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ARTIGO • ECONOMIA E AGRONEGÓCIO
Perspectivas para o mercado do arroz
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Por: Gilberto Pilecco - Economista e Produtor Rural - Alegrete/RS, 30 de agosto de 2026.
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para Setembro de 2026 a Setembro de 2027.**
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O preço do arroz a partir de setembro de 2026 no mercado ocidental, baseado no histórico dos acontecimentos e utilizando a Bolsa de Chicago como parâmetro, projeta uma equivalência mínima de U$16,50 a U$19,20 para saca de 50 kg no Brasil (aproximadamente R$85,00 a R$100,00). Esta projeção foi formatada entre janeiro e maio de 2026, sob um cenário que refletia o descompasso estrutural entre os custos de produção e os preços praticados, agravados pela Geopolítica. Na época, devido às incertezas, não foram considerados os impactos de um possível El Niño.
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Essas estimativas resultam de uma analise minuciosa que cruza os dados do arroz com os de outras commodities, como soja, milho e trigo, além da cana-de-açúcar com foco na índia. Foram avaliados parâmetros de produção (preços e custos), consumo, estoques, logísticas, mercados (demanda dos países importadores e oferta dos exportadores), além das Influências climáticas e políticas publicas agrícola. O principal fator analisado foi a geopolítica, caracterizada pelas políticas utilizadas pelos países como narrativas estratégicas para manipulação dos mercados e preços.
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Quando se conclui um trabalho de analise, sempre há parâmetros que se destacam com maior peso. Desta vez, os fatores “Geopolíticos, Preços e Custos”, somados ao conhecimento setorial, tornaram-se elementos de clarividência óbvia que sustentam a tendência de alta do mercado no curto e médio prazo.
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- Primeiro fator econômico de clarividência óbvia: A produção mundial não se sustenta operando no prejuízo. Atualmente, os custos entre U$15,00 e U$17,00, enquanto os preços de mercado teimam em ficar na faixa de U$10,00 a U$12,00.
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- Segundo fator de influência direta: A acentuada redução da área plantada de arroz longo nos Estados Unidos. No estado do Arkansas, principal produtor americano, a área despencou 35,71% em apenas dois anos, caindo de 1.40 milhões de acres em 2024 para menos de 900 mil acres em 2026.
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- Terceiro fator baseado no conhecimento histórico: O Continente Americano opera no limite do seu equilíbrio entre produção e consumo. Na safra 2024/25, a produção de arroz branco na região foi de 25,97 milhões de toneladas para um consumo estimado entre 25,50 a 26,00 milhões de toneladas. Esse aperto ocorreu mesmo com safras consideradas recordes tanto no MERCOSUL quanto nos EUA. O Brasil, por exemplo, produziu 12,75 milhões de toneladas em base casca (o equivalente a 8.7 milhões de toneladas de arroz branco) em 2024/25, segundo a Conab, contra uma media histórica anterior de 11 milhões de toneladas em base casca.
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A realidade de mercado é clara: as Américas consomem praticamente tudo o que produzem. Como conseqüência direta, todo o volume de arroz exportado para fora do continente (para mercados como Coréia do Sul, Japão, Oriente Médio, Europa e África), precisa ser compensado e reabastecido por importações vindas majoritariamente da Ásia.
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Diante disso, a dinâmica de abastecimento para a safra 2026/27 está sob forte ameaça. Estima-se que os EUA devem produzir cerca de 3.0 milhões de toneladas menos de arroz longo em casca (equivalentes a 2.0 milhões de toneladas de Arroz branco). Este é um volume que, com políticas publicas setoriais eficientes, poderia ser absorvido e produzido localmente no Brasil, mantendo em crescimento o PIB da lavoura e expandindo o mercado de exportação.
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para o Ciclo de Setembro de 2027 a Setembro de 2028.**
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O contexto global atual é marcado por tensões geopolíticas, custos elevados, endividamento da agricultura, produção e estoques no limite. Se fenômeno El Niño se consolidar com forte intensidade entre 2026 e 2027, trazendo conseqüências mundiais semelhantes às observadas em 1997/98 ou 2015/16, é possível afirmar que a segurança alimentar global será duramente colocada à prova no biênio 2027/2028. Diante disso, não causará surpresa se, a partir do primeiro trimestre de 2027, os preços do arroz ultrapassarem a barreira de U$20,00 por sacas 50 Kgs.
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O próprio Banco Mundial alerta para essa vulnerabilidade:
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“Embora o El Niño freqüentemente prejudique a produção agrícola em países do Hemisfério Sul e Leste Asiático, os efeitos sobre os preços globais das commodities podem ser parcialmente atenuado quando os estoques globais são abundantes. O atual cenário de baixos estoques elimina essa proteção quase por completa”.
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O histórico da produção, dos estoques e a armadilha das narrativas
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Para compreender o risco atual, vale recordar os acontecimentos históricos e o comportamento do mercado. No biênio 2008/09, com os preços em forte escalada, os ministros da Agricultura do G7+Rússia reuniram-se em caráter de urgência na Itália, em 2009, com objetivo de discutir soluções para a escassez do arroz, focando na segurança alimentar. A estratégia na época consistiu na decisão do Japão colocar seus estoques reguladores a disposição do mercado internacional - reservas estratégicas que o país só utiliza em momentos extremos de necessidade interna.
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O anúncio da disponibilidade das reservas japonesas, somado às noticias de que governos de todo o mundo passariam a incentivar a cultura do arroz, fez os preços despencarem em 2010. A partir de meados de 2011, o mercado começou a se reajustar para patamares que cobriam os custos.
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Paralelamente, para incrementar os debates sobre segurança alimentar no âmbito do G20, foi criado em 2011 o Grupo de Trabalho (GT) da Agricultura. Seu propósito, além de zelar pela segurança alimentar, era propor investimentos sustentáveis para o setor.
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Contudo, entre 2012 a meados de 2014, os preços operaram em patamares que cobriam os custos de produção, oferecendo margem de retorno ao produtor. Foi justamente nesse período de estabilidade que o GT passou a ser utilizado por governos para maximizar narrativas geopolíticas. O foco central desviou-se das iniciativas de fomento real à produção para priorizar estratégias de manipulação de mercado, visando garantir alimentos baratos para as populações urbanas em detrimento da sustentabilidade financeira de quem produz.
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Incoerência estatística e o recuo indiano
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Com o El Nino de 2015/16, esse mecanismo de narrativas políticas intensificou-se. Sob o aval silencioso de agências internacionais, relatórios oficiais passaram a apontar que a produção superava o consumo de forma folgada. Em apenas 4 anos (2016 a 2019), os estoques globais saltaram de 100 milhões para 175 milhões de toneladas nos papéis – e, após a publicação desses dados, o crescimento das reservas foi distribuído retroativamente entre os anos de 2012 a 2019.
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A incoerência matemática dessas estatísticas ficou evidente nos anos seguintes. Se o mundo de fato detivesse esses volumes de reserva, não teria ocorrido a escassez severa que estrangulou o mercado entre 2022 a 2024. Além disso, nenhum país registrou aumento expressivo de produtividade nas ultimas duas décadas, com exceção da Índia. Apontada nos relatórios oficiais como responsável por mais de 70% desse incremento global, a própria Índia desmentiu os números na prática, caso os estoques fossem reais, o país não teria motivos para impor restrições drásticas às suas exportações com intuito de resguardar sua segurança interna.
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O erro na dose em 2024
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Em setembro de 2024, durante a reunião do GT da Agricultura do G20 no Brasil, as lideranças globais recorreram à mesma receita artificial para acalmar os ânimos diante da eminência do desabastecimento e das cotações elevadas. No entanto, erraram na dose das narrativas.
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Como exemplo desse movimento, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) a partir da reunião do GT, passou a aumentar mensalmente a previsão da safra global de 2024/25, atingindo em junho de 2025 o numero oficial impressionantes de 542 milhões de toneladas saltando significativamente sobre o recorde anterior de 522 milhões da safra 2023/24.
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A pressão artificial dessas projeções não resolveu a escassez física do grão, cumpriu o papel de derrubar os preços internacionais para arroz barato, mas não cumpriu em fazer baixar os custos de produção. Incapaz de se sustentar financeiramente, a lavoura mundial perdeu eficiência e ficou inteiramente exposta às intempéries climáticas. Agora, as mesmas instituições que silenciaram no passado precisam inflar um “superculpado” climático para mascarar o erro das próprias narrativas e justificar a iminente inflação global dos alimentos.
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O sinal de alerta nas monções asiáticas
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O oceano Pacífico equatorial apresenta um aquecimento continuo antecipado em cerca de seis meses uma anomalia térmica inédita para este período do século. Seja este um sinal de um El Niño precoce ou não, o fato é que a anomalia já desregulou as monções na Ásia. O comportamento atual assemelha-se ao de um período pós-El Niño, que sempre atingem as regiões centro sul e leste da China (coração agrícola chinês) com inundações que impactam na produção agrícola, assim como, outras regiões no sudoeste asiático são impactadas por seca e calor extremo, principalmente na metade sul da Índia, Tailândia, Vietnã, Indonésia.
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Essas evidências indicam que, no período de junho a setembro de 2027 - meses em que o regime de chuvas asiático é historicamente influenciado pelo Pacífico - o impacto sobre a produção será severo. O fenômeno não precisa ser classificado como um “Super El Niño”; basta que as águas aquecidas enfraqueçam os ventos sazonais para comprometer a produtividade. Como as monções atuais já respondem a esse aquecimento, o mercado deve permanecer em alerta máximo entre o final de 2026 e o termino de 2027. Caso o continente asiático enfrente duas safras consecutivas de quebra na produção, pelo aquecimento antecipado e prolongado, o preço dos alimentos registrará picos históricos globais.
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Diante dessas variáveis projeta-se uma curva ascendente para os preços mundiais do arroz em casca a partir do intervalo entre julho e setembro de 2027, estendendo-se até o bimestre de setembro e outubro de 2028, alcançando patamares que podem ser históricos. Preços elevados nessa magnitude elevam os custos logísticos e operacionais, gerando instabilidade em a toda a cadeia agroindustrial.
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Como o mercado tende a se antecipar e buscar proteção quando os riscos são discutidos publicamente, os eventos podem não seguir rigorosamente a cronologia prevista. Por essa razão, opta-se por não fixar um valor nominal exato em dólares para o ciclo 2027/2028 neste momento. O valor desta análise reside no desenho estrutural dos acontecimentos prováveis, servindo como ferramenta de planejamento para os agentes que acompanham o setor.
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CORECON-RS
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