Renúncia de receita e crescimento econômico


Rosa Angela Chieza

Economista, Professora da Ufrgs, Pesquisadora e Diretora
de Educação Fiscal do Instituto Justiça Fiscal (IJF)
Corecon-RS Nº 5093

Sobre o que aborda a pesquisa "Renúncia de receita e desigualdades: um debate negligenciado", vencedor do “I Prêmio Orçamento Público, Garantia de Direitos e Combate às Desigualdades”, que receberam em junho último, na Escola de Administração da FGV, em São Paulo?

Essa pesquisa, elaborada entre 2020 e 2021, foi desenvolvida por mim e pela Anne Kelly Linck, acadêmica de Economia e bolsista de iniciação cientifica da Ufrgs durante 12 meses. A pesquisa foi uma das premiadas no Iº Prêmio Orçamento, garantia de Direitos e Combate às Desigualdades. O Prêmio, promovido pela Associação Nacional dos Servidores de Carreira de Planejamento e Orçamento (Assecor) e a Fundação Tide Setúbal, tem por finalidade reconhecer trabalhos e pesquisas que abordem o tema das Finanças Públicas, não só a partir de uma perspectiva de sustentabilidade fiscal, mas, também, de forma comprometida com o desenvolvimento social do país e o combate à desigualdade de raças, de renda e da garantia dos direitos para a população brasileira.

Qual o objetivo da Pesquisa?

A pesquisa faz uma análise da renúncia de receita, que é um gasto público indireto, pois ocorre por meio do sistema tributário, e que a Receita Federal do Brasil, para se adequar à nomenclatura internacional, chama de “gastos tributários”, embora não passem pelo orçamento público. E não passando pelo orçamento, não se subordinam à norma constitucional do teto de gastos e a várias outras normas e regras exigidas para a execução do gasto público.

Qual a dimensão desse valor?

Estudamos a renúncia de receita, no período de 2004 e 2020, que representa em torno de 4,5% do PIB e em torno de 22% da arrecadação, que é um montante muito significativo, já que, em pouco mais de quatro anos ocorre renúncia equivalente a uma arrecadação anual. Analisamos a política de renúncia de receita da União à luz das normas legais, em especial, da Lei de Responsabilidade Fiscal, que já era uma Lei que eu havia estudado em minha tese de Doutorado, mas que, agora, focamos apenas no que ela trata sobre renúncia de receita.

Como ocorre essa disparidade?

Ao analisarmos o Artigo 14 da LRF, constatamos que não há aderência entre a referida Lei e a política de renúncia de receita da União. Em especial, em relação ao Artigo 14 que estabelece que para a concessão renúncia há que atender a um dos dois requisitos, que a renúncia de receita não afete os resultados fiscais previstos na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e que, caso a renúncia de receita afete esses resultados - e afeta, já que a renúncia de receita da União é superior ao déficit primário, portanto extrapola o resultado fiscal -, então faz-se necessário adotar compensações, conforme o Artigo 14, Inciso II da Lei de Responsabilidade Fiscal.

Que tipo de compensações seriam estas?

Segundo a LRF, a compensação da perda de arrecadação decorrente da renúncia deve ocorrer através da "elevação de alíquotas, ampliação da base de cálculo, majoração ou criação de tributo ou contribuição". É importante frisar que a lei que autoriza esta compensação deve vigorar durante o período de vigência da lei que aprovou a renúncia. Ou seja, a concessão da renúncia só pode entrar em vigor quando implementadas as medidas de compensação. Você conhece algum caso, onde o Parlamento aprovou renúncia de receita e ao mesmo tempo, aprovou também, aumento de tributos para compensar àquela renúncia? Se a LRF fosse cumprida, o cidadão tomaria conhecimento de que precisou pagar mais tributos, porque o Poder púbico, abriu mão de arrecadação em favor, de determinadas empresas/grupos. Pessoas Jurídicas beneficiadas sobre os quais, não temos acesso ao nome e o valor “recebido”. Tampouco os Tribunais de Contas monitoram e avaliam os resultados destes gastos tributários, ou seja é um política pública, financiada com recursos públicos, cuja opacidade impede mensurar a qualidade/resultados deste gastos tributários/renúncias, em oposição aos demais gastos executados através do orçamento público.

Por isso vocês se referem, no título do trabalho, a um debate negligenciado?

Sim. Basicamente porque o País tem escassez de recursos e vem enfrentando uma crise sanitária, econômica e social, com indicadores sociais bastante preocupantes, onde 33 milhões de pessoas estão passando fome, sendo que dessas, sete milhões são crianças. E, de outro lado, nós temos R$ 400 bilhões de renúncias, que nós sequer sabemos quem são os beneficiários porque se utiliza uma interpretação do Artigo 198 do Código Tributário Nacional, para negar ao acesso de dados, em especial sobre quem são os beneficiários das renúncias e quais os resultados que são entregues por estes beneficiários. Toda a política pública deve ser avaliada e monitorada. E, no caso da política pública de renúncia de receita, isso não ocorre. Não é possível identificar a qualidade desta política pública que “gastamos” por meio de gastos indiretos de R$ 400 bilhões. Veja este valor é maior que os orçamentos da União em saúde e da educação juntos. O acesso aos dados deveria ser do interesse de toda a sociedade, desde os empresários, pois alguns estão se beneficiando e outros não; o cidadão que demanda serviços do SUS, e às vezes precisa esperar 01 ano ou mais, para fazer uma cirurgia; os cidadãos que demandam educação pública, que se deparam com falta de professores, de vagas em creches, de bibliotecas, ou seja, serviços básicos, essenciais ao desenvolvimento econômico e social do país. E isso ocorre sem o rigor de cumprimento da Lei de Responsabilidade Fiscal, em especial do artigo 14.

Trata-se de uma “brecha” na legislação?

No caso da LRF, não há brecha. Ela efetivamente não é rigorosamente cumprida quando o tema é renúncia de receita. Quanto à transparência, até dezembro de 2021 vigorava uma interpretação do artigo 98 do CTN que privilegiava a opacidade, pois a demanda do cidadão junto ao Poder Público, é no sentido de receber a informação sobre: para quem o Estado entregou recursos públicos e quanto? A interpretação era de que o Poder Público, não podia divulgar o nome da empresa e quanto recebeu de renúncias, com o argumento de que afeta(va) a competição empresarial. Ora, por que o nome de uma empresa divulgada no site do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), no caso da realização de operação de crédito, não afeta a concorrência empresarial, e a divulgação de uma empresa que é beneficiada por renúncia afetaria? No entanto, eu espero que este tema esteja superado, com a Lei Complementar 187, aprovada em dezembro de 2021, que insere o inciso IV no parágrafo 3º do Artigo 98 do Código Tributário, que diz que não é vedada a divulgação de informações relativas à renúncia, ou benefício, à imunidade de natureza tributária cujo beneficiário seja pessoa jurídica. Então, o que a cidadania, pesquisadores de universidades e de outras instituições esperam é que, de fato, se tenha os nomes das pessoas jurídicas beneficiadas, o montante de renúncia concedida, para que, assim, se possa identificar o que efetivamente cada instituição beneficiada entregou em troca, para à sociedade, pois é necessário, também mensurar a qualidade o gasto tributário, além, todos os demais gastos que passam pelo orçamento público. Assim, espero que a Lei Complementar nº 187/2021, seja efetivamente cumprida, através da transparência ativa. Caso não seja, que providências sejam tomadas pelos Órgãos de Controle e fiscalização e pela sociedade civil organizada. Gostaria de frisar que não somos contrários a política de renúncia, no entanto, a diretriz de mensurar os resultados do gasto público, deve incorporar todos os gastos, inclusive o gasto tributário/renúncia.

Que tipo de impactos a renúncia de receitas pode causar na promoção de desigualdades sociais?

Em nossa pesquisa, apontamos que a política de renúncia de receita tem ampliado as desigualdades, pois toda a renúncia de receita reduz o valor da base de cálculo sobre a qual incidem os gastos mínimos constitucionais em saúde e educação, por exemplo. Assim, considerando o total de renúncias da União e os gastos mínimos constitucionais, os orçamentos da saúde e a educação deixaram de receber R$ 43,68 bilhões e R$ 65,52 bilhões, respectivamente, em 2020, primeiro ano da pandemia que vitimou naquele ano 194.949 brasileiros e registrou aumento da desigualdade. São os gastos públicos em educação, (em 1º lugar) e em saúde (em 2º lugar) as políticas responsáveis pela redução da desigualdade de renda no Brasil, conforme apontam várias pesquisas, dentre elas, a da Cepal (2015). De outro lado, a política de renúncia, ao reduzir a base de cálculo sobre o qual incide a definição do orçamento mínimo constitucional da saúde e da educação, reduz o orçamento destas duas áreas. Assim, a política de renúncia, ao retirar recursos de direitos sociais redutores de desigualdades, e transferir para grupos de maior poder e não passíveis de efetiva mensuração de resultados, tende a ampliar desigualdades. Ainda, apesar de os gastos sociais em saúde e educação, serem os responsáveis pela redução da desigualdade no Brasil, o Estado brasileiro submete os gastos sociais ao corte de gastos, visando atender aos limites fiscais preconizados pela LRF e, ao mesmo tempo, submete-os à política de austeridade fiscal, concebida pela EC nº 95/2016. Enquanto isso, a LRF, não é rigorosamente cumprida quanto as medidas de compensação da renúncia de receita, por exemplo, e tampouco se subordina ao teto de gasto, ficando assim, a obtenção do equilibro fiscal por conta dos cortes de gastos sociais.

Então, a Pesquisa de vocês joga por terra a ideia de que renúncia de receita gera desenvolvimento?

Para poder fazer esta afirmação, ou refutar esta afirmação, precisamos dos dados abertos sobre quem recebe e quanto recebe de renúncias fiscais, para podermos medir os resultados de cada beneficiário Pessoa Jurídica sobre o desenvolvimento econômico. E isso, efetivamente não temos no Brasil. Alguns afirmam que renúncia de receita gera crescimento e desenvolvimento, mas onde estão as pesquisas que mostram isso? Temos uma pesquisa de Orair, Siqueira e Gobetty, de 2016, que mostra que o efeito multiplicador das renúncias das receitas da União de 2002 a 2016, não é significativo em qualquer posição do ciclo econômico (expansão ou depressão). Enfim, aguardamos que o artigo 198 do CTN, alterado pela Lei Complementar 187 de dezembro de 2021, seja cumprido de forma que todas as universidades e institutos de pesquisa possam fazer análises e avaliações mais robustas sobre esses resultados. Lembrando apenas que, na esfera federal, o próprio Tribunal de Contas diz que cerca de 84% das renúncias fiscais são concedidas por tempo indeterminado. Isso acontece de forma não transparente, sob a alegação de que afeta a competição empresarial. Sem a transparência, problemas como a ineficácia da política de renúncia, inexistem. Numa democracia, quando a transparência ganha terreno sobre o segredo, os problemas se tonam mais aparentes. E, no caso da renúncia fiscal (ou gastos tributários), passados 22 anos de vigência da LRF, o art. 14 anda não é rigorosamente cumprido e não há registro da não aprovação das contas do Poder Executivo pelos órgãos de controle, por essa razão. Tampouco o legislador inseriu os gastos tributários no rol de cortes previstos na EC do teto de gastos, aprovada em 2016. Enfim, nossa contribuição é no sentido de provocar reflexão e avanços nesta temática. Além da necessidade de rigor quanto ao cumprimento das normas, também quando se refere à renúncia fiscal, propõe-se, dada a relevância social e econômica das políticas em saúde e educação, que se leve em conta, a totalidade das renúncias de receitas, na base de cálculo que define os orçamentos mínimos nestas duas áreas, pois a renúncia fiscal, reduz os respectivos orçamentos, cujos dados são transparentes e passíveis de mensuração, como por exemplo, o Índice de Desenvolvimento em Educação Básica, (IDEB) e o custo mensal per capita do Sistema Único de Saúde (SUS), politica esta, com reconhecimento mundial.

O IV Encontro e a interação com os Cursos


Aristóteles da Rosa Galvão

Economista, Perito, vice-presidente do Corecon-RS,
Membro da Comissão Organizadora doIV Encontro de Economia

Corecon-RS Nº  2759




Qual a importância do IV Encontro de Economia para a vida acadêmica e para a rotina dos estudantes de Economia?

O IV Encontro de Economia do RS está tendo realmente uma resposta muito significativa por parte dos Cursos de Economia e de seus estudantes. E essa decisão é importante porque traz um congraçamento das atividades de ensino na área econômica do Estado do RS. É muito importante a participação dos estudantes, até porque não é todo dia que se tem uma oportunidade clara de  troca de experiências entre estudantes e profissionais, especialmente gerada a partir de um plantel de palestrantes de painelistas dessa qualidade que estamos oferecendo.

Quais as principais propostas do Encontro?

O Encontro, no seu conteúdo programático, vai ser bem objetivo, de forma que se possa apresentar análises econômicas sobre a realidade do nosso Estado. Para isso, iniciamos com uma palestra do economista e comentarista econômico da CNN Aod Cunha sobre as perspectivas da economia brasileira. Posteriormente, vamos fazer uma análise sobre os diversos setores econômicos do RS, através dos Economistas-Chefe da Fiergs, da Farsul, da CDL e da Fecomércio. E, para fechar a manhã, vamos abordar a inovação e tecnologia nos empreendimentos do nosso Estado. Na parte da tarde, retornamos com algo bem diferente e instigante, que é a participação direta dos estudantes, através de apresentações de cases ou abordagens econômicas específicas de suas regiões. Então, cada Faculdade vai falar sobre um tema econômico a ser apresentado por um aluno ou por uma dupla de alunos, conforme previamente definido pelo Curso. Após esse desafio, vamos apresentar abordagens sobre o leque de atividades que o economista pode ter e desempenhar na sociedade atual e, em seguida, sobre as perspectivas que aguardam o economista no desempenho da sua profissão. Mais tarde, já quase no encerramento do nosso Encontro, apresentaremos uma discussão sobre as perspectivas econômicas regionais, com gestores municipais e secretários, que trarão uma visão diferente, apresentada por quem está tendo a responsabilidade de planejar, gerir e executar o desenvolvimento e os planos econômicos. E vamos, ao encerramento, fazer um agradecimento coletivo a todos os painelistas, palestrantes, estudantes e professores que participaram do nosso Encontro.

Qual o grande objetivo do IV Encontro de Economia?

O encontro tem como objetivo trazer um conhecimento por parte de toda a coletividade dos economistas e, também, de todas faculdades de Economia, sobre o que está acontecendo em cada região do nosso Estado. E, também, a capacidade que cada faculdade tem na formação dos futuros economistas, o que gera para os futuros economistas um network muito importante na sua vida profissional. Pra mim, o Encontro é de fundamental importância no fortalecimento da profissão do economista.

Qual o recado para o público interessado em participar do IV Encontro de Economia?

Então eu convido vocês a fazerem sua inscrição no IV Encontro de Economia no dia 3 de setembro.. É importante a participação de vocês , já que vocês são a razão desse encontro. A inscrição pode ser feita através do site do coreconrs www.coreconrs.org.br , e no dia 3 de setembro estaremos lá para realmente fazermos um excelente evento.

O IV Encontro de Economia no coração do Centro Histórico

Rogério Tolfo

Economista, Consultor Financeiro
ex-presidente 
do Corecon-RS, conselheiro do Cofecon,
Organização do IV Encontro de Economia
Corecon-RS Nº  5773


Qual a importância do IV Encontro de Economia para a vida acadêmica?

A grande importância está na oportunidade de buscar conhecimento prático fora da sala de aula através da interação com futuros colegas de profissão, com estudantes de outras universidades e de outras regiões do Estado e, principalmente, com a troca de experiências com profissionais renomados que estarão colocando suas ideias ao longo do Encontro. É importante lembrar que é muito interessante essa interação, em busca de novas ideias e conhecimento, através de iniciativas empreendedoras ou relacionadas com foco na indústria, comércio, setor agrícola, setor público e iniciativa privada. São novas experiências a serem proporcionadas pela amplitude e diversidade dos temas a serem abordados, permitindo, assim, a construção de um link da realidade com aquela parte teórica que o estudante aprende em sala de aula.

Que tipos de experiências os alunos terão a oportunidade de vivenciar nesse dia?

É a aproximação com a realidade e com o que a profissão vai lhes oportunizar no futuro. Os estudantes perceberão que o economista pode atuar nas mais diversas áreas do mercado de trabalho, seja no setor público, no privado. E isso está bem transparente nos painéis que serão apresentados, nos temas e, também, nos perfis dos painelistas que estarão participando do evento.

Como o interessado em participar pode fazer para se inscrever?

O interessado em participar do IV Encontro de Economia deve acessar o site do Sympla, www.sympla.com.br , digitar o nome do Encontro, ou clicar nos links do evento, que estão sendo amplamente divulgado pelas redes sociais do Corecon. Ali, estão todas as informações e, também, os ingressos, cujos preços são bem simbólicos, com estudantes pagando 20 reais e economistas 50 reais. Um valor módico diante da qualidade dos temas que serão abordados e, principalmente, pela altíssima qualidade dos palestrantes e painelistas que participarão do Encontro.

Quais as expectativas da organização em relação ao público?

A expectativa é das melhores, especialmente porque o evento acontecerá num sábado, justamente para que os estudantes possam aproveitá-lo ao máximo, já que normalmente não têm compromissos com trabalho ou aula na universidade. Terão tempo de se deslocar de suas cidades, com transportes subsidiados pelo evento, portanto, sem custo para o participante. O local do evento é muito bem situado, no Centro Histórico de Porto Alegre, e extremamente confortável, já que se trata de um auditório climatizado, com capacidade de 230 pessoas bem acomodadas. Com menos de 10 dias de inscrições abertas, já estamos com mais de 20% dos ingressos vendidos. Portanto, é interessante que as pessoas procurem rapidamente a plataforma de inscrição para garantirem sua vaga, que é limitada. Os Coordenadores dos Cursos de Economia, com apoio da organização do Encontro, estão montando caravanas de alunos, que partirão de suas cidades em vans e ônibus, também com vagas limitadas. Então, sugerimos ao estudante que procure a plataforma e o seu coordenador do curso, e agilize sua vinda.

Qual a importância de essa edição do IV Encontro de Economia estar sendo realizado no Centro Histórico de Porto Alegre?

Porto Alegre está comemorando neste ano o seu 250º aniversário, e o evento se insere nas festividades alusivas à data. E isso é importante para a capital de um Estado com grande relevância no âmbito nacional como o nosso, e que tem tantas belezas para oferecer, além de um magnífico Centro Histórico para desfrutar. E, trazer essa quarta edição do Encontro para o Centro Histórico foi uma maneira de prestarmos nossa especial homenagem à essa cidade que nos acolhe. Da mesma forma, podermos oportunizar aos estudantes de Economia de diversas partes do nosso Estado essa nova dimensão da nossa cidade, com suas maravilhas.  

IV Encontro de Economia e seus objetivos

 

Clovis Meurer

Economista, superintendente da
CRP Participações, ex-presidente
do Corecon-RS, conselheiro do Cofecon,
Organização do IV Encontro de Economia
Corecon-RS Nº 1934

Qual o objetivo do IV Encontro de Economia?

Nós estamos retomando os encontros anuais de Economia, que se iniciaram em 2017 e continuaram ocorrendo em 2018 e 2019, mas que foram interrompidos nos anos de 2020 e 2021, em função da Covid. Agora, em 2022, estamos retomando e organizando a quarta edição, que acontecerá no dia 3 de setembro próximo, um sábado, para discutirmos a economia do RS e economia nacional. Vamos reunir estudantes, professores e o público em geral, da área de economia, para debater sobre a situação atual e as perspectivas futuras. Tudo aqui em Porto Alegre, dentro das comemorações do 250º Aniversário da nossa Capital.

 

Qual o público alvo do evento?

A exemplo dos encontros anteriores, nós queremos ter a grande maioria do público composta por estudantes da área de Economia. Para isso, estamos convidando a todos os estudantes do interior do Estado e, também, de Porto Alegre e da grande Porto Alegre, para que venham participar deste evento. Com isso, poderão compreender melhor a forma como os cursos de Economia se encontram inseridos na dinâmica competitiva do mercado de trabalho atual e, principalmente, conhecer e debater as tendências e perspectivas que cada estudante possui para atuar profissionalmente nas diversas áreas de atuação do economista, seja na academia, nas diferentes esferas do Governo, no setor empresarial, enfim, nos mais variados setores da economia. Como sabem, nós temos uma forte área industrial no Estado do RS, do agronegócio, de serviços. Então, o público alvo de estudantes vai receber um volume de informações muito grande, o que, certamente, será fundamental no momento de direcionar sua expertise na sua caminhada e seu futuro profissional. Além dos estudantes, também teremos economistas, e o público em geral, para entender cada vez mais e debater a situação econômica do Estado e do País, assim como as perspectivas que se apresentam para o futuro.

 

E qual a importância da participação das Universidades nesse Encontro?

Além das grandes faculdades da região metropolitana, como Ufrgs, Pucrs, Unisinos e outras, nós temos no RS, instituições de ensino extremamente qualificadas em todo o interior do Estado. Não cabe nem citarmos aqui, porque a lista é extensa. Temos mais de uma dúzia em várias regiões, desde as regiões de Horizontina, Sul, Campanha, Serra, Planalto, entre outras, onde há cursos de economia com estudantes que devem participar deste Encontro, como participaram dos anteriores. Então, a participação de todas as faculdades, professores e coordenadores dos cursos de economia é muito importante. Além de nós termos painéis e palestras, e, também, uma disputa entre os participantes no dia do Encontro, teremos a oportunidade de se integrarem, praticarem a troca de experiências, o networking. Buscamos, assim, fazer um programa interessante do ponto de vista de conhecimentos técnicos, acadêmicos, de oportunidades para profissionais do futuro, mas também de convívio entre estudantes de todos os cantos do RS.

 

Esta edição do Encontro contará com uma novidade, que são os desafios, certo?

Entre o programa que estamos organizando, também estamos montando uma sessão especial, que será um desafio entre estudantes de diferentes universidades, para que cada uma nos traga e apresente alguma vocação da economia de sua região. Por exemplo, Rio Grande é muito focada em exportações e ao porto; Caxias do Sul muito focada em inovação e mecânica. A Fahor, em Horizontina, é muito ligada em agronegócio e máquinas agrícolas. Então, vamos tentar trazer as vocações locais de cada universidade para que se haja uma troca de experiências e uma apresentação, com uma disputa cordial entre o corpo de estudantes que vai participar deste IV Encontro de Economia.

RS e Brasil, a nova face da matriz energética

Paulo de Tarso Gaspar Pinheiro Machado
Economista, Sócio-Diretor da DTO - Governança & Estratégia, 
Ex-Diretor-Presidente do Grupo CEEE,
Ex-Vice Presidente da Associação Brasileira de Companhias de Energia Elétrica (ABCE)

Corecon-RS Nº  3639

 

De que forma está estruturada atualmente a matriz energética do RS? 

A matriz energética do RS constitui-se, majoritariamente, por energias renováveis, com uma participação de 77%. Atualmente, 52% da nossa matriz energética corresponde à  hidroeletricidade, gerada pelas Usinas Hidrelétricas (UHEs), pelas Centrais Geradoras Hidrelétricas (CGHs) e pelas Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs), 23% pela energia eólica (EOLs) e 2% pela energia solar (UFVs – Usinas Fotovoltaicas), evidenciando o avanço da diversificação com a presença de fontes alternativas de energia. Temos, também, as Usinas Termelétricas (UTEs) movidas a combustíveis fósseis ou a biomassa, que são responsáveis por 23% da nossa matriz energética.

Qual a importância de uma matriz energética no Estado? 

A matriz energética representa o conjunto de fontes de energia disponíveis para a captação, geração, transmissão, distribuição de energia para os diversos segmentos de consumo de energia elétrica, como residencial, transportes, saúde, educação, agropecuária, indústria, comércio e serviços e, outros. Nesse sentido, a matriz energética do RS evidencia a disponibilidade de suas fontes de energia como um dos fatores imprescindíveis para que a economia gaúcha tenha possibilidade de obter crescimento e desenvolvimento econômico de forma a melhorar a sua competitividade e produtividade, bem como proporcionar bem-estar social de sua população.

Qual seria o cenário ideal na composição dessa estrutura? 

Tendo o RS e o Brasil uma matriz energética constituída predominantemente por fontes renováveis, de energia hidráulica, eólica, solar e biomassa, e considerando serem as únicas intrinsecamente limpas e com elevado potencial de substituir os combustíveis fósseis, configura-se um cenário perspectivo favorável para a que a nossa economia seja baseada em energias renováveis, capaz de gerar incrementos sustentáveis, como o aumento do nível de emprego e diversificação produtiva. Isso, considerando que as cadeias produtivas que transacionam com recursos renováveis exigem mais empregos por unidade de energia transformada comparado às que exploram as fontes de energia fóssil, como carvão, petróleo e gás natural. É importante ressaltar que as matrizes energéticas gaúcha e brasileira, comparadas ao mundo e aos países que integram a OCDE, apresenta expressiva competitividade nas fontes renováveis de energia.

Qual o impacto das energias verdes na composição da matriz energética do RS? 

As energias verdes, também chamadas de fontes renováveis de energia, tais como a hidráulica solar, eólica e biomassa caracterizam-se como energias limpas e assumem grande protagonismo a partir do Pacto dos Objetivos do Milênio da ONU, onde a sociedade global, direciona seus rumos a um modelo de desenvolvimento sustentável, que pressupõe a transição para uma economia mais inclusiva sob a ótica social e eficiente na sua relação com o meio ambiente, cujo modelo exige o uso de fontes de energias renováveis, não poluentes, comportamento reducionista na produção de resíduos e provedor de serviços ambientais essenciais à vida humana.

O RS é importador de energia? 

Com o incremento de fontes de energias renováveis, como eólica e solar, e mantido o ritmo de crescimento destas modalidades, o RS aproxima-se da condição de autossuficiência em geração de energia. Os investimentos realizados no setor elétrico, em fontes renováveis a partir dos anos 2000 permitiram diversificar e reforçar o suprimento da produção interna. Agrega-se a esta condição do RS, a sua inserção no Sistema Interligado Nacional (SIN), que se constitui como um sistema brasileiro hidro-termoeólico de grande porte, de produção e transmissão de energia elétrica do Brasil, com predominância de usinas hidrelétricas.

Como funciona o SIN?

Constituído por quatro subsistemas, o Sul, Sudeste/Centro-Oeste, Nordeste e Norte, o SIN é responsável pela regulação equilibrada e interconexão dos sistemas elétricos, através da malha de transmissão, viabilizando a transferência de energia entre os subsistemas regionais, de forma a suprir eventuais desequilíbrios, bem como obter ganhos sinérgicos e otimizar a diversidade entre os regimes hidrológicos das bacias. A integração dos recursos de geração e transmissão permite o atendimento da demanda com segurança e economicidade. Sua capacidade instalada de geração é composta, principalmente, por usinas hidrelétricas distribuídas em 16 bacias hidrográficas nas diferentes regiões do país. Nos últimos anos, a instalação de usinas eólicas, principalmente nas regiões Nordeste e Sul, apresentou um forte crescimento, aumentando a importância dessa geração para o atendimento da demanda.

Qual a tendência para a matriz energética brasileira nos próximos anos? 

A diretriz de política energética brasileira tem como objetivo a segurança energética e a modicidade tarifária. Embora o sistema elétrico brasileiro, sob o aspecto regulatório, possa ser considerado bem estruturado, a trajetória de percalços como os “apagões”, de 2001 e de 2009, bem como as medidas equivocadas como a Medida Provisória 579, de dezembro de 2012, considerada um divisor de águas no setor, tenha provocado um impacto negativo de R$ 200 bilhões nas tarifas, o qual foi integralmente arcado pelos consumidores. Portanto, diante deste contexto, o setor elétrico brasileiro necessita ser submetido a uma mudança estrutural e se integrar à revolução tecnológica que o setor elétrico mundial já experimenta através de novos vetores.

Que tipos de vetores seriam esses?

Um deles é o desenvolvimento tecnológico de fontes renováveis eólica e solar, onde, em 10 anos, de 2010 a 2020, a capacidade global de geração fotovoltaica, solar cresceu mais de 4.400%, variando de 5 para 350 gigawatts, e a trajetória de custos das células fotovoltaicas, no período de 1977 a 2020 reduziu de US$ 77 para 0,62 US$/W. Também a difusão das TICs (Internet das coisas), abrindo espaço para ações tipo Demand Response (Resposta a Demanda) com Redes Inteligentes. A mitigação sobre causas e impactos do aquecimento global também deve ser aqui lembrado. Embora o RS apresente um quadro favorável em sua matriz energética para atender os objetivos de segurança energética, associada aos temas socioambientais, como o combate às mudanças climáticas ou à geração de oportunidades de trabalho, é indispensável ao RS continuar e ampliar os investimentos na expansão do componente renovável em sua matriz energética por meio de políticas de incentivo à instalação de projetos baseados em alternativas como energia eólica, solar fotovoltaica e biomassa, bem como na destinação de recursos para pesquisa e desenvolvimento tecnológico para estas alternativas. É importante destacar, ainda, a grande oportunidade estratégica em perspectiva que se coloca nestas alternativas quando se observa as emissões relativas de CO2 de cada sistema elétrico, como sendo avaliadas como a quantidade de CO2 emitida por MWh gerado. Em 2019, o Brasil emitiu cerca de 85% menos que a China, 73% menos que os Estados Unidos e 63% menos que a União Europeia para gerar cada MWh.  Cumpre destacar, que quando a Comissão Mundial para o Meio Ambiente e Desenvolvimento, coordenada pela ex-Primeira Ministra da Noruega Gro Harlem Bundtland, definiu o desenvolvimento sustentável como sendo um conjunto de progressos sociais, econômicos e políticos que permitem compatibilizar as necessidades da geração atual sem comprometer a capacidade das futuras gerações em satisfazer as suas próprias necessidades coloca em perspectiva para o Brasil e o RS, a partir da nova face de suas Matrizes Energéticas, uma estratégica oportunidade de protagonismo local e global para gerar crescimento econômico com justiça social para alcançar o desiderato do desenvolvimento econômico sustentável.

Como as micro e pequenas empresas reagiram à pandemia

 

Carlos Henrique Corrêa
Economista, Especialista em Gestão Financeira,
Valuation e Business Plan.
Corecon-RS Nº 6821

 

 

Como as micro e pequenas empresas se comportaram durante a pandemia?

Em sua grande maioria, as micro e pequenas empresas brasileiras tiveram problemas de caixa durante o período da pandemia. Isso porque as pessoas entraram em lockdown e, na maioria dos casos, passaram a consumir menos ou a deixar de utilizarem determinados serviços, o que acabou afetando direta ou indiretamente as micro e pequenas empresas. Exemplo disso é a pessoa que tinha um restaurante num ponto movimentado da cidade e teve que fechar as portas. Alguns se adaptaram a esse contexto, transformando o seu trabalho em uma atividade online e/ou delivery. No caso dos restaurantes, muitos não tinham delivery e viram nesse sistema uma alternativa de sobrevivência. Alguns desses começaram inclusive a faturar mais do que antes da pandemia. Ou seja, transformaram o limão em uma limonada. Só que, por outro lado, houve muitas micro e pequenas empresas que quebraram. E, para esses casos, para isso foi criado o Pronam, um programa do governo de auxílio aos pequenos empreendedores através de crédito do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDES), a juros bem mais baixos. Esse foi um mecanismo que o governo achou para baixar as taxas de juros e baratear o crédito também.

Que tipos de empresas enfrentaram as maiores dificuldades nesse período?

As empresas que enfrentaram as maiores dificuldades foram aquelas que não conseguiram se reinventar e aproveitar as oportunidades que essa crise mostrou. Então, seja qual for o setor da empresa, a crise serviu como uma seleção natural. Eu vi várias empresas modificando sua forma de trabalhar e que, em função disso, acabaram saindo bem mais fortes dessa pandemia.

As micro e pequenas empresas tiveram mais facilidade no enfrentamento da pandemia?

Na realidade, uma das características que as micro e pequenas empresas têm em relação às empresas maiores é que elas são mais flexíveis. Elas não são tão engessadas. As suas decisões não precisam ser tomadas por um colegiado ou por um conselho de administração, por exemplo. O empreendedor vai lá, toma uma decisão e todo o processo funciona. Agora, do ponto de vista desses pequenos negócios, as dificuldades mais comuns foram se adaptar ao processo online, ao processo de vender por aplicativos, de entregar em casa, enfim. A maior dificuldade em si foi entender o processo, antecipá-lo e não deixar faltar dinheiro no caixa.

Que tipos de empresas sofreram menos impactos da pandemia?

Dois tipos de empresas sofreram menos impacto com a pandemia: as empresas que tinham caixa, ou seja, tinham uma reserva financeira, ou, mesmo, o crédito. Essas empresas puderam aproveitar a oportunidade e, em alguns casos, até comprar, por preços muito mais baixos, outras empresas que quebraram. E, também, aquelas empresas cujos setores foram favorecidos, como farmácias, empresas que trabalhavam com medicamentos, com higiene para outras empresas, na modalidade be to be. Estas, cresceram muito na pandemia. Da mesma forma, aquelas empresas que estavam preparadas para atender clientes na modalidade online, como lojas online, e também empresas do setor de alimentação, que tinham processo de delivery bem estruturado, ou bem validado, vamos dizer assim.

Quais as suas expectativas a partir de agora?

A minha principal expectativa em relação aos micro e pequenas empresas é que elas entendam que os relacionamentos digitais entre empresas e entre os fornecedores e os clientes finais, se tornou algo permanente. E quem souber jogar esse jogo de forma mais adequada e mais eficiente terá muitas vantagens, não apenas em ganho de mercado, em escala, mas, também, em termos de lucratividade e de otimização de processos.

Prêmio Paul Singer e o desenvolvimento local

Teresinha de Jesus Ferreira da Silva
Economista, Assessora Técnica da Secretaria de Planejamento
do Estado do Piauí, Conselheira do Cofecon
Corecon-PI Nº 101



Qual o objetivo do Prêmio Paul Singer?


O Prêmio Paul Singer foi criado para premiar atividades exitosas de economia solidária. O Prêmio traz o debate desta temática para nós, economistas e estudantes de economia, como uma área no mercado de trabalho que está ganhando força e criando oportunidades de trabalho. A economia solidária tem grande potencialidade de expansão, principalmente porque hoje, com mais de 12 milhões de desempregados no Brasil, apresenta-se como alternativa para minimizar as desigualdades sociais e regionais e gerar renda para a população, que está fora do mercado de trabalho. Temos que ter um olhar diferente para a economia solidária. Por isso que o Cofecon lançou o Prêmio. Para fortalecer essa temática dentro das universidades. Enfim, o Prêmio Paul Singer tem o objetivo de divulgar empreendimento solidários que estão mudando a realidade local, ou seja, provocando desenvolvimento local.

Por que o uso do termo “As Boas Práticas Acadêmicas”?

Porque precisamos valorizar e difundir o que está dando certo, que está provocando desenvolvimento local. O Prêmio está voltado para programas de extensão das universidades e incubadoras, que está fortalecendo o tripé inovação, teoria e prática, fortalecendo os empreendimentos de autogestão. E, enfim, precisamos avaliar o resultado dessas boas práticas que transformaram uma realidade, ou estão transformando, e disseminar essas ações no Brasil.

A que público o Prêmio é dirigido?

O Prêmio Paul Singer tem como público alvo economistas, alunos de economia e alunos de outras áreas afins. Dada a especificidade da economia solidária, as equipes que desenvolvem ações nesta área geralmente são multidisciplinares. Portanto, podem envolver profissionais e alunos da geografia, sociologia, enfim, da área de humanas. Entretanto, vale salientar que as equipes devem ter 50% de alunos de Economia.

O Prêmio possui duas categorias, a Incubação de |Projetos e o Assessoramento de Projetos. Qual a diferença entre eles?

No Prêmio, estamos avaliando dois tipos de projetos. A incubação de Projetos são ações inéditas de economia solidária, não iniciadas, mas que já têm seu plano de negócio elaborado. Portanto, vamos avaliar o Plano de Negócios, qual o impacto que se espera, os objetivos e indicadores desse empreendimento. Vamos avaliar uma proposta voltada para a economia solidária. Já, o assessoramento de projetos são ações já realizadas, ou em andamento, com resultados, ou seja, já podemos avaliar o impacto na comunidade e nas pessoas que fazem parte.

Qual a premiação que será distribuída aos vencedores?

No prêmio Paul Singer, na categoria incubação de projetos, o primeiro colocado será premiado com R$ 4 mil reais, tendo em vista que estamos avaliando um plano de negócios, ou seja, o projeto está iniciando. Já a categoria assessoramento de projetos, o primeiro colocado receberá R$ 6mil reais, tendo em vista que já tem resultado e impactos na comunidade. Ao todo, serão R$ 10 mil em prêmios. Ao segundo e terceiro colocados de cada categoria, o Cofecon entregará menção honrosa, valorizando, assim, o trabalho realizado. O prêmio Paul Singer é uma iniciativa inédita. É o primeiro ano que está sendo implementado, e as inscrições vão até o dia 01 de julho. Temos uma página no sítio do Cofecon para receber as inscrições. Acessem!

Conhecendo a Perícia Econômico-Financeira

Gustavo Raupp

Economista, Perito Judicial, 
Conselheiro do Corecon-RS e 
Coordenador da CAAPE
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Corecon-RS Nº 5658 



Sobre o que trata a Perícia Econômico-Financeira e quais as áreas de atuação?

O termo “Perícia”, vem do termo em latim “peritia” e tem o sentido próprio de “conhecimento”, “experiência”. E a nossa atuação nada mais é do que disponibilizar este conhecimento e esta experiência nas demandas judiciais, seja atuando como um auxiliar do juiz, seja como auxiliar nas partes. Atuamos em relações extrajudiciais e em ambos os casos, que envolvam a necessidade desse conhecimento técnico, de exigência de um perito, para gerar provas ou quantificar esta demanda judicial. Especificamente, atuamos em diversas áreas, como, por exemplo, a apuração de haveres, cálculos trabalhistas, revisionais de contratos de uma maneira geral, família, e outras atividades demandadas pela justiça estadual, federal e de falências.

Quais atividades a Perícia Econômico-Financeira realiza?

No que diz respeito às provas, o perito econômico-financeiro realiza exames em documentos e diligências, sempre com o intuito de gerar as provas para elucidar a lide, independentemente da parte que estejamos atuando. Também, sobre a quantificação desta demanda judicial, nada mais é do que efetuarmos cálculos. Os cálculos na realidade traduzem as sentenças dadas pelos juízes em valores monetários. Essa é outra atividade que nós realizamos. E também, em relação às perícias extrajudiciais, buscamos a quantificação para defesa das teses. Não só a quantificação, mas a geração de prova também, para auxiliar as teses que estão sendo defendidas pelas partes.

E qual a função de um perito?

Eu diria que aproximadamente 95% dos processos judiciais utilizam a ferramenta da perícia, seja ela a perícia econômico-financeira, ou seja ela de engenharia, medicina, criminal. A perícia é uma ferramenta usual nos processos judiciais. Então, a função do perito nada mais é do que auxiliar tecnicamente as partes envolvidas e o judiciário. Esta é a função básica, pois, se percebermos, as partes e o judiciário não têm esse conhecimento técnico.Portanto, cabe a nós, como auxiliares dessas partes, colaborar com nosso conhecimento, adquirido com experiência profissional ou acadêmica.

Além do conhecimento adquirido no curso de Ciências Econômicas, é necessário algum tipo de conhecimento para atuar nessa área?

Legalmente não há esta necessidade de uma formação além do próprio curso de Ciências Econômicas. Porém, entendo que seja interessante, sim, uma especialização na área. Seja por conhecimento profissional ou acadêmico. O curso de Ciências Econômicas é muito rico em informações. Ele nos traz uma gama muito grande de conhecimentos. Porém, entendo que o Curso propriamente dito não tem uma unidade curricular que trate diretamente de perícia, mas sim uma soma de experiências que se tem em cada unidade curricular, em cada cadeira. A soma de todo esse aprendizado do Curso é que oferta, como a atuação na área de perícia, um conhecimento bastante consistente.

Onde pode ser encontrado mais conteúdo e informação para se qualificar na área?

Esta formação normalmente tem cursos livres, pontuais, ou, também, em pós-graduação, em quantidades até razoáveis no mercado. Penso que seja de fundamental importância ter um planejamento da carreira. E no que diz respeito especificamente ao perito econômico-financeiro, creio que a qualificação começa pelo conhecimento de causa. É muito importante saber e ter conhecimento da área que se vai atuar. Ou seja, nós devemos ser especialistas e não generalistas. E a partir daí, para poder se qualificar. É necessária uma definição dessa área que se quer atuar. Um exemplo que eu gosto de utilizar é que para atuar numa área bancária o profissional tem que ser um expert em matemática financeira. Essa qualificação tem que ser induzida de acordo com a área que se quer atuar. E alguns outros conceitos, que aí independem da área, mas requerem alguma qualificação. Nós temos um conhecimento dos trâmites processuais, da área do direito, principalmente no que diz respeito a interpretações dessas leis. E, por força dessa interpretação e de que todo nosso trabalho é feito de forma escrita, é necessário o domínio da língua portuguesa. Então, quando eu digo conhecimento de trâmites, domínio da língua portuguesa, interpretações de leis, não estou falando que devemos fazer um curso de direito, mas que devemos ter uma certa fluência nisso. A interpretação de texto é de fundamental importância na área da perícia, sendo, portanto, da mesma forma, essencial uma qualificação nesta área.

Qual a sua expectativa para o futuro do economista nessa área? 

Nós vimos atuando de forma muito intensa, com o intuito de divulgar a profissão. A Comissão de Auditoria, Avaliação e Perícia Econômico-Financeira (CAAPE), uma pasta de trabalho do Conselho de Economia, vem atuando muito fortemente com o intuito de regulamentar a profissão junto às procuradorias dos municípios, do Estado, junto às empresas, ao Judiciário e à sociedade de uma forma geral, para que consigamos garantir e ampliar nosso espaço. Claro que esta questão de futuro da profissão passa também sobre a concorrência, por políticas governamentais, no que diz respeito à legislação e à política do Judiciário. Significa dizer que existe uma dependência e uma correlação bem grande neste sentido. Mas eu julgo que é uma área que demanda mão de obra e com um futuro ainda bastante promissor. Nós já tivemos mais barreiras por conta de um desconhecimento de quem atua na área jurídica, sobre a área de atuação do economista perito. No passado, houve uma atuação forte de outros conselhos e hoje conseguimos consolidar nossa atuação e não só no Rio Grande do Sul, mas no Brasil inteiro. 

Quais dicas você daria para novos e futuros economistas com interesse na Perícia Econômico-Financeira?

Sabendo que o mercado é bastante competitivo, a primeira dica é ter persistência. Num mercado competitivo, sem persistência não vai conseguir entrar. E, a partir do momento em que esta oportunidade aparecer, o seu conhecimento de causa se faz extremamente importante, no sentido de que você deve suprir a carência do advogado ou do juiz, no que diz respeito às questões técnicas. Aí, a partir do momento em que você tem sucesso nisso, certamente o mercado vai começar a se abrir. E outra dica que eu considero muito importante é ter “networking” nessa área, que é por onde se começa a abrir os horizontes. Então, é insistir até aparecer uma chance na área, além, é claro, da boa rede de relacionamentos.

Com um olhar no South Summit

Clovis Meurer

Economista, superintendente da
CRP Participações, ex-presidente
do Corecon-RS, conselheiro do Cofecon,
especialista em Private Equity e Venture Capital.


Qual a importância, para a cidade e para o RS, de eventos como o South Summit, ocorrido em Porto Alegre?

O South Summit Brasil, realizado nos dias 04, 05 e 06 de maio último, no Cais Embarcadero, em Porto Alegre, já foi objeto de ampla divulgação, e repercutiu positivamente para todos os setores da sociedade que se envolveram, como governo, academia, imprensa, empresários e, principalmente, para uma geração de empreendedores, ávidos por mostrar seus projetos com inovações, de forma que pudessem interessar a um mercado consumidor e a convencer investidores. Foi, sem dúvida, um marco para a cidade de Porto Alegre e para o Estado do RS.

De que forma esta edição do South Summit pode servir como um divisor de águas na área da inovação?

A estatística impressiona, tanto pelo número de participantes, painelistas e palestrantes, como pelas inovações apresentadas, vindas das mais diversas regiões do Estado, do Pais e do exterior. Porto Alegre e região já têm excelentes ambientes de negócios, centros tecnológicos, hubs de inovação, etc. Mas o South Summit 2022 foi um divisor de águas, colocando a cidade e a região como um centro mundial para atrair mais ciência, tecnologia, criação e processos colaborativos nos negócios, não só com as startups mas com os mais diversos portes de empresas e setores da economia.

Quais as consequências dessa iniciativa no meio profissional da Economia?

Para os economistas abre-se um mercado ainda maior de trabalho, de participação em projetos, em organização de negócios, discussões da viabilidade dos empreendimentos, avaliações e retornos dos investimentos, quer financeiros, quer de conhecimento, educação e bem estar da sociedade. Por último, cabe destacar que os três dias de muita energia positiva do evento foram turbinados pelo local utilizado do Cais Mauá - ainda não 100% - mas com um Guaíba ao lado, que agradou e inspirou a muitos participantes. Parabéns a todos envolvidos!

Educação Financeira em projeto social


Mariliane Caramão

Economista, educadora financeira,
especialista em psicologia econômica,
criadora do Repen$e Kids

Corecon-RS Nº 8698


 

De que modo a educação financeira pode contribuir com projetos voltados a jovens?

Os jovens que ingressam no mercado de trabalho são presas fáceis no complexo mundo financeiro. Ao mesmo tempo que são estimulados a consumir, eles sentem o crédito como parte integrante da renda. Se não há orientação financeira, se deixam levar pela urgência da posse, por pressões sociais, e acabam endividados. Num Brasil de muitos desafios e sutilezas econômicas, iniciar a vida profissional despreparado para lidar com dinheiro custa caro.

Qual o nível de educação financeira dos jovens no Brasil?

Um estudo do Serasa Experian mostrou que jovens de 18 a 25 anos ocupam o segundo lugar no ranking dos inadimplentes no Brasil, representando mais de nove milhões de pessoas. No mesmo sentido, o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa, 2018) mostra – no quesito letramento financeiro – que, além de ocupar uma posição no final do ranking, o Brasil apresenta uma disparidade em relação ao conhecimento, que chega a 98 pontos. Os estudantes de classes econômicas mais elevadas são mais expostos a conversas que envolvem o trato com dinheiro, possuem mais confiança e interesse pelo assunto, enquanto os estudantes com menor renda recebem poucas instruções. Nesse contexto, é um diferencial à sustentabilidade financeira ser apresentado ao mundo econômico antes de ingressar no mercado de trabalho, principalmente para os jovens de famílias com rendas menores ou situação de vulnerabilidade.


Você participa de projeto social voltado à educação financeira de jovens, o que te motivou?


Eu já estava alinhada com o voluntariado. Mas esse é um exemplo de demanda social que saltou aos olhos durante a pandemia e senti que seria uma oportunidade de contribuir de forma mais eficiente. Hoje, não é aceitável que alguém tenha frustrada sua possibilidade de sonhar em função do lugar onde ela nasceu ou qualquer outra condição. Por isso, empenhar algum esforço para reduzir as disparidades sociais acaba sendo um desejo comum e me coloquei à disposição do Instituto Ascendendo Mentes, em Porto Alegre.


Onde está localizada a ONG e como atua?


O Instituto está localizado no bairro Glória, em Porto Alegre. É um espaço de socialização focado em desenvolver potencialidades para que os jovens ocupem seus espaços no mercado de trabalho. Está fundamentada em quatro pilares: educação socioemocional, educação profissional, educação socioeconômica e sinergia com mercado de trabalho. Além da geração de renda, via formação profissional, entendem que a preparação socioeconômica seja um elo para estabilizar a condição financeira. E é aí que entra a minha atuação. Ainda que as necessidades imediatas sejam supridas através da doação de cestas básicas às famílias envolvidas, o objetivo é estimular a independência e o empoderamento dos jovens.


Que tipo de trabalho estás desenvolvendo lá?


Como citei, a educação financeira entra no pilar socioeconômico como um meio de superar a fragilidade econômica. O programa segue uma estrutura baseada em atividades que exploram o conhecimento financeiro básico associado com tópicos comportamentais. Vai desde conceituar o que é uma compra à vista e a prazo, passando por ferramentas para montar o orçamento pessoal e formar reserva até relacionar o impacto de fatores econômicos no dia-a-dia. Além disso, sabemos que o comportamento econômico individual é resultado do que se pensa e sente em relação aos recursos envolvidos. Então, para encurtar o caminho entre conhecimento e aplicação, são estimulados recursos psicológicos para tomar decisões mais conscientes e autônomas. O participante treina como diferenciar necessidade e desejo, reconhecer armadilhas que estimulam gastos excessivos e analisar o próprio comportamento de consumo.


Qual o objetivo do programa e qual a duração?


O objetivo é dar condições para que os jovens possam ir mais preparados para a vida financeira, sabendo lidar com as situações comuns de quem ingressa no mercado de trabalho. A formação tem duração de quatro meses e, ao longo de 2022, atenderá 60 jovens entre 15 e 17 anos.


Qual é o grande desafio para os jovens?


O desafio está em atrasar recompensas. Para eles, isso se traduz em identificar e tolerar situações que o estimulam a comprar o que não precisa ou gastar dinheiro que não têm em benefício de poupar para comprar um bem pagando à vista, fazer uma viagem, um curso ou ajudar a família.


Tens percebido avanços nesse processo?


O voluntário também encontra desafios num projeto social. Posso citar três: reconhecer as carências na educação geral e criar estratégias para superá-las; necessidade constante de enquadrar o conteúdo (ele precisa ser aplicável ao contexto); por último, a necessidade de priorizar confiança e empatia, entendendo o ambiente ao qual cada um está inserido interfere nas suas decisões. Os alunos estão sendo muito rápidos em assimilar do papel das emoções associadas ao consumo e a maioria já incorporou a ideia de parar para pensar. Também estão evoluindo nas conversas. Elas já ultrapassam o campo das necessidades básicas e até alguns sonhos já foram compartilhados. Enxergo, nesses pequenos sinais, a capacidade de reformular a cultura econômica familiar, e isso me anima muito. Esse retorno, dentro do meu propósito, é muito gratificante.


Quem tiver interesse em contatar com o Instituto, como deve proceder?


O Instituto Ascendendo Mentes recebe doações para a manutenção dos seus projetos e quem desejar contribuir acessar o site: https://www.ascendendomentes.org.br/doapoa e as vagas para novos voluntários também segue abertas: https://www.ascendendomentes.org.br/contato

Indicadores para acompanhamento do desempenho das empresas


Cedenir Agliardi

Economista, especialista em Gestão Financeira,
Sócio da Matrix Consultoria Empresarial
Corecon-RS Nº 62227

 

 

Qual a importância da gestão financeira numa empresa?

A gestão financeira é fundamental para uma boa administração de uma empresa, seja qual for o tipo de atividade que ela atua. Qualquer decisão precisa estar em concordância com a parte financeira. Gestão financeira é cuidar do dinheiro. Cuidar do dinheiro é, literalmente cuidar de todo o caminho que o dinheiro faz na sua empresa, na sua família ou o seu dinheiro mesmo.

 

Como ter o total controle sobre o fluxo financeiro de uma empresa?

Fluxo de caixa diário, semanal, mensal são outras formas necessárias e eficazes de se ter o controle da empresa. Para ter um bom controle sobre o fluxo, primeiro precisamos ter um sistema adequado, o que não é fácil, principalmente para pequenas e médias empresas.  Definido o sistema, precisa de muita vontade e resiliência para mantê-lo em dia.

 

Que tipo de sistema seria esse?  Existem sistemas ERP com controle financeiro e fluxo integrado, mas estes costumam ser muito limitados.

O velho e bom excel ainda é a melhor ferramenta, pois você consegue fazer um fluxo personalizado, específico para sua empresa. Há uma ideia errônea de muitas empresas pequenas sobre uso de ferramentas como excel. Acredite, Wall Mart, GM e muitas outras gigantes fazem o planejamento em excel (ou outras planilhas eletrônicas). Claro, com uso das informações extraídas dos sistemas operacionais.

 

Qual a importância do uso de indicadores no acompanhamento do desempenho da empresa?

Extremamente importante. São os indicadores que servirão de base para a tomada das principais decisões. Toda empresa tem seus indicadores importantes. Precisa calcular e acompanhar.

 

Que tipos de indicadores são considerados essenciais para controle do fluxo de caixa?

Indicadores de desempenho são instrumentos internos utilizados para medir as atividades de uma empresa, que dificilmente conseguirá evoluir e crescer se não tiver parâmetros de acompanhamento de seus números. Muitas empresas até podem crescer sem esses indicadores, mas aí, basta uma pequena crise para o sucesso virar fracasso. Perde tudo o que ganhou porque não viu ou não percebeu a movimentação negativa de caixa. Cada empresa ou ramos de atividade possui seus indicadores específicos. Por exemplo, hotéis e aviões têm como principal indicador o índice de ocupação. Temos o ticket médio, que mostra o comportamento do cliente com a marca e também nos demonstra o nível de satisfação do cliente com a empresa, que serve para a grande maioria dos ramos de atividade, e assim por diante.

 

Qual a importância  da análise de oportunidades em uma empresa? 

Toda empresa, por menor que seja, precisa estar estudando e analisando constantemente seu negócio. Avaliar novas oportunidades, inovações e, principalmente, investir em novos modelos, novas formas de evoluir no seu ramo.

Mulher: Dona de si, líder de si mesma!

Dirlene Silva

Economista, Mentora, Coach e Consultora de Inteligência Financeira,
CEO na DS Estratégias e Inteligência Financeira, palestrante,
embaixadora e professora na Escola Conquer,
conselheira nos projetos Artigo 19 e Injeção de Autoestima,
embaixadora no Clube Mulheres de Negócios de Portugal,
membro coletivo Conexão Mulheres e Economia,
colunista de Finanças nos Blogs do Banco Pan, Prateleira de Mulher e Black Collab.
Em 2020 foi eleita LinkeIn Top Voices, sendo a única economista da lista,
em 2021 foi nomeada Linkedin Creator
e é umas das 50 pessoas mais criativas do Brasil segundo a Revista Wired.


Como tem acompanhado a participação da mulher no mercado de trabalho nos últimos anos?

Até 2020 a participação feminina no mercado de trabalho no Brasil era crescente. A prova disto, é que as mulheres brasileiras conquistaram o direito de trabalhar fora de casa livremente (sem precisar da permissão do pai ou do marido) em 1962, e hoje, passados apenas 60 anos, já representam 61,9% da força de trabalho do país. Ou seja, conquistamos espaços, mas ainda há um caminho considerável a percorrer na busca por equidade. Embora a participação feminina represente mais da metade da força de trabalho, quando se faz o recorte por cargos de gestão, essa participação é de 39,4%. Ainda, quando focamos no topo da pirâmide, somente 3,5% das mulheres ocupam a cadeira número 1 de CEO. Além disso, o salário recebido pelas mulheres é em média 34% inferior ao dos homens.

A pandemia trouxe algum impacto na evolução da participação da mulher no mercado de trabalho?

Sim, a pandemia representou para mulheres um retrocesso em termos participação no mercado de trabalho, pois elas representam a maioria absoluta da massa de desempregados na pandemia. Infelizmente, a pandemia interrompeu a evolução crescente de 30 anos da participação das mulheres no mercado de trabalho. Contudo, apesar dos números negativos, questões como profissões tipicamente femininas, acúmulo de tarefas, dupla jornada de trabalho e maternidade, que não eram anteriormente faladas, ganharam destaque na sociedade. As empresas passaram a discutir e, assim, refletir sobre os vários tipos diversidade, bem como os benefícios delas. Eu, particularmente, vejo esses fatos como uma intenção positiva. Agora, no mês de março, tenho agendadas várias palestras em empresas sobre a diversidade de gênero direcionadas a todos os públicos. A ideia é inspirar as mulheres e sensibilizar os homens, fomentando a discussão de como as competências das pessoas se complementam e que diversidade é saudável. Enfim, a sociedade está questionando o modelo patriarcal, bem como os tabus que envolvem a figura da mulher no mercado de trabalho. E sobre tabus, eu defendo que decretamos o “início do fim de um tabu quando começamos a falar sobre”.

De que forma as mulheres de hoje estão assumindo a sua condição de provedora da família?

A condição de cada vez mais mulheres assumirem o papel de provedora ou responsável pelo provimento da família, na mesma proporção que o cônjuge, está diretamente ligado às conquistas de direitos das mulheres (quadro abaixo) ao longo dos anos e, consequentemente, evolução da sociedade. Em 1970, mesmo trabalhando fora, dizia-se que a mulher apenas ajudava o marido. Minha mãe se divorciou em 1977 e o fato foi um escândalo. Nos anos 80, a mulher apanhar do marido não era um fato que chocava. Inclusive não era crime. Ouço relato de homens que cresceram nessa época e ouviam suas mães instruindo suas irmãs sobre cozinhar, lavar, passar, ou seja, a ser uma excelente dona de casa para que nunca apanhassem de seus maridos. Nossa constituição atual, de 1988, foi a primeira que reconheceu a igualdade de gênero entre homens e mulheres na teoria. Na prática, ainda não existe tal igualdade.

Toda a mulher já se sente preparadas para essa nova realidade?

Sem dúvida que sim. Como visto no quadro anterior somente em 1879, sendo em menos de 150 anos as mulheres conquistaram o direito de cursar uma faculdade. Hoje, elas já representam 57% dos estudantes do ensino superior. Elas estão presentes em 71,3% nos cursos de licenciatura e 54,90% nos cursos de bacharelado. Nos cursos de pós-graduação, este número aumenta, chegando a 64%. Já no mundo do empreendedorismo, mais de 51% dos novos empreendimentos são liderados pelas mulheres. Logo, a realidade é que as mulheres estudam mais e empreendem mais que os homens.

Qual a tendência?

A tendência é que cada vez mais ser “lugar de mulher é onde ela quiser”. As mulheres estão gradativamente mais cientes de seus direitos e que podem fazer escolhas. Há mulheres que optaram por focar na carreira, outras na maternidade, ainda outras, assim como eu, conciliam com maestria ambas as coisas. E também há as que são donas de casa e está tudo certo. Não há problema algum em ser dona de casa ou exercer uma profissão considerada tipicamente feminina, como professora ou enfermeira, por exemplo. O problema mesmo é não ter escolha. Não ter a outra opção de escolha pelo fato de ser mulher. Questões como gênero, cor da pele ou classe social não podem decretar o destino de ninguém.

Qual a sugestão para as mulheres que querem se dedicar cada vez mais à vida profissional?

Na verdade, minha sugestão é para todas as mulheres: Sejam donas de si, líderes de si mesmas. Façam suas opções e escolhas e, exijam respeito a suas vontades. Ratifico, que o fato de ser mulher não pode decretar o destino de alguém. Em relação às mulheres que querem se dedicar à vida profissional: Ainda que em nossa jornada as dificuldades sejam dobradas e se você for mulher, negra e de origem humilde como eu, as dificuldades são exponenciais, elas não são intransponíveis. Então, se eu posso deixar uma recomendação às mulheres é que estudem. Sejam lifelong learner, mas além de estudar as teorias, coloque-as em prática, pois o conhecimento só faz sentido quando é colocado em ação. Autoconhecimento é a mãe do conhecimento. Se permita aprender continuamente. Eleja uma mentora ainda que informal. Cerque-se de mulheres que você admira. Acredito no poder da sororidade e tenho convicção que “o caminho para o crescimento feminino é traçado em conjunto”.


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Interações e relações entre Economia e Sociedade

Luiz ZagoLuiz Henrique Zago Gaston

Economista da Diretoria de Tarifas e Estudos Econômicos da
Agência Estadual de Regulação dos Serviços Públicos Delegados do RS (Agergs),
Mestre em Economia Aplicada PPGE/UFRGS, Conselheiro do Corecon-RS

 

 

 

Qual a importância da sua atividade para a sociedade?
Considerando todas as atividades que realizei ao longo de minha vida profissional e que desenvolvo atualmente, não tenho dúvidas de que se tratam de ações e iniciativas de grande importância para o crescimento econômico do nosso estado e o desenvolvimento cada vez maior de nossa sociedade.

Quais os principais requisitos exigidos para o exercício dessa atividade?
O mais importante de tudo é a qualificação e atualização constantes do profissional da Economia, sempre em sintonia com os novos desafios que se apresentam diariamente.

De que forma os interessados em iniciar esse tipo de trabalho podem ir se preparando para fazê-lo?
Curiosidade e proatividade são qualificações básicas para o crescimento profissional em qualquer ramo de atividade. E nessa área é muito importante a busca constante do aprendizado sobre as interações e relações entre Economia e sociedade. Ou seja, ler, estudar e aprender muito sobre Economia e as diversas áreas transversais que complementam a formação.


Os cursos de Economia conseguem, por si só, transmitir ao futuro profissional formação para atuação nesse mercado?
Penso que, de uma forma geral, os cursos de Economia no Brasil preparam excelentemente o aluno para o seu encaminhamento profissional, através de uma formação teórica sólida, que será fundamental para o desempenho de sua profissão logo ali na frente. Eles fornecem as bases e servem como ponto de partida para a qualificação profissional. Evidentemente, que a consolidação dessa caminhada de sucesso vai depender do esforço e vontade de cada um, ao não medir esforços pela busca da excelência.


Quais as dicas que darias para os estudantes e profissionais que querem entrar nessa área?
É muito importante sempre estar atento aos fundamentos oferecidos na Academia, nas áreas da Microeconomia, Macroeconomia, Estatística, Matemática e História Econômica, aprofundando e ampliando cada vez mais os conhecimentos, sem, entretanto, deixar de buscar as áreas transversais ao conhecimento econômico. Também considero muito importante a busca permanente de uma visão sistêmica da sociedade.

O Economista e a resposta à sociedade

João Carlos Medeiros Madail
Economista, Pesquisador Aposentado da Embrapa,
Professor Universitário, Conselheiro do Corecon-RS
Corecon-RS Nº 3356

 

Qual a importância da sua atividade para a sociedade?

A atividade econômica movimenta, diariamente, as pessoas, as instituições e o país. Por isso, demanda interesse de todos sobre os cenários econômico-financeiros presentes e futuros. E os profissionais capacitados, para darem respostas aos questionamentos da mídia, sobre temas econômicos, são os Economistas. Eu tenho me mantido atualizado para dar opiniões técnicas oriundas de entrevistas e debates em rádios, jornais, lives e palestras, quando convidado. A minha formação, aliada à experiência de 35 anos como pesquisador e de 20 anos como Professor, Mestre em Economia Rural (UFRGS), com cursos de especialização na área agrícola e empresarial no país e no exterior (ICRA-Holanda), tem me assegurado a seqüência de inúmeros convites. Atualmente como Diretor da Associação Comercial de Pelotas e do Corede-Sul, com uma coluna semanal no Diário Popular de Pelotas, tenho atuado como colaborador nos temas econômicos.

Quais os principais requisitos exigidos para o exercício dessa atividade?

Os principais requisitos são, evidentemente, a graduação em Ciências Econômicas, com a seqüência dos estudos no pós graduação em todos os níveis possíveis, concentrando numa determinada área de interesse, seja agrícola, empresarial, financeira e outras.

Como os estudantes dos Cursos de Economia e, mesmo, recém graduados, que tenham interesse, podem ir se preparando para direcionar suas atividades para esse tipo de trabalho?

O estudo da economia é fascinante, pois está presente no nosso dia a dia, seja na organização do orçamento familiar, nas empresas, públicas ou privadas, nas cooperativas e nas políticas públicas que mereçam avaliações de viabilidade econômico-financeiras. O campo da economia é grande com várias oportunidades. Mas é necessário estar próximo dessas oportunidades, via estágios, participando de debates, reuniões, congressos e tudo relacionado ao tema.

Até que ponto os cursos de Economia conseguem, por si só, transmitir formação para atuação nesse mercado?

Os cursos de Economia, em geral, são bastante teóricos, o que requer que os alunos não se acomodem e busquem a praticidade do que é transmitido. Ao ingressar no curso, aconselha-se buscar estágios ou aproximação com profissionais, o que facilitará associar à teoria a prática. Como Economia e Política estão muitos próximos, mesmo que a economia dependa de certa forma, da política, há que subtrair ideologias políticas que existem e são transmitidas por determinados professores, e buscar concentração nas questões técnicas, que garantirão credibilidade ao profissional.

Quais as orientações que daria para os estudantes e profissionais que querem entrar nessa área?

Entendo como imprescindível os estágios profissionais no decorrer do curso. Quando você consegue entender na prática o que lhe estão transmitindo em aula, por exemplo, nas disciplinas de microeconomia, que estuda problemas de alocação de recursos escassos em relação aos objetivos da empresa, ou na macroeconomia ou análise das questões do sistema econômico de determinada região ou país, fica mais claro o entendimento e o interesse pela profissão. Como pesquisador e professor de Economia, contribuí para a formação de vários economistas interessados em atuar na área agrícola, conduzindo-os, após os estágios para cursos de pós-graduação em todos os níveis. Ser Economista é detectar tendências na atividade econômica e contribuir, nas formas possíveis, para a confiança na atividade econômica em todos os níveis.

A Universidade e os desafios na gestão acadêmica

Ezequiel Insaurriaga Megiato

Economista, Pró-Reitor Acadêmico
da Universidade Católica de Pelotas (UCPel),
Presidente da Associação dos Economistas
da Zona Sul do Estado do RS (Aeconsul)
Corecon-RS Nº 8095

 




Qual a responsabilidade da Pró-Reitoria Acadêmica?


A Pró-Reitoria Acadêmica é responsável por direcionar e planejar, estrategicamente, a área acadêmica e pedagógica da Universidade.

Quais as principais metas a serem atingidas?

Queremos ser, enquanto Universidade Comunitária, uma instituição cada vez mais inovadora, atenta aos problemas do local/região onde estamos inseridos, contribuindo para soluções a partir do ensino, da pesquisa e da extensão.

Quais os desafios pela frente?

A educação vive uma intensa transformação em nível global, algo jamais visto. A pandemia, de alguma forma, acentuou essa transformação ainda mais. Essas mudanças atingem, ao fim, as profissões, o mundo do trabalho, etc. Assim, a Universidade deverá estar à frente, atualizando-se e, mais do que isso, propondo os caminhos que a nova economia demanda.

O que significa para um professor de carreira ser galgado a um cargo de Pró-Reitor?

Em nossa Universidade essa é a praxe, e isso, sem dúvida, é muito gratificante. Essa é uma das tantas ações que a UCPel vem adotando sob a liderança extraordinária do nosso Reitor, Dr José Carlos Pereira Bachettini Jr, que, ainda em 2012, instituiu um planejamento estratégico olhando para os próximos 20 anos e, preconizando, assim, a valorização do corpo docente e administrativo, com vistas a termos uma Universidade reconhecida, inspirada na mensagem de Cristo, formadora de profissionais éticos e que, ao fim e ao cabo, contribua para o desenvolvimento pleno - social, ambiental e econômico da nossa região.

 

A Universidade e os desafios na gestão de pessoas

 

Daniel Arruda Coronel
Economista, Pró-Reitor de Gestão de Pessoas da
Universidade Federal de Santa Maria (UFSM)
Corecon-RS Nº 7811

 

 

O que faz a Pró-Reitoria de Gestão de Pessoas de uma Universidade?

A pró-Reitoria de Gestão de Pessoas tem como finalidade o planejamento, a implantação, coordenação e a avaliação das atividades no que tange aos servidores docentes e técnico-administrativos em educação, no âmbito da UFSM.

Quais as principais metas a serem atingidas como Pró-Reitor de Gestão de Pessoas da UFSM?

Nós colocamos três metas como nossos grandes objetivos: um amplo processo de diálogo, uma gestão inovadora e uma gestão desburocratizada. Digo “nós” porque não farei nada sozinho. Muito pelo contrário, estará junto comigo nesse projeto uma equipe altamente qualificada, comprometida. Queremos, cada vez mais, que a Pró-Reitoria esteja mais próxima de sua comunidade. Queremos efetivamente ampliar as políticas de capacitação, acolher e cuidar melhor dos servidores da instituição, principalmente neste momento em que estamos retornando 100% à presencialidade. Pretendemos estar mais próximos da nossa comunidade, atendendo todas as suas demandas com eficiência, eficácia e com uma gestão inovadora e moderna.

Quais os desafios pela frente?

Neste período em que estarei à frente da Pró-Reitoria, vamos sempre rejeitar o autoritarismo, o quixotismo como bússola e como estandarte, e queremos cada vez mais buscar um amplo processo de diálogo, de concertação política, visando termos uma Pró-Reitoria cada vez melhor. Além disso, queremos cada vez mais validar nossas ações num processo de transparência, defendendo sempre a autonomia universitária através de uma luta constante contra o fascismo e o autoritarismo.

O que significa para um professor de carreira ser galgado a um cargo de Pró-Reitor?

Sou servidor docente da UFSM há mais de 10 anos. Tenho uma formação na área de gestão, sou economista, administrador, e nos últimos anos conquistei uma significativa experiência. Já fui diretor da Editora, editor de revista, presidente da Comissão de Ética, diretor de entidade científica e coordenador substituto de Curso. Então,tive a oportunidade de colher várias experiências ao longo dos anos. Mas, sem dúvida alguma, ocupar o cargo de Pró-Reitor de Gestão de Pessoas é o grande desafio da minha vida, já que esta pasta tem um papel estratégico e fundamental para o desenvolvimento da nossa instituição.

O que os conhecimentos na área da Economia podem lhe acrescentar na superação desses desafios?

A experiência como economista será fundamental, pois temos que ter dois princípios balizares: primeiro devemos ter organização e responsabilidade, e segundo, como todos os recursos são limitados, devemos elencar de maneira consciente prioridades visando ter uma gestão eficiente, eficaz, que atenda toda a comunidade universitária.

TART, uma via para a solução de conflitos tributários



Flávio Cardozo de Abreu
Administrador, Auditor-Fiscal da PMPA,
Presidente do TART

 

O que é o Tribunal Administrativo de Recursos Tributários (TART)?

O Tribunal Administrativo de Recursos Tributários (TART) é o órgão colegiado de segunda instância administrativa competente para decidir, em grau de recurso, sobre questões de natureza tributária, suscitadas entre a Fazenda Municipal e os sujeitos passivos das obrigações relativas aos tributos de competência do Município, conforme disposição da Lei Complementar n. 7, de 7 de dezembro de 1973. Criado em 1948 como o Conselho Municipal de Contribuintes, teve sua estrutura renovada e o seu nome alterado em 2005, por meio da Lei Complementar n. 534. Uma das principais alterações foi a divisão em duas Câmaras especializadas.

Quais as funções das Câmaras?

Cabe à 1ª Câmara julgar os recursos relativos ao imposto sobre serviços de qualquer natureza (ISS) e aos demais tributos não compreendidos na competência da 2ª Câmara. A esta compete processar e julgar os recursos relativos ao Imposto sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana (IPTU), à Taxa de Coleta de Lixo (TCL) e ao Imposto sobre a Transmissão "inter-vivos", a qualquer título, por ato oneroso, de bens imóveis (ITBI). Ao plenário compete julgar os conflitos de entendimento sobre legislação tributária entre as Câmaras e o recurso especial interposto por contribuinte.

Por que existem esses Tribunais?

Os tribunais administrativos-tributários da esfera federal, estadual e municipal representam uma possibilidade de solução administrativa dos litígios tributários, sem a necessidade do ingresso de ações no Poder Judiciário, contribuindo para a justiça fiscal, para a celeridade processual e como meio alternativo de solução de disputas à seara judicial.

Qual a composição do TART?

O TART é composto de 14 conselheiros e seus respectivos suplentes, sendo 7 na 1ª Câmara e outros 7 na 2ª Câmara. Há conselheiros indicados pelo Erário Municipal e outros indicados pela sociedade civil. Atualmente integram a 1ª Câmara representantes Conselho Regional de Economia do Rio Grande do Sul (Corecon-RS) do Conselho Regional de Administração (CRA-RS) e do Conselho Regional de Contabilidade (CRC-RS). Na 2ª Câmara atuam representantes da Associação Riograndense de Imprensa (ARI), da Sociedade de Engenharia do Rio Grande do Sul (SERGS) e do Sindicato das Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis e dos Edifícios em Condomínios Residenciais e Comerciais do Estado do Rio Grande do Sul (Secovi-RS).

De que forma as Entidades representativas da sociedade civil participam do TART?

O papel das entidades representativas da sociedade civil é fundamental, no sentido de trazer uma visão externa diferenciada sobre fatos e argumentos aduzidos na esfera recursal. Isso não significa que há algum comprometimento em votar neste ou naquele sentido, muito pelo contrário, há uma total liberdade e autonomia na formação da convicção, de modo que há situações em que os conselheiros indicados pelo Erário votam a favor dos contribuintes e outras em que os conselheiros indicados pelas entidades votam a favor do Fisco, em verdadeiro exercício democrático de manifestação do pensamento. A contribuição do Corecon-RS, ao longo do período de 2018 a 2021 foi sempre pautada pela técnica, independência, higidez e imparcialidade, em verdadeira demonstração da excelente qualificação dos Economistas do Rio Grande do Sul.

 

Caxias do Sul e cenários para a economia


Romário de Souza Gollo
Economista, professor da Universidade de Caxias do Sul (UCS),
Consultor Empresarial

Corecon-RS Nº 6808

 

Os números da economia de Caxias do Sul vêm apontando recuperação?

Sim. A economia de Caxias do Sul vem apresentando recuperação ao longo do ano de 2021 e já sinaliza uma retomada do crescimento, segundo dados da Câmara de Indústria e Comércio (CIC) e Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Caxias do sul. Entretanto, o crescimento deve acontecer de forma gradativa, pois depende de variáveis exógenas que podem interferir no desempenho.

Quais setores aparecem em destaque?

O setor da indústria apresenta o maior destaque. Em segundo lugar vem o comércio e em terceiro lugar o setor de serviços. Conforme apontam os dados da CIC e CDL de Caxias do sul, o setor de serviços vem mostrando resultados negativos. A indústria, por sua vez, é o setor mais pujante, compensando os resultados negativos dos demais setores.

A que se deve essa recuperação?

A recuperação se deve ao setor da indústria, ainda que pouco expressivo. O comércio já mostra sinais de recuperação e o setor de serviços também deve apresentar avanço, especialmente com o advento das datas comemorativas de final de ano.

O que falta para "normalizar" a caminhada de crescimento?

Para normalizar a trajetória do crescimento é necessário que a imunização atinja os percentuais desejáveis de pessoas vacinadas contra a Covid-19, para, assim, poder liberar a abertura (sem restrições) do comércio. Quando o comércio voltar à normalidade, certamente vai puxar os demais setores, ou, pelo menos, melhorar seus próprios resultados.

Quais os gargalos que impedem uma retomada mais efetiva?

Os gargalos que impedem a retomada do crescimento são justamente os relacionados às restrições das atividades econômicas. Esses gargalos serão eliminados a partir do momento que acabem as restrições e as atividades voltem a sua normalidade. Assim, não haverá mais falta de insumos, que é uma das principais causas dos resultados pífios, considerando o ambiente global.

Como estão as expectativas dos empresários?

Os empresários estão otimistas, alguns, inclusive, relatam que não tiveram maiores dificuldades para enfrentar a crise. Estão sinalizando uma retomada de crescimento, assim que a economia volte à normalidade. Isso fará com que o consumidor também volte a consumir mais, fomentando o fluxo real da economia.

E como estão as expectativas das famílias?

As expectativas das famílias também são otimistas. Ainda que algumas apontem dificuldades na retomada do consumo, devido à deterioração do poder de compra, causado pelo aumento da inflação, especialmente nos últimos meses. Outras, estão apostando na retomada das atividades do comércio, que pode gerar empregos mesmo que temporários. Por fim, a retomada do crescimento depende do avanço da vacina e da liberação das atividades econômicas, sem restrições.

 

O Brasil e a Economia dos Transplantes

Tallys Kalynka Feldens

Economista da Secretaria de Estado de Saúde
do Paraná (Sesa-PR), 
Mestre e Doutoranda
em Desenvolvimento Econômico na UFPR

Corecon-PR Nº 8493

 

Como está o Brasil, comparativamente aos demais países da América Latina, na oferta de doações de órgãos para transplante?

Os dados de 2019 indicam que o Brasil é o segundo maior transplantador do mundo, apenas atrás dos EUA (ABTO, 2020). Em relação à América Latina, o Brasil (18,1) está atrás do Uruguai (22,86) e da Argentina (19,6), em termos de doadores falecidos por milhão da população (IRODAT, 2021).

De que forma a legislação brasileira tem facilitado ações nesse sentido?

A legislação brasileira é do tipo opt-in, ou seja, nenhum indivíduo é considerado doador a não ser que a família do falecido expresse o desejo de doar os órgãos. Para os órgãos em que é possível a doação em vida, a legislação permite que seja realizada para cônjuges ou parentes até 4º grau, ou outra pessoa, mediante autorização judicial (Lei nº 9.434/1997).

Os governos têm facilitado, através de políticas sociais, a ampliação de doações de órgãos?

A maioria das secretarias dos estados apoia o movimento nacional “Setembro Verde” pela doação de órgãos, através de passeatas, palestras, banners, vídeos e programas de rádio. No dia 27 de Setembro é comemorado o Dia Nacional do Doador de Órgãos, onde, em muitos lugares, são realizadas cerimônias religiosas de homenagem aos doadores, bem como ações de conscientização Brasil afora.

No entanto, na pesquisa que tenho realizado, os resultados sugerem que as ações do Ministério da Saúde não estão sendo eficazes.
Sobre o que trata a sua pesquisa?

Minha dissertação em Economia dos Transplantes possui dois ensaios. Um deles visa responder como a mídia pode contribuir com a conscientização pela doação de órgãos; e o outro explora as relações de incentivo entre doação de doador cadáver e doador vivo.

E como a mídia, jornais, programas de rádio e televisão ou campanhas têm ajudado a ampliar o número de doações?

A doação de órgãos é um ato de generosidade e altruísmo que encanta a população. Uma vez ou outra aparecem histórias emocionantes na mídia sobre doação. Celebridades cujas famílias autorizaram a coleta dos órgãos, como no caso do apresentador Gugu Liberato, bem como de pacientes que recuperaram esperança ao receber um órgão. Também é bastante comum que as novelas exponham esse tema, devido à alta carga dramática que possui. A televisão ajuda a criar um cenário que promove a conscientização e propicia conversas sobre o assunto, e de acordo com as nossas estimativas, possui praticamente o mesmo impacto em número de doações de aparelhar o sistema com mais equipes transplantadoras, por exemplo.

O que falta para adquirirmos uma cultura mais eficiente de doação de órgãos?

É necessário que as pessoas tenham acesso a informações de como funciona o processo de doação e alocação de órgãos. Com isso, eu acredito que é possível que haja um maior conhecimento e confiança nas instituições envolvidas, permitindo, em caso de ser necessário tomar uma decisão sobre doação, possamos decidir com segurança e altruísmo.
Link para a dissertação completa: https://acervodigital.ufpr.br/handle/1884/71555

 

Negócio Fechado: Inovação no mercado da pecuária

Leandro Antonio de Lemos
Diretor do Negócio Fechado, Professor, Consultor de Empresas,
Ex-Presidente Corecon-RS
Corecon-RS Nº 4667

 

Foi lançado, no dia 6 de setembro último, o aplicativo "Negócio Fechado", o primeiro "app" exclusivo de compra e venda de bovinos do País. Com o objetivo de auxiliar o mercado pecuário, o programa foi anunciado na Expointer como resultado de uma parceria entre o Instituto Desenvolve Pecuária (IDPec) e da SafeWeb Segurança da Informação. O Corecon-RS entrevistou o economista Leandro Antonio de Lemos, Ex-Presidente do Corecon-RS e atual diretor do Negócio Fechado, que contou mais sobre as funções e objetivos do aplicativo.

 

Qual o objetivo do "Negócio Fechado", primeiro aplicativo de compra e vendas de bovinos no Brasil?

O objetivo do aplicativo “Negócio Fechado” é permitir a comercialização entre produtores da pecuária para compra e venda de gado, tanto para reposição como para corte. Esse é o primeiro aplicativo do Brasil que permite o processo completo. Desde o cadastramento, certificado. Ou seja, consegue-se identificar através da administração do aplicativo se quem está anunciando realmente é a pessoa jurídica ou física, com a certificação da SafeWeb.

Como funciona?

Pode-se fazer o download do aplicativo direto pelas lojas IOS ou Android ou diretamente no site do aplicativo. Você faz o cadastro, coloca seus dados, que são protegidos em alto nível de segurança, criptografados. A partir daí, a pessoa pode fazer o anúncio no aplicativo, colocando fotografias e vídeos do seu gado para venda.

Qual o nível de segurança das informações contidas no App?

As informações são completamente seguras, tanto para quem quer comprar como para quem vai vender. O comprador entra em um chat privado com quem está vendendo, chat este também criptografado, permitindo um alto nível de segurança e impossibilitando qualquer tipo de acesso de um terceiros nas conversas entre os negociantes.

Todos as etapas envolvendo a transação podem ser feitos por ali?

A grande vantagem é que a parte interessada pode fazer o pagamento direto pelo próprio aplicativo. Nós temos uma ferramenta de segurança, de transações digitais, integrada com os sistemas bancários, o que permite o pagamento de forma muito segura. E quem está vendendo vai ter informação instantânea de que o recurso entrou em sua conta bancária. Temos a possibilidade de pagamento por TED, DOC, boleto bancário e cartão de crédito. O fato de possibilitar negociações com cartões de crédito também é um diferencial, já que o comprador pode acumular seus pontos ou “milhas” para seu cartão.

Qual a importância da certificação adquirida pelo "Negócio Fechado"?

A importância de ter a certificação do Negócio Fechado é impedir fraude e impedir que impostores entrem no sistema e abram negociação, obtendo dados dos produtores ou de seu patrimônio, protegendo-se, então, de possíveis crimes, tanto cibernéticos quanto patrimoniais.

O App é utilizado apenas dentro do Brasil ou pode ser utilizado também por clientes do exterior?

O aplicativo pode ser usado também no exterior. Inicialmente, estamos com 1800 produtores cadastrados dentro do RS e, gradativamente, estamos agregando outros estados do Brasil. E como é uma plataforma na web, ele pode ser acessado de qualquer lugar do mundo, por qualquer interessado no aplicativo.

O Talibã, a economia e o Afeganistão

 

Roberto Rodolfo Georg Uebel
Economista , Doutor em Estudos Estratégicos Internacionais,
Pós-doutorando em Geografia Política, Professor da ESPM-POA 
Corecon-RS Nº 8074

 

Qual a importância política e econômica do Afeganistão no cenário mundial?

Economicamente o Afeganistão não tem uma importância muito significativa no cenário mundial. É um país muito pobre, com um dos piores indicadores de desenvolvimento econômico, um índice de Gini muito baixo, e se localiza numa região cercada de potências econômicas, como o Irã, Paquistão e Índia, e fazendo fronteira com a China, que foi um dos primeiros governos estrangeiros a reconhecer o Talibã como governo legítimo do Afeganistão. Economicamente não tem importância tão grande como a de seus vizinhos, o que não quer dizer que o país não tenha uma importância regional e internacional. O Afeganistão é um grande produtor de commodities minerais, tanto de metais, como também de minérios, que fornece para seus países vizinhos parceiros tradicionais, e, também, na prospecção do solo, como gás e, numa quantidade bem menor, em petróleo.Politicamente, o Afeganistão está localizado no meio da Bel and Road, a iniciativa da China de expansão de suas rotas comerciais para o Oriente Médio, Norte da África e Europa. Também está na rota dos gasodutos russos em direção ao Oceano Índico, estando, portanto, o território afegão, tanto na rota da expansão comercial chinesa como da expansão energética russa, e, por isso, foram os dois primeiros países a reconhecerem o Talibã como regime de fato daquele país.


Quais os principais impactos econômicos da crise no Afeganistão?

Podemos perceber alguns impactos no sentido em que a partir do momento em que assume o governo, não tem mais acesso às reservas bancárias antes atribuídas ao governo afegão, já que as contas foram bloqueadas pelos EUA, assim como foram congelados os empréstimos do FMI, pelo fato de que não há o reconhecimento do governo Talibã como um governo legítimo, o que os coloca numa situação muito próxima à da Venezuela, do governo Maduro, que, da mesma forma, não tem acesso às suas contas bancárias. Então, os recursos que eles têm internamente são garantidos justamente por China e Rússia. Como consequência, percebe-se aí uma crise econômica que vai se transformar numa crise orçamentária, até porque sem recursos o governo afegão não consegue fazer políticas públicas. Não consegue, por exemplo, garantir acesso da sua população à vacina contra a COVID-19 ou garantir o mínimo dos serviços básicos. Por isso, deve buscar alternativas via Rússia e via China para tentar conter esses bloqueios.


Quais as consequências à economia dos EUA ao cessar gastos de mais de 20 anos de intervenção no Afeganistão?

Com relação às consequências à economia norte-americana, se estima que os EUA gastaram U$ 6,4 trilhões em 20 anos nas guerras do Afeganistão e do Iraque. Estimativas dão conta de que os EUA tenham dispendido U$ 3 trilhões na guerra do Afeganistão em 20 anos, o que foi um impacto muito grande no orçamento de defesa daquele país. Justamente por essa razão, há um clamor domésticonos EUA, do eleitorado norte-americano, tanto de democratas como de republicanos, para que os EUA deixasse aquele país. Então, os 20 anos de 11 de setembro tem a simbologia da data, mas também já havia uma pressão doméstica, no mínimo há 10 anos,desde a morte de Bin Laden, para sair do Afeganistão. Foi um impacto muito significativo no orçamento norte-americano, que, evidentemente, deixou de ser gasto em outras áreas. Cabe lembrar que o próprio sistema de saúde dos EUA é muito falho, também pelo fato de não possuir um sistema universal como o do Brasil, e, justamente, um dinheiro que poderia ter sido utilizado para o AlffordableCareAct ou Medicare, programa de saúde criado pelo governo Obama.


De que forma essa crise pode afetar economias dos países em desenvolvimento, como o Brasil?

Eu não vejo a crise geopolítica e geoeconômica do Afeganistão afetando o Brasil diretamente. Já temos as nossas próprias crises, com um governo que flerta com o autoritarismo, então eu diria que não tem como traçar um comparativo com isso. O que poderia nos afetar, aí sim,seria eventual instabilidade no Oriente Médio ou nos países vizinhos, como Índia, Irã, ou demais países, como Arábia Saudita, Jordânia, Líbia, Turquia, Bangladesh, enfim, países que são grandes compradores de commodities brasileiras, como carnes e grãos, ou, ainda, num eventual bloqueio de transporte marítimo naquela região - muito embora Afeganistão não tenha costa marítima -, que poderia afetar o transporte de commodities. Mas isso seria um cenário hipotético. Num cenário factual, verídico, não vejo impacto na economia brasileira, já que o Afeganistão não é parceiro estratégico do Brasil. Tanto que o Afeganistão teve durante três anos uma embaixada no Brasil, que acabou fechando porque as relações nunca se adensaram. O Brasil, por sua vez, nunca teve Embaixada em Cabul. As nossas relações diplomáticas são realizadas pela Embaixada do Paquistão, esse sim, um parceiro importante do Brasil. Aliás, penso que seria interessante o Brasil se posicionar recebendo os refugiados afegãos, como fez no passado. Uma demanda pequena, que contribuiria muito para a imagem do Brasil no cenário internacional.


Por que a estrutura montada pelos EUA ao longo dos últimos 20 anos não foi o suficiente para o talibãs não voltar ao poder?

Os EUA ficaram mais tempo que deviam no Afeganistão. Invadiram o Afeganistão para caçar o Bin Laden e dar uma resposta à população norte-americana, em resposta às agressões sofridas no 11 de setembro de 2001, mas ficaram mais tempo do que o necessário. Foram 20 anos de muito gasto sem conseguirem treinar efetivamente as forças armadas afegãs, ou conseguir garantir a transição às instituições democráticas afegãs preservando as características locais. Não obtiveram sucesso nessas questões. Acho, portanto, muito difícil pensar numa solução de curto prazo para o Afeganistão, que não envolva ou que deixe de envolver a participação de organizações internacionais. Não uma missão humanitária, estilo a do Haiti, mas que se tenha a permissão de organizações como a ONU e outros organismos internacionais, autorizados pelo Talibã, a conduzirem políticas de reassentamentos de deslocados internos, que já são 5 milhões de pessoas. Os interesses de China e Rússia não são meras ideologias, muito pelo contrário. Mas de garantir seus negócios na região. Então, com a saída dos EUA, esse espaço deverá ser ocupado pelas duas nações, bem como pela Turquia, Irã e Arábia Saudita.

 

A economia dos Azeites & Olivais

Eduardo Mauch Palmeira
Economista da Unipampa, Professor do Instituto de Desenvolvimento Educacional de Bagé (IDEAU/Bagé),
Editor Revista Azeites & Olivais, Consultor e Palestrante, Mestre em Integração Econômica Global e Regional (UNIA-ES)
e Gestão de Organizações Públicas (UFSM)

Qual a importância da olivicultura para a economia do Brasil e do RS?

O Brasil é o segundo maior importador de azeite no mundo, perdendo apenas para os EUA. Desta forma produzir azeitonas para a extração de azeite e para a conserva, é uma alternativa viável de produção. A olivicultura veio como uma alternativa, pois diversifica a matriz produtiva, o que é muito bom. Na época da colheita, a maioria dos produtores, ainda colhem de forma não mecanizada, o que proporciona um grande número de postos de trabalho. O país poderá crescer muito em termos de área plantada, e mesmo assim não conseguirá atender a toda a demanda nacional.

Em que época o Brasil começou a se voltar para a produção de azeite de oliva?

A história da olivicultura no país não é nova, como muitos pensam. Nós, da Revista Azeites & Olivais, estamos participando do resgate desta história, que tem sim uma importância muito grande no que diz respeito a esta cultura. Já achamos relatos de produção nas décadas de 1940 e 1950, aqui no estado do RS. Porém, em São Paulo, no mesmo período, foram encontrados os relatos de produção de azeitonas e de extração de azeite. Na fase atual, já no início dos anos 2000, alguns produtores, retomaram o cultivo da oliveira e com o sucesso que os pioneiros do século XX não o tiveram. São vários os fatores que podem ter influenciado, lá no passado. Não havia a tecnologia e o conhecimento técnico que possuímos na atualidade, bem como acesso a estudos e equipamentos, que estão fazendo a diferença no atual momento da olivicultura brasileira.

Que regiões do RS se destacam na produção de azeite de oliva?

A maior concentração, em termos de área plantada, está na metade sul do RS. Porém, a cultura da oliveira vem ganhando espaço em todo o Estado. A cada ano mais produtores/investidores estão aderindo ao plantio, e, claro, sempre em áreas que sejam propícias para isso. O município de Bagé, onde resido, poderá chegar a mais de mil hectares nos próximos dois anos. Mas se contarmos com a região da Campanha Gaúcha, esse número poderá ultrapassar os 4 mil hectares. No município de Encruzilhada do Sul há cerca de 1000 hectares plantados e em expansão.

Em que nível de qualidade se encontra o azeite gaúcho em relação aos maiores produtores mundiais?

O azeite produzido no país, isto é, não só no RS, tem se destacado em concursos internacionais, o que demonstra a qualidade do produto aqui produzido. Concursos estes realizados em diversos países, com degustadores qualificados, que identificam as qualidades do azeite extra virgem, bem como se há defeitos nas amostras. Um bom azeite não pode ter cheiro de ranço, de vinagre, por exemplo. E estes são defeitos que um azeite extra virgem não pode ter. O cuidado que os produtores gaúchos e dos outros estados produtores, como Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Bahia e Espírito Santo, têm, desde a escolha das variedades, do plantio, da colheita e do processamento (extração e envase) faz com que nosso azeite seja um extra virgem de qualidade.

Quais as expectativas dos olivicultores gaúchos para a safra deste ano?

A cada ano as expectativas são as melhores. Porém, a olivicultura também depende das condições climáticas. Vale salientar que a cada ano que passa, vamos acompanhando a chegada de novos azeites ao mercado. Isso se dá em virtude de que a produção/colheita leva em torno de cinco anos para obter a primeira safra. Esta última safra foi, para muitos produtores, uma surpresa, pois colheram bem acima do que esperavam.

O governo tem estimulado a produção do azeite de oliva?

O governo gaúcho criou a Lei Nº 15.309, de 29 de agosto de 2019, que institui a Rota das Oliveiras no Estado do Rio Grande do Sul. Os municípios integrantes são Bagé, Barra do Ribeiro, Cachoeira do Sul, Caçapava do Sul, Camaquã, Candiota, Canguçu, Dom Feliciano, Dom Pedrito, Encruzilhada do Sul, Formigueiro, Pantano Grande, Pinheiro Machado, Piratini, Rosário do Sul, Santa Margarida do Sul, Santana do Livramento, São Gabriel, São Sepé, Sentinela do Sul, Vila Nova do Sul, São João do Polêsine, Restinga Seca e Hulha Negra. O próprio Instituto Brasileiro de Olivicultura (Ibraoliva) destaca que o setor produtivo dos azeites de oliva produzidos no Rio Grande do Sul será contemplado pelo Programa Produtos Premium, do governo do Estado e que o projeto, da Secretaria de Inovação, Ciência e Tecnologia (SICT), de Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural (Seapdr), Desenvolvimento Econômico (Sedec), Meio Ambiente e Infraestrutura (Semai) e a Fundação de Amparo à Pesquisa (Fapergs), tem o objetivo de organizar e promover a produção, agregando valor aos produtos agropecuários gaúchos, por meio da inovação e do conhecimento. E, como consequência, estimular a economia e todos os elos que participam dessa cadeia. É importante salientar que, na época, a decisão foi aprovada por unanimidade pelo comitê gestor do programa. O azeite de oliva será o segundo produto a ser chancelado. O primeiro foi a carne, que já está em andamento.

Existe, então, uma integração por parte dos órgãos de diferentes esferas governamentais trabalhando nesse sentido?

Notamos, sim, que há um trabalho integrado sendo realizado, entre o governo do Estado e governos municipais e, ainda, o setor privado, para que não só a produção de azeite seja reconhecida, mas, também, a produção de azeitonas em conserva e produtos elaborados com compostos da oliveira.

Como está o olivoturismo no RS e em que regiões está acontecendo de forma mais efetiva?

Os empreendimentos voltados para o olivoturismo são uma nova opção para quem gosta de azeite, mas não só para estes apaixonados pelo ouro líquido. Os empreendimentos atraem por suas estruturas e belas paisagens. A região metropolitana de Porto Alegre, na cidade de Viamão, a menos de 30 km, está localizada a Estância das Oliveiras. Já, na serra gaúcha, na cidade de Gramado, o Olivais de Gramado. Esses dois empreendimentos têm ótimas atrações, com acesso fácil e diversão garantida. Na região central do Estado, em São João do Polêsine, os amantes do olivoturismo encontram o Recanto Maestro, e ainda podem desfrutar das termas. Na metade Sul do RS está a pousada Vila do Segredo, em Caçapava do Sul. Visitar a estrutura de processamento de azeites (chama-se Lagar), passando no primeiro momento pelo pomar, para ter o contato com as plantas de oliveira, e, depois, participar de uma degustação, são uma maneira de entender um pouco mais sobre este produto, o azeite. As rotas de olivoturismo vem sendo desenvolvidas e apresentadas ao turista, com o apoio de agências de turismo receptivo, que estão proporcionando várias experiências neste segmento, que incluem além do azeite, o vinho, a carne e queijos. Esta é uma harmonização que traz novas experiências, e as terras gaúchas oferecem todas elas.

Qual a importância de participar como editor de uma revista especializada?

Participar de um projeto desafiador é muito bom e estando ligado à área da educação foi uma maneira de continuar ao que nos propusemos como profissionais, uma vez que já fazia parte de conselhos editoriais de revistas acadêmicas.

Como surgiu a Revista Azeites& Olivais (A&O)?

A revista surgiu como o produto de um mestrado. A Diretora/Esposa, a Administradora Luciane Gomes, após a conclusão do seu mestrado, propôs a criação da revista, e, prontamente, o desafio foi aceito, e envolveu a família. Assim, em 2019, no mês de março, na abertura oficial da colheita, no município de Formigueiro, entregamos os exemplares da Edição 00 da Revista Azeites & Olivais (A&O). Nossa expectativa foi superada e a Revista A&O ultrapassou as fronteiras e, também, o Atlântico. E convido a quem quiser conhecer um pouco mais sobre azeites e sobre a cultura de oliveiras, que acesse as edições no site da revista. O leitor tem a opção de baixar os exemplares para sua leitura, além das edições especiais, só com receitas que em sua elaboração têm, é claro, um bom azeite. A revista é um meio de divulgar os azeites produzidos no país e no continente sul-americano, sempre levando informações para que, cada vez mais, o consumidor tenha as melhores informações sobre a temática. Visite https://azeiteseolivais.com.br
Consuma azeite! É muito bom e saudável!! Azeite em tudo!!!

O consumo de vinho sob a ótica de um Economista


 

Mauro Salvo
Doutor em Economia, Analista do Bacen,
Ex-Vice-Presidente Corecon-RS
Corecon-RS Nº 5630

 

 

De onde vem seu interesse pelo mercado de vinhos?

Frequentemente me perguntam o motivo que levou um economista a se interessar por vinhos. Costumo dizer que foi o mesmo que levou um adolescente a se interessar pelas ciências econômicas: a curiosidade e a inquietude diante de um assunto tão “misterioso” quanto fascinante. No caso do vinho, também havia a desconfiança, a dúvida de como poderia caber tanta informação, história, ciência, trabalho e paixão dentro de uma taça? Assim como quando decidi entender mais sobre economia, o mesmo se deu em relação ao mundo de Baco: no meu cérebro pairava uma dúvida sobre o que faria sentido e o que, de fato, era enganação nas falas dos especialistas.

E como surgiu a ideia do e-book?

A ideia de fazer esta pesquisa nasceu quando, ao perguntar aos agentes que atuam no setor vitivinicultor sobre o comportamento padrão do consumidor de vinho, recebia respostas pouco conclusivas. Faltavam dados robustos sobre diversas questões vitais para a análise econômica da atividade. Os vendedores, sejam eles lojistas ou produtores, conhecem os números de suas vendas, mas na maioria das vezes não sabem por qual motivo as pessoas demandam seus produtos. Esta lacuna de conhecimento pode não inviabilizar seus negócios, mas é pouco provável que otimize o retorno sobre o capital investido. Por isso o objetivo do questionário aplicado ao consumidor de vinhos no Brasil (e aos não consumidores) foi entender por que ele age de determinada maneira e quais condições seriam necessárias para mudar seu padrão de consumo. Sucintamente, a pesquisa visa delimitar as possibilidades para expansão da oferta e quais ações fomentadoras de vendas poderiam ser adotadas. Sem conhecer os números, muitas ações se tornam um “tiro no escuro”.

Quais as principais conclusões dessa pesquisa?

Sou suspeito porque acho que todas as informações do livro são muito úteis. Todavia, para ser mais específico, eu ressaltaria: as respostas que possibilitam medir a elasticidade-preço e a elasticidade-renda da demanda por vinho; os resultados referentes às preferências por gênero; e os resultados que relacionam as faixas de renda com as faixas de preços. Quanto às elasticidades, observa-se que os consumidores se mostraram pouco propensos a aumentos no consumo, seja por redução de preços, seja por aumento em suas rendas. No que tange à preferência por gênero, o resultado destrói o mito de que mulheres preferem espumantes quando mostra que cerca de 70% delas optam por vinhos tintos. Por fim, quando se confronta faixas de renda com faixas de preços, verifica-se que mesmo entre consumidores de renda alta parece haver um teto para o preço de uma garrafa de vinho, ou seja, não é uma relação proporcionalmente linear.

Qual o impacto da pandemia no mercado de vinhos no Brasil?

No que se refere a mudanças de consumo durante a pandemia, embora muitos tenham aumentado o consumo, uma boa parcela reduziu e outra manteve a demanda inalterada. A pesquisa mostrou que 42,1% aumentaram o consumo, 37,1% mantiveram a demanda inalterada, 15,5% diminuíram a compra e 5,2% pararam de consumir. No geral, durante a pandemia, o consumo de vinhos no Brasil cresceu muito. A expectativa é saber se continuará crescendo ou diminuirá, ou, ainda, para qual patamar irá no pós-pandemia.

Como os produtores brasileiros buscam atender a essa demanda?

Na realidade, a demanda por vinhos no Brasil supera em muito a capacidade de nossa oferta. A produção brasileira tem crescido, tanto nas regiões tradicionais como em novas regiões produtoras. Os produtores nacionais têm investido em novas tecnologias, seja nos vinhedos, seja na elaboração na adega. Novas castas têm sido plantadas, assim como vem surgindo novos terroirs. Mais produtores têm investido nas regiões Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste, bem como novos estilos de vinho vêm sendo lançados e testados no mercado brasileiro. Ações de marketing e “enoeducativas” também vêm ajudando no aumento do interesse dos consumidores. O desafio dos stakeholders do mercado é descomplicar o consumo do vinho, mostrando que o vinho pode ser “normalizado”, ou seja, pode ser consumido para comemorar um evento importante na vida das pessoas, mas, também, pode e deve ser consumido hedonisticamente no nosso cotidiano.

Quem tiver interesse em conhecer o seu trabalho, como pode fazer?

Pode fazer o download, clicando no buscador da Amazon o título do e-book, “Visitando o que pensa O CONSUMIDOR DE VINHO NO BRASIL: um olhar pela lente de um economista traduzido em estatísticas e gráficos”, https://www.amazon.com.br/dp/B09887CLV2 Haverá um custo de R$ 15,00, e a Editora é a Cinco Continentes, 1ª edição (28 junho 2021). Mais informações sobre o mercado de vinho podem ser encontradas no perfil do instagram @economista_na_adega

As lições europeias no enfrentamento da Covid-19

 

Pedro Pita Barros
Economista, Catedrático da Universidade Nova de Lisboa,
Membro do Conselho Nacional de Saúde de Portugal,
Editor do International Journal of Health Economics and Management

 

 

Qual a contribuição da economia da saúde para o entendimento da dinâmica e das consequências da epidemia da Covid?

A economia da saúde ajuda a colocar na discussão os elementos de valorização dos vários equilíbrios, que é preciso ir estabelecendo, e a compreender efeitos menos evidentes. Por exemplo, ajudar na priorização para vacinação, segundo a capacidade para beneficiar individualmente e em termos de quebrar as cadeias de transmissão; também chamar a atenção para desvio de recursos para atender os doentes com Covid-19 tem custos escondidos de outras doenças que ficam por tratar; a importância das questões de equidade no acesso a cuidados de saúde necessários, e às vacinas, são igualmente um tema em que a economia da saúde contribui para melhores decisões.

Como a Europa, e Portugal em particular, estão vendo a situação brasileira atual?

Do lado de cá do Atlântico, a situação do Brasil é vista com preocupação. Por um lado, preocupação com os custos (e a dor) para a população brasileira de não terem uma resposta adequada à pandemia. Essa resposta tinha que passar, quer por medidas de contenção da difusão do vírus, quer por apoio social a quem fica mais afetado na componente econômica. Por outro lado, a preocupação também com a possibilidade de serem geradas variantes que criem dificuldades adicionais no controle da pandemia.

Qual o efeito das vacinas sobre o número de mortes e de novos casos na Europa?

Tem havido um claro efeito de redução de mortes face ao que sucederia se não houvesse as vacinas. Nos novos casos, a situação é mais complicada por causa da nova variante Delta, que tem gerado um aumento muito rápido de novos casos. Começou no Reino Unido e está agora a espalhar-se pela Europa Continental.

Como tem sido feita a compra de vacinas na comunidade europeia e quais os critérios de distribuição?

A Comissão Europeia coordenou a compra conjunta, antecipada, de vacinas a várias empresas, ainda na fase de desenvolvimento (como forma de gerar fundos que permitissem terminar os processos de criação das vacinas, e como forma de garantir acesso dos países da União Europeia participantes às novas vacinas). A distribuição entre países é feita segundo o critério de população de cada um. Esta regra permite que os países da União Europeia participantes estejam sensivelmente no mesmo nível de vacinação (dependendo da rapidez dos processos de cada país e não da disponibilidade de vacinas diferente).

Quando a Europa e Portugal irão atingir a chamada imunidade de rebanho?

Honestamente, não sabemos. As novas variantes, como a Delta ou outra que a venha a substituir – esperamos que não, mas a biologia não é complacente com as nossas esperanças – alteram os níveis necessários de pessoas imunes para se criar essa imunidade de grupo ou de rebanho. Para as estirpes originais, falou-se muito em ter 70% da população vacinada. Agora, com a variante Delta, há quem estime que poderá ser necessário 85%, ou mesmo mais, da população imunizada para se conseguir esse efeito de imunidade de grupo. E claro, haverá sempre o risco de surgirem mais tarde variantes vindas de outras geografias que compliquem essas contas.

Mulheres da Economia e a I Enconexão

 

Cristiane da Silva
Doutoranda em Economia,
professora de Matemática e Estatística

 

 

Qual a proposta do I Enconexão, que será realizado em julho próximo?

O 1º Enconexão, que será realizado no dia 24 de julho próximo, tem como proposta promover e fomentar reflexões e debates relacionados à economia e sociedade, sob uma perspectiva de economistas, empreendedores(as) e gestores(as) de projetos sociais. O evento foi pensado no intuito de fomentar a discussão, a troca de conhecimento, fornecendo visibilidade aos estudos realizados ao garantir um espaço para divulgação em mídias digitais.

A que público é dirigido e que áreas serão abordadas?
O evento destina-se aos pesquisadores, profissionais e alunos da área de Ciências Econômicas, de áreas afins, integrantes de ONGs, projetos sociais, e ao público em geral. Além destes, espera-se que mais pessoas sejam beneficiadas pelos conhecimentos compartilhados através da divulgação nos meios de comunicação. Em outras palavras, esperamos a participação da sociedade como um todo, interessada em discussões de cunho econômico e social. Nossas áreas temáticas são Economia Feminista; Economia da Saúde; Economia do Trabalho e da Educação; Macroeconomia e Finanças; Economia, Política Social e Demografia Econômica; Desenvolvimento Econômico e Sustentabilidade Ambiental.

Vocês já estão recebendo trabalhos para submissão?
Sim. Foram submetidos trabalhos em todas as áreas temáticas, enviados por pesquisadoras de diferentes estados brasileiros, o que garantirá a pluralidade nas discussões enriquecendo o debate.

Como os interessados podem participar do evento?
A submissão de trabalhos encerrou no dia 14 deste mês, mas as inscrições para participação como ouvinte estarão abertas até o dia do evento, ou seja, até o dia 24 de julho. Destacamos que será fornecido certificado digital de participação como ouvinte, desde que esteja formalmente inscrito no evento.
O que é o Conexão Mulheres e Economia (CM&E), que está promovendo o Encontro?
É um grupo de mulheres interessadas em discussões econômicas e sociais, que se reúne periodicamente para debater assuntos relacionados. O propósito do grupo é divulgar o trabalho das integrantes, destacar suas contribuições para a sociedade, ampliando a rede de contatos, bem como evidenciar a participação feminina em diversos estudos.

Qual o objetivo do grupo?
Um dos principais objetivos do grupo é dar visibilidade à produção científica e atuação de mulheres na área da Economia, além de desenvolver a cooperação entre mulheres ligadas à economia e identificar a importância delas no mercado de trabalho e na academia.

Como devem fazer as mulheres economistas interessadas em participar do grupo?
Convidamos as interessadas a acessar a nossa página através do endereço https://conexaomulhereseconomia.com.br/?page_id=54. Clicando em “Faça Parte” será possível indicar como deseja participar (participar das reuniões, atividades e decisões do grupo; produzir conteúdos eventuais e/ou participar dos eventos e de cursos pontuais organizados pelo grupo; apenas compor a rede e/ou acompanhar; outro). Aproveito para convidar os(as) interessados(as) a nos acompanhar nas redes sociais, como no Facebook e Instagram. Agradeço a oportunidade e o espaço para falar sobre o I Enconexão, e sobre o nosso grupo, Conexão Mulheres & Economia. Será um prazer tê-las(os) conosco!

Novos cenários para a Região Sul do Estado


Marcelo de Oliveira Passos

Economista, Coordenador do Curso de Ciências Econômicas
Universidade Federal de Pelotas (UFPel)

 

 

Qual o perfil da economia da região Sul do Estado do RS?
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Gostaria de enfatizar que muitas dessas informações sobre a economia da Região Sul do Estado do RS estão presentes em artigo sobre uma rede complexa, baseada na Matriz de Insumo Produto da Região, que estou produzindo, junto com os pesquisadores Rodrigo Rocha Gonçalves, da FURG, e Gabrelito Menezes, aqui da UFPel. Nós fizemos uma análise com todos os setores produtivos dos 28 municípios que fazem parte da região do Conselho Regional de Desenvolvimento da Região Sul do Estado (Corede Sul). Encontramos um indicador chamado “Encadeamento para a Frente”, isto é, o quanto um setor produtivo é demandado pelos outros. E ranqueamos os setores mais demandados por outros setores da região. Constatamos que, de longe, o mais importante é o comércio, com um índice de 3.8, seguido por agricultura e silvicultura, com 2.14, abate produtos, com 2.01, construção, com 1.8, transporte de carga rodoviário com 1.73, outros produtos alimentares, com 1.5 , manutenção recuperação e instalação de máquinas e equipamentos, além de produção de madeira, armazenagem, intermediação financeira, entre outros.

E, dentro desse cenário, que segmentos mais demandaram insumos de outros setores?

É o que, no estudo, chamamos de “Encadeamento para Trás”. Em primeiro lugar abate e produtos, com um índice de 1.63, o que demonstra que a a economia da região ainda é fortemente baseada no setor tradicional da pecuária. Depois, o setor da alimentação, com um índice de 1.3; outros produtos alimentares, com 1.26; produtos de madeira, com 1.23; outros equipamentos de transporte, 1.22; perfumaria higiene e limpeza, 1.22, entre outros. Simultaneamente, aqueles setores que tiveram os maiores índices de encadeamento para a frente e para trás, maiores que um, são os mais importantes. São os que mais demandam e são mais demandados. Pela rdem, são os seguintes: pecuária e apoio; abate e produtos; outros produtos alimentares; produtos de madeira, excluindo móveis e fabricação de químicos, resinas etc.

Como os diferentes setores da economia regional vêm reagindo a esse período de pandemia?

O comércio, que é o setor mais dinâmico da região, sofreu bastante com os lockdowns. E também com a própria queda da demanda, mesmo nos períodos em que não ocorreram o lockdowns. O comércio sentiu porque uma boa parte do setor de comércio e serviços gira em torno das atividades, como o caso de Pelotas e Rio Grande, que envolvem escolas e universidades. Cabe lembrar que Pelotas é o terceiro pólo universitário do RS. Tem uma série de bares, comércio de alimentação, casas de festas, papelarias, imóveis de aluguel etc. que sentiram muito a queda da demanda. Muitos alunos saíram da região, retornando às suas casas, às suas cidades, ficando com aulas à distancia. Já outros setores, como agricultura, silvicultura, produtos de madeira e atividades ligadas a abates e produtos defensivos agrícolas, tintas e químicos tiveram um impulso decorrente principalmente da maior demanda externa, com a recuperação das economias chinesa, indiana e europeia. Estamos vivendo um superciclo de alta da demanda e de valorização das commodities. Isso de certa forma atenua os impactos nocivos da pandemia no comércio e serviços. Na área de construção, também houve uma recuperação notável na região, desde o ano passado, com pessoas, sobretudo famílias de renda mais alta, buscando imóveis maiores para adaptar-se ao novo momento de trabalho em home office. Mas isso ocorreu em meados do ano passado. Agora, os preços do material de construção subiram bastante e também a mão-de-obra do setor encareceu, o que reduziu um pouco o ciclo de expansão do ano passado. Mas o setor ainda está aquecido na região.

Que cenários esse crescimento de 1,2% do PIB brasileiro no primeiro trimestre deste ano, recentemente divulgado pelo IBGE, sinaliza para a economia da região?

É um indicador muito importante, embora, para a nossa região, o que vai realmente afetar positivamente a atividade econômica é a vacinação em massa e a retomada de exportações de commodities. Felizmente, o RS vem liderando as estatísticas de vacinação, e a tendência é que tenhamos uma recuperação maior em nosso Estado. Com a vacinação, espera-se que gradativamente o consumo das famílias volte a crescer, o que pode reduzir os estragos que a pandemia causou ao comércio da região.

O reconhecimento por parte da Organização Mundial de Saúde Animal (OIE), que coloca o RS como uma das novas zonas livres de febre aftosa também traz grandes espectativas à Região Região Sul do Estado?

A região tem o setor pecuarista como uma atividade tradicional e ainda muito importante, como foi dito. Então, os efeitos desse indicador tendem a ser muito positivos, já que impacta diretamente no setor de abates e produtos, assim como na agricultura e em todos os setores relacionados. Lógico que, num primeiro momento, haverá uma tendência natural de aumento do preço da carne, em função da aceleração das exportações, mas que, logo depois deverá ocorrer um aumento da oferta, com maiores investimentos, e aí o preço volta a estabilizar-se no médio e longo prazos.

Passados os piores momentos, quais os grandes desafios para a Região?

Um dos principais desafios para região é a questão dos transportes. Estamos, há muitos anos, tentando uma melhora de infraestrutura para as nossas rodovias que ligam a capital à região do extremo sul do estado. Somente agora isso vem acontecendo, desde o início do atual governo, com as obras do trecho da BR116 que vai de Porto Alegre à Rio Grande sendo retomadas pelo Exército. É uma obra importantíssima para a economia de Rio Grande, que depende muito da atividade portuária, e também para o escoamento da produção agrícola e redução dos custos de transação no setor. Outro grande desafio é a questão da desindustrialização. Essa região, sobretudo Pelotas e Rio Grande, já foram regiões industrializadas, com indústrias alimentícias importantes regionalmente nos anos 80. Mas que entraram em crise após essa década. Muitos ainda vêem a desindustrialização como um problema que só se resolve com um novo ciclo de investimentos industriais. Mas isso não é mais assim, hoje em dia. Já há sinais em Pelotas e em outras cidades como Florianópolis e Buenos Aires, de investimentos importantes na chamada economia criativa, baseada na produção de serviços e bens com conteúdos tecnológicos, startups, aplicativos, games etc. Nós temos duas universidades federais e outras privadas com bons cursos de ciência da computação, com ótimos professores e pesquisadores, estrutura adequada de laboratórios, mas que, infelizmente, exportamos cérebros para outras cidades. Muitas pessoas se qualificam aqui e saem pra trabalhar em outras regiões do País porque não encontram emprego na região.

E como mudar essa realidade?

Os sinais já apontam para uma mudança e um caminho para melhorar isso seria fomentar o empreendedorismo voltado para startups, para a economia criativa, para o lazer, para a produção de games, enfim, uma série de atividades voltadas para domínios de informática, de programação, ciência de dados e, também, o domínio de atividades mercadológicas, como empreendedorismo, marketing digital, enfim, habilidades que levem a uma expansão desses setores. O fato de uma economia se desestabilizar não significa a sua sentença de morte. Buenos Aires, que foi uma cidade que no passado teve uma indústria importante, desindustrializou-se, e hoje encontra-se muito focada na economia criativa, com uma ótima produção de cultura, cinema, aplicativos, música. Outra cidade é Florianópolis, que não tem uma base industrial comparável à Joinville, mas que possui uma economia criativa e polos tecnológicos relevantes. Então, é um caminho para a economia aqui da região, especialmente Pelotas e Rio Grande. Mas isso depende de um apoio governamental, de iniciativas empresariais, e do fortalecimento de uma cultura voltada para o empreendedorismo e para a inovação.

A arte como investimento e valorização da cultura

Maria Fernanda Santin

Economista, mestre em desenvolvimento econômico,
MBA em finanças e gestão de negócios, empresária
Corecon-RS Nº 6864

 


Por que resolveste migrar da área de consultoria para empreender?

Desde muito cedo, sempre me interessei por atividades empreendedoras. Aos 16 anos, fui emancipada juridicamente para poder ter meu próprio negócio. A partir daí, sempre gostei de descobrir nichos que tivessem a ver com meu perfil, o que é muito importante no momento de empreender, visto que a dedicação precisa ser grande. Por isso, considero que fazer algo que se gosta é um dos fatores para ter sucesso. Ao longo da minha carreira de economista, sempre trabalhei em grandes empresas, e, em paralelo, atuava como consultora econômica, produzindo análises, estudos de viabilidade, avaliações econômicas. E a vivência nas grandes empresas foi muito importante para que eu aprendesse novos temas e os colocassem em prática, seja nas próprias empresas ou nas consultorias que eu praticava ou mesmo nos meus próprios negócios. Com meu amadurecimento, percebi que dificilmente me encaixaria 100% no mundo corporativo, como funcionária. Sempre fui muito questionadora. Aprendi que tudo na vida precisa ter um propósito. E, muitas vezes, trabalhando como funcionária, você trabalha pelo propósito dos acionistas ou proprietários das empresas e não pelo seu próprio.

De onde saiu a ideia de empreender através da galeria?

A oportunidade de trazer a Galeria Clima de arte contemporânea para Porto Alegre partiu de um convite do meu primo, que fundou a Galeria em Brasília há mais de 20 anos. A Galeria, que, atualmente possui unidades em Brasília, Rio de Janeiro, Miami e agora em Porto Alegre, trabalha com artistas que possuem visibilidade no mundo das artes, apresentam um trabalho consistente e potencial de valorização ao decorrer do tempo. Isso foi um fator que me motivou bastante: oferecer arte de qualidade como uma alternativa de diversificação de investimento. E, por coincidência, ainda na época da faculdade, sempre pesquisava o tema da arte como investimento. Então, fiquei bem animada em poder colocar isso em prática.

Como conciliar investimento e acesso à cultura?

Em países mais maduros, a aquisição de obras de arte como alternativa de diversificação da carteira de investimento já é algo muito comum. No Brasil, temos o desafio de aculturar o investidor neste sentido. Por exemplo, obras de arte com potencial de valorização são relativamente caras, pois são precificadas considerando diversos fatores, tais como as técnicas e os processos criativos utilizados pelos artistas, consistência da carreira, exposições realizadas, obras em acervos, dentre outros fatores. O investidor não precisa necessariamente entender destes fatores para investir em arte. Para isso, basta se assessorar com especialistas no assunto, como se faz ao investir em ações. No entanto, para que haja o interesse em dar o primeiro passo, é necessário despertar e ampliar o olhar e isso passa por consumir mais cultura. A boa notícia é que acesso à cultura nesta perspectiva está cada vez mais fácil graças à internet. Hoje, você consegue visitar os grandes museus virtualmente, há centenas de vídeos disponíveis no youtube, dezenas de filmes nos canais de streaming, todos os conteúdos das redes sociais... Então, se torna mais fácil o mergulho neste mundo fantástico. Inclusive, nós temos um blog em que falamos sobre a história da arte, quem são nossos artistas, como investir em arte, etc. (www.galeriaclimapoa.com.br)

Qual o próximo passo da Galeria Clima?
A Galeria Clima tem um braço institucional forte, no sentido de buscar parcerias com instituições locais para desenvolver o mercado da arte local e assim, contribuir para ampliar o acesso à cultura e desmistificar a ideia de que as artes plásticas é acessível apenas à elite. Atualmente, temos uma parceria forte com o Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul e ainda para este ano, queremos trazer uma exposição de arte que acontecerá na sede própria do MAC-RS, no IV Distrito, que visa colocar o museu no circuito de arte da Capital e também arrecadar fundos para a continuação da reformada do espaço.

Como é empreender neste setor no Brasil?
O Brasil é considerado um país criativo por natureza. São Paulo, Rio de Janeiro, Santa Catarina e o Rio Grande do Sul são os estados que possuem mais trabalhadores nos setores considerados criativos. Isso dá uma dimensão da efervescência do tema. Em específico, sobre o segmento de arte contemporânea no país, o mercado primário (quando a obra é vendida pela primeira vez) ainda é jovem. Porém, dinâmico e está em processo de expansão e internacionalização. Em torno de 75% das vendas acontecem no mercado primário. Neste mercado, as galerias possuem o desafio de identificar os artistas que julgam relevantes para representarem.

Quais os grandes desafios do setor?
No caso da Galeria Clima, o desafio de encontrar novos integrantes para compor nosso portfólio é um pouco maior, pois precisamos identificar os artistas que apresentam trabalhos consistentes, que possuem potencial de valorização ao longo de sua carreira, visto que um dos nossos direcionadores é oferecer arte como alternativa de diversificação de investimentos. Além de quê, a convergência entre a linha curatorial da Galeria e os artistas é muito importante. Em relação ao mercado secundário (quando a obra foi adquirida no mercado primário e está sendo revendida) este só é relevante quando falamos em obras de artistas de renome. Ao contrário, o valor das obras é baixo. Neste caso, ainda temos o desafio de lidar com a falsificação. Quanto maior o valor de uma obra, maior é o interesse dos falsificadores. Ao comprar uma obra falsificada, o investidor tem seu investimento reduzido a zero. Por isso, sempre é importante a aquisição por meio de galerias sérias, que se responsabilizam pela procedência das obras.

De que forma o curso de economia ajudou a entender melhor esse mercado?
O curso de economia me deu as bases para analisar e entender quaisquer mercados que eu venha a me interessar. Análises setoriais e concorrenciais, tendências de médio e longo prazo, retorno do investimento, formação de preços e tantos outros temas abordados pela economia são essenciais para se entender o setor que se pretende entrar e também para estruturar o negócio, que precisa ser viável do ponto de vista financeiro. A abrangência dos temas econômicos me deu base para expandir em diversos outros temas correlatos, uma vez que ensina a pensar nas relações entre agentes em diversos contextos. Se eu tivesse que escolher novamente um curso, com certeza, seria a economia.

 

De Circense à Economista

Amanda Schmidt Stevanovich
Economista, Especialista e Assessora de investimentos
na InvestSmart - XP Investimentos


De onde saiu o gosto pela economia?

A minha família é circense e vive da arte e da cultura há cinco gerações. Quando eu era criança, tinha vergonha de me apresentar no palco e o que eu gostava mesmo era de ficar escondida na bilheteria do circo e nos caixas da praça de alimentação, mexendo com dinheiro e atendendo o público. Buscando um caminho diferente da minha família e unindo a minha paixão por números, dinheiro, pessoas e estudos, escolhi o curso de Economia na Universidade Federal de Santa Catarina.

Como surgiu o projeto de trabalho, o Push Econômico, que você chegou a desenvolver?

O Push Econômico surgiu há um ano atrás, quando começou a pandemia e tínhamos muitas mudanças econômicas e políticas acontecendo no Brasil e no mundo. Quando vi que as pessoas não estavam entendendo por que a taxa de juros estava caindo, o dólar subindo e muitas outras mudanças acontecendo, senti a necessidade de expor meu conhecimento sobre economia nas redes sociais. O Push Econômico também serviu como um desafio. Queria vencer meu medo de me expor em público, e as redes sociais funcionaram como um palco, que eu não tinha vivido no circo. Em pouco tempo, mesmo sem ir atrás, recebi várias propostas de trabalho na assessoria de investimentos.

Por que a Assessoria de investimentos?

Três palavras definem a assessoria de investimentos e me instigam como profissional: dinâmica, conhecimento e desafios. Você precisa estar sempre informado e estudando o que está acontecendo nos mercados, e ainda precisa estar envolvido com o dinamismo de prospectar e conquistar novos clientes. Vejo, também, como a profissão do futuro. A profissão do assessor de investimentos é uma das mais nobres nos Estados Unidos. Cerca de 90% dos americanos investem com os “Financial Advisors”. Aqui no Brasil, os números ainda são o contrário, onde cerca de 90% das pessoas ainda investem em bancos tradicionais. Porém, existe o crescente interesse do brasileiro por investimentos e a mudança de mentalidade sobre o mercado financeiro. Esse movimento chegou para ficar e não tem mais volta.

O que faz o assessor de investimentos?

O assessor de investimentos é um elo entre o investidor e o mercado financeiro. Ele identifica as necessidades e objetivos de pessoas e de empresas, direcionando aos investimentos e produtos mais adequados de acordo com cada perfil e objetivo.

O que é necessário para a pessoa que quer investir?

Saber se planejar financeiramente é essencial. Saber suas receitas, despesas, capacidade de poupança e objetivos pessoais são essenciais para começar a traçar uma carteira e um plano de investimento. Não existe uma fórmula mágica de uma carteira de investimentos ou de um investimento em si. A pessoa tem que levar o valor que ela quer, mais o prazo e a finalidade, para resultar no objetivo. Essa é a fórmula. Claro que se tiver um excelente profissional que faça isso para você, certamente vai fazer muita diferença lá na frente. A ideia de procurar um médico especialista em joelho quando ele dói é a mesma de quando você procura um especialista nas finanças quando você tem necessidade de investir.

E o risco, onde entra?

É muito importante a pessoa identificar o tipo de investidor que é. Se você é do tipo conservador, moderado ou agressivo. Basicamente: “qual o tipo de restaurante você quer frequentar?”. O perfil conservador é aquele em que a pessoa aceita perdas, quer sempre rendimentos constantes. O moderado é um investidor que gosta de preservar a parte conservadora, mas aceita tomar um investimento com um pouquinho de risco. Não é avesso a perdas, mas gosta de manter a parte do seu perfil conservador. O perfil agressivo é o investidor que aceita melhor o risco para buscar maior retorno. Todo investimento tem risco, até mesmo comprar um imóvel ou colocar o dinheiro na poupança. Por isso é importante você entender em qual tipo de perfil você se encaixa para entender qual tipo de risco tomar.

Nesse período de pandemia, que tipo de investimento é mais interessante. A compra de um imóvel pode ser uma alternativa?

Existem investimentos interessantes no mercado financeiro o tempo todo. Tudo depende do que você quer. O investimento financeiro mais adequado faz parte do perfil e da finalidade de cada pessoa. Os juros baixos e as incertezas econômicas desencadearam o movimento da busca pelos imóveis e o investimento na economia real. Agora, entre comprar um imóvel ou aplicar o dinheiro, também vai depender do custo de oportunidade. Você pode comprar um imóvel ou um terreno em determinada região que vai dobrar, triplicar ou quadruplicar de valor em pouco tempo. Também tem que levar em consideração os planos pessoais. Muitas pessoas tem o sonho de ter a casa própria e não vejo nada de errado com isso. Hoje, com conhecimentos no mercado, não sinto a necessidade de ter um imóvel. Sei fazer uma carteira de investimentos com fundos imobiliários que me gera um aluguel mensal, com liquidez e isento de imposto de renda.

Qual a sugestão que deixas para estudantes de Economia que pretendem conhecer e aprender a trabalhar com assessoria de investimentos?

Estude e tenha bons relacionamentos. Certamente, essas duas qualidades te levarão ao caminho do sucesso na assessoria de investimentos.

As lições de Mundell, Nobel de Economia e “pai” intelectual do euro


Ernani Hickmann
Professor da Escola de Pós-Graduação em Economia (EPGE) Fundação Getúlio Vargas (FGV),
Coordenador dos Cursos de Graduação Latus Sensu da FGV

 

 

Qual o legado para a economia contemporânea, deixado pelo economista canadense Robert Alexander Mundell, Nobel de Economia em 1999 e considerado o “pai” intelectual do euro, falecido na última semana, na Itália?

Mundell nasceu em 24 de outubro de 1932, em Kingston/Ontário, no Canadá. Graduou-se pelo Departamento de Economia da Universidade Britânica de Colúmbia (UBC), em Vancouver. Obteve seu mestrado na Universidade de Washington, em Seattle, e frequentou o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), onde obteve seu doutorado em economia. Suas principais contribuições foram, por um lado, a chamada economia da oferta, corrente econômica surgida na década de 70, por influência de Mundell e de Arthur Laffer, que analisava o efeito de diminuições da carga fiscal sem que houvesse necessariamente cortes na despesa pública. Em segundo lugar, a contribuição dele para a macroeconomia internacional, ao colocar seus modelos macroeconômicos para o desenvolvimento de economias fechadas, provocando uma mudança de comportamento de ideias nos demais países. E, depois, a própria criação, junto com Marcus Fleming, do chamado Modelo Mundell-Fleming, de economia aberta, e a criação dos desenvolvimentos das áreas ótimas de moedas. Uma análise sobre que condições e características devem ter determinados países, estados ou regiões, para que uma moeda única entre eles ofereça o que se espera de uma moeda.

Nos anos 70, ele teve uma participação muito direta junto ao governo Reagan. Como foi essa ação?

A maior contribuição de Mundell aconteceu, a meu ver, na época do presidente Reagan, nos EUA. Eu credito a ele boa parte do desenvolvimento da tecnologia a partir da década de 70. Ele, com suas recomendações ao presidente Reagan, criou as condições para que houvesse toda a grande revolução da informática, de internet, enfim, de tudo o que se seguiu em termos de modernização tecnológica do mundo.

Que mudanças foram propostas?

Até a época do presidente Reagan as empresas e grandes corporações dos EUA, eram taxadas pelo imposto de renda da pessoa jurídica, com uma alíquota marginal de mais de 70%. Isso quer dizer que os lucros superiores a um patamar relativamente baixo, o lucro adicional era tributado em 70 a 75%, o que levava a ausência total de investimentos. Se você vai fazer um investimento que vai ter que entregar 75% dos seus resultados para o governo, você não vai investir. E foi a recomendação dele, juntamente com Laffer, ao então presidente Reagan, sobre a necessidade de reduzir esta alíquota para uma faixa de tributação considerada normal, que era de 25%. Então, os lucros das empresas, que eram tributados em 75% baixaram para 25%, gerando um grande fluxo de investimentos privados no desenvolvimento de novas tecnologias. E foi por isso que as grandes empresas surgiram, investiram e criaram a revolução da informática, que mudou o mundo. Por isso, considero a principal contribuição dele à economia. Com esse ativo aos investimentos, e isso está ligado à economia da oferta, a qual Mundell era talvez o principal teórico.

O senhor, como amigo dele, discutia seguidamente esses pensamentos e contribuições?

Discuti longamente com Mundell essas contribuições, já que ele foi o meu orientador no Pós-Doutorado na Universidade de Columbia, lá pelos anos de 1991, 92, 93. Depois disso, o acompanhei em organizações de eventos internacionais. Participamos juntos do Reinventing Brettonwoods Commitee, que reunia algumas vezes por ano, em diversos países, um grupo de economistas do mundo inteiro, para discutir políticas cambiais e uma nova arquitetura financeira internacional para substituir a que tinha sido criada após a segunda grande guerra. O grupo se chamava Reinventando Brentwoods. Viajava pelo mundo todo, todas as semanas um país, ministrando aulas, dando conferências, assessorando governos e organizações privadas. Estava com ele no dia de seu aniversário, em 2014, e nos encontraríamos novamente no dia seguinte para almoçar com seus filhos. Só que, à noite, sofreu um grave AVC, fato que acabou tirando-lhe a capacidade de se locomover e de se comunicar, afastando-o definitivamente das reuniões e conferências, até o momento em que veio a falecer, na semana passada, aos 88 anos de idade.

Qual a relação do Modelo Mundell-Fleming com o keynesianismo?

Basicamente o modelo keynesiano, assim como as popularizações do mesmo, que a maioria das pessoas conhecem como sendo o modelo IS/LM, é um modelo de uma macroeconomia fechada, onde foi introduzido o setor externo. Mundell internacionalizou o modelo keynesiano, que tinha sido popularizado por John Hicks, passando a incluir as variáveis externas, permitindo formular políticas monetárias e fiscais adequadas para um mundo globalizado.

Como chegou ao Prêmio Nobel de Economia?

Mundell recebeu o Prêmio Nobel de Economia em 1999, por suas contribuições na área das políticas monetária, fiscal e cambial, e por ter criado a teoria das áreas monetárias ótimas, que serviu de base para a criação de moedas de âmbito multinacional, como o euro.

O professor Mundell esteve em Porto Alegre no ano 2000. O que o trouxe aqui?

Eu e ele organizamos, em abril e maio de 2000, pela Escola de Pós-Graduação em Economia da Fundação Getúlio Vargas, uma grande conferência internacional, "Mercosul - O Desafio de uma União Monetária”. Foi realizada no Hotel Plaza São Rafael, onde se discutiu as possibilidades da criação de uma moeda única para os países do Mercosul. Além da capital gaúcha, a conferência teve extensões no Rio de Janeiro e em São Paulo, e contou com a presença do então presidente Fernando Henrique Cardoso e de diversos economistas do mundo todo, inclusive o então todo poderoso ministro da Economia argentino, Domingos Cavalo. Foi o evento comemorativo ao lançamento do primeiro número do Jornal Valor Econômico.

O Economista e o mercado financeiro

Pedro Lutz Ramos

Economista-Chefe do Sicredi, Doutor em Economia,

Conselheiro do Corecon-RS
Corecon-RS Nº  7226

 

 

O que é exigido de um profissional para atuar no mercado financeiro?

O mercado financeiro exige um profissional, que eu diria, que, em termos de competência técnica, não necessariamente falando de conhecimentos que aprendemos na faculdade, mas construídos à base de estudos mais de educação formal, digamos assim. Acho que dentro desse aspecto, é um setor que tem uma demanda por muitos campos de conhecimento. Uma demanda de macroeconomia, de finanças, de matemática, de programação, e, até mesmo, conhecimento de direito. Então, é uma atuação bastante complexa, que engloba pessoas das mais diferentes formações.

E como se encaixa o profissional da Economia nesse mercado?

O economista, por ser um cientista, tem a sua vida facilitada pelo uso de ferramentas lógicas, como estatística, matemática, que estão, naturalmente, no campo do seu conhecimento. Também a macroeconomia, que é praticamente exclusividade de estudo do economista, e que acaba sendo o grande diferencial no mercado, já que se trata de uma área muito complexa e, por isso, acaba sendo mais difícil para os profissionais de outras áreas do conhecimento aprenderem de forma isolada. É que a macroeconomia, por exemplo, é uma bagagem que vai se construindo lá atrás, com o estudo da introdução à economia, a microeconomia, até chegar na macro. E é, sem dúvida, um diferencial muito grande conhecer a macroeconomia e saber como ela se relaciona com finanças ou com o gerenciamento de risco, com crédito, que são pontos extremamente importantes dentro das instituições financeiras. Portanto, o economista acaba tendo essa vantagem porque tem um certo monopólio sobre um assunto. Por exemplo, o estatístico pode ser muito bom em matemática, entender de finanças e até entender de direito, mas para chegar a entender de macroeconomia é uma jornada bem mais longa. Não que eles não aprendam, mas é uma jornada bem mais longa.

Até que ponto os cursos de Economia chegam a preparar os alunos para o mercado financeiro?

Acho que a graduação não consegue entregar tudo que precisa para seus alunos atuarem futuramente no mercado financeiro. Até porque, de alguma maneira, a intensidade do conhecimento exigida em cada um desses campos não é baixa. Embora ele não seja algo ultra complexo, ou seja, não precisa saber programar como um engenheiro da computação, ou conhecer estatística exatamente como um estatístico, não precisa entrar no modo pesado de desenvolvimento, mas, também, não será contemplado por um nível muito intermediário. Dependendo de onde você cai no mercado, para onde está direcionando a carreira, é importante, sim, intensificar. Se está indo para uma área de crédito, talvez deva ter que conhecer programação num nível que não seja tão básico, porque é exigida uma quantidade de dados muito grande nessas áreas. Por mais que se pense em criar produtos e que se use a racionalidade econômica do que se aprendeu em Economia, tem-se que navegar em base de dados, e, para isso, conhecer um pouco de programação, de estatística, enfim. O mesmo, vale para uma área mais financeira, onde tem-se que saber um pouco mais de macroeconomia. E, muitas vezes, o economista aprende finanças num curso formal de Economia, o que, não poucas vezes, é insuficiente para atuar dentro de uma área de finanças.

Aí tem que buscar uma especialização complementar?

Sim. Tem a pós-graduação, ou, mesmo, aproveitar, de forma complementar, os currículos de finanças oferecidos pelos cursos de Administração, de Contabilidade, ou, ainda, a possibilidade de vislumbrar um estágio que possa oferecer um up grade do nível de conhecimento, enfim. Só que, para dificultar, as próprias universidades possuem, entre elas, uma certa variação de ênfase em suas grades curriculares, umas mais voltadas para a macro e finanças e outras para estatística, história ou política de desenvolvimento econômico. O certo é que, por outro lado, toda essa complexidade torna a jornada do estudante de economia ainda mais desafiadora, mas não menos complexa e até intrigante.

Qual o recado que fica para os futuros profissionais de Economia, que pretendem atuar no mercado financeiro?

Especialmente para os estudantes de Economia, que eles procurem analisar bem o currículo, com foco nas cadeiras eletivas que a Universidade está colocando à sua disposição. Conversem com pessoas do mercado para saber se o que se está aprendendo é realmente aquilo que é necessário ou que é importante para conseguir uma carreira no mercado financeiro. Então, eu iria um pouco mais nessa abordagem.

E qual a dica para os profissionais, que querem se especializar nessa área?

Acho muito importante que o novo economista olhe para si próprio, para saber exatamente o que ele quer de sua carreira profissional. O economista é polivalente. Ao mesmo tempo em que pode sair da faculdade com aquela sensação de que não pode fazer nada aplicado, na verdade ele é um cientista, já que aprendeu muitos métodos de resolver um problema, mas não aprendeu necessariamente o método de resolver um problema específico. Então, deve se olhar e ver qual o tipo de carreira ele quer seguir. Se quer trabalhar para o governo, se quer ser um macroeconomista, ou se prefere trabalhar mais com finanças, ou, mesmo, no mercado financeiro. Isso é muito importante para ele buscar uma referência, uma complementação para conseguir atingir seus objetivos.

O mercado financeiro pode ser considerada uma área atraente?

O mercado financeiro agrega um leque de carreiras muito amplo e bem interessante. O crédito, risco de crédito, gestão de recursos, produtos de investimento ou, mesmo, o mercado financeiro propriamente dito, que são as mesas de operações. Cada um desses enfoques demanda uma quantidade de conhecimentos específicos necessários. Mas, apesar de ter uma trajetória mais longa, da qual muitas vezes o indivíduo sai pronto, o mercado financeiro acaba sendo uma carreira rentável, até porque os salários são muito atrativos e, mais importante, são profissões que, uma vez desenvolvida, acaba sendo envolvida com a escassez de pessoas. Então, a jornada pode ser mais penosa, mais desafiadora, mais longa, que envolvem temas complexos, mas que, uma vez adquirido tudo isso, torna-se um ativo muito difícil de ser trocado ao longo de sua caminhada profissional. São carreiras muito legais, muito bacanas de serem desenvolvidas e, ao mesmo tempo, muito compensadoras, em termos de aspectos financeiros e de gosto pessoal.