"Desgauchização"empresarial - por Eduardo Lamas
" Temos assistido a uma onda de vendas de empresas gaúchas, o que, de alguma forma, vem abalando o orgulho regional. Será que teremos que nos acostumar a ver empresas tradicionais gaúchas seguirem trocando de donos? Esse mesmo orgulho regional, alcançando a esfera política, não nos cegou diante da péssima administração da Varig?
As transações são positivas para a economia gaúcha, na medida em que os novos controladores tendem a aumentar os investimentos e, conseqüentemente, o emprego. Com sinergias administrativas, as gestões devem melhorar a sua eficiência. Sob as antigas administrações, havia menores perspectivas de investimento, resultando de indefinições societárias de um certo esgotamento do vigor empreendedor. Além disso, é um voto de confiança dos compradoresna capacidade empresarial do Rio Grande do Sul.
Até hoje, orgulhamo-nos, com toda a razão, da coragem empreendedora que nos fez ter, de modo pioneiro, uma refinaria de petróleo, uma empresa de aviação e grandes grupos de comunicação. Esse comportamento, há muito, se encontra em extinção. Nossos atuais líderes preferem encontrar a sua realização pessoal na política e não no empreendedorismo. Tem sido bem mais fácil beneficiar-se dos impostos do que gerá-los. No passado, ícones empresariais gaúchos prosperaram, mantendo distância política. A geração de impostos e empregos de seus negócios fez muito mais para a sociedade do que suas ambições por lucros sugeriam. Era o tempo em que o Estado prosperava, com limitações para os políticos atuarem no espaço econômico.
A tal politização que o Rio Grande do Sul tanto se orgulha enaltece discursos voluntariosos, porém de conteúdo prático inútil. Ora priorizam-se os pequenos, ora priorizam-se os grandes, ora prioriza-se o diálogo, e não se avançou em nada. Nobres debates políticos não têm apresentado perspectivas de crescimento econômico. Pelo contrário, como resultado, observamos leis e regulamentos que implicam mais burocracia e mais impostos, que sempre fazem prosperar uns poucos indivíduos nada empreendedores. Isso é tudo que uma economia precisa para empobrecer.
Resistindo bravamente a tudo isso, ainda existem iniciativas que podem contribuir para o desenvolvimento empresarial do Estado, como empresas-júnior, PGQP, empreendedorismo na escola, parcerias entre governo e iniciativa privada, e, sobretudo a internacionalização de algumas empresas gaúchas, que têm empreendido em ambientes que, por enquanto, são filosoficamente mais favoráveis do que o Rio Grande do Sul à livre-inicativa e à geração de riquezas.
A "desgauchização"de nossas empresas pode ser uma boa oportunidade para repensarmos o nosso modelo, reformando as instituições no sentido de promover a iniciativa individua, com o setor público sendo um meio e não um fim."
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* Artigo publicado no jornal Zero Hora em 31/03/2007.
