Judite Sanson de Bem (1962–2026)
Giácomo Balbinotto Neto
Jacqueline Maria Corá
Mário de Lima
A notícia do falecimento de Judite Sanson de Bem nos trouxe uma sensação difícil de descrever. Perde-se uma professora, uma pesquisadora, uma intelectual respeitada. Mas, para mim, Giacomo Balbinotto Neto, perde-se também uma colega de turma, alguém com quem compartilhei os anos de formação no curso de Ciências Econômicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, iniciado em 1981 e concluído em 1985.
Quando ingressamos na Faculdade de Ciências Econômicas da UFRGS, no início dos anos 1980, o Brasil ainda vivia os últimos anos do regime militar. A inflação fazia parte do cotidiano, a dívida externa dominava os debates econômicos e a redemocratização começava a ganhar forma. Foi nesse ambiente de intensas transformações políticas e intelectuais que nossa geração de economistas foi formada.
Mesmo entre tantos colegas talentosos, Judite já se destacava por uma característica que a acompanharia por toda a vida: uma curiosidade intelectual rara. Não se contentava com respostas fáceis nem com explicações simplificadoras. Procurava compreender os fenômenos econômicos em toda a sua complexidade, relacionando-os principalmente com a história, devido à grande influência do professor Cláudio Accurso.
Seu trabalho de conclusão de curso foi orientado pelo professor Cláudio Accurso, que abordou a questão agrária brasileira. O interesse pelo desenvolvimento e pelas transformações sociais já estava presente.
Nos anos seguintes, aprofundou essa preocupação no Mestrado em Economia Rural da UFRGS, concluído em 1992, quando analisou a comercialização de hortigranjeiros na Grande Porto Alegre. Era um tema aparentemente específico, mas que refletia algo que marcaria toda a sua trajetória: a busca por compreender como os mercados funcionam concretamente e como afetam a vida das pessoas.
A inquietação intelectual que a caracterizava levou-a depois para novos horizontes. Em 2001, concluiu o Doutorado em História Ibero-Americana na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Sua tese, posteriormente publicada em livro, examinou a construção do pensamento neoestruturalista cepalino e as transformações do papel do Estado na América Latina. Ao estudar a CEPAL, o estruturalismo e o neoliberalismo, Judite procurava responder a uma das grandes questões da nossa região: como promover desenvolvimento econômico sem perder de vista a justiça social e as especificidades latino-americanas.
Ao longo das décadas seguintes, sua trajetória tornou-se um exemplo daquilo que raramente encontramos na academia contemporânea: a capacidade de dialogar entre diferentes áreas do conhecimento sem perder profundidade analítica. Economista por formação, historiadora por vocação intelectual e estudiosa das cidades por compromisso científico, Judite construiu uma obra que transitou entre a economia regional, a economia da cultura, a economia do trabalho, a economia ambiental, o planejamento urbano e o desenvolvimento regional.
Judite foi professora e pesquisadora do curso de Ciências Econômicas da Universidade de Caxias do Sul, onde contribuiu para a formação de inúmeras gerações de estudantes. A professora Judite deixou um legado importante para o curso de Economia da UCS: foi idealizadora do ESAES, Encontro Sobre os Aspectos Econômicos e Sociais da Serra Gaúcha, espaço de discussões e construção de conhecimentos que se mantém até hoje. Como docente, primou pelo rigor na pesquisa acadêmica, instituindo metodologias para produção e avaliação dos trabalhos de conclusão de curso, elevando, assim, a qualificação das monografias, aspecto valorizado e institucionalizado pelo curso. É notório que a “Profe” Judite, como dizemos carinhosamente, esteve sempre comprometida com o curso, com a UCS e com os colegas professores. Até hoje, mantinha o vínculo da amizade e participava ativamente, como professora convidada, das bancas de mestrado, doutorado do PPGTURH, das de monografia e de palestras e eventos institucionais.
Também teve destacada atuação junto à Universidade La Salle. Na UNILASALLE, atuou no Mestrado Profissional e no Doutorado Acadêmico em Memória Social e Bens Culturais, bem como no Mestrado em Avaliação de Impactos Ambientais. Em todos esses espaços, deixou a marca de uma professora comprometida com o crescimento intelectual de seus alunos.
Sua atuação acadêmica nunca esteve distante dos problemas concretos da sociedade gaúcha. Como responsável pelos estudos e pela análise econômica do COREDE Sinos-RS, ajudou a compreender os desafios do desenvolvimento regional e a formular diagnósticos para políticas públicas. Como pesquisadora do Núcleo Porto Alegre do Observatório das Metrópoles, vinculado ao INCT/CNPq, contribuiu para o entendimento das transformações urbanas e metropolitanas que marcaram o Rio Grande do Sul nas últimas décadas.
Em 2018, realizou estágio pós-doutoral em Geografia na UFRGS, desenvolvendo pesquisas sobre direito à cidade, financeirização e transformações do regime urbano na metrópole de Porto Alegre. O tema sintetizava bem a maturidade de sua reflexão intelectual: compreender como grandes forças econômicas e institucionais moldam o cotidiano das cidades e a vida das pessoas.
Sua produção bibliográfica revela a coerência de uma trajetória dedicada ao desenvolvimento. Em Papel dos Parques Tecnológicos no Desenvolvimento Regional, examinou os mecanismos pelos quais inovação e conhecimento podem impulsionar economias locais. Em O Turismo como Estratégia do Desenvolvimento, escrito com Silvio Luiz Gonçalves Vianna, analisou o potencial transformador da atividade turística para regiões em busca de novas oportunidades econômicas.
Talvez sua contribuição mais abrangente tenha sido a coleção As Aglomerações Industriais do Rio Grande do Sul, composta por três volumes. Nela, discutiu os aspectos sociais e econômicos do desenvolvimento, as relações entre meio ambiente e atividade produtiva e o papel das empresas nos processos de transformação regional. Eram temas que antecipavam discussões que hoje ocupam posição central nos debates sobre sustentabilidade, competitividade e desenvolvimento territorial.
Mas seria um erro definir Judite apenas por seus títulos, livros ou cargos acadêmicos.
O que mais impressionava era sua capacidade de enxergar além dos indicadores econômicos. Para ela, desenvolvimento nunca significou apenas crescimento da renda ou expansão da produção. Significava também cultura, memória, pertencimento, qualidade de vida, preservação ambiental e construção de cidadania. Talvez por isso tenha se dedicado com tanta intensidade à economia da cultura e às indústrias criativas, áreas que ajudou a consolidar no Rio Grande do Sul.
Ao recordar sua trajetória, penso que Judite pertenceu a uma geração de economistas que acreditava que o conhecimento deveria servir à sociedade. Sua produção acadêmica jamais foi um exercício de erudição isolada. Era uma tentativa permanente de compreender melhor os problemas reais enfrentados pelas pessoas, pelas cidades e pelas regiões. Sua partida deixa uma lacuna na academia gaúcha. Mas deixa também um legado intelectual sólido, construído ao longo de décadas de pesquisa, ensino e reflexão.
Os livros permanecerão. Os artigos permanecerão. Os projetos de pesquisa permanecerão. Mas, acima de tudo, permanecerá a influência exercida sobre colegas, alunos e amigos que tiveram o privilégio de conviver com sua inteligência, sua generosidade e sua permanente curiosidade intelectual.
Para aqueles que dividiram com ela os bancos da Faculdade de Ciências Econômicas da UFRGS nos anos 1980, fica a lembrança de uma colega brilhante que nunca perdeu a disposição de aprender. Para seus alunos, permanece o exemplo de uma professora dedicada. Um exemplo disso é a manifestação de seu ex-aluno, Mário de Lima:
Ontem partiu para o plano espiritual a minha professora, orientadora, colega, chefe, líder e grande amiga, professora doutora @juditesanson. Minha história como economista é a minha história junto a essa grande profissional e ser humano, que formou muitos economistas, mestres e doutores.
Me deu a primeira oportunidade de me aproximar do @coreconrs, em que fiz parte, em 2007, da comissão editorial do Conselho. Mais tarde, consegui realizar o sonho de ser professor universitário na @unilasallebr, sendo colega e liderado por ela quando coordenadora do curso.
Escrevemos inúmeros artigos, que viraram capítulos de livros, especialmente em publicações no exterior. Revezamos inúmeras vezes entre professores homenageados ou paraninfos das turmas de Economia. Finalmente, com grande alegria, ela esteve na minha banca de tese de doutorado, coroando meu momento com ela e chegando ao mesmo grau acadêmico da amiga que eu tanto admirava.
Tenho duas coisas para publicar, professora: a primeira é de que nunca será esquecida por mim; pelo contrário, será sempre lembrada; e a segunda é que vou me esforçar bastante para honrar sua dedicação, ensinamentos e orientações que recebi durante mais de duas décadas de amizade.
E que o Grande Arquiteto do Universo tenha misericórdia de mim, para que um dia eu possa lhe encontrar no local etéreo em que seu espírito certamente se encontra neste momento. Descanse em paz!

