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SELO ENEF

Principais razões e impactos da atual desvalorização do Real

Marivia Nunes
 
Marivia de Aguiar Nunes
Corecon-RS nº 8072
Economista, Analista/Banrisul, Doutoranda/PUCRS, professora Assistente/Fadergs, Conselheira Corecon-RS

 

Por que o dólar está tendo essa valorização tão grande em relação ao real?
Esse movimento atual de desvalorização do real pode ser atribuído tanto a fatores de ordem externa quanto interna. Entre os fatores de ordem externa, destaque para a normalização da política monetária norte-americana. Isso porque, com a alta dos juros na economia estadunidense, que dispõe de fundamentos macroeconômicos mais sólidos, há uma tendência de materialização do movimento de “fuga para a qualidade”, isto é, de uma migração de capitais de economias emergentes para economias com maior previsibilidade e ambiente institucional mais robusto, como a dos Estados Unidos, o que, em última análise, repercute em desvalorização das moedas emergentes. Outro importante fator de ordem externa é a preocupação associada a uma guerra comercial protagonizada pelo governo americano, que, caso venha a se materializar, tende a exercer influência negativa sobre o crescimento econômico global. Entre os fatores de ordem interna, por sua vez, estão as incertezas quanto à implementação de ajustes necessários a uma retomada mais consistente da economia (com destaque para os encaminhamentos no campo fiscal), os quais estão associados, em grande medida, ao resultado das eleições presidenciais deste ano.

É um caso específico do Brasil, ou outros países também vêm enfrentando esse problema?
Não. Na realidade, isso é comum em nações emergentes. Economias como Venezuela, Argentina e Turquia apresentaram, no primeiro semestre deste ano, desvalorização ante o dólar acima da verificada no Brasil, o que se deve majoritariamente a questões de ordem interna que estes países vem enfrentando. Para fins de comparação, o peso argentino e a lira turca se desvalorizaram, respectivamente, 33,7% e 17,1% neste ano, enquanto o real exibiu depreciação de 12,9% neste mesmo período.

Que os principais impactos dessa desvalorização do real na economia brasileira?
A depreciação do real ante o dólar afeta principalmente a inflação e o comércio internacional. A respeito dos impactos sobre a dinâmica inflacionária, tem-se que insumos importados, por exemplo, ficarão mais caros, aumentando custos de produção, ônus que será repassado aos preços finais. Entretanto, como a inflação encontra-se em nível baixo, diante da ainda elevada ociosidade existente na economia, e também da forte ancoragem das expectativas inflacionárias, os impactos da atual desvalorização do real sobre a inflação deverão ser bastante limitados. Quanto aos efeitos sobre o comércio internacional, tem-se que um real mais desvalorizado beneficia os exportadores, que recebem uma receita maior em reais, ao passo que penaliza os importadores, que têm de lidar com o encarecimento de suas compras.

Que medidas institucionais poderiam ser tomadas para frear esse movimento?
Uma das medidas mais utilizadas institucionalmente para reduzir a volatilidade da taxa de câmbio é a oferta de contratos de swap cambial pelo Banco Central (BC), nos quais a autoridade monetária realiza uma operação equivalente a uma venda de moeda no mercado futuro, ação que reduz a pressão altista sobre a moeda nacional. Este é o mecanismo atualmente adotado pelo BC para conter a depreciação do real, sendo que, em meados de junho, a Instituição anunciou que o total de oferta de moeda colocada no mercado poderá superar a máxima histórica de US$ 115 bilhões, montante vendido na gestão do presidente Alexandre Tombini.

Qual o limite dessa desvalorização?
Essa é uma questão bastante difícil de ser respondida, ainda mais em um contexto de tamanha incerteza como o atual. Na realidade, o limite para essa desvalorização do real está associado principalmente ao resultado das eleições presidenciais deste ano. Isso porque, em caso de vitória de um candidato com maior predisposição à realização de reformas essenciais para a economia brasileira, este movimento tende a ser limitado. Por sua vez, se um candidato com menor propensão a ajustes vencer o pleito, aumentam consideravelmente as chances de intensificação do movimento de desvalorização de nossa moeda. Além disso, os desenvolvimentos no cenário externo também podem exercer influência sobre a trajetória desta variável. Por exemplo, caso uma guerra comercial venha a se materializar, a moeda americana tende a se valorizar frente às principais divisas mundiais.