia pode contribuir com a conscientização pela doação de órgãos; e o outro explora as relações de incentivo entre doação de doador cadáver e doador vivo.

E como a mídia, jornais, programas de rádio e televisão ou campanhas têm ajudado a ampliar o número de doações?

A doação de órgãos é um ato de generosidade e altruísmo que encanta a população. Uma vez ou outra aparecem histórias emocionantes na mídia sobre doação. Celebridades cujas famílias autorizaram a coleta dos órgãos, como no caso do apresentador Gugu Liberato, bem como de pacientes que recuperaram esperança ao receber um órgão. Também é bastante comum que as novelas exponham esse tema, devido à alta carga dramática que possui. A televisão ajuda a criar um cenário que promove a conscientização e propicia conversas sobre o assunto, e de acordo com as nossas estimativas, possui praticamente o mesmo impacto em número de doações de aparelhar o sistema com mais equipes transplantadoras, por exemplo.

O que falta para adquirirmos uma cultura mais eficiente de doação de órgãos?

É necessário que as pessoas tenham acesso a informações de como funciona o processo de doação e alocação de órgãos. Com isso, eu acredito que é possível que haja um maior conhecimento e confiança nas instituições envolvidas, permitindo, em caso de ser necessário tomar uma decisão sobre doação, possamos decidir com segurança e altruísmo.
Link para a dissertação completa: https://acervodigital.ufpr.br/handle/1884/71555

 

Negócio Fechado: Inovação no mercado da pecuária

Leandro Antonio de Lemos
Diretor do Negócio Fechado, Professor, Consultor de Empresas,
Ex-Presidente Corecon-RS
Corecon-RS Nº 4667

 

Foi lançado, no dia 6 de setembro último, o aplicativo "Negócio Fechado", o primeiro "app" exclusivo de compra e venda de bovinos do País. Com o objetivo de auxiliar o mercado pecuário, o programa foi anunciado na Expointer como resultado de uma parceria entre o Instituto Desenvolve Pecuária (IDPec) e da SafeWeb Segurança da Informação. O Corecon-RS entrevistou o economista Leandro Antonio de Lemos, Ex-Presidente do Corecon-RS e atual diretor do Negócio Fechado, que contou mais sobre as funções e objetivos do aplicativo.

 

Qual o objetivo do "Negócio Fechado", primeiro aplicativo de compra e vendas de bovinos no Brasil?

O objetivo do aplicativo “Negócio Fechado” é permitir a comercialização entre produtores da pecuária para compra e venda de gado, tanto para reposição como para corte. Esse é o primeiro aplicativo do Brasil que permite o processo completo. Desde o cadastramento, certificado. Ou seja, consegue-se identificar através da administração do aplicativo se quem está anunciando realmente é a pessoa jurídica ou física, com a certificação da SafeWeb.

Como funciona?

Pode-se fazer o download do aplicativo direto pelas lojas IOS ou Android ou diretamente no site do aplicativo. Você faz o cadastro, coloca seus dados, que são protegidos em alto nível de segurança, criptografados. A partir daí, a pessoa pode fazer o anúncio no aplicativo, colocando fotografias e vídeos do seu gado para venda.

Qual o nível de segurança das informações contidas no App?

As informações são completamente seguras, tanto para quem quer comprar como para quem vai vender. O comprador entra em um chat privado com quem está vendendo, chat este também criptografado, permitindo um alto nível de segurança e impossibilitando qualquer tipo de acesso de um terceiros nas conversas entre os negociantes.

Todos as etapas envolvendo a transação podem ser feitos por ali?

A grande vantagem é que a parte interessada pode fazer o pagamento direto pelo próprio aplicativo. Nós temos uma ferramenta de segurança, de transações digitais, integrada com os sistemas bancários, o que permite o pagamento de forma muito segura. E quem está vendendo vai ter informação instantânea de que o recurso entrou em sua conta bancária. Temos a possibilidade de pagamento por TED, DOC, boleto bancário e cartão de crédito. O fato de possibilitar negociações com cartões de crédito também é um diferencial, já que o comprador pode acumular seus pontos ou “milhas” para seu cartão.

Qual a importância da certificação adquirida pelo "Negócio Fechado"?

A importância de ter a certificação do Negócio Fechado é impedir fraude e impedir que impostores entrem no sistema e abram negociação, obtendo dados dos produtores ou de seu patrimônio, protegendo-se, então, de possíveis crimes, tanto cibernéticos quanto patrimoniais.

O App é utilizado apenas dentro do Brasil ou pode ser utilizado também por clientes do exterior?

O aplicativo pode ser usado também no exterior. Inicialmente, estamos com 1800 produtores cadastrados dentro do RS e, gradativamente, estamos agregando outros estados do Brasil. E como é uma plataforma na web, ele pode ser acessado de qualquer lugar do mundo, por qualquer interessado no aplicativo.

O Talibã, a economia e o Afeganistão

 

Roberto Rodolfo Georg Uebel
Economista , Doutor em Estudos Estratégicos Internacionais,
Pós-doutorando em Geografia Política, Professor da ESPM-POA 
Corecon-RS Nº 8074

 

Qual a importância política e econômica do Afeganistão no cenário mundial?

Economicamente o Afeganistão não tem uma importância muito significativa no cenário mundial. É um país muito pobre, com um dos piores indicadores de desenvolvimento econômico, um índice de Gini muito baixo, e se localiza numa região cercada de potências econômicas, como o Irã, Paquistão e Índia, e fazendo fronteira com a China, que foi um dos primeiros governos estrangeiros a reconhecer o Talibã como governo legítimo do Afeganistão. Economicamente não tem importância tão grande como a de seus vizinhos, o que não quer dizer que o país não tenha uma importância regional e internacional. O Afeganistão é um grande produtor de commodities minerais, tanto de metais, como também de minérios, que fornece para seus países vizinhos parceiros tradicionais, e, também, na prospecção do solo, como gás e, numa quantidade bem menor, em petróleo.Politicamente, o Afeganistão está localizado no meio da Bel and Road, a iniciativa da China de expansão de suas rotas comerciais para o Oriente Médio, Norte da África e Europa. Também está na rota dos gasodutos russos em direção ao Oceano Índico, estando, portanto, o território afegão, tanto na rota da expansão comercial chinesa como da expansão energética russa, e, por isso, foram os dois primeiros países a reconhecerem o Talibã como regime de fato daquele país.


Quais os principais impactos econômicos da crise no Afeganistão?

Podemos perceber alguns impactos no sentido em que a partir do momento em que assume o governo, não tem mais acesso às reservas bancárias antes atribuídas ao governo afegão, já que as contas foram bloqueadas pelos EUA, assim como foram congelados os empréstimos do FMI, pelo fato de que não há o reconhecimento do governo Talibã como um governo legítimo, o que os coloca numa situação muito próxima à da Venezuela, do governo Maduro, que, da mesma forma, não tem acesso às suas contas bancárias. Então, os recursos que eles têm internamente são garantidos justamente por China e Rússia. Como consequência, percebe-se aí uma crise econômica que vai se transformar numa crise orçamentária, até porque sem recursos o governo afegão não consegue fazer políticas públicas. Não consegue, por exemplo, garantir acesso da sua população à vacina contra a COVID-19 ou garantir o mínimo dos serviços básicos. Por isso, deve buscar alternativas via Rússia e via China para tentar conter esses bloqueios.


Quais as consequências à economia dos EUA ao cessar gastos de mais de 20 anos de intervenção no Afeganistão?

Com relação às consequências à economia norte-americana, se estima que os EUA gastaram U$ 6,4 trilhões em 20 anos nas guerras do Afeganistão e do Iraque. Estimativas dão conta de que os EUA tenham dispendido U$ 3 trilhões na guerra do Afeganistão em 20 anos, o que foi um impacto muito grande no orçamento de defesa daquele país. Justamente por essa razão, há um clamor domésticonos EUA, do eleitorado norte-americano, tanto de democratas como de republicanos, para que os EUA deixasse aquele país. Então, os 20 anos de 11 de setembro tem a simbologia da data, mas também já havia uma pressão doméstica, no mínimo há 10 anos,desde a morte de Bin Laden, para sair do Afeganistão. Foi um impacto muito significativo no orçamento norte-americano, que, evidentemente, deixou de ser gasto em outras áreas. Cabe lembrar que o próprio sistema de saúde dos EUA é muito falho, também pelo fato de não possuir um sistema universal como o do Brasil, e, justamente, um dinheiro que poderia ter sido utilizado para o AlffordableCareAct ou Medicare, programa de saúde criado pelo governo Obama.


De que forma essa crise pode afetar economias dos países em desenvolvimento, como o Brasil?

Eu não vejo a crise geopolítica e geoeconômica do Afeganistão afetando o Brasil diretamente. Já temos as nossas próprias crises, com um governo que flerta com o autoritarismo, então eu diria que não tem como traçar um comparativo com isso. O que poderia nos afetar, aí sim,seria eventual instabilidade no Oriente Médio ou nos países vizinhos, como Índia, Irã, ou demais países, como Arábia Saudita, Jordânia, Líbia, Turquia, Bangladesh, enfim, países que são grandes compradores de commodities brasileiras, como carnes e grãos, ou, ainda, num eventual bloqueio de transporte marítimo naquela região - muito embora Afeganistão não tenha costa marítima -, que poderia afetar o transporte de commodities. Mas isso seria um cenário hipotético. Num cenário factual, verídico, não vejo impacto na economia brasileira, já que o Afeganistão não é parceiro estratégico do Brasil. Tanto que o Afeganistão teve durante três anos uma embaixada no Brasil, que acabou fechando porque as relações nunca se adensaram. O Brasil, por sua vez, nunca teve Embaixada em Cabul. As nossas relações diplomáticas são realizadas pela Embaixada do Paquistão, esse sim, um parceiro importante do Brasil. Aliás, penso que seria interessante o Brasil se posicionar recebendo os refugiados afegãos, como fez no passado. Uma demanda pequena, que contribuiria muito para a imagem do Brasil no cenário internacional.


Por que a estrutura montada pelos EUA ao longo dos últimos 20 anos não foi o suficiente para o talibãs não voltar ao poder?

Os EUA ficaram mais tempo que deviam no Afeganistão. Invadiram o Afeganistão para caçar o Bin Laden e dar uma resposta à população norte-americana, em resposta às agressões sofridas no 11 de setembro de 2001, mas ficaram mais tempo do que o necessário. Foram 20 anos de muito gasto sem conseguirem treinar efetivamente as forças armadas afegãs, ou conseguir garantir a transição às instituições democráticas afegãs preservando as características locais. Não obtiveram sucesso nessas questões. Acho, portanto, muito difícil pensar numa solução de curto prazo para o Afeganistão, que não envolva ou que deixe de envolver a participação de organizações internacionais. Não uma missão humanitária, estilo a do Haiti, mas que se tenha a permissão de organizações como a ONU e outros organismos internacionais, autorizados pelo Talibã, a conduzirem políticas de reassentamentos de deslocados internos, que já são 5 milhões de pessoas. Os interesses de China e Rússia não são meras ideologias, muito pelo contrário. Mas de garantir seus negócios na região. Então, com a saída dos EUA, esse espaço deverá ser ocupado pelas duas nações, bem como pela Turquia, Irã e Arábia Saudita.

 

A economia dos Azeites & Olivais

Eduardo Mauch Palmeira
Economista da Unipampa, Professor do Instituto de Desenvolvimento Educacional de Bagé (IDEAU/Bagé),
Editor Revista Azeites & Olivais, Consultor e Palestrante, Mestre em Integração Econômica Global e Regional (UNIA-ES)
e Gestão de Organizações Públicas (UFSM)

Qual a importância da olivicultura para a economia do Brasil e do RS?

O Brasil é o segundo maior importador de azeite no mundo, perdendo apenas para os EUA. Desta forma produzir azeitonas para a extração de azeite e para a conserva, é uma alternativa viável de produção. A olivicultura veio como uma alternativa, pois diversifica a matriz produtiva, o que é muito bom. Na época da colheita, a maioria dos produtores, ainda colhem de forma não mecanizada, o que proporciona um grande número de postos de trabalho. O país poderá crescer muito em termos de área plantada, e mesmo assim não conseguirá atender a toda a demanda nacional.

Em que época o Brasil começou a se voltar para a produção de azeite de oliva?

A história da olivicultura no país não é nova, como muitos pensam. Nós, da Revista Azeites & Olivais, estamos participando do resgate desta história, que tem sim uma importância muito grande no que diz respeito a esta cultura. Já achamos relatos de produção nas décadas de 1940 e 1950, aqui no estado do RS. Porém, em São Paulo, no mesmo período, foram encontrados os relatos de produção de azeitonas e de extração de azeite. Na fase atual, já no início dos anos 2000, alguns produtores, retomaram o cultivo da oliveira e com o sucesso que os pioneiros do século XX não o tiveram. São vários os fatores que podem ter influenciado, lá no passado. Não havia a tecnologia e o conhecimento técnico que possuímos na atualidade, bem como acesso a estudos e equipamentos, que estão fazendo a diferença no atual momento da olivicultura brasileira.

Que regiões do RS se destacam na produção de azeite de oliva?

A maior concentração, em termos de área plantada, está na metade sul do RS. Porém, a cultura da oliveira vem ganhando espaço em todo o Estado. A cada ano mais produtores/investidores estão aderindo ao plantio, e, claro, sempre em áreas que sejam propícias para isso. O município de Bagé, onde resido, poderá chegar a mais de mil hectares nos próximos dois anos. Mas se contarmos com a região da Campanha Gaúcha, esse número poderá ultrapassar os 4 mil hectares. No município de Encruzilhada do Sul há cerca de 1000 hectares plantados e em expansão.

Em que nível de qualidade se encontra o azeite gaúcho em relação aos maiores produtores mundiais?

O azeite produzido no país, isto é, não só no RS, tem se destacado em concursos internacionais, o que demonstra a qualidade do produto aqui produzido. Concursos estes realizados em diversos países, com degustadores qualificados, que identificam as qualidades do azeite extra virgem, bem como se há defeitos nas amostras. Um bom azeite não pode ter cheiro de ranço, de vinagre, por exemplo. E estes são defeitos que um azeite extra virgem não pode ter. O cuidado que os produtores gaúchos e dos outros estados produtores, como Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Bahia e Espírito Santo, têm, desde a escolha das variedades, do plantio, da colheita e do processamento (extração e envase) faz com que nosso azeite seja um extra virgem de qualidade.

Quais as expectativas dos olivicultores gaúchos para a safra deste ano?

A cada ano as expectativas são as melhores. Porém, a olivicultura também depende das condições climáticas. Vale salientar que a cada ano que passa, vamos acompanhando a chegada de novos azeites ao mercado. Isso se dá em virtude de que a produção/colheita leva em torno de cinco anos para obter a primeira safra. Esta última safra foi, para muitos produtores, uma surpresa, pois colheram bem acima do que esperavam.

O governo tem estimulado a produção do azeite de oliva?

O governo gaúcho criou a Lei Nº 15.309, de 29 de agosto de 2019, que institui a Rota das Oliveiras no Estado do Rio Grande do Sul. Os municípios integrantes são Bagé, Barra do Ribeiro, Cachoeira do Sul, Caçapava do Sul, Camaquã, Candiota, Canguçu, Dom Feliciano, Dom Pedrito, Encruzilhada do Sul, Formigueiro, Pantano Grande, Pinheiro Machado, Piratini, Rosário do Sul, Santa Margarida do Sul, Santana do Livramento, São Gabriel, São Sepé, Sentinela do Sul, Vila Nova do Sul, São João do Polêsine, Restinga Seca e Hulha Negra. O próprio Instituto Brasileiro de Olivicultura (Ibraoliva) destaca que o setor produtivo dos azeites de oliva produzidos no Rio Grande do Sul será contemplado pelo Programa Produtos Premium, do governo do Estado e que o projeto, da Secretaria de Inovação, Ciência e Tecnologia (SICT), de Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural (Seapdr), Desenvolvimento Econômico (Sedec), Meio Ambiente e Infraestrutura (Semai) e a Fundação de Amparo à Pesquisa (Fapergs), tem o objetivo de organizar e promover a produção, agregando valor aos produtos agropecuários gaúchos, por meio da inovação e do conhecimento. E, como consequência, estimular a economia e todos os elos que participam dessa cadeia. É importante salientar que, na época, a decisão foi aprovada por unanimidade pelo comitê gestor do programa. O azeite de oliva será o segundo produto a ser chancelado. O primeiro foi a carne, que já está em andamento.

Existe, então, uma integração por parte dos órgãos de diferentes esferas governamentais trabalhando nesse sentido?

Notamos, sim, que há um trabalho integrado sendo realizado, entre o governo do Estado e governos municipais e, ainda, o setor privado, para que não só a produção de azeite seja reconhecida, mas, também, a produção de azeitonas em conserva e produtos elaborados com compostos da oliveira.

Como está o olivoturismo no RS e em que regiões está acontecendo de forma mais efetiva?

Os empreendimentos voltados para o olivoturismo são uma nova opção para quem gosta de azeite, mas não só para estes apaixonados pelo ouro líquido. Os empreendimentos atraem por suas estruturas e belas paisagens. A região metropolitana de Porto Alegre, na cidade de Viamão, a menos de 30 km, está localizada a Estância das Oliveiras. Já, na serra gaúcha, na cidade de Gramado, o Olivais de Gramado. Esses dois empreendimentos têm ótimas atrações, com acesso fácil e diversão garantida. Na região central do Estado, em São João do Polêsine, os amantes do olivoturismo encontram o Recanto Maestro, e ainda podem desfrutar das termas. Na metade Sul do RS está a pousada Vila do Segredo, em Caçapava do Sul. Visitar a estrutura de processamento de azeites (chama-se Lagar), passando no primeiro momento pelo pomar, para ter o contato com as plantas de oliveira, e, depois, participar de uma degustação, são uma maneira de entender um pouco mais sobre este produto, o azeite. As rotas de olivoturismo vem sendo desenvolvidas e apresentadas ao turista, com o apoio de agências de turismo receptivo, que estão proporcionando várias experiências neste segmento, que incluem além do azeite, o vinho, a carne e queijos. Esta é uma harmonização que traz novas experiências, e as terras gaúchas oferecem todas elas.

Qual a importância de participar como editor de uma revista especializada?

Participar de um projeto desafiador é muito bom e estando ligado à área da educação foi uma maneira de continuar ao que nos propusemos como profissionais, uma vez que já fazia parte de conselhos editoriais de revistas acadêmicas.

Como surgiu a Revista Azeites& Olivais (A&O)?

A revista surgiu como o produto de um mestrado. A Diretora/Esposa, a Administradora Luciane Gomes, após a conclusão do seu mestrado, propôs a criação da revista, e, prontamente, o desafio foi aceito, e envolveu a família. Assim, em 2019, no mês de março, na abertura oficial da colheita, no município de Formigueiro, entregamos os exemplares da Edição 00 da Revista Azeites & Olivais (A&O). Nossa expectativa foi superada e a Revista A&O ultrapassou as fronteiras e, também, o Atlântico. E convido a quem quiser conhecer um pouco mais sobre azeites e sobre a cultura de oliveiras, que acesse as edições no site da revista. O leitor tem a opção de baixar os exemplares para sua leitura, além das edições especiais, só com receitas que em sua elaboração têm, é claro, um bom azeite. A revista é um meio de divulgar os azeites produzidos no país e no continente sul-americano, sempre levando informações para que, cada vez mais, o consumidor tenha as melhores informações sobre a temática. Visite https://azeiteseolivais.com.br
Consuma azeite! É muito bom e saudável!! Azeite em tudo!!!

O consumo de vinho sob a ótica de um Economista


 

Mauro Salvo
Doutor em Economia, Analista do Bacen,
Ex-Vice-Presidente Corecon-RS
Corecon-RS Nº 5630

 

 

De onde vem seu interesse pelo mercado de vinhos?

Frequentemente me perguntam o motivo que levou um economista a se interessar por vinhos. Costumo dizer que foi o mesmo que levou um adolescente a se interessar pelas ciências econômicas: a curiosidade e a inquietude diante de um assunto tão “misterioso” quanto fascinante. No caso do vinho, também havia a desconfiança, a dúvida de como poderia caber tanta informação, história, ciência, trabalho e paixão dentro de uma taça? Assim como quando decidi entender mais sobre economia, o mesmo se deu em relação ao mundo de Baco: no meu cérebro pairava uma dúvida sobre o que faria sentido e o que, de fato, era enganação nas falas dos especialistas.

E como surgiu a ideia do e-book?

A ideia de fazer esta pesquisa nasceu quando, ao perguntar aos agentes que atuam no setor vitivinicultor sobre o comportamento padrão do consumidor de vinho, recebia respostas pouco conclusivas. Faltavam dados robustos sobre diversas questões vitais para a análise econômica da atividade. Os vendedores, sejam eles lojistas ou produtores, conhecem os números de suas vendas, mas na maioria das vezes não sabem por qual motivo as pessoas demandam seus produtos. Esta lacuna de conhecimento pode não inviabilizar seus negócios, mas é pouco provável que otimize o retorno sobre o capital investido. Por isso o objetivo do questionário aplicado ao consumidor de vinhos no Brasil (e aos não consumidores) foi entender por que ele age de determinada maneira e quais condições seriam necessárias para mudar seu padrão de consumo. Sucintamente, a pesquisa visa delimitar as possibilidades para expansão da oferta e quais ações fomentadoras de vendas poderiam ser adotadas. Sem conhecer os números, muitas ações se tornam um “tiro no escuro”.

Quais as principais conclusões dessa pesquisa?

Sou suspeito porque acho que todas as informações do livro são muito úteis. Todavia, para ser mais específico, eu ressaltaria: as respostas que possibilitam medir a elasticidade-preço e a elasticidade-renda da demanda por vinho; os resultados referentes às preferências por gênero; e os resultados que relacionam as faixas de renda com as faixas de preços. Quanto às elasticidades, observa-se que os consumidores se mostraram pouco propensos a aumentos no consumo, seja por redução de preços, seja por aumento em suas rendas. No que tange à preferência por gênero, o resultado destrói o mito de que mulheres preferem espumantes quando mostra que cerca de 70% delas optam por vinhos tintos. Por fim, quando se confronta faixas de renda com faixas de preços, verifica-se que mesmo entre consumidores de renda alta parece haver um teto para o preço de uma garrafa de vinho, ou seja, não é uma relação proporcionalmente linear.

Qual o impacto da pandemia no mercado de vinhos no Brasil?

No que se refere a mudanças de consumo durante a pandemia, embora muitos tenham aumentado o consumo, uma boa parcela reduziu e outra manteve a demanda inalterada. A pesquisa mostrou que 42,1% aumentaram o consumo, 37,1% mantiveram a demanda inalterada, 15,5% diminuíram a compra e 5,2% pararam de consumir. No geral, durante a pandemia, o consumo de vinhos no Brasil cresceu muito. A expectativa é saber se continuará crescendo ou diminuirá, ou, ainda, para qual patamar irá no pós-pandemia.

Como os produtores brasileiros buscam atender a essa demanda?

Na realidade, a demanda por vinhos no Brasil supera em muito a capacidade de nossa oferta. A produção brasileira tem crescido, tanto nas regiões tradicionais como em novas regiões produtoras. Os produtores nacionais têm investido em novas tecnologias, seja nos vinhedos, seja na elaboração na adega. Novas castas têm sido plantadas, assim como vem surgindo novos terroirs. Mais produtores têm investido nas regiões Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste, bem como novos estilos de vinho vêm sendo lançados e testados no mercado brasileiro. Ações de marketing e “enoeducativas” também vêm ajudando no aumento do interesse dos consumidores. O desafio dos stakeholders do mercado é descomplicar o consumo do vinho, mostrando que o vinho pode ser “normalizado”, ou seja, pode ser consumido para comemorar um evento importante na vida das pessoas, mas, também, pode e deve ser consumido hedonisticamente no nosso cotidiano.

Quem tiver interesse em conhecer o seu trabalho, como pode fazer?

Pode fazer o download, clicando no buscador da Amazon o título do e-book, “Visitando o que pensa O CONSUMIDOR DE VINHO NO BRASIL: um olhar pela lente de um economista traduzido em estatísticas e gráficos”, https://www.amazon.com.br/dp/B09887CLV2 Haverá um custo de R$ 15,00, e a Editora é a Cinco Continentes, 1ª edição (28 junho 2021). Mais informações sobre o mercado de vinho podem ser encontradas no perfil do instagram @economista_na_adega

As lições europeias no enfrentamento da Covid-19

 

Pedro Pita Barros
Economista, Catedrático da Universidade Nova de Lisboa,
Membro do Conselho Nacional de Saúde de Portugal,
Editor do International Journal of Health Economics and Management

 

 

Qual a contribuição da economia da saúde para o entendimento da dinâmica e das consequências da epidemia da Covid?

A economia da saúde ajuda a colocar na discussão os elementos de valorização dos vários equilíbrios, que é preciso ir estabelecendo, e a compreender efeitos menos evidentes. Por exemplo, ajudar na priorização para vacinação, segundo a capacidade para beneficiar individualmente e em termos de quebrar as cadeias de transmissão; também chamar a atenção para desvio de recursos para atender os doentes com Covid-19 tem custos escondidos de outras doenças que ficam por tratar; a importância das questões de equidade no acesso a cuidados de saúde necessários, e às vacinas, são igualmente um tema em que a economia da saúde contribui para melhores decisões.

Como a Europa, e Portugal em particular, estão vendo a situação brasileira atual?

Do lado de cá do Atlântico, a situação do Brasil é vista com preocupação. Por um lado, preocupação com os custos (e a dor) para a população brasileira de não terem uma resposta adequada à pandemia. Essa resposta tinha que passar, quer por medidas de contenção da difusão do vírus, quer por apoio social a quem fica mais afetado na componente econômica. Por outro lado, a preocupação também com a possibilidade de serem geradas variantes que criem dificuldades adicionais no controle da pandemia.

Qual o efeito das vacinas sobre o número de mortes e de novos casos na Europa?

Tem havido um claro efeito de redução de mortes face ao que sucederia se não houvesse as vacinas. Nos novos casos, a situação é mais complicada por causa da nova variante Delta, que tem gerado um aumento muito rápido de novos casos. Começou no Reino Unido e está agora a espalhar-se pela Europa Continental.

Como tem sido feita a compra de vacinas na comunidade europeia e quais os critérios de distribuição?

A Comissão Europeia coordenou a compra conjunta, antecipada, de vacinas a várias empresas, ainda na fase de desenvolvimento (como forma de gerar fundos que permitissem terminar os processos de criação das vacinas, e como forma de garantir acesso dos países da União Europeia participantes às novas vacinas). A distribuição entre países é feita segundo o critério de população de cada um. Esta regra permite que os países da União Europeia participantes estejam sensivelmente no mesmo nível de vacinação (dependendo da rapidez dos processos de cada país e não da disponibilidade de vacinas diferente).

Quando a Europa e Portugal irão atingir a chamada imunidade de rebanho?

Honestamente, não sabemos. As novas variantes, como a Delta ou outra que a venha a substituir – esperamos que não, mas a biologia não é complacente com as nossas esperanças – alteram os níveis necessários de pessoas imunes para se criar essa imunidade de grupo ou de rebanho. Para as estirpes originais, falou-se muito em ter 70% da população vacinada. Agora, com a variante Delta, há quem estime que poderá ser necessário 85%, ou mesmo mais, da população imunizada para se conseguir esse efeito de imunidade de grupo. E claro, haverá sempre o risco de surgirem mais tarde variantes vindas de outras geografias que compliquem essas contas.

Mulheres da Economia e a I Enconexão

 

Cristiane da Silva
Doutoranda em Economia,
professora de Matemática e Estatística

 

 

Qual a proposta do I Enconexão, que será realizado em julho próximo?

O 1º Enconexão, que será realizado no dia 24 de julho próximo, tem como proposta promover e fomentar reflexões e debates relacionados à economia e sociedade, sob uma perspectiva de economistas, empreendedores(as) e gestores(as) de projetos sociais. O evento foi pensado no intuito de fomentar a discussão, a troca de conhecimento, fornecendo visibilidade aos estudos realizados ao garantir um espaço para divulgação em mídias digitais.

A que público é dirigido e que áreas serão abordadas?
O evento destina-se aos pesquisadores, profissionais e alunos da área de Ciências Econômicas, de áreas afins, integrantes de ONGs, projetos sociais, e ao público em geral. Além destes, espera-se que mais pessoas sejam beneficiadas pelos conhecimentos compartilhados através da divulgação nos meios de comunicação. Em outras palavras, esperamos a participação da sociedade como um todo, interessada em discussões de cunho econômico e social. Nossas áreas temáticas são Economia Feminista; Economia da Saúde; Economia do Trabalho e da Educação; Macroeconomia e Finanças; Economia, Política Social e Demografia Econômica; Desenvolvimento Econômico e Sustentabilidade Ambiental.

Vocês já estão recebendo trabalhos para submissão?
Sim. Foram submetidos trabalhos em todas as áreas temáticas, enviados por pesquisadoras de diferentes estados brasileiros, o que garantirá a pluralidade nas discussões enriquecendo o debate.

Como os interessados podem participar do evento?
A submissão de trabalhos encerrou no dia 14 deste mês, mas as inscrições para participação como ouvinte estarão abertas até o dia do evento, ou seja, até o dia 24 de julho. Destacamos que será fornecido certificado digital de participação como ouvinte, desde que esteja formalmente inscrito no evento.
O que é o Conexão Mulheres e Economia (CM&E), que está promovendo o Encontro?
É um grupo de mulheres interessadas em discussões econômicas e sociais, que se reúne periodicamente para debater assuntos relacionados. O propósito do grupo é divulgar o trabalho das integrantes, destacar suas contribuições para a sociedade, ampliando a rede de contatos, bem como evidenciar a participação feminina em diversos estudos.

Qual o objetivo do grupo?
Um dos principais objetivos do grupo é dar visibilidade à produção científica e atuação de mulheres na área da Economia, além de desenvolver a cooperação entre mulheres ligadas à economia e identificar a importância delas no mercado de trabalho e na academia.

Como devem fazer as mulheres economistas interessadas em participar do grupo?
Convidamos as interessadas a acessar a nossa página através do endereço https://conexaomulhereseconomia.com.br/?page_id=54. Clicando em “Faça Parte” será possível indicar como deseja participar (participar das reuniões, atividades e decisões do grupo; produzir conteúdos eventuais e/ou participar dos eventos e de cursos pontuais organizados pelo grupo; apenas compor a rede e/ou acompanhar; outro). Aproveito para convidar os(as) interessados(as) a nos acompanhar nas redes sociais, como no Facebook e Instagram. Agradeço a oportunidade e o espaço para falar sobre o I Enconexão, e sobre o nosso grupo, Conexão Mulheres & Economia. Será um prazer tê-las(os) conosco!

Novos cenários para a Região Sul do Estado


Marcelo de Oliveira Passos

Economista, Coordenador do Curso de Ciências Econômicas
Universidade Federal de Pelotas (UFPel)

 

 

Qual o perfil da economia da região Sul do Estado do RS?
.
Gostaria de enfatizar que muitas dessas informações sobre a economia da Região Sul do Estado do RS estão presentes em artigo sobre uma rede complexa, baseada na Matriz de Insumo Produto da Região, que estou produzindo, junto com os pesquisadores Rodrigo Rocha Gonçalves, da FURG, e Gabrelito Menezes, aqui da UFPel. Nós fizemos uma análise com todos os setores produtivos dos 28 municípios que fazem parte da região do Conselho Regional de Desenvolvimento da Região Sul do Estado (Corede Sul). Encontramos um indicador chamado “Encadeamento para a Frente”, isto é, o quanto um setor produtivo é demandado pelos outros. E ranqueamos os setores mais demandados por outros setores da região. Constatamos que, de longe, o mais importante é o comércio, com um índice de 3.8, seguido por agricultura e silvicultura, com 2.14, abate produtos, com 2.01, construção, com 1.8, transporte de carga rodoviário com 1.73, outros produtos alimentares, com 1.5 , manutenção recuperação e instalação de máquinas e equipamentos, além de produção de madeira, armazenagem, intermediação financeira, entre outros.

E, dentro desse cenário, que segmentos mais demandaram insumos de outros setores?

É o que, no estudo, chamamos de “Encadeamento para Trás”. Em primeiro lugar abate e produtos, com um índice de 1.63, o que demonstra que a a economia da região ainda é fortemente baseada no setor tradicional da pecuária. Depois, o setor da alimentação, com um índice de 1.3; outros produtos alimentares, com 1.26; produtos de madeira, com 1.23; outros equipamentos de transporte, 1.22; perfumaria higiene e limpeza, 1.22, entre outros. Simultaneamente, aqueles setores que tiveram os maiores índices de encadeamento para a frente e para trás, maiores que um, são os mais importantes. São os que mais demandam e são mais demandados. Pela rdem, são os seguintes: pecuária e apoio; abate e produtos; outros produtos alimentares; produtos de madeira, excluindo móveis e fabricação de químicos, resinas etc.

Como os diferentes setores da economia regional vêm reagindo a esse período de pandemia?

O comércio, que é o setor mais dinâmico da região, sofreu bastante com os lockdowns. E também com a própria queda da demanda, mesmo nos períodos em que não ocorreram o lockdowns. O comércio sentiu porque uma boa parte do setor de comércio e serviços gira em torno das atividades, como o caso de Pelotas e Rio Grande, que envolvem escolas e universidades. Cabe lembrar que Pelotas é o terceiro pólo universitário do RS. Tem uma série de bares, comércio de alimentação, casas de festas, papelarias, imóveis de aluguel etc. que sentiram muito a queda da demanda. Muitos alunos saíram da região, retornando às suas casas, às suas cidades, ficando com aulas à distancia. Já outros setores, como agricultura, silvicultura, produtos de madeira e atividades ligadas a abates e produtos defensivos agrícolas, tintas e químicos tiveram um impulso decorrente principalmente da maior demanda externa, com a recuperação das economias chinesa, indiana e europeia. Estamos vivendo um superciclo de alta da demanda e de valorização das commodities. Isso de certa forma atenua os impactos nocivos da pandemia no comércio e serviços. Na área de construção, também houve uma recuperação notável na região, desde o ano passado, com pessoas, sobretudo famílias de renda mais alta, buscando imóveis maiores para adaptar-se ao novo momento de trabalho em home office. Mas isso ocorreu em meados do ano passado. Agora, os preços do material de construção subiram bastante e também a mão-de-obra do setor encareceu, o que reduziu um pouco o ciclo de expansão do ano passado. Mas o setor ainda está aquecido na região.

Que cenários esse crescimento de 1,2% do PIB brasileiro no primeiro trimestre deste ano, recentemente divulgado pelo IBGE, sinaliza para a economia da região?

É um indicador muito importante, embora, para a nossa região, o que vai realmente afetar positivamente a atividade econômica é a vacinação em massa e a retomada de exportações de commodities. Felizmente, o RS vem liderando as estatísticas de vacinação, e a tendência é que tenhamos uma recuperação maior em nosso Estado. Com a vacinação, espera-se que gradativamente o consumo das famílias volte a crescer, o que pode reduzir os estragos que a pandemia causou ao comércio da região.

O reconhecimento por parte da Organização Mundial de Saúde Animal (OIE), que coloca o RS como uma das novas zonas livres de febre aftosa também traz grandes espectativas à Região Região Sul do Estado?

A região tem o setor pecuarista como uma atividade tradicional e ainda muito importante, como foi dito. Então, os efeitos desse indicador tendem a ser muito positivos, já que impacta diretamente no setor de abates e produtos, assim como na agricultura e em todos os setores relacionados. Lógico que, num primeiro momento, haverá uma tendência natural de aumento do preço da carne, em função da aceleração das exportações, mas que, logo depois deverá ocorrer um aumento da oferta, com maiores investimentos, e aí o preço volta a estabilizar-se no médio e longo prazos.

Passados os piores momentos, quais os grandes desafios para a Região?

Um dos principais desafios para região é a questão dos transportes. Estamos, há muitos anos, tentando uma melhora de infraestrutura para as nossas rodovias que ligam a capital à região do extremo sul do estado. Somente agora isso vem acontecendo, desde o início do atual governo, com as obras do trecho da BR116 que vai de Porto Alegre à Rio Grande sendo retomadas pelo Exército. É uma obra importantíssima para a economia de Rio Grande, que depende muito da atividade portuária, e também para o escoamento da produção agrícola e redução dos custos de transação no setor. Outro grande desafio é a questão da desindustrialização. Essa região, sobretudo Pelotas e Rio Grande, já foram regiões industrializadas, com indústrias alimentícias importantes regionalmente nos anos 80. Mas que entraram em crise após essa década. Muitos ainda vêem a desindustrialização como um problema que só se resolve com um novo ciclo de investimentos industriais. Mas isso não é mais assim, hoje em dia. Já há sinais em Pelotas e em outras cidades como Florianópolis e Buenos Aires, de investimentos importantes na chamada economia criativa, baseada na produção de serviços e bens com conteúdos tecnológicos, startups, aplicativos, games etc. Nós temos duas universidades federais e outras privadas com bons cursos de ciência da computação, com ótimos professores e pesquisadores, estrutura adequada de laboratórios, mas que, infelizmente, exportamos cérebros para outras cidades. Muitas pessoas se qualificam aqui e saem pra trabalhar em outras regiões do País porque não encontram emprego na região.

E como mudar essa realidade?

Os sinais já apontam para uma mudança e um caminho para melhorar isso seria fomentar o empreendedorismo voltado para startups, para a economia criativa, para o lazer, para a produção de games, enfim, uma série de atividades voltadas para domínios de informática, de programação, ciência de dados e, também, o domínio de atividades mercadológicas, como empreendedorismo, marketing digital, enfim, habilidades que levem a uma expansão desses setores. O fato de uma economia se desestabilizar não significa a sua sentença de morte. Buenos Aires, que foi uma cidade que no passado teve uma indústria importante, desindustrializou-se, e hoje encontra-se muito focada na economia criativa, com uma ótima produção de cultura, cinema, aplicativos, música. Outra cidade é Florianópolis, que não tem uma base industrial comparável à Joinville, mas que possui uma economia criativa e polos tecnológicos relevantes. Então, é um caminho para a economia aqui da região, especialmente Pelotas e Rio Grande. Mas isso depende de um apoio governamental, de iniciativas empresariais, e do fortalecimento de uma cultura voltada para o empreendedorismo e para a inovação.

A arte como investimento e valorização da cultura

Maria Fernanda Santin

Economista, mestre em desenvolvimento econômico,
MBA em finanças e gestão de negócios, empresária
Corecon-RS Nº 6864

 


Por que resolveste migrar da área de consultoria para empreender?

Desde muito cedo, sempre me interessei por atividades empreendedoras. Aos 16 anos, fui emancipada juridicamente para poder ter meu próprio negócio. A partir daí, sempre gostei de descobrir nichos que tivessem a ver com meu perfil, o que é muito importante no momento de empreender, visto que a dedicação precisa ser grande. Por isso, considero que fazer algo que se gosta é um dos fatores para ter sucesso. Ao longo da minha carreira de economista, sempre trabalhei em grandes empresas, e, em paralelo, atuava como consultora econômica, produzindo análises, estudos de viabilidade, avaliações econômicas. E a vivência nas grandes empresas foi muito importante para que eu aprendesse novos temas e os colocassem em prática, seja nas próprias empresas ou nas consultorias que eu praticava ou mesmo nos meus próprios negócios. Com meu amadurecimento, percebi que dificilmente me encaixaria 100% no mundo corporativo, como funcionária. Sempre fui muito questionadora. Aprendi que tudo na vida precisa ter um propósito. E, muitas vezes, trabalhando como funcionária, você trabalha pelo propósito dos acionistas ou proprietários das empresas e não pelo seu próprio.

De onde saiu a ideia de empreender através da galeria?

A oportunidade de trazer a Galeria Clima de arte contemporânea para Porto Alegre partiu de um convite do meu primo, que fundou a Galeria em Brasília há mais de 20 anos. A Galeria, que, atualmente possui unidades em Brasília, Rio de Janeiro, Miami e agora em Porto Alegre, trabalha com artistas que possuem visibilidade no mundo das artes, apresentam um trabalho consistente e potencial de valorização ao decorrer do tempo. Isso foi um fator que me motivou bastante: oferecer arte de qualidade como uma alternativa de diversificação de investimento. E, por coincidência, ainda na época da faculdade, sempre pesquisava o tema da arte como investimento. Então, fiquei bem animada em poder colocar isso em prática.

Como conciliar investimento e acesso à cultura?

Em países mais maduros, a aquisição de obras de arte como alternativa de diversificação da carteira de investimento já é algo muito comum. No Brasil, temos o desafio de aculturar o investidor neste sentido. Por exemplo, obras de arte com potencial de valorização são relativamente caras, pois são precificadas considerando diversos fatores, tais como as técnicas e os processos criativos utilizados pelos artistas, consistência da carreira, exposições realizadas, obras em acervos, dentre outros fatores. O investidor não precisa necessariamente entender destes fatores para investir em arte. Para isso, basta se assessorar com especialistas no assunto, como se faz ao investir em ações. No entanto, para que haja o interesse em dar o primeiro passo, é necessário despertar e ampliar o olhar e isso passa por consumir mais cultura. A boa notícia é que acesso à cultura nesta perspectiva está cada vez mais fácil graças à internet. Hoje, você consegue visitar os grandes museus virtualmente, há centenas de vídeos disponíveis no youtube, dezenas de filmes nos canais de streaming, todos os conteúdos das redes sociais... Então, se torna mais fácil o mergulho neste mundo fantástico. Inclusive, nós temos um blog em que falamos sobre a história da arte, quem são nossos artistas, como investir em arte, etc. (www.galeriaclimapoa.com.br)

Qual o próximo passo da Galeria Clima?
A Galeria Clima tem um braço institucional forte, no sentido de buscar parcerias com instituições locais para desenvolver o mercado da arte local e assim, contribuir para ampliar o acesso à cultura e desmistificar a ideia de que as artes plásticas é acessível apenas à elite. Atualmente, temos uma parceria forte com o Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul e ainda para este ano, queremos trazer uma exposição de arte que acontecerá na sede própria do MAC-RS, no IV Distrito, que visa colocar o museu no circuito de arte da Capital e também arrecadar fundos para a continuação da reformada do espaço.

Como é empreender neste setor no Brasil?
O Brasil é considerado um país criativo por natureza. São Paulo, Rio de Janeiro, Santa Catarina e o Rio Grande do Sul são os estados que possuem mais trabalhadores nos setores considerados criativos. Isso dá uma dimensão da efervescência do tema. Em específico, sobre o segmento de arte contemporânea no país, o mercado primário (quando a obra é vendida pela primeira vez) ainda é jovem. Porém, dinâmico e está em processo de expansão e internacionalização. Em torno de 75% das vendas acontecem no mercado primário. Neste mercado, as galerias possuem o desafio de identificar os artistas que julgam relevantes para representarem.

Quais os grandes desafios do setor?
No caso da Galeria Clima, o desafio de encontrar novos integrantes para compor nosso portfólio é um pouco maior, pois precisamos identificar os artistas que apresentam trabalhos consistentes, que possuem potencial de valorização ao longo de sua carreira, visto que um dos nossos direcionadores é oferecer arte como alternativa de diversificação de investimentos. Além de quê, a convergência entre a linha curatorial da Galeria e os artistas é muito importante. Em relação ao mercado secundário (quando a obra foi adquirida no mercado primário e está sendo revendida) este só é relevante quando falamos em obras de artistas de renome. Ao contrário, o valor das obras é baixo. Neste caso, ainda temos o desafio de lidar com a falsificação. Quanto maior o valor de uma obra, maior é o interesse dos falsificadores. Ao comprar uma obra falsificada, o investidor tem seu investimento reduzido a zero. Por isso, sempre é importante a aquisição por meio de galerias sérias, que se responsabilizam pela procedência das obras.

De que forma o curso de economia ajudou a entender melhor esse mercado?
O curso de economia me deu as bases para analisar e entender quaisquer mercados que eu venha a me interessar. Análises setoriais e concorrenciais, tendências de médio e longo prazo, retorno do investimento, formação de preços e tantos outros temas abordados pela economia são essenciais para se entender o setor que se pretende entrar e também para estruturar o negócio, que precisa ser viável do ponto de vista financeiro. A abrangência dos temas econômicos me deu base para expandir em diversos outros temas correlatos, uma vez que ensina a pensar nas relações entre agentes em diversos contextos. Se eu tivesse que escolher novamente um curso, com certeza, seria a economia.

 

De Circense à Economista

Amanda Schmidt Stevanovich
Economista, Especialista e Assessora de investimentos
na InvestSmart - XP Investimentos


De onde saiu o gosto pela economia?

A minha família é circense e vive da arte e da cultura há cinco gerações. Quando eu era criança, tinha vergonha de me apresentar no palco e o que eu gostava mesmo era de ficar escondida na bilheteria do circo e nos caixas da praça de alimentação, mexendo com dinheiro e atendendo o público. Buscando um caminho diferente da minha família e unindo a minha paixão por números, dinheiro, pessoas e estudos, escolhi o curso de Economia na Universidade Federal de Santa Catarina.

Como surgiu o projeto de trabalho, o Push Econômico, que você chegou a desenvolver?

O Push Econômico surgiu há um ano atrás, quando começou a pandemia e tínhamos muitas mudanças econômicas e políticas acontecendo no Brasil e no mundo. Quando vi que as pessoas não estavam entendendo por que a taxa de juros estava caindo, o dólar subindo e muitas outras mudanças acontecendo, senti a necessidade de expor meu conhecimento sobre economia nas redes sociais. O Push Econômico também serviu como um desafio. Queria vencer meu medo de me expor em público, e as redes sociais funcionaram como um palco, que eu não tinha vivido no circo. Em pouco tempo, mesmo sem ir atrás, recebi várias propostas de trabalho na assessoria de investimentos.

Por que a Assessoria de investimentos?

Três palavras definem a assessoria de investimentos e me instigam como profissional: dinâmica, conhecimento e desafios. Você precisa estar sempre informado e estudando o que está acontecendo nos mercados, e ainda precisa estar envolvido com o dinamismo de prospectar e conquistar novos clientes. Vejo, também, como a profissão do futuro. A profissão do assessor de investimentos é uma das mais nobres nos Estados Unidos. Cerca de 90% dos americanos investem com os “Financial Advisors”. Aqui no Brasil, os números ainda são o contrário, onde cerca de 90% das pessoas ainda investem em bancos tradicionais. Porém, existe o crescente interesse do brasileiro por investimentos e a mudança de mentalidade sobre o mercado financeiro. Esse movimento chegou para ficar e não tem mais volta.

O que faz o assessor de investimentos?

O assessor de investimentos é um elo entre o investidor e o mercado financeiro. Ele identifica as necessidades e objetivos de pessoas e de empresas, direcionando aos investimentos e produtos mais adequados de acordo com cada perfil e objetivo.

O que é necessário para a pessoa que quer investir?

Saber se planejar financeiramente é essencial. Saber suas receitas, despesas, capacidade de poupança e objetivos pessoais são essenciais para começar a traçar uma carteira e um plano de investimento. Não existe uma fórmula mágica de uma carteira de investimentos ou de um investimento em si. A pessoa tem que levar o valor que ela quer, mais o prazo e a finalidade, para resultar no objetivo. Essa é a fórmula. Claro que se tiver um excelente profissional que faça isso para você, certamente vai fazer muita diferença lá na frente. A ideia de procurar um médico especialista em joelho quando ele dói é a mesma de quando você procura um especialista nas finanças quando você tem necessidade de investir.

E o risco, onde entra?

É muito importante a pessoa identificar o tipo de investidor que é. Se você é do tipo conservador, moderado ou agressivo. Basicamente: “qual o tipo de restaurante você quer frequentar?”. O perfil conservador é aquele em que a pessoa aceita perdas, quer sempre rendimentos constantes. O moderado é um investidor que gosta de preservar a parte conservadora, mas aceita tomar um investimento com um pouquinho de risco. Não é avesso a perdas, mas gosta de manter a parte do seu perfil conservador. O perfil agressivo é o investidor que aceita melhor o risco para buscar maior retorno. Todo investimento tem risco, até mesmo comprar um imóvel ou colocar o dinheiro na poupança. Por isso é importante você entender em qual tipo de perfil você se encaixa para entender qual tipo de risco tomar.

Nesse período de pandemia, que tipo de investimento é mais interessante. A compra de um imóvel pode ser uma alternativa?

Existem investimentos interessantes no mercado financeiro o tempo todo. Tudo depende do que você quer. O investimento financeiro mais adequado faz parte do perfil e da finalidade de cada pessoa. Os juros baixos e as incertezas econômicas desencadearam o movimento da busca pelos imóveis e o investimento na economia real. Agora, entre comprar um imóvel ou aplicar o dinheiro, também vai depender do custo de oportunidade. Você pode comprar um imóvel ou um terreno em determinada região que vai dobrar, triplicar ou quadruplicar de valor em pouco tempo. Também tem que levar em consideração os planos pessoais. Muitas pessoas tem o sonho de ter a casa própria e não vejo nada de errado com isso. Hoje, com conhecimentos no mercado, não sinto a necessidade de ter um imóvel. Sei fazer uma carteira de investimentos com fundos imobiliários que me gera um aluguel mensal, com liquidez e isento de imposto de renda.

Qual a sugestão que deixas para estudantes de Economia que pretendem conhecer e aprender a trabalhar com assessoria de investimentos?

Estude e tenha bons relacionamentos. Certamente, essas duas qualidades te levarão ao caminho do sucesso na assessoria de investimentos.

As lições de Mundell, Nobel de Economia e “pai” intelectual do euro


Ernani Hickmann
Professor da Escola de Pós-Graduação em Economia (EPGE) Fundação Getúlio Vargas (FGV),
Coordenador dos Cursos de Graduação Latus Sensu da FGV

 

 

Qual o legado para a economia contemporânea, deixado pelo economista canadense Robert Alexander Mundell, Nobel de Economia em 1999 e considerado o “pai” intelectual do euro, falecido na última semana, na Itália?

Mundell nasceu em 24 de outubro de 1932, em Kingston/Ontário, no Canadá. Graduou-se pelo Departamento de Economia da Universidade Britânica de Colúmbia (UBC), em Vancouver. Obteve seu mestrado na Universidade de Washington, em Seattle, e frequentou o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), onde obteve seu doutorado em economia. Suas principais contribuições foram, por um lado, a chamada economia da oferta, corrente econômica surgida na década de 70, por influência de Mundell e de Arthur Laffer, que analisava o efeito de diminuições da carga fiscal sem que houvesse necessariamente cortes na despesa pública. Em segundo lugar, a contribuição dele para a macroeconomia internacional, ao colocar seus modelos macroeconômicos para o desenvolvimento de economias fechadas, provocando uma mudança de comportamento de ideias nos demais países. E, depois, a própria criação, junto com Marcus Fleming, do chamado Modelo Mundell-Fleming, de economia aberta, e a criação dos desenvolvimentos das áreas ótimas de moedas. Uma análise sobre que condições e características devem ter determinados países, estados ou regiões, para que uma moeda única entre eles ofereça o que se espera de uma moeda.

Nos anos 70, ele teve uma participação muito direta junto ao governo Reagan. Como foi essa ação?

A maior contribuição de Mundell aconteceu, a meu ver, na época do presidente Reagan, nos EUA. Eu credito a ele boa parte do desenvolvimento da tecnologia a partir da década de 70. Ele, com suas recomendações ao presidente Reagan, criou as condições para que houvesse toda a grande revolução da informática, de internet, enfim, de tudo o que se seguiu em termos de modernização tecnológica do mundo.

Que mudanças foram propostas?

Até a época do presidente Reagan as empresas e grandes corporações dos EUA, eram taxadas pelo imposto de renda da pessoa jurídica, com uma alíquota marginal de mais de 70%. Isso quer dizer que os lucros superiores a um patamar relativamente baixo, o lucro adicional era tributado em 70 a 75%, o que levava a ausência total de investimentos. Se você vai fazer um investimento que vai ter que entregar 75% dos seus resultados para o governo, você não vai investir. E foi a recomendação dele, juntamente com Laffer, ao então presidente Reagan, sobre a necessidade de reduzir esta alíquota para uma faixa de tributação considerada normal, que era de 25%. Então, os lucros das empresas, que eram tributados em 75% baixaram para 25%, gerando um grande fluxo de investimentos privados no desenvolvimento de novas tecnologias. E foi por isso que as grandes empresas surgiram, investiram e criaram a revolução da informática, que mudou o mundo. Por isso, considero a principal contribuição dele à economia. Com esse ativo aos investimentos, e isso está ligado à economia da oferta, a qual Mundell era talvez o principal teórico.

O senhor, como amigo dele, discutia seguidamente esses pensamentos e contribuições?

Discuti longamente com Mundell essas contribuições, já que ele foi o meu orientador no Pós-Doutorado na Universidade de Columbia, lá pelos anos de 1991, 92, 93. Depois disso, o acompanhei em organizações de eventos internacionais. Participamos juntos do Reinventing Brettonwoods Commitee, que reunia algumas vezes por ano, em diversos países, um grupo de economistas do mundo inteiro, para discutir políticas cambiais e uma nova arquitetura financeira internacional para substituir a que tinha sido criada após a segunda grande guerra. O grupo se chamava Reinventando Brentwoods. Viajava pelo mundo todo, todas as semanas um país, ministrando aulas, dando conferências, assessorando governos e organizações privadas. Estava com ele no dia de seu aniversário, em 2014, e nos encontraríamos novamente no dia seguinte para almoçar com seus filhos. Só que, à noite, sofreu um grave AVC, fato que acabou tirando-lhe a capacidade de se locomover e de se comunicar, afastando-o definitivamente das reuniões e conferências, até o momento em que veio a falecer, na semana passada, aos 88 anos de idade.

Qual a relação do Modelo Mundell-Fleming com o keynesianismo?

Basicamente o modelo keynesiano, assim como as popularizações do mesmo, que a maioria das pessoas conhecem como sendo o modelo IS/LM, é um modelo de uma macroeconomia fechada, onde foi introduzido o setor externo. Mundell internacionalizou o modelo keynesiano, que tinha sido popularizado por John Hicks, passando a incluir as variáveis externas, permitindo formular políticas monetárias e fiscais adequadas para um mundo globalizado.

Como chegou ao Prêmio Nobel de Economia?

Mundell recebeu o Prêmio Nobel de Economia em 1999, por suas contribuições na área das políticas monetária, fiscal e cambial, e por ter criado a teoria das áreas monetárias ótimas, que serviu de base para a criação de moedas de âmbito multinacional, como o euro.

O professor Mundell esteve em Porto Alegre no ano 2000. O que o trouxe aqui?

Eu e ele organizamos, em abril e maio de 2000, pela Escola de Pós-Graduação em Economia da Fundação Getúlio Vargas, uma grande conferência internacional, "Mercosul - O Desafio de uma União Monetária”. Foi realizada no Hotel Plaza São Rafael, onde se discutiu as possibilidades da criação de uma moeda única para os países do Mercosul. Além da capital gaúcha, a conferência teve extensões no Rio de Janeiro e em São Paulo, e contou com a presença do então presidente Fernando Henrique Cardoso e de diversos economistas do mundo todo, inclusive o então todo poderoso ministro da Economia argentino, Domingos Cavalo. Foi o evento comemorativo ao lançamento do primeiro número do Jornal Valor Econômico.

O Economista e o mercado financeiro

Pedro Lutz Ramos

Economista-Chefe do Sicredi, Doutor em Economia,

Conselheiro do Corecon-RS
Corecon-RS Nº  7226

 

 

O que é exigido de um profissional para atuar no mercado financeiro?

O mercado financeiro exige um profissional, que eu diria, que, em termos de competência técnica, não necessariamente falando de conhecimentos que aprendemos na faculdade, mas construídos à base de estudos mais de educação formal, digamos assim. Acho que dentro desse aspecto, é um setor que tem uma demanda por muitos campos de conhecimento. Uma demanda de macroeconomia, de finanças, de matemática, de programação, e, até mesmo, conhecimento de direito. Então, é uma atuação bastante complexa, que engloba pessoas das mais diferentes formações.

E como se encaixa o profissional da Economia nesse mercado?

O economista, por ser um cientista, tem a sua vida facilitada pelo uso de ferramentas lógicas, como estatística, matemática, que estão, naturalmente, no campo do seu conhecimento. Também a macroeconomia, que é praticamente exclusividade de estudo do economista, e que acaba sendo o grande diferencial no mercado, já que se trata de uma área muito complexa e, por isso, acaba sendo mais difícil para os profissionais de outras áreas do conhecimento aprenderem de forma isolada. É que a macroeconomia, por exemplo, é uma bagagem que vai se construindo lá atrás, com o estudo da introdução à economia, a microeconomia, até chegar na macro. E é, sem dúvida, um diferencial muito grande conhecer a macroeconomia e saber como ela se relaciona com finanças ou com o gerenciamento de risco, com crédito, que são pontos extremamente importantes dentro das instituições financeiras. Portanto, o economista acaba tendo essa vantagem porque tem um certo monopólio sobre um assunto. Por exemplo, o estatístico pode ser muito bom em matemática, entender de finanças e até entender de direito, mas para chegar a entender de macroeconomia é uma jornada bem mais longa. Não que eles não aprendam, mas é uma jornada bem mais longa.

Até que ponto os cursos de Economia chegam a preparar os alunos para o mercado financeiro?

Acho que a graduação não consegue entregar tudo que precisa para seus alunos atuarem futuramente no mercado financeiro. Até porque, de alguma maneira, a intensidade do conhecimento exigida em cada um desses campos não é baixa. Embora ele não seja algo ultra complexo, ou seja, não precisa saber programar como um engenheiro da computação, ou conhecer estatística exatamente como um estatístico, não precisa entrar no modo pesado de desenvolvimento, mas, também, não será contemplado por um nível muito intermediário. Dependendo de onde você cai no mercado, para onde está direcionando a carreira, é importante, sim, intensificar. Se está indo para uma área de crédito, talvez deva ter que conhecer programação num nível que não seja tão básico, porque é exigida uma quantidade de dados muito grande nessas áreas. Por mais que se pense em criar produtos e que se use a racionalidade econômica do que se aprendeu em Economia, tem-se que navegar em base de dados, e, para isso, conhecer um pouco de programação, de estatística, enfim. O mesmo, vale para uma área mais financeira, onde tem-se que saber um pouco mais de macroeconomia. E, muitas vezes, o economista aprende finanças num curso formal de Economia, o que, não poucas vezes, é insuficiente para atuar dentro de uma área de finanças.

Aí tem que buscar uma especialização complementar?

Sim. Tem a pós-graduação, ou, mesmo, aproveitar, de forma complementar, os currículos de finanças oferecidos pelos cursos de Administração, de Contabilidade, ou, ainda, a possibilidade de vislumbrar um estágio que possa oferecer um up grade do nível de conhecimento, enfim. Só que, para dificultar, as próprias universidades possuem, entre elas, uma certa variação de ênfase em suas grades curriculares, umas mais voltadas para a macro e finanças e outras para estatística, história ou política de desenvolvimento econômico. O certo é que, por outro lado, toda essa complexidade torna a jornada do estudante de economia ainda mais desafiadora, mas não menos complexa e até intrigante.

Qual o recado que fica para os futuros profissionais de Economia, que pretendem atuar no mercado financeiro?

Especialmente para os estudantes de Economia, que eles procurem analisar bem o currículo, com foco nas cadeiras eletivas que a Universidade está colocando à sua disposição. Conversem com pessoas do mercado para saber se o que se está aprendendo é realmente aquilo que é necessário ou que é importante para conseguir uma carreira no mercado financeiro. Então, eu iria um pouco mais nessa abordagem.

E qual a dica para os profissionais, que querem se especializar nessa área?

Acho muito importante que o novo economista olhe para si próprio, para saber exatamente o que ele quer de sua carreira profissional. O economista é polivalente. Ao mesmo tempo em que pode sair da faculdade com aquela sensação de que não pode fazer nada aplicado, na verdade ele é um cientista, já que aprendeu muitos métodos de resolver um problema, mas não aprendeu necessariamente o método de resolver um problema específico. Então, deve se olhar e ver qual o tipo de carreira ele quer seguir. Se quer trabalhar para o governo, se quer ser um macroeconomista, ou se prefere trabalhar mais com finanças, ou, mesmo, no mercado financeiro. Isso é muito importante para ele buscar uma referência, uma complementação para conseguir atingir seus objetivos.

O mercado financeiro pode ser considerada uma área atraente?

O mercado financeiro agrega um leque de carreiras muito amplo e bem interessante. O crédito, risco de crédito, gestão de recursos, produtos de investimento ou, mesmo, o mercado financeiro propriamente dito, que são as mesas de operações. Cada um desses enfoques demanda uma quantidade de conhecimentos específicos necessários. Mas, apesar de ter uma trajetória mais longa, da qual muitas vezes o indivíduo sai pronto, o mercado financeiro acaba sendo uma carreira rentável, até porque os salários são muito atrativos e, mais importante, são profissões que, uma vez desenvolvida, acaba sendo envolvida com a escassez de pessoas. Então, a jornada pode ser mais penosa, mais desafiadora, mais longa, que envolvem temas complexos, mas que, uma vez adquirido tudo isso, torna-se um ativo muito difícil de ser trocado ao longo de sua caminhada profissional. São carreiras muito legais, muito bacanas de serem desenvolvidas e, ao mesmo tempo, muito compensadoras, em termos de aspectos financeiros e de gosto pessoal.

Economia da Oralidade


Jorge Cury Neto

Economista, Jornalista, professor,
autor do livro Economia da Oralidade

Corecon-PR 

 

Sobre o que trata a economia da oralidade?

A Economia da Oralidade é uma área do conhecimento dedicada ao estu­do da Economia aplicada ao uso econômico da Oralidade e as suas implicações sociais, políticas, culturais, tecnológicas e educacionais. Trata-se de uma área que tem a finalidade de propor, projetar, implementar, gerenciar e administrar a atividade de produção da oralidade e as suas implicações sistemáticas no processo de negociação, de comercialização e de troca de bens e serviços tangíveis e intangíveis.

Qual a importância da economia da oralidade para os profissionais da Economia e de outras áreas do mercado profissional?

Independente da área em que o profissional atua, desde aquelas que utilizam mais intensamente a fala como instrumento básico para o exercício da sua atividade, como aquelas que fazem pouco uso da palavra falada, tem igualmente o mesmo grau de necessidade. Desde o um professor em sala de aula, ou um contabilista, não podem presidir, se não quantitativa, mas qualitativamente, da sua voz para fins de uso profissional.

Para que público são destinadas as oficinas de Introdução à Economia da Oralidade que o senhor vêm produzindo?

Para todos os profissionais interessados em conquistar uma competência comunicativa geradora de riqueza, seja tangível ou intangível, e, em especial, para os economistas, por se trata de uma área econômica, podendo se tornarem economistas da oralidade.

Onde está inserido, dentro da economia da oralidade, o processo de voice design?

O Voice Design é o nome dado a área de desenvolvimento humano da Economia da Oralidade, onde todo o processo prático e de ensino é contemplado. O processo de aprendizagem e capacitação humana se dá pelas diversas etapa componentes do Voice Design.

Qual a importância do True News, especialmente numa época em que o mundo digital está tomado pelas fake news?

Trata-se de um antídoto contra a FAKE NEWS, que prescreve os procedimentos de apuração de notícias, adequada para o leigo que compreende motivar o indivíduo a buscar conhecimento, adquirir habilidade e ter atitude reflexiva diante da notícia consumida, seja, num primeiro momento, considerada falsa ou verdadeira. A proposta é que disciplinadamente aprenda a guardar uns instantes de silêncio, a fazer uma pausa estratégica para absorver adequadamente o impacto da notícia. Deste modo, evita-se uma reação impulsiva, levando o indivíduo a ter a devida cautela para propagar precipitadamente determinado fato, ou informação, que poderá lhe causar diversos danos, de diversos graus de intensidade, que podem ser irreparáveis, inclusive a terceiros. Com esta atitude comunicativa adquirida, o indivíduo está apto para checar a verdade, a realidade, com sinceridade e autenticidade as informações, os fatos que está tomando conhecimento, ao invés de reagir de modo precipitado diante de uma manifestação de fake News, o que, invariavelmente, gera algum nível de contrariedade, indignação, e, muitas vezes, sentimento de raiva, mesmo que inconscientemente, levando o indivíduo a tornar-se um disseminador de maledicência. Ao invés de agir, apenas reage.

Economia criativa e pandemia


Judite Sanson De Bem

Economista, professora da Universidade LaSalle
Corecon-RS Nº 4574

 

O que é economia criativa?

De uma forma clara e objetiva, pode-se definir economia criativa como todo tipo de negócio, ou atividade que produza algum tipo de valor, gerado a partir da criatividade, ou seja, atividades que envolvam criação, produção e distribuição de produtos e serviços, utilizando conhecimento e criatividade.

Que setores da economia estão representados pela economia criativa?

A atividade criativa está em todo lugar, mas a sua base tem foco mais definido nos serviços e, especialmente, nas mais diversas áreas da cultura, como música, artes cênicas, artes visuais, arquitetura, publicidade, gastronomia, enfim.

Por que o Brasil é considerado um dos berços da economia criativa?

A atividade produtiva no Brasil, por definição, é uma atividade que concentra uma grande soma de bens e serviços criativos. Uma questão importante é que não podemos desconsiderar que a economia criativa trabalha também com o lado cultural de uma sociedade, e a cultura, por sua vez, pode ser tanto material quanto imaterial. Então se nós formos usar como plano de fundo o patrimônio imaterial brasileiro, como festas, produção de doces, com suas receitas, como no caso de Pelotas, são uma parte do patrimônio cultural brasileiro. Então, o Brasil é um grande gerador, por ter uma grande parcela de sua renda advindo da economia criativa. Da mesma forma, nós temos um setor musical bastante forte, temos grandes arquitetos na cena mundial, somos produtores de moda e um dos maiores exportadores mundial de calçados. A gastronomia também é um grande segmento da indústria criativa. Temos essa atividade bastante desenvolvida, assim como a questão do turismo cultural. Então, nós somos importantes, sim, na geração de emprego e renda, nestes segmentos como um todo.

Como está a situação da economia criativa no Brasil?

Antes da pandemia, estávamos com uma participação ao redor de 3 a 4% do PIB advindo destasatividades produtivas. No entanto, nós tivemos um choque, um impacto muito grande, porque muitas atividades produtivas criativas foram sacrificadas durante a pandemia. Observamos que até o mês de fevereiro de 2021, portanto quase um ano depois, estamos sem a produção de eventos, sem a produção de peças teatrais, cinema. Então, tudo parou durante um bom tempo e ainda está muito aquém daquilo que era em fevereiro de 2020. No que diz respeito ao emprego, nos diferentes segmentos, houve uma redução bastante significativa, o que se traduziu em desemprego e, portanto, na falta de poder aquisitivo dessas pessoas que dependiam dessas atividades. Houve, também, durante esse período, uma tentativa de retomada. No entanto, essa tentativa fracassou porque, infelizmente, em alguns momentos houve um recrudescimento da pandemia e, até o presente momento,estamos com grandes dificuldades. Ao final do mês de agosto ou setembro, houve a Lei Aldir Blanc, que vem distribuir aos estados, que por sua vez repassarão municípios, recursos destinados aos artistas, que fazem parte da atividade criativa. É importante ressaltar também que algumas atividades criativas foram muito mais afetadas do que outras.

Que percentual do PIB brasileiro, e do RS, é representado pelo setor?

A participação do setor não é superior a 3 ou 4% do PIB, tanto brasileiro quanto do estado do RS. E essa rubrica também se verifica nas contas públicas, inclusive. Em termos de RS, não chegava a 2% das despesas do governo estadual. O Estado é gestor de alguns equipamentos estruturais, entre eles o Teatro São Pedro e a TV Piratini e, no grosso das despesas ou dos encaminhamentos destinados à cultura, é uma das secretarias que menos recebe recursos. E, em termos federais, o problema é mais complexo porque o atual governo dissolveu o Ministério da Cultura, passando a ser uma Secretaria. Estamos, também, na iminência de uma nova legislação, com um formato diferente de financiamento para atividades culturais. Assim, essas ações também são uma forma de não firmar o interesse e demandas que se fazem por parte da sociedade.

Impacto econômico do rompimento do Reino Unido com a União Européia (Brexit)

Marcos Vinícios dos Santos Soares
Bacharel em Economia, 2º Lugar Prêmio Corecon-RS 2020,
Categoria Monografias ou Trabalhos de Conclusão de Curso
Orientadora professora Angélica Massuquetti
Universidade do Vale do Rio dos Sinos - Unisinos

 

Qual a proposta do trabalho "Análise do impacto econômico do rompimento do Reino Unido com a União Européia (Brexit) por meio do modelo de equilíbrio geral computável", 2º Lugar categoria Monografias ou Trabalhos de Conclusão de Curso, no Prêmio Corecon-RS 2020?


Em 2016, os cidadãos do Reino Unido compareceram às urnas para votarem pela permanência ou não do Reino Unido na União Europeia (UE). O objetivo deste estudo é avaliar os impactos sobre o comércio internacional e os efeitos sobre o bem-estar no Reino Unido e na UE a partir da consolidação do Brexit. Nesta pesquisa, utilizou-se a classificação de produtos por grau de intensidade tecnológica, segundo os critérios da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), e o modelo de equilíbrio geral computável, mediante uso da base de dados Global Trade Analysis Project (GTAP), versão 9.

Qual a origem do termo Brexit?

O movimento da saída do Reino Unido da União Europeia foi denominado Brexit, devido à junção das palavras British com Exit (Saída Britânica). Esse movimento é muito antigo, mas ganhou força após a crise americana do subprime (2008/09) que deixou a economia europeia fragilizada. O movimento se consolidou em 2016, onde houve um referendo que perguntou a população britânica se queriam ou não permanecer no bloco. O resultado do referendo deu a vitória à saída do Reino Unido da União Europeia, com 51,9% dos votos. Esse processo,marcou a história do bloco europeu, pois foi a primeira vez que um país solicitou seu desligamento.

Por que optaste por utilizar a classificação de produtos por grau de intensidade tecnológica e o modelo de equilíbrio geral computável como base metodológica de análise?

Classificar os produtos com base em intensidade tecnológica de acordo com a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) permite-nos analisar os produtos de acordo com a intensidade em Pesquisa e Desenvolvimento(P&D), muito utilizada em estudos de Economia da Inovação no mundo todo. Essa classificação adota uma hierarquia entre os setores produtivos para classificá-los em grupos de intensidade tecnológica. Já, o modelo de equilíbrio geral computável utilizado, denominado Global Trade Analysis Project(GTAP) versão 9, é um modelo que mede os efeitos econômicos causados em um país que decide sair ou entrar em um bloco econômico. A partir desse modelo, é possível verificar os efeitos, por exemplo, das variações do volume de importação e do bem-estar do Reino Unido e de seus parceiros comerciais após o Brexit. Esta versão do GTAP possui uma base de dados que engloba 140 regiões e uma gama de 57 setores. O modelo funciona em uma economia com retornos constantes de escala e num ambiente de concorrência perfeita, englobando multirregiões e multissetores.

Por que o Reino Unido chegou a propor o desligamento do bloco se as desvantagens seriam muito grandes?

Os britânicos sempre tiverem uma relação tempestuosa com o bloco europeu desde a sua entrada em 1973. Após a crise do suprime de 2008/09, a União Europeia passou por sérios problemas econômicos e a onda eurocética ganhou força entre os britânicos. Uma prova disso foi o fortalecimento do partido UKIP United Kingdom Independence Party (Partido da Independência do Reino Unido), que ganhou muitos assentos no Parlamento Europeu. Devido a isso, os políticos britânicos resolveram realizar um referendo para perguntar aos eleitores se estavam de acordo em sair do bloco. Muitos estavam esperando que o Brexit saísse derrotado nas urnas e não levaram a sério o referendo, pois sabiam que as desvantagens seriam muito maiores. Os eleitores mais velhos e pertencentes ao euroceticismo votaram em peso, dando a vitória ao Brexit.

Quais as principais conclusões do seu estudo?

Os resultados revelaram que o Reino Unido seria o maior prejudicado com a ruptura, ocorrendo uma redução no volume de bens transacionados e uma diminuição do bem-estar – queda na eficiência alocativa e deterioração dos termos de troca. Identificou-se que a UE também seria prejudicada com o Brexit, porém com menor intensidade, devido ao seu mercado comum. Observou-se, também, que outras regiões obteriam vantagens comerciais e de bem-estar, como, por exemplo, RICS (Rússia, Índia, China e África do Sul), USMCA (Estados Unidos, México e Canada) e Brasil.

 

O mito da concentração tributária na União


 
Darcy Francisco Carvalho dos Santos

Economista, especialista em Finanças Públicas,
conselheiro do Corecon-RS
Corecon-RS Nº 3755

 


O Brasil sai totalmente quebrado dessa pandemia?

O Brasil já vinha em recessão desde 2014, quando o PIB cresceu apenas 0,5%. Caiu mais de 7% no biênio 2015-2016, crescendo pouco mais de 1% em médiano triênio 2017-2019, fruto de erros na condução da política econômica. Em 2020, quando era esperada uma recuperação da economia, surgiu a covid-19, que provocará, segundo o Boletim Focus do Bacen, uma queda de 4,6% no PIB. O crescimento previsto pela mesma fonte para 2021, de 3,3%, não será suficiente para compensar a queda ocorrida.O passado não é o que passou, mas o que fica do que passou, como dissera Alceu Amoroso Lima. E o que ficou foram grandes déficits, altos índices de desemprego e uma enorme dívida (DBGG), que, em termos brutos, passou de 51% do PIB, em 2013, para 75,8%, em 2019, e 88%, em novembro de 2020. E só não se aproximou de 100%, devido à taxa Selic, de apenas 2%, a mais baixa da história. Em termos absolutos, seu valor já passa de R$ 6,5 trilhões.

Quanto representa os gastos primários do governo federal em relação ao PIB brasileiro?

O resultado primário em 2013 era positivo, de 1,7% do PIB, e o nominal, quando se incluem os juros da dívida, era negativo, de -3% do PIB. Em 2016, o primário foi negativo, de -2,5%, tendo o nominal alcançado -9%. A economia do país começou a se recuperar em 2017, tendo reduzido o déficit primário para -0,9% e o nominal para -5,9% do PIB em 2019. No entanto, em 2020, a pandemia do coronavírus aprofundou essa crise, elevando o déficit primário para mais de 9% do PIB e o nominal para 14%, em 12 meses, apurados até outubro, em torno de R$ 1 trilhão. Colocando todos os algarismos envolvidos, temos uma ideia dessa cifra, que é de R$ 1.000.000.000.000,00, para apenas um exercício.

Como está distribuída a carga tributária nacional entre a União, estados e municípios?

É importante lembrar que há muita confusão entre arrecadação direta e receita disponível, sendo esta última o que fica com cada ente federado, após às redistribuições. Essa confusão foi provocada pela própria Receita Federal que, de alguns anos para cá, deixou de apresentar a última informação. Por isso, muita gente pensa que a arrecadação inicial é a que fica com cada ente. Então, buscamos em outra fonte, essa informação, que apresenta a carga tributária um pouco maior, de 35,07% do PIB, para 2018, sendo a arrecadação direta da União 65,7% do total, a dos Estados, 27,2% e a dos Municípios, 7,2%. Da receita disponível, coube à União 54,8% do total, aos Estados, 25,2% e aos Municípios, 20%. Então, os grandes beneficiários foram os Municípios, que, em 1960, detinham 4,6% do total da receita disponível. Na época, a União detinha 63,8% e os Estados, 31,6% desse total.

Por que os municípios se queixam tanto por falta de repasse de recursos?

Sobre esse assunto, a professora Mariza Abreu, especializada no assunto, afirma que ocorreu foi um aumento de atribuições dos municípios. No tocante à educação, ficou a cargo deles a educação infantil (creche e pré-escola) e ensino fundamental, compartilhado com os estados respectivos. Isso inclui educação especial e educação de jovens e adultos. A creche é a etapa mais cara, pois é a única em que predomina o tempo integral, tem menos crianças por professor ou adulto e precisa de mais equipamentos e alimentação. As matrículas municipais são predominantes na zona rural, onde, além de existir a despesa com transporte escolar, ainda há menos alunos por professor. Na saúde, os municípios são responsáveis pela atenção básica e a assistência social, assumindo, ainda, responsabilidades com infra-estrutura urbana, como, por exemplo, limpeza urbana.

O senhor escreveu artigo sobre a estrutura da carga tributária, publicado recentemente no Jornal do Comércio, onde informa que só restam 15% de recursos para a União. Como se explica isso, se o que se ouve é que a União é que concentra os recursos?

A carga tributária nacional, segundo a Receita Federal, foi de R$ 2.291.407,08 milhões, ou simplesmente R$ 2,291 trilhões. Desse total, é arrecadado pela União R$ 1.547,4 bilhões, ou 67,5%. No entanto, mais da metade desse valor, ou 35%, pertence à Seguridade Social, o que ainda é insuficiente para atender suas finalidades, que são cobertas por recursos complementares do Tesouro Nacional. Se retirarmos 5,5% do FGTS e 0,9% do Sistema “S”, mais as transferências aos estados e municípios, na ordem de 11,2%, restam R$ 342,8 milhões, ou 15%, de acordo com o Boletim do Tesouro Nacional.

E esse endividamento tem sido crescente?

Sim. E outra forma de demonstrar isso é comparar com a receita líquida do Governo Central, em que 80% são despendidos com seguridade social (previdência, saúde e assistência social). Acrescendo 5% de vinculação à MDE ( educação), temos 85%, restando 15% para todas as demais finalidades, compostas por 37 ministérios e órgãos especiais. Como não restam recursos para fazer superávit primário, o resultado é o endividamento alto e crescente. E isso se agravou com a queda do PIB, em que o atual é igual ao de 10 anos atrás, reduzindo a arrecadação e potencializando um problema que vem sendo denunciado há anos por alguns economistas, em especial, por Fábio Giambiagi, que é o crescimento contínuo dos gastos primários em proporção do PIB. Eles passaram de 13,7% em 1991 para 23,8% em 2019, num incremento anual de mais de 0,30 pontos percentuais. Isso é como caminhar numa grama, onde, primeiro forma uma simples marca, depois um rastro e, por fim, uma vala.

Por que a carga tributária brasileira é alta, mal distribuída e insuficiente para atender a todas as demandas da sociedade?

Segundo a Receita Federal do Brasil (Carga Tributária 2018), a carga tributária do Brasil em 2017 era de 32,3% do PIB, 42% ou 9,5 pontos percentuais acima da média da América Latina e Caribe. Segundo a OCDE (2016), o Brasil, na América Latina, fica apenas abaixo de Cuba no tamanho da carga tributária e um pouco acima da Argentina. Por isso, podemos dizer que a carga é alta. Ela é mal distribuída quanto à sua base de incidência, porque 73,5% têm origem na folha de salários e serviços, 24,9% na renda e propriedade, e apenas 1,6% nas transações financeiras. E a carga é insuficiente pelas razões citadas anteriormente. A seguridade absorve 80% da arrecadação, sem que, com isso, seja paga uma aposentadoria satisfatória para a maioria e se faça um atendimento adequado na saúde e na assistência social.

O que falta para resolver esse problema?

Para sair dessa crise, precisa acabar com esse desequilíbrio entre receita e despesa, em favor da primeira. Para a receita, as duas principais medidas são a redução das desonerações tributárias, que atualmente estão em 4% do PIB (1,8% em 2002 e 4,4% em 2015), em torno de R$ 300 bilhões. A outra medida é o aumento da arrecadação, que deve advir do crescimento econômico, mas dificilmente nos livraremos de algum aumento de tributo. O crescimento econômico, com o esgotamento da expansão populacional, deve ser buscado na produtividade, que exige mais equipamentos produtivos - o que implica mais poupança - e melhora na educação. É preciso que cada ente federado procure resolver seus próprios problemas, parando de passar para a União o resultado negativo de suas gastanças, ou dá má gestão de seus entes federados.

Cada um tem que fazer a sua parte, reduzindo despesas?

Sim. Todo o setor público precisa reduzir despesas, diminuindo substancialmente seu incremento anual, que deverá ser limitado à expansão do PIB, cujo crescimento potencial do Brasil é muito baixo. Nos últimos 18 anos, entre 2001-2018, o PIB brasileiro cresceu a uma taxa média de 2,3% ao ano, decorrendo 1,3% da produtividade e 1% do aumento da população, cujo crescimento deve cessar na década de 2040, decrescendo para 0,5% na década 2030-2040, parando de crescer em 2042, segundo o IBGE. Então, em futuro próximo, só nos restará o aumento da produtividade dos fatores, que há vários anos é muito baixa. Precisa também acabar com essa falsa crença de que os recursos estão concentrados na União, porque isso leva a sucessivas reivindicações por parte dos demais entes federados, aumentando cada vez mais os déficits do governo federal e o consequente endividamento. Continuando assim, em breve, entraremos numa situação de dominância fiscal, momento em que a crise fiscal, refletida especialmente na dimensão da dívida pública, limita a ação do governo no tocante ao uso da política monetária para controlar a inflação. Nesse caso a majoração da taxa de juros, em vez de reduzir a inflação, provoca seu aumento.

Bitcoin, no espectro da insegurança?


Newton Ferreira da Silva Marques
Economista aposentado do Banco Central,
Professor da UnB
Corecon-DF 

 

Até que ponto o bitcoin pode ser considerado uma moeda?

Numa análise morfológica da palavra, “bit” é uma medida de computação e “coin” significa moeda. Então, se fôssemos traduzir literalmente, seria a moeda da computação. Mas, também, conceitualmente falando, moeda é o meio pelo qual são efetuadas as transações monetárias, com aceitação geral e disponibilidade no mercado. Ou seja, moeda é tudo aquilo que é normalmente aceito para liquidar transações, pagar pelos bens e serviços e para quitar obrigações, que é aceita como forma de pagamento.Moeda possui três características básicas: capacidade de troca, unidade de conta, e, a principal, que é a reserva de valor como bem de pagamento. E é justamente no amparo legal que reside o maior problema do bitcoin ou das criptomoedas, de uma forma geral. Não existe legislação que proporcione o amparo de segurança necessários para sustentar as operações. O bitcoin tem reserva de valor e referencial de preços, tanto que se pode guardá-lo, ele continua valendo, mas não possui a principal característica da moeda, que é o meio de pagamento. Como não existe o reconhecimento institucional, não tem sua circulação garantida pela legislação, ou, ainda, só aceita quem quer. Já, a moeda, por mais desvalorizada que seja, existe uma legislação que lhe dá o amparo para que ela continue circulando, o que garante que a unidade, embora sem valor, continue sendo moeda. O foco do bitcoin, por exemplo, é mais semelhante ao ouro, que é uma reserva de mercado.

O que garante a existência da moeda é a legislação?

Sim. É o bem de pagamento, independentemente do valor que ela possa ter. A moeda é definida como um bem, com a combinação com características básicas como meio de troca, unidade de conta e reserva de valor, quando um objetivo é aceito como pagamento por outros bens e serviços. Isso, tudo, garantido por uma legislação.

Quais os riscos que o bitcoin oferece?

Começa por uma questão muito simples, que é o fato de que o ativo não proporciona a garantia e a segurança legal para a sua utilização. Essa é a minha inconformidade com o bitcoin ou criptomoedas. Não existe segurança. É como se tivesse aplicando dinheiro com agiota, ou pirâmide financeira, que são consideradas contravenções, e que não tem amparo legal da legislação. Tem muita gente aplicando em criptomoedas, mas sabemos que não existe qualquer tipo de segurança. Tanto, que, se um investidor de bitcoinfor ou sentir-se de alguma maneira lesado, não encontrará fórum legal para reclamar.

O bitcoin não pode ser comparado às ações da bolsa de valores?

Não. É muito diferente. A ação, além de ter todo um amparo legal, tem um lastro, que é o valor da empresa. Se a empresa tem expectativa de lucro, sofrerá elevação do seu valor. Se tiver uma expectativa de prejuízo ou diminuir o lucro, sofrerá as consequências com a redução de sua valoração. E quem aplica em ações sabe muito bem que esses movimentos são absorvidos pelo mercado, o que não acontece com o bitcoin.

Quem determina o preço do bitcoin?

Ah, pois é. Uma coisa certa é que, no caso do bitcoin, quem determina o preço não é a oferta e demanda, como no caso das ações. Quem determina o preço é o ofertante, e é justamente aí que, a meu ver, está o maior problema. Nós, economistas, sabemos que no mercado quem determina o preço são justamente a oferta e a demanda. Quando, na economia, existe um lado que oferta, passa a residir aí um problema, porque a lógica do sistema de concorrência é ter atomizados os compradores e os vendedores. Quando se tem um comprador ou um vendedor, instala-se aí a distorção, como é o caso do bitcoin,que tem sua cotação variada pelo emissor. Nesse caso, por exemplo, quando acabarem as emissões de bitcoins, o seu comércio ficará setorizado, fechado, perdendo, assim, o seu valor.É muito importante se debater esse tema para as pessoas saberem a realidade dos riscos que envolvem a operação. Se as pessoas querem aplicar em bitcoin, devem saber o que estão fazendo, se podem ou não utilizarem os derivativos como uma forma de proteção contra os riscos. Essas aplicações em criptomoedas são importantes para o futuro, mas tem que haver uma legislação que as proteja.

Mas a Receita Federal não aceita o bitcoin no momento da declaração de rendimentos?

O bitcoin é um ativo importante, com os riscos já colocados antes. A Receita Federal aceita porque não é um órgão regulador do sistema financeiro nacional, mas uma instituição cujo foco é a arrecadação. O Banco Central, por sua vez, vem estudando todo esse processo que gira em torno das criptomoedas, mas ainda sem um regramento definido, em função do histórico muito recente das suas transações.

 

Restrições orçamentárias e projetos de infraestrutura no Brasil


Rodrigo Nobre Fernandez
Economista, vencedor do “Prêmio Corecon-RS 2019”,
categoria Artigos Técnicos ou Científicos


Qual a proposta do trabalho “Restrições Fiscais e Infraestrutura: Uma Análise para os Estados Brasileiros”, vencedor do “Prêmio Corecon-RS 2019”, categoria Artigos Técnicos ou Científicos?

Como objetivo principal, o trabalho tentou verificar a relação entre a restrição orçamentária dos estados brasileiros e o número de projetos de infraestrutura na modalidade de concessões executados em cada unidade federativa. Para representar a restrição fiscal, foram usadas as seguintes variáveis disponibilizadas pela Secretaria do Tesouro Nacional: resultado primário como percentual do produto interno bruto (PIB), o serviço da dívida sobre o PIB e a despesa com pessoal sobre a receita corrente líquida.

Pode-se entender como natural essa relação entre a restrição fiscal e o uso de concessões para os estados brasileiros?
Sim, as concessões funcionam como uma forma de terceirização da provisão de serviços de infraestrutura. O Estado contrata o agente privado para a prestação de um serviço, que não teria a mesma competência técnica para realizar. Os principais pontos que fortalecem o uso dessa modalidade contratual são a agilidade na entrega do serviço e o menor custo desses empreendimentos em relação a outras formas de prestação de serviços públicos.

Qual a relação desse tipo de procedimento com o endividamento dos Estados e União?

A relação é direta, ou seja, como os estados brasileiros estão mais endividados os mesmos devem procurar alternativas para a prestação de serviços públicos de modo a não comprometer o orçamento. Desse modo, as concessões servem como uma forma de suavizar a restrição fiscal das unidades federativas. Em outras palavras, esses contratos podem ser considerados como uma forma de endividamento alternativa. O sucesso seja ele, financeiro e/ou prático, na realização de projetos nessa modalidade está diretamente ligado com o desenho contratual. Como exemplo, podemos observar as concessões rodoviárias. Em contratos dessa modalidade, normalmente há uma contraprestação pecuniária por parte do poder público, mas quem arca com a maior parte dos custos do empreendimento é o usuário do serviço.

O que muda nesse processo a partir dessa pandemia? Ao passarmos por essa pandemia, tudo volta como era antes, ou esses procedimentos assumirão um novo comportamento?

O governo federal promulgou a lei 14.035 de 11 de agosto de 2020 que flexibiliza as licitações para aquisições de itens destinados ao enfrentamento da pandemia. Medidas como essa podem ser criadas para reduzir a burocracia de contratos de concessões e Parcerias Público-Privadas. Desse modo, no meu entendimento, esses tipos de contratos tendem a ganhar mais força ao passar da pandemia.

Quais as principais conclusões do teu estudo?

O resultado mais relevante do estudo indica uma possível complementariedade entre as concessões e o endividamento do Estado, a partir do efeito positivo da relação serviço da dívida e o PIB e a criação de novos contratos.

 

Difusão de inovação pela horizontalidade do TelessaúdeRS

juliana
Juliana de Oliveira Nascimento
Economista, professora
Corecon-RS Nº 8391

 

Qual o objetivo da dissertação, de sua autoria, “Difusão de inovação na área da saúde humana: Um estudo para o Telessaúde no Rio Grande do Sul”?

Este trabalho tem o objetivo de compreender o processo de difusão de uma inovação. É uma temática da economia, ao contribuir com o entendimento a respeito da dinâmica do progresso tecnológico na sociedade. Nesse contexto, o nosso estudo analisa a difusão de inovação do Programa Telessaúde no RS, a partir da percepção dos teleconsultores, médicos e enfermeiros, para compreender os elementos determinantes da difusão, o Telessaúde, uma tecnologia social adotada no Brasil que, por meio da tecnologia de informação e comunicação, contribui para ampliar e melhorar os atendimentos públicos na área da saúde.

Qual a metodologia utilizada pelo estudo?

Trata-se de uma metodologia qualitativa, com caráter exploratório, realizada através de pesquisa bibliográfica, documental e de campo. A coleta de dados deu-se, a partir das entrevistas, realizadas com 27 profissionais. Inicialmente, no mês de novembro de 2018, foram ouvidos coordenadores do Programa no RS, e, depois, entre os meses de abril e maio de 2019, com teleconsultores e profissionais de Estratégia da Saúde da Família, nos municípios de Porto Alegre e Cruz Alta, com o intuito de avaliar a percepção dos profissionais envolvidos com o programa.

Qual a importância desse Programa para a ampliação do atendimento da população?

O TelessaúdeRS é um projeto da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em parceria com o Ministério da Saúde (MS) e com a Secretaria Estadual de Saúde do Rio Grande do Sul (SES/RS), além de outras instituições. Por meio da tecnologia de informação e comunicação (TIC), contribui para ampliar e melhorar os atendimentos à saúde, qualificando profissionais e buscando eliminar ineficiências nos cuidados na Atenção Primária de Saúde. O Programa é muito importante para a completa universalização do sistema de saúde no Brasil. É através dele que o sistema de atendimento público da saúde pode chegar, por meio de um simples sistema de comunicação, que é o aparelho celular, à população residente dos locais mais longínquos deste Estado e do País.

Quando esse Projeto iniciou no Brasil?

O Programa Nacional Telessaúde Brasil Redes é instituído em 2007 com o intuito de fortalecer e qualificar o atendimento na atenção primária, embora já existissem, em anos anteriores, grupos de pesquisa desenvolvendo trabalho em rede, com compartilhamento de informação técnico científica, dentro de algumas universidades brasileiras. A partir do Programa Nacional em Telessaúde, nascem os núcleos de Telessaúde, inicialmente em alguns estados e, posteriormente, com abrangência maior. Em 2007, portanto, nasce o núcleo TelessaúdeRS, oriundo do programa de esfera federal, que começa a desenvolver atividades em ofertas de serviços no Rio Grande do Sul.

Quem participa das ações do Telessaúde?

Através de teleconsultorias, o programa é dirigido a todos os profissionais que trabalham na Atenção Primária à Saúde (APS), além de coordenadorias municipais de saúde. Ele se desenvolve como estratégia para aproximar a oferta de atenção especializada às equipes de saúde da família, especialmente as que atuam nos lugares mais longínquos do Brasil, ampliando, de forma efetiva, o acesso da população aos serviços de saúde.

O que falta para a implantação do Programa de forma mais efetiva?

A essência do processo de difusão do Programa está na transmissão do uso da tecnologia, processo que é coordenado pelas entidades municipais de saúde. O maior problema que constatamos é que esse processo, para o seu efetivo sucesso, ainda esbarra em algumas decisões políticas e conflitos de interesses. Apesar de ser de baixa complexidade, envolver elevada resolutividade e ter o efeito de democratizar evidências O Programa ainda não se transformou em uma política pública e, por isso, as secretarias de Saúde dos municípios não se veem obrigadas a adotarem.

Quais as principais constatações alcançadas pelo estudo?

Os principais resultados do trabalho demonstram que as secretarias de Saúde dos municípios são atores importantes no sistema de inovação local, uma vez que se configuram como fundamentais para a difusão do programa entre as equipes de saúde. Existe a necessidade de ampliar o conhecimento para acesso das ferramentas disponíveis e de mapear e ou atingir todos os profissionais da atenção primária. Outra constatação é que, enquanto no município de Porto Alegre, o processo de difusão do Telessaúde está mais estabelecido, nos municípios mais distantes da capital ainda existe necessidade de intensificar, já que ainda há barreiras na efetividade, em função de troca de governo, conflitos de interesses, barreiras técnicas e de cunho cultural nas unidades e esbarra na gestão dos municípios. É relevante pontuar que o estudo contribui para a compreensão do processo de difusão de uma importante tecnologia na área da saúde humana. Compreender como a difusão ocorreu, permite refletir a respeito de elementos que dinamizam ou retardam o processo de adoção da inovação e o quanto a inovação é relevante para o propósito de qualificação do atendimento público à saúde.

O que falta para superar essa barreira?

Ainda há uma ampla discussão para que seja aceito como uma política pública. Trata-se de um programa, com grandes impactos na sociedade, no que diz respeito a entrega mais eficiente de um atendimento profissional de saúde, especialmente as mais distantes dos grandes centros e de menor poder aquisitivo. Como Programa, não há obrigatoriedade na adoção pelos municípios e, com isso, a percepção de utilidade adquire uma menor relevância, pois a ferramenta não deve somente estar na APS, mas ser utilizada em cada unidade de atendimento e fazer parte do processo de trabalho dos profissionais. Também existe a necessidade de recursos de financiamento sólidos, pois a dependência de recurso influencia na difusão da inovação do Telessaúde.