Desigualdade, a chaga social do Brasil

A desigualdade social no Brasil é histórica e começou com a chegada dos portugueses a uma terra desconhecida, cujos moradores eram povos indígenas guaranis. Esses povos viviam do que a natureza lhes oferecia e possuíam crenças próprias, que foram aos poucos desqualificadas pelos portugueses. Após os 522 anos da descoberta do país, com o crescimento da população, é flagrante que a questão da desigualdade continua e está piorando.

O conceito de desigualdade social é um guarda-chuva que compreende desde a desigualdade de oportunidade, de escolaridade, de acesso a políticas sociais, de renda, de gênero, de raça e outras tantas visíveis para quem estiver atento e preocupado com a questão. Em 2022, seguindo uma tendência mundial acelerada pela pandemia, a concentração de renda aumentou no país e, com isso, atingiu o pior nível em pelo menos duas décadas. Em função da má distribuição de renda e de investimento nas áreas sociais, culturais, saúde, educação, falta de oportunidades de trabalho e corrupção, o Brasil continua sendo um dos países mais desiguais no aspecto social, o que impacta diretamente sobre os indivíduos que sofrem no dia a dia com humilhações e dependência de ajuda ou do que resta nas lixeiras dos grandes e médios centros urbanos.

Segundo dados do Ipea, em 2021 havia mais de 200 mil pessoas em situação de rua, o que não é difícil comprovar quando se caminha pelas cidades e se observa que esse quadro aumenta a cada dia, parecendo não ter solução. Enquanto isso, nos últimos anos, quase metade da riqueza do país foi toda para as mãos de 1% dos mais ricos da população. É o pior nível de concentração de renda no Brasil desde o ano 2000, de acordo com o relatório do Banco Credit Suisse. Segundo o documento, o contingente de 1% dos mais ricos eram donos de 44,2% das riquezas no Brasil e, em 2010, esse número havia caído para 40,5%, ainda bastante significativo. Daí em diante, essa proporção voltaria a subir até chegar aos quase 50% nas mãos de pequeno grupo que ocupa o topo da concentração financeira no país.

O cenário de desigualdade social no Brasil é bem mais alto do que em outros países latino-americanos, como o México e Chile, por exemplo. Nesses países a desigualdade está menor do que há 20 anos. No México, a proporção da riqueza nas mãos de 1% mais ricos caiu de 40,1% no ano 2000 para 33,5% em 2020, e, no Chile, a queda foi de 42,8% para 31%. No Brasil, mesmo com promessas políticas de atenção a esse grave problema social, os números continuam crescendo e só perdem para a África do Sul, o país mais desigual do mundo, que tem no aspecto racial um dos fatores determinantes, em uma sociedade onde 10% da população detêm mais de 80% da riqueza, segundo relatório do Banco Mundial publicado em março de 2022.

Está claro que a questão da desigualdade no Brasil é reconhecida pela maioria dos candidatos aos cargos públicos e enaltecida nos discursos e debates pré-eleições. Entretanto a pergunta que todos fazem é a mesma: se as desigualdades são tão evidentes e prejudiciais ao país e aos brasileiros, por que continuam a existir e se aprofundam? A experiência internacional mostra que é preciso fazer investimento massivo e consistente na educação de uma criança logo em seus cinco ou seis primeiros anos de vida. Independente da cor, crença, gênero, questões responsáveis por criar barreiras que delimitam o acesso de pessoas marginalizadas (que estão à margem) a direitos básicos, como educação de qualidade, saúde, moradia, trabalho, alimentação, saneamento básico, transporte, lazer e bens de serviço. Esse fenômeno que começa limitando o acesso aos direitos humanos também impossibilita o acesso a oportunidades.

O Brasil não pode admitir que a desigualdade social se perpetue no país.

 

Artigo de autoria do conselheiro do Corecon-RS e diretor da Associação Comercial de Pelotas (AC), economista João Carlos Medeiros Madail, publicado no Diário Popular de Pelotas, edição do dia 15/10/22.

Cenário econômico favorece o investimento de longo prazo em ações

A crise mundial impulsionada pela pandemia da Covid-19, as consequências da guerra entre Rússia e Ucrânia, aliada à alta de preço do petróleo e o aumento da dívida pública desencadeou a queda no PIB das maiores economias, depreciação das principais moedas, como o euro e a libra, assim como o aumento global das taxas de juros e inflação. Esses efeitos da macroeconomia impulsionaram a desvalorização nos preços das ações a nível mundial. Esse momento oportuno para investir em determinadas ações acontece devido as correções nos preços das ações, que antes da crise dos últimos anos estavam muito acima da relação com os lucros das empresas. Isso pode ser conferido através do indicador mais utilizado mundialmente que é o índice P/L, equivalente ao Preço/Lucro de uma ação.

Em uma análise dos principais índices das bolsas mundiais no período de 11/10/2021 até 11/10/2022, vemos que o S&P500, Dow Jones Industrial Average, Nasdaq Composite, Nikkei 225, Euronext, London Stock Exchange, Shanghai Composite e o Ibovespa – com exceção do Ibovespa da Bolsa de Valores do Brasil (B3) que valorizou-se 2,36% - todos apresentaram as respectivas quedas: 17,70%, 15,16%, 28,03%, 7,36%, 35,99%, 2,49% e 17,04%. Essa desvalorização generalizada fez com que a capitalização do mercado a nível mundial caísse, essa capitalização corresponde ao somatório do valor de todas as empresas negociadas nas principais bolsas do mundo conforme os índices citados. Tal baixa abre um questionamento: o mercado já se desvalorizou o suficiente e agora está com indicação de compra?

Os números mostram que sim, já que algumas das principais ações negociadas nas bolsas americanas caíram muito no período entre 11/10/2021 para 11/10/2022. Este é o caso da Meta Platforms (META), Amazon.com.Inc (AMZN), Tesla Inc (TSLA) e Apple Inc. (AAPL), que desvalorizaram respectivamente: 60,5%, 30,87%, 17,91% e 2,68%. No mesmo período, algumas empresas na B3 igualmente tiveram quedas, como a Vale do Rio Doce (VALE3,), Usiminas (USIM5), Braskem (BRKM5) e Via Varejo (VIIA3), respectivamente: 1,26%, 50,03%, 30,04%, 52,1%.

Observa-se, também, que empresas com grande participação no Ibovespa valorizaram, como a Petrobras (PETR4) e Banco do Brasil (BBAS3), que subiram 81,92% e 39,63%. A regra para todo investidor do mercado de ações é comprar quando os preços estão depreciados em relação ao seu valor, ou seja, “comprar na baixa e vender na alta”, quando os preços superam, e muito, o seu valor. Considerando isso, a partir de uma análise fundamentalista pode-se detectar empresas que apresentam boas oportunidades de investimento a longo prazo, pois a queda drástica dos preços de suas ações não se justifica por apresentarem fundamentos sólidos, como baixo P/L, P/VPA e endividamento, crescimento do Patrimônio Líquido, baixo EV/EBITDA, Crescimento da Receita etc.

O investidor da bolsa que investe em ações muito descontadas ( Value Investing) pode analisar essas empresas que apresentam tais indicadores fundamentalistas e que sofreram fortes correções devido a um momento não oportuno da macroeconomia. Pode-se dizer que é a ideia de comprar algo bom por um preço muito melhor. Neste caso, a premissa é de que as decisões de quando comprar são de vital importância para o resultado final. Então, é importante concentrar-se em investir em boas empresas a bons preços, e usar o tempo a seu favor. E não esquecer de que é preciso fazer um bom planejamento e investir com a assessoria de um especialista com experiência no mercado de ações, só assim o investidor estará minimizando o seu risco e maximizando o retorno do seu investimento na carteira de ações. Segundo o economista americano Robert Shiller, ganhador do Prêmio Nobel de Economia em 2013, “O mercado de ações tem um histórico muito melhor de valorização e permite maior diversificação do que imóveis”, assim, aproveitar momentos em que o cenário econômico possibilita adquirir ações de boas empresas descontadas é uma ótima oportunidade de investimento.

Artigo de autoria do economista e investidor autônomo, Manoel Gil Costa Soares

City Marketing e Estratégias Possíveis

O City Marketing, Marketing de Cidade segue uma sequência lógica: vontades e decisões dos setores públicos e privados; visão unificada para o desenvolvimento da cidade e escolhas das estratégias possíveis para alcançarem os objetivos e metas.

São realizadas as escolhas dos melhores caminhos para a melhoria contínua da população local. Geralmente, alguns governantes não entendem que os trabalhos que estão sendo realizados devem ter continuidade com profissionalismo. Surgem neófitos que definem novos objetivos e novas estratégias ignorando os ciclos que já foram iniciados.

Observa-se a ignorância pluralista e a ingenuidade quando são iniciadas propostas inviáveis para atender egocentrismos dos novos dirigentes eleitos. Assim, quatro, oito, dezesseis anos ou mais, são perdidos por decisões e estratégias equivocadas. Algumas cidades, continuam executando as mesmas operações para captações de recursos: impostos e taxas locais; repasses dos governos estaduais e governo estadual e novos investimentos.

 

Por falta de informações ou sem interesse ignoram os benefícios possíveis da promoção e divulgação de cada Cidade nos mercados, inclusive atraindo visitantes de lazer, participante de eventos e investidores. Observa-se o conformismo da situação atual da cidade, das faltas de diálogos com a população local e com os possíveis investidores. São problemas das Gestões e dos representantes eleitos focados nos períodos dos seus mandatos sem definições de estratégias duradouras. Quando surgem interessados em continuidade das Políticas, dos Planos, Programas e Projetos iniciados em governos anteriores, todos são beneficiados.  

Nos casos opostos, observa-se os descasos com os recursos financeiros dos contribuintes e, muitas vezes, atos de corrupções. Ainda bem que temos imprensa livre e instituições capazes de corrigirem os prováveis desvios.  Portanto, a escolha da estratégia a ser utilizada ou as combinações de estratégias possíveis, sempre em parcerias entre setores públicos e privados, podem alcançar melhores resultados. Observa-se que o City Marketing deve sequenciar as Políticas Públicas adequadas com as participações dos setores privados.

Sem a indispensável união visando o melhor para o cidadão e, por consequência, o melhor para o visitante é impossível implantar ações do City Marketing, tornando a Cidade mais uma vítima da Propaganda enganosa. Convém salientar que uma cidade é boa para o visitante quando é boa para o residente.

Nenhuma estratégia consegue captar visitantes se os bens e/ou serviços oferecidos são incompatíveis com suas necessidades. Será? Respeitam-se todas as opiniões contrárias. São reflexões. Podem ser úteis.

Pensem nisso.

 
Artigo de autoria do economista Abdon Barretto Filho, mestre em Comunicação Social e presidente da ABF - Comunicação e Marketing, publicado no Site www.peloscaminhosdoriogrande.com.br

Economia global rumo à recessão

O advento da globalização das economias contribuiu nas trocas entre os blocos econômicos com resultados positivos para muitos países que apresentaram significativos desenvolvimentos industriais, com o avanço das novas tecnologias e, por conseguinte, crescimentos econômicos acelerados. A globalização também gerou vantagens competitivas para as empresas que passaram a obter matérias-primas mais baratas. Entretanto, quando tudo parecia normal no cenário econômico mundial, eis que surge a pandemia da Covid-19, freando o ritmo de crescimento global, agravado ainda mais com a guerra entre Rússia e Ucrânia, que não tem prazo para acabar.

Como resultado vive-se um cenário de encarecimento dos preços dos alimentos e do petróleo, que atinge diretamente inúmeros países. Reaparece, então, uma velha vilã há muito esquecida pelos países desenvolvidos que é a inflação. Trata-se da inflação de custo pelo aumento do valor de várias matérias-primas ou insumos importados. A Alemanha está com o nível mais alto em quase meio século, tendo ainda que lidar com uma crise energética derivada do conflito que atinge toda a Europa. Os Estados Unidos e o Reino Unido têm experimentado aumentos de preços não vistos nos últimos 40 anos. A taxa de inflação americana já ultrapassou todas as metas anteriormente estabelecidas e chega a 8,3%. A América Latina, por sua vez, também está sob pressão devida à escalada do custo de vida.

A maneira de controle da inflação é a elevação da taxa de juros, ou seja, tornar o dinheiro mais caro para reduzir a demanda. O Federal Reserve (FED, Banco Central dos Estados Unidos) elevou recentemente a taxa de juros em 0,75%, atingindo a faixa de 3% a 3,35% ao ano. Este foi o quinto aumento em 2022 e, com isso, a taxa chegou ao seu maior nível desde 2008, quando despontou a crise financeira mundial. No Brasil, o Comitê de Política Monetária do Banco Central decidiu na última reunião, em setembro, manter os juros em 13,75%, após 12 aumentos seguidos que elevaram a taxa de juros em 11,75 pontos percentuais desde março de 2021, o maior ciclo de altas desde 1999, quando se colocou em execução o regime de metas da inflação.

A alta de juros provoca vários efeitos na economia dos países. Investidores que comumente aplicam seus recursos financeiros nos países em desenvolvimento, com altos lucros, mesmo com taxas menores, deslocam recursos para os países ricos, como os Estados Unidos, considerados mais seguro para as aplicações. Enfim, a desaceleração ou mesmo a recessão ora vivida nas economias dos países desenvolvidos é uma realidade no cenário atual, visto que, quando os juros sobem, fica mais caro para as empresas e famílias tomarem empréstimos, o que diminui a atividade econômica. Essa desaceleração da economia mundial reduz a demanda por bens e serviços e pode influenciar nas exportações brasileiras até mesmo para a China, que vive contração econômica declarada.

Comprovada a recessão americana, grande parte dos países dependentes direta ou indiretamente desta e de outras economias desenvolvidas também serão impactados, incluindo o Brasil. O próprio Banco Mundial alertou recentemente que os aumentos das taxas de juros nos países podem levar a economia global a uma recessão em 2023. Portanto, os prognósticos para o próximo ano não são bons para a economia mundial, que poderá viver seu pior momento em mais de uma década.

O que está claro, na opinião dos principais líderes de bancos centrais, é que, se dada a escolha entre permitir que a inflação permaneça alta por um período sustentado ou levar a economia para uma recessão, melhor é optar pela recessão. Inflação alta é difícil de superar. Porém, a recessão, mesmo que reduza a atividade econômica por um tempo, superada as causas que a provocaram, poder-se-á voltar a crescer, recuperando a confiança de empresários e consumidores.

Artigo de autoria do conselheiro do Corecon-RS e diretor da Associação Comercial de Pelotas (AC), economista João Carlos Medeiros Madail, publicado no Diário Popular de Pelotas, edição do dia 06/10/22.

Contribuição da indústria para a economia

O setor industrial surgiu no Brasil no fim do século 17, ou seja, é uma das atividades mais antigas da economia moderna e se mantém até hoje como um dos destaques da economia do país. As indústrias, onde quer que estejam instaladas, promovem o desenvolvimento por meio da geração de empregos, impostos, transformando matérias-primas em produtos comercializáveis. É dinheiro novo que ingressa na economia por meio da força humana, energia ou máquinas. Tudo que transforma é considerado indústria, como no caso das mineradoras, madeireiras, petrolíferas, metalúrgicas, indústrias de bens intermediários que produzem papel e celulose, produtos químicos, borrachas, plásticos, componentes elétricos e eletrônicos, indústrias de bens de consumo duráveis, automóveis, móveis e tantos outros.

O país detém, hoje, mais de 18 milhões de empresas em atividade, sendo 1,3 milhão com atuação voltada para a indústria. A importância do setor pode ser constatada pela contribuição de 22% do PIB nacional, 49% das exportações, 20% de participação na geração de empregos formais, 32% dos tributos federais, além da contribuição de R$ 1,3 trilhão para a economia brasileira. As informações são oriundas da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Portal da Indústria. Afirma-se, com certa convicção que a cada R$ 1 produzido na indústria, são gerados R$ 2,40 para a economia do país. O maior centro industrial do país é o estado de São Paulo, que conta com mais de 300 mil indústrias ativas.

O município de Pelotas carece de um parque industrial ativo e diversificado. Como a economia pelotense está alicerçada basicamente no comércio e serviços, a injeção de dinheiro novo não é representativa quando comparada à Serra Gaúcha e outros municípios como Triunfo e Gravataí, que apresentam desenvolvimento destacado no setor industrial do Estado. Dados disponíveis apontam que o setor industrial de Pelotas representa apenas 9,9% do PIB municipal. Enquanto os setores de comércio e serviços somavam, em 2020, 79,5% dos empregos celetistas (30,6% no comércio e 48% no setor de serviços), a indústria, a construção civil e a agropecuária somavam, respectivamente, 13,9%, 5% e 1,6% dos empregos formais celetistas.

É incompreensível que Pelotas não consiga atrair indústrias que produzam para o mercado interno ou para a exportação. A posição estratégica da cidade em relação ao Porto de Rio Grande e ao Mercosul é um dos fatores que poucas cidades possuem. Além do mais, a cidade tem outras condições favoráveis como espaço para a instalação, água potável em abundância, energia adequada, mão de obra qualificada formada pelos vários cursos superiores e profissionalizantes, facilidades de acesso à capital com a duplicação quase completa da BR-116, cidade plana, o que favorece a circulação interna. Enfim, o que estará faltando para que a cidade se transforme num grande polo industrial da Metade Sul?

Não há dúvida de que o desenvolvimento da atividade industrial em uma região é acompanhado por mudanças sociais, não são apenas as unidades fabris que refletem no ambiente ao seu redor, pois elas também são afetadas por fatores locacionais. Isso significa que a atividade industrial pode ser impactada em razão de características do local em que se encontra. Isso faz com que a decisão do local de instalação de uma organização fabril seja acompanhada e embasada em diversos estudos sobre fatores importantes relacionados ao lugar que possa influenciar a sua atividade. Entretanto Pelotas tem quase tudo que os empresários buscam para instalar seus empreendimentos. Talvez o principal deles seja os "incentivos" para chegar até aqui, seja no aspecto motivação ou, principalmente, no aspecto fiscal. Quem sabe um dia possa enaltecer a importância da indústria para a economia pelotense.

Artigo de autoria do conselheiro do Corecon-RS e diretor da Associação Comercial de Pelotas (ACP), economista João Carlos Medeiros Madail, publicado no Diário Popular de Pelotas, edição do dia 22/09/22.

São os economistas robôs?

Nós, economistas, recorremos a nossos modelos e sistemas, hoje muito vinculados à ciência da computação, para interpretar realidades, projetar o futuro e tomar decisões. Alguns emprestam seu conhecimento a configuração de algorítmos e à inteligência artificial. Tendência que aumentam os riscos de sermos substituídos por robôs. E, talvez muitos de nós revelem essa preferência, devido à frieza e a racionalidade a serem alcançadas. Nossa Bioética impede, mas, paradoxalmente, a paixão pela economia leva muitos economistas à fronteira entre a humanidade e o não-humano. 

Prever fatos futuros sempre foi desejo da humanidade. Seja no Antigo Egito, com a interpretação dos sonhos dos faraós, no Oráculo de Delfos, da Grécia Antiga, ou na quiromancia e na astrologia que permanecem nas esquinas.

Quando se trata de projetar as tendências do futuro, sejam elas individuais (micro) ou em bloco (macro), os recursos matemáticos e estatísticos são ferramentas dos economistas. Usamos modelos descritivos e analíticos. Os primeiros são empíricos e descrevem as reações sem lhes dar explicação.
O modelo analítico explica e busca causas, soluções e tomadas de decisão. Não raro, economistas iniciantes se apaixonam pela conveniência de modelos descritivos matemáticos e robotizam suas interpretações. 

Infelizmente, vimos economistas usarem a defesa da economia com teses matemáticas para que brasileiros fossem às ruas e corressem o risco de contágio durante a pandemia. Assistimos a descrições que calculavam quantos hectares de florestas queimadas poderiam ser compensados por aumento do PIB. 

A economia não é o oposto de saúde ou sustentabilidade. Não somos robôs, Não seremos substituídos por algorítmos em sistemas computacionais. 
A profissão é nobre. Buscamos, é verdade, otimizar as tomadas de decisão para que o bem-estar gere desenvolvimento sustentável. E, nesses casos,
e não somente neles o ótimo é inimigo do bem. 

 

Artigo de autoria do Ex-Secretário Municipal de Desenvolvimento Econômico de Porto Alegre e Ex-Presidente do Corecon-RS, economista Leandro de Lemos, publicado na Zero Hora, edição do dia 19/09/2022.

Principais indicadores fundamentalistas

A crise mundial econômica ocasionada pela pandemia da Covid-19, onde o Produto Interno Bruto (PIB) das principais economias do mundo teve quedas significativas e aumento das taxas de juros, repercutiu nos mercados financeiros, principalmente nas ações do mercado americano, europeu e brasileiro. Assim no momento atual, as ações de boas empresas brasileiras apresentam-se como um interessante investimento de longo prazo, pois o tempo favorece na maturação dos resultados das empresas, além de equilibrar a volatilidade do mercado. Contudo, para minimizar o risco inerente em investimentos em renda variável, e com isso realizar uma estratégia para maximizar o retorno financeiro, é preciso fazer um bom planejamento, assim como investir com a assessoria de um especialista com experiência no mercado de ações.

Para que esse investimento inicie-se corretamente e com o mínimo de risco possível, é necessária uma análise fundamentalista, que envolve a análise qualitativa – que mede a qualidade da gestão e governança corporativa da empresa -, e a análise quantitativa, baseada no balanço das empresas. Existem vários indicadores fundamentalistas estudados para avaliar a situação das empresas, eis alguns importantes:

P/L - PREÇO/LUCRO

Este indicador relaciona o preço de mercado de uma ação com seus lucros. Por meio dele, conseguimos saber se uma determinada ação está mais cara ou mais barata. É um indicador simples que pode ser facilmente utilizado como critério comparativo entre duas empresas atuantes em um mesmo setor.


DIVIDEND YIELD

O principal objetivo deste indicador é mostrar o quanto a empresa paga ao seu investidor. Quanto maior for o dividend yield, maior será o pagamento de dividendos por parte da empresa. Ele é calculado por meio da seguinte fórmula:

Dividend Yield = Dividendo pago por ação dividido (÷) pelo preço da ação.

Este indicador é usado, principalmente, por investidores que desejam montar uma carteira focada no recebimento de dividendos.


P/VPA: PREÇO/VALOR PATRIMONIAL POR AÇÃO

Em tese, o indicador P/VPA compara o valor de mercado da empresa (que corresponde ao valor da ação vezes (x) o número de ações) com o seu valor contábil (ativos menos passivos). Ou seja, relaciona o preço de uma ação ao valor patrimonial proporcional que ela possui. Basicamente, quanto mais baixo o P/VPA, mais barata está a empresa.


EV/EBITDA:

Ebitda, sigla em inglês para Earnings Before Taxes Interest Depreciation and Amortization, significa “Lucros antes dos juros, impostos, depreciação e amortização”. Este indicador é uma medida simplificada da geração de caixa de uma empresa. Por sua vez, EV vem do inglês Enterprise Value, compreendendo o valor de mercado da empresa (preço da ação vezes (x) seu número total de ações), que é somado com a dívida líquida. Nesse sentido, o EV/EBITDA esboça aos analistas a ideia de quanto tempo demoraria para o lucro operacional da companhia pagar o investimento realizado na compra.


ROE

ROE, sigla de Return On Equity, significa “Retorno sobre Patrimônio Líquido”. Este indicador aponta qual o retorno que os sócios de uma companhia estão obtendo em relação ao dinheiro investido nela. Ou seja, mede a capacidade que a empresa tem de gerar retorno para o capital próprio investido.

O investimento em ações pode trazer duas formas distintas de ganhos: a valorização das ações e os dividendos que é parte dos lucros das empresas, distribuídos entre os acionistas.

O indicador P/L é usado mundialmente e os países desenvolvidos possuem um P/L maior do que os emergentes por apresentarem uma maior estabilidade econômica. Segundo o economista americano Robert Shiller, vencedor do Prêmio Nobel de Economia em 2013, “Todas as economias bem-sucedidas têm mercado de capitais desenvolvidos”.

 

Artigo de autoria do economista e investidor autônomo, Manoel Gil Costa Soares

Inflação ou deflação, eis a questão

Todas as alterações de rumo nas políticas econômicas que resultem em aumento da inflação merecem atenção especial, pois prejudica não apenas os investimentos e crescimento do País, mas também impõem elevados custos sociais, custos estes que tendem a ser inversamente relacionados ao nível de renda dos indivíduos, implicando maior penalização aos mais pobres.

A inflação brasileira em 2022, prevista pelo mercado financeiro, passou de 7,02% para 6,82%, ou seja, uma redução explicada pela tendência de queda dos preços na economia. O cenário de queda da inflação é uma boa notícia para a população que teme o retorno dos tempos difíceis com o avanço dos preços relativos de produtos e serviços, que impactam diretamente no bolso de todos, aumentando gastos na aquisição de bens necessários. Com o cenário da inflação sob controle, surge outra preocupação; a “deflação”.

A deflação é o processo inverso da inflação, ou seja, ocorre quando os índices de preços passam a cair ao invés de subir. As causas da deflação estão relacionadas com a oferta maior de produtos e serviços em contrapartida a demanda menor. Em países em desenvolvimento, a inflação parece fazer parte do cotidiano das pessoas que costumam pesquisar preços, na busca das melhores ofertas. Já num cenário de deflação, parece agradar a todos responsáveis pela gestão financeira dos países, o que não deixa de ser verdade, mas deflação por longos períodos pode representar um grande perigo para a economia de um país.

Um exemplo histórico sobre os efeitos da deflação ocorreu nos Estados Unidos com a queda da Bolsa de Valores de Nova York em 1929. Quando deflagrada a crise no país americano, naquela época, as empresas foram obrigadas a reduzir os preços dos produtos e serviços, levando o mercado a um estado de recessão. Com a queda dos preços, sem previsão de suba, refletiu diretamente em perdas de empregos e queda da renda das pessoas, colocando todo o país em uma das maiores crises econômico da sua história.

O ideal é que ocorra uma elevação controlada a cada espaço de tempo e com isso eleve também outros indicadores, como renda da população, oferta de empregos e consumo. Num cenário de deflação pode ocorrer, também, menos quantidade de moedas em circulação, pois menos dinheiro circulando significa menos pessoas comprando, o que desestimula ainda mais o consumo e afeta a produção gerando queda dos preços e problemas para a economia. Quando acontece o movimento contrário por muito tempo, pode indicar que há algum problema com a economia do país e que é preciso combater as causas dessa deflação.

O importante é que a população entenda o que é deflação e a partir desse entendimento, possa criar o seu próprio planejamento financeiro e valorize as suas finanças de forma racional e duradoura. O que se deve entender é que a deflação é um processo tão ruim quanto à inflação.  Entender estes conceitos é importante e faz a diferença nos momentos em que as pessoas forem decidir sobre qual a melhor forma de usar o dinheiro que dispõe, não só para encontrar o melhor momento para gastá-lo, quanto para segurá-lo, permitindo fazer uso nas situações imprevisíveis. Para quem tem a possibilidade de poupar dinheiro, certamente poderá realizar projetos futuros ou comprar produtos e serviços a vista e ganhar descontos ou até mesmo ter certa tranqüilidade para situações emergenciais. Nada disso vai deixar as pessoas que possuem alguma reserva financeira isentas dos malefícios dos cenários de crescimento inflacionário ou deflacionário em paz.

A economia é dinâmica e se movimenta em períodos marcados por flutuações que ocorrem em quatro períodos principais: expansão, boom, contração e recessão. Estejamos preparados para vivê-la da melhor forma possível.

 

Artigo de autoria do conselheiro do Corecon-RS e diretor da Associação Comercial de Pelotas (ACP), economista João Carlos Medeiros Madail, publicado no Diário Popular de Pelotas, edição do dia 01/09/22.

Política, Economia e Desenvolvimento Social

A política determina a economia e o desenvolvimento social. Com as necessidades ilimitadas dos seres humanos e a escassez dos fatores de produção, a economia procura responder as indagações seguintes: o que, quanto, como e para quem produzir. Com a política, as opções são determinadas. Em alguns casos, os resultados das escolhas podem ser questionados. Para muitos, os resultados melhores estão com a produção e distribuição da melhor forma possível dos bens e/ou serviços produzidos no país. Entretanto, existem propostas que aceitam a produção e não querem a distribuição, assim como, existem propostas que querem a distribuição sem a capacidade da produção adequada. Logo, o planejamento econômico e a alocação da série de recursos públicos dependem de decisões políticas.

As propostas e as discussões dos orçamentos públicos precisam de prioridades para atendimentos dos habitantes. Gastos de custeio ou investimentos? Gerar emprego ou renda? Aumentar ou diminuir impostos? Agricultura ou Indústria? Investir na educação básica, superior ou profissionalizante? Incentivos à tecnologia, cultura, pesquisa e ao turismo? São algumas das perguntas que os eleitos devem responder através dos debates e decisões nos governos municipais, estaduais e no Governo Federal. Em sequência, a iniciativa privada procura atender seus propósitos, objetivos e metas, gerando empregos, rendas e pagando os impostos e taxas. A política é um variável incontrolável que influencia as opções dos empreendedores e empresários. A insegurança e as ameaças, assim como, as oportunidades apresentadas depois da eleições podem definir as estratégias, táticas e operações da empresas e entidades.

As escolhas democráticas com os votos da população buscam a melhoria da qualidade de vida para todos, com responsabilidade da gestão pública. O desenvolvimento social é a consequência das políticas públicas e das boas gestões públicas e privadas. Um país depende das escolhas dos seus políticos comprometidos com a ética e a sustentabilidade econômica, ambiental e social. Um bom ambiente político e econômico possibilita e garante o investimento privado. Para muitos, os governos devem ser os indutores do desenvolvimento social. Para outros, os governos devem garantir o ambiente que garanta a liberdade econômica e concentrar-se na segurança, infraestrutura, saúde pública. É óbvio que os modelos econômicos são adaptados às disponibilidades de recursos – sistêmicos, humanos, materiais e financeiros, que nem sempre podem atender a todos. Entretanto, o cidadão útil à comunidade, pagador de impostos e eleitor, tem no seu voto a oportunidade e o direito constitucional de realizar a escolha do seu representante político para encontrar a melhor opção. 

Viva a democracia! Convém salientar que todo poder político tem origem nos votos. Portanto, analisar as propostas e as realizações dos candidatos são indispensáveis para a melhoria contínua do Brasil, principalmente para os mais necessitados e para os futuros dos nossos filhos e netos. Responsabilidade, honestidade e ética, não podem faltar. Será? Respeitam-se todas a opiniões contrárias. São reflexões. Podem ser úteis. Pensem nisso.

 

Artigo de autoria do economista Abdon Barretto Filho, mestre em Comunicação Social e presidente da ABF - Comunicação e Marketing, publicado no Jornal Correio do Povo, em 30/08/2022. 

Reflexões sobre dívida contratual: afirmar que a dívida do Estado já foi paga é uma heresia

Este artigo começa por fazer uma diferença entre dívida em contratos e dívida em títulos, sendo a primeira paga, e a segunda, rolada, em sua quase totalidade. 

A dívida da União é, na sua maioria, em títulos, e como tal, a maioria rolada.  A despesa com a dívida em 2021 correspondeu a cerca de dois trilhões de reais, ou 22,6% do PIB, mas que foi rolada por novas operações de crédito de R$ 1,6 trilhão (19% do PIB)  No final, o dispêndio líquido foi de R$ 313 bilhões, ou 3,6% do PIB, na metodologia acima da linha.

A União não teria como pagar esse valor com receita ordinária, quando sua receita tributária, a principal, é pouco acima de 19% do PIB, inferior à despesa referida.  Apesar disso, entidades sindicais e corporativas afirmam que o valor pago de juros foi os 22,6% do PIB, porque isso serve a seus propósitos.

A dívida em contratos, por seu turno, tem ou deveria ter suas prestações pagas na íntegra.  A dívida do Estado do RS, cujo saldo devedor não decresce, deveria ter decrescido, se tivesse sido cumprido o plano de amortização. No entanto, o acordo de refinanciamento de 1998, em vez estabelecer que o pagamento seria o valor das prestações calculadas, estabeleceu que seria paga 13% da receita líquida real, um proxy da receita corrente líquida, que foi reduzido posteriormente. Além disso, colocou dentro desse limite oito dívidas anteriores mais parte da Operação Proes.  Por tudo isso não caiu o saldo devedor.

Toda dívida por contrato é paga mediante um plano de amortização que, se for cumprido, ou seja, se forem pagas integralmente as prestações, o saldo devedor necessariamente cai. Por isso, afirmar que a dívida já está paga é uma heresia. Se houve pagamentos e a dívida continua a crescer foi porque os desembolsos ocorridos não se destinaram à sua amortização, mas ao pagamento de outras dívidas.  A dívida objeto do contrato foi paga somente parcialmente.

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Artigo de autoria do economista Darcy Francisco Carvalho dos Santos, especialista em finanças públicas e conselheiro do Corecon-RS, publicado no site financars.com.br  no dia 25 de agosto de 2022.

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