Turbulências à vista, mas
crise será superada
entrevista com
José Luiz Amaral Machado
para o Jornal Posto Avançado, da Sulpetro - por Cristina Cinara e Rodrigo Borba
Enfrentamos
momentos de tensão na economia mundial. Porém, não podemos
perder a confiança e a vontade de trabalhar. Da mesma forma, é
importante que governo, empresários e sociedade civil estejam
unidos, para superar as adversidades da forma mais adequada.
Essa é a posição do presidente do Conselho Regional de Economia
do Rio Grande do Sul (Corecon/RS), José Luiz Amaral Machado.
Confira outras opiniões do economista, entre elas, o que se
pode esperar para o setor de combustíveis.
Que rumo a crise econômica
vai tomar? O ano que se inicia será melhor que 2008?
Sob o ponto de
vista do cenário internacional, considero que 2009 será muito
difícil. Estamos enfrentando um problema seríssimo de liquidez
no mercado, levando as operações das empresas e os
investimentos dos governos a terem um processo de
desaceleração, o que repercute na área de emprego e
oportunidades. Mesmo que o senado norte-americano tenha
aprovado o pacote de US$ 787 bilhões, ainda não gerou o efeito
positivo de confiança no processo econômico das relações entre
as empresas, para que a economia volte ao ritmo normal.
Acredito que este ano ainda será um momento bem tenso no
mercado internacional.
Em relação
ao Brasil e, em especial, ao Rio Grande do Sul?
No Brasil, é
evidente que vamos ter repercussão, porque produzimos aqui e
vendemos lá fora. Não somos uma ilha, a crise vai nos afetar de
alguma forma. Mas hoje o país tem seus fundamentos econômicos
muito mais fortalecidos do que em anos anteriores.
Conseguiremos enfrentar o ano sem maiores dificuldades, mesmo
que com uma certa turbulência. Já estamos Assistindo a algumas,
como o desemprego e alguns setores pressionando o governo por
mais crédito. Estou otimista, pois temos duas variáveis muito
importantes. Primeiro, um mercado interno que permite manter os
níveis de emprego e o poder de consumo. Afinal, somos quase 200
milhões de habitantes. Segundo, os inúmeros recursos minerais
dispostos em nosso território. Temos áreas agricultáveis que
podem representar um avanço na produção e um potencial de
produção de alimentos excepcional. Tendo em vista que o Estado
tem destaque no agronegócio, acredito que estamos em situação
excelente.
Números
indicam que o Brasil deverá crescer cerca 2% este ano, enquanto
outros países terão índices menores. Por quê?
Isso se deve ao
fato de operarmos com produtos indispensáveis. Destaco
especialmente os alimentos. Somos um dos primeiros do mundo
nesse setor, tanto no que se refere à tecnologia quanto em
condições de operação, e comida todo mundo precisa. Embora
tenhamos um número de crescimento mais tímido, se crescermos
perto de 1,5% e 2% é um resultado satisfatório, mesmo que não
seja o ideal. Se considerarmos que o índice em alguns países
será negativo, esse número torna-se muito bom.
Numa época
de restrição de crédito, como o consumidor deve agir?
A restrição de
crédito acontece principalmente por dois motivos. Primeiro, o
crédito está mais caro. Segundo, os prazos que estavam operando
reduziram. Portanto, recomendo que o consumidor seja mais
cauteloso. O receio devido ao clima de incerteza da crise faz
cair o consumo.
Como o
empreendedor deve agir visando aumentar vendas?
A sociedade
reage aos estímulos recebidos da mídia. As notícias não são
boas. Há um sentimento de insegurança, o que leva o consumidor
naturalmente a se retrair. O empreendedor, por sua vez, vai ter
que se comportar fazendo um contraponto a isso, ou seja, terá
que fortalecer a sua situação de liquidez, aprimorar seus
processos, a fim de reduzir custos, e poder trabalhar com um
preço mais acessível ao bolso, para aumentar o volume de
negócios. Empresas só devem assumir financiamentos para os
clientes se tiverem uma boa saúde financeira. A tendência é que
as instituições sejam mais seletivas na hora de dar crédito,
visando assumir um baixo nível de risco.
Segundo a
última pesquisa da Fecomércio, o volume de venda no comércio
varejista de combustíveis no RS cresceu 8,2% no acumulado de
2008 até novembro. A tendência é de que siga nessa linha ao
longo de 2009?
Acredito que
sim. O consumo de combustível tende a se manter, não vejo como
reduzir. O nosso sistema de transporte é todo por malha
terrestre e a frota de veículos continua crescendo.
Há
revendedores que sentem que em janeiro e fevereiro as vendas
caem bastante. Como podem manter-se mais estáveis em períodos
nos quais os negócios diminuem?
A regra básica
para enfrentar essa situação é ter criatividade e dinamismo.
Porto Alegre, com o Liquida Porto Alegre, é um exemplo disso,
tanto que conseguiu estender essa ideiapara o
interior. O empresário é desafiado diariamente a ser criativo,
a estudar e identificaralternativas
para que o ciclo do seu negócio não seja interrompido. O
empreendedor não pode esperar que a solução caia do céu, tem
que enfrentar as dificuldades. No caso específico dos postos de
gasolina é importante diversificar, eu acredito. Explorar mais
o
estabelecimento, a fim de que não seja utilizado apenas como
ponto de abastecimento. Uma farmácia, padaria ou lojas de
conveniência incrementam o negócio, essa estratégia já é
utilizada em outros países e está chegando ao Brasil.
O governo
federal tem tomado medidas adequadas para enfrentar o problema?
Os números de
arrecadação e de gastos do governo aumentaram, daí a atual
carga tributária que
enfrentamos, que forma 40% do PIB. O Brasil deveria repensar
dois aspectos: primeiro, os juros de crédito para a sociedade e
o empresariado são muito elevados, o que faz com que as
operações sejam oneradas e os tributos acompanhem esse ritmo.
Estudos do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT)
revelam que o brasileiro trabalha de cinco a seis meses por ano
para pagar impostos. Segundo, o governo deveria ser um agente
estimulador da reforma tributária, que viria em favor da nossa
sociedade como um todo. Essa reforma, se aprovada, dará mais
poder de compra para a sociedade e deixaria de onerar os
processos de produção das empresas, medidas que ajudariam a
enfrentar a crise. Evidentemente, para que isso ocorra o
governo passará por dificuldades, terá que reduzir de tamanho.
________________________________________________________________________________________
