Futuro do Capitalismo

O sistema capitalista começou a ser praticado no século 8, como alternativa ao sistema feudal, que entrara em decadência em consequência da fome, das guerras e da peste negra que se alastrava na Europa Ocidental. Com o surgimento da Burguesia - classe social que detinha os meios de produção, as pessoas fugiam em massa dos feudos agrícolas, provocando o êxodo rural, concentrando-se nas cidades em busca de melhores condições para viver. O surgimento da moeda, o desenvolvimento das cidades medievais e da intensificação das atividades comerciais, foi essencial para que o sistema feudal entrasse em declínio. Surge aí o capitalismo, um sistema econômico no qual o principal objetivo se dá pela obtenção do lucro e da proteção privada. O acúmulo de capital, tanto pelos governos quanto pelos indivíduos, é representado na forma de bens e dinheiro.

O primeiro país a adotar o sistema capitalista foi a Inglaterra, em 1760, tendo como marco inicial a introdução da máquina a vapor na produção, o que deu início a transição de uma produção manufatureira para uma produção industrial. Daí em diante, em função do sucesso da produção em massa e da maior oferta de produtos para o consumo, o capitalismo se expandiu para quase todo o mundo, marcando a sua existência definitiva a partir do século 15. Na sua trajetória o capitalismo está dividido em três fases; o capitalismo comercial, o capitalismo industrial, o capitalismo financeiro e o capitalismo informacional. Atualmente está na sua terceira fase; o capitalismo financeiro, caracterizado pela especulação financeira em torno de ações de empresas, juros etc. Mesmo que se considere o capitalismo como um sistema econômico, é necessário se ter em mente que o modo de produção vai interferir diretamente em aspectos políticos, sociais e econômicos, ou seja, o sistema vai influenciar na organização de todos os aspectos de uma sociedade.

Não há dúvida de que grande parte da população mundial se beneficiou e ainda se beneficia dos resultados do capitalismo. Em apenas 200 anos, 85% da população mundial vivia em extrema pobreza - com menos um dólar por dia, hoje esse índice está em 16%. Apesar disso, o capitalismo, hoje, está em constante ataque por várias razões; os detentores do poder econômico buscam tão somente a maximização do lucro a qualquer preço, sem medir as consequências do sacrifício das pessoas ou das nações impossibilitadas de participar do sucesso de uma camada cada vez mais concentrada de beneficiários. Assim como já tivemos nos feudos três classes distintas; a Nobreza, a classe mais alta, proprietária de terras que determinavam as regras dentro dos feudos; o Clero, composto pelos membros da Igreja Católica, instituição poderosa que, além de evangelizar era grande proprietária de terras e os Servos, trabalhadores dos feudos que tinham tão somente o direito a salários, ou trabalhavam em troca de lugar para viver e se alimentar. No capitalismo segue-se no mesmo ritmo.

A voracidade pelo lucro em função da produção em massa e da necessidade de consumo dos oito bilhões de habitantes do planeta, já se discute até quando haverá matéria prima na natureza para sustentar o sistema, visto que a exploração constante e desenfreada tem deixado um saldo de devastação profunda no meio ambiente. Além disso, o fato mais importante atribuído ao sistema capitalista é a intensificação das desigualdades sociais. A busca incessante por lucros faz com que haja a exploração do trabalho humano por parte dos donos dos meios de produção. Isso ocorre com mais intensidade pela ausência de oportunidades de empregos. Como existe uma grande e crescente oferta de trabalhadores os salários consequentemente são baixos, além da modernização da produção que retira um número elevado de postos de trabalho. Quem sabe um novo sistema possa surgir em que as pessoas possam ser mais importantes do que elas realmente são, ou que os valores humanos estejam acima dos valores materiais.


Artigo de autoria do conselheiro do Corecon-RS e diretor da Associação Comercial de Pelotas (ACP), economista João Carlos Medeiros Madail, publicado no Diário Popular de Pelotas, edição do dia 17/11/22.

 

Empregos gerados nas campanhas eleitorais

No período destinado às campanhas eleitorais dos vários candidatos à presidência da República, governadores, Congresso Nacional e Assembleias Legislativas, geraram empregos para inúmeras pessoas, mesmo que temporários. Assim como a pandemia acabou com várias atividades de ambulantes e pequenos negócios, ocasionando situações de desespero para famílias que dependiam do pouco que ganhavam para sobreviverem, eis que surgem as campanhas eleitorais, abrindo espaços de trabalho para milhares de pessoas no país inteiro, mesmo que por um curto período de tempo.

Além da escolha dos representantes políticos, há que se considerar a festa da democracia protagonizada por eleitores e candidatos. Além do objetivo maior, a eleição deste ano teve caráter empregatício oportuno, isto porque foi necessário contar com muitas pessoas para levar as pautas políticas para a população no planejamento e execução da campanha. Não se tem ideia do número de colaboradores beneficiados, de alguma forma, com atividades contratadas pelos candidatos. Sabe-se que a campanha movimentou empresas gráficas e pequenos negócios de todo o país, sejam na confecção de impressos ou artesanatos direcionados à campanha, cabos eleitorais, pessoas encarregadas de obter votos para os candidatos ou partidos políticos, mesmo que este tipo de trabalho não tenha reconhecimento de vínculo empregatício.

Em muitos casos famílias inteiras circularam pelos calçadões ou mesmo nos bairros mais numerosos das cidades empunhando bandeiras ou distribuindo os conhecidos “santinhos” ou se aglomerando nas esquinas movimentadas dos centros urbanos, tremulando bandeiras. Não se tem registros do número de pessoas que trabalharam nesta campanha eleitoral, entretanto, pela intensa movimentação das pessoas e pelo expressivo número de candidatos, pode se afirmar que foram milhares em todo o país. Sabe-se que a maioria das pessoas atuou como tarefeiro ou diarista e outros tantos contratados com registro nas carteiras.

Assim como há um limite para gastos nas campanhas, o Tribunal Superior Eleitoral limita o número de pessoas que podem ser contratadas para uma campanha. Esse número varia de acordo com o tamanho do eleitorado do Estado e a partir do cargo escolhido. Para deputado estadual, são previstos gastos de até R$ 1,2 milhão e 3.355 funcionários contratados. O cargo de deputado federal já prevê um gasto máximo maior, de R$ 3,1 milhões e 6.709 pessoas contratadas.

As redes sociais também movimentaram sobremaneira as campanhas eleitorais. A tarefa dos cabos eleitorais tem evoluído nos últimos tempos, pois competem com as novas formas de campanha online. Nos últimos pleitos, em 2018 e 2022, as redes sociais tiveram um papel de destaque, mudando a forma de comunicação do candidato com o seu eleitor. Neste último não foi diferente. Incorporou novos profissionais na campanha, sejam operadores de sistemas, especialistas na criação de cards e outras formas de comunicação virtual, profissionais de marketing político e eleitoral, enfim uma gama de pessoas ávidas por trabalho.

A tendência é que nas próximas campanhas políticas a presença desses profissionais se intensifique, mas engana-se, porém, quem pensa que é só realizar o incremento da campanha que a mágica da vitória acontece. O conteúdo impulsionado precisa ser bom e convincente para convencer o eleitor. O candidato que não tiver conteúdo ou uma boa presença de vídeo ou boas ideias ou ainda não esteja engajado de corpo e alma na campanha, certamente não obterá êxito. Quando o produto é ruim não tem comunicação que faça milagre. Um exemplo de sucesso, próximo dos pelotenses é a conduta de Eduardo Leite (PSDB). Ele demonstra preparo político tem boa presença de vídeo, ótimo argumento o que o faz dele um político vencedor desde o seu primeiro mandato como vereador em Pelotas.​

 

Artigo de autoria do conselheiro do Corecon-RS e diretor da Associação Comercial de Pelotas (AC), economista João Carlos Medeiros Madail, publicado no Diário Popular de Pelotas, edição do dia 10/11/22.

As instituições financeiras e o Prêmio Nobel de Economia de 2022

O  capitalismo, ou mais exatamente, o sistema de livre mercado, é a forma mais eficaz de organizar a produção e distribuição que os seres  humanos encontraram. Embora os livres mercados, especialmente os livres mercados financeiros, engordem a carteira das pessoas, não conseguiram, surpreendentemente, conquistar seus corações e mentes. Os mercados financeiros são um dos mais criticados e menos  entendidos elementos do sistema capitalista.

… mercados financeiros sadios e concorrenciais são uma ferramenta extraordinariamente eficaz para difundir oportunidades e  combater a pobreza. Dado seu papel no financiamento de novas ideias, os mercados financeiros mantêm vivo o processo de “destruição” criadora que contesta velhas ideias e organizações e as substitui por outras, novas e melhores. Sem mercados financeiros vibrantes, inovadores, a economia inevitavelmente se petrificaria e declinaria – Rajan & Zingales (2004)

A percepção da importância da intermediação financeira para o crescimento econômico é bastante antiga na economia, remontado a trabalhos clássicos na economia devidos a Bagehot (1873);  Schumpeter (1911); John Hicks (1969) e Gurley e Shaw (1956, 1960). Contudo, como destacam Rajan e Zingales na passagem  acima, é pouco conhecida. O Prêmio Nobel deste ano veio destacar este ponto e mostrar a importância e a relevância das instituições financeiras para a economia. É disto que este artigo irá tratar.

Os intermediários financeiros podem ser definidos como instituições que procuram servir as necessidades tanto dos poupadores (emprestadores) quanto dos tomadores de empréstimos (investidores). Além disso, eles proporcionam uma variedade de serviços específicos os quais os poupadores e os investidores valorizam separadamente. O setor bancário especificamente consiste em todas as corporações de um país engajadas na intermedição financeira numa dada economia.

A intermediação financeira é considerada uma atividade produtiva na qual os bancos e outras instituições financeiras obtém fundos com o propósito de canalizar os mesmos para outras unidades econômicas  (famílias, empresas, governos, entidades não governamentais etc.) através de empréstimos, realizando, assim, uma realocação dos recursos na economia, tanto contemporaneamente como intertemporalmente. À medida em que se estabelecem condições para a intermediação financeira, os agentes econômicos superavitários, cujos rendimentos correntes sejam superiores aos seus gastos totais, poderão canalizar suas disponibilidades de caixa aos agentes econômicos deficitários, cujos gastos totais em consumo e investimento são superiores as disponibilidades imediatas. Este sistema de canalização de recursos dos agentes superavitários para os agentes deficitários estimulará ainda mais as atividades econômicas, pois gera condições para a expansão da demanda agregada, na forma de mais consumo e investimento.

As pessoas que poupam não são a mesmas que investem. Para que a poupança de uns se transforme em investimento de outros se deve produzir um encontro e um acordo das partes sobre os termos das trocas, o qual envolve elevados custos de transação, monitoração e informação. Devido às especificidades do sistema financeiro, ele é capaz de obter economias de escala na operação de financiamento e na redução dos problemas de assimetria de informação (ou seja, quando uma das partes do contrato possui mais informação do que a outra). Isto torna o processo de financiamento mais eficiente, elevando o nível de investimento e de crescimento da economia.

Os bancos (enquanto instituições depositárias) desempenham um importante papel na  canalização de recursos para os tomadores de empréstimos com oportunidades de investimento produtivos. Eles são importantes, também, na medida em que asseguram que o sistema financeiro e a economia funcionem bem e de modo eficiente. Os bancos reduzem os custos de transação ao prestarem  serviços de liquidez,  compartilhamento de risco e informação. No que diz respeito especificamente à liquidez, temos que os intermediários financeiros podem facilitar a forma como os ativos podem ser transformados em moeda.  Além disso, como intermediários financeiros, eles reduzem a assimetria de informação existente entre as partes. Os intermediários financeiros, na medida em que coletam e usam as informações dos poupadores e tomadores de empréstimos, ajudam a determinar os preços das ações, títulos e outros ativos financeiros, o que pode ajudar os agentes econômicos em suas decisões de poupar e investir e assim melhorar a alocação da poupança numa economia. A incorporação de toda a informação disponível nos preços dos ativos constitui-se numa importante característica de um funcionamento de um mercado financeiro.

Neste ano, o prêmio Nobel de Economia foi concedido a três destacados economistas que trataram desta importante questão – a intermediação financeira. Eles, com seus artigos e pesquisas, iniciadas principalmente no inicio dos anos 1980, nos ajudaram a entender a importância dos bancos numa economia de mercado e, de modo particular, qual a sua relevância durante as crises financeiras (especialmente a de 1929 e a recente de 2007-2009). Douglas Diamond, professor de Economia da Universidade de Chicago dividiu o prêmio com Ben Bernanke da Brookings Institution e Philip Dybvig da Universidade de Washington em St. Louis. Neste artigo, vamos nos concentrar principalmente nos trabalho de Douglas Diamond e especialmente naquele que trata da questão da intermediação financeira.

Os trabalhos do professor Diamond mudaram a forma como as pessoas veem os bancos e estabeleceu novas bases para como banqueiros centrais, reguladores, formuladores de políticas econômicas, principalmente referentes ao sistema financeiro, e acadêmicos abordam as finanças modernas. O professor Diamond fez contribuições significativas para o campo da economia e para compreensão do importante papel das instituições financeiras para a Economia. Ele é conhecido por sua pesquisa sobre intermediários financeiros, crises financeiras e liquidez. Sua agenda de pesquisa nos últimos 40 anos tem  se concentrado em explicar o que os bancos fazem, porque eles fazem isso (empréstimos) e as consequências desses arranjos institucionais para a economia.

No artigo “Intermediação Financeira e Monitoramento Delegado”, que se constituiu num artigo baseado em sua dissertação de doutorado defendida na Universidade de Yale,  e publicado em 1984, ele mostra como certos ativos bancários  especiais (especiais porque monitoravam informações especiais sobre mutuários de negócios, ou seja, buscam lidar com os problemas de assimetria de informação pós contratual – problemas de risco moral) os forçaram a se financiar com passivos de dívida (depósitos) em vez de patrimônio e também levam os bancos a diversificar seus empréstimos. Um pouco mais tarde, ele e Philip H. Dybvig desenvolveram o agora chamado modelo Diamond-Dybvig, “Bank Runs, Deposit Insurance, and Liquidity”, publicado em 1983. O modelo Diamond-Dybvig (1983) mostra como os bancos se especializam em criar passivos líquidos (depósitos) para financiar ativos ilíquidos (como empréstimos empresariais) podem ser instáveis e dar origem a corridas bancárias (bank runs). Isso destaca o fato de que, como os passivos especiais dos bancos, combinados com ativos ilíquidos, explicam o papel dos bancos na economia, por que eles podem gerar uma significativa instabilidade na economia e por que eles necessitariam de uma rede de segurança do governo (como o seguro de depósito) mais do que outros mutuários.

Por que os investidores primeiro emprestam aos bancos que depois emprestam aos tomadores de empréstimos [borrowers], ao invés de  emprestar diretamente? Qual é a tecnologia financeira que permite aos bancos servirem como intermediários financeiros? Estas são as principais questões que Diamond  (1984) formulou em seu clássico artigo – Financial Intermediation and Delegated Monitoring. Para Diamond (1984) os intermediários financeiros são agentes, ou grupos de agentes, que são delegados pelos correntistas para monitorar os investimentos em ativos financeiros. Os intermediários financeiros emitem títulos a fim de comprar outros títulos. Os custos de monitoramento e de fazer cumprir os contratos de dívida emitidos diretamente pelo investidor é a razão pela qual o levantamento de fundos através de um intermediário financeiro pode ser superior a outras  formas alternativas de empréstimo. Estes custos  foram definidos por Bernanke (1983) como sendo os custos pelos quais são canalizados os fundos dos  poupadores/emprestadores para os “bons tomadores de empréstimos”, sendo que tais custos referem-se aos custos de filtragem (screening),  monitoramento, contábeis, bem como as perdas esperadas infligidas pelos “maus tomadores de empréstimos”. Os bancos, assim, buscam operar com procedimentos que minimizem estes custos desenvolvendo uma expertise com relação a avaliação dos potenciais tomadores de empréstimos, estabelecendo relações de longo prazo com os consumidores e oferecendo condições de financiamento que encorajem os potenciais tomadores de empréstimos e investidores a se auto selecionarem.

A ideia básica por traz da delegação monitorada (delegated monitoring) é que os poupadores não teriam tempo, inclinação ou expertise para monitorar os tomadores de empréstimos dado o  risco de não pagamento dos empréstimos. Assim, eles se engajam num financiamento indireto (usando um intermediário financeiro – os bancos) ao invés de concederem um empréstimo direto aos tomadores de empréstimo. Além disso, temos que o monitoramento dos tomadores de empréstimos pelos bancos envolvem retornos crescentes de escala, os quais reforçam a visão de que de que ela é mais eficientemente desempenhada por especialistas intermediários do que por outras instituições. Segundo Diamond (1986)-  os intermediários financeiros são agentes, ou grupos de agentes, a qual  são delegadas a autoridade para investir em ativos financeiros. Em particular, eles emitem títulos para comprar outros títulos. Um primeiro passo na compreensão dos intermediários é descrever as características dos mercados financeiros onde desempenham um papel importante e destacar o que lhes permite fornecer serviços benéficos. É importante entender os contratos financeiros escritos por intermediários, como os contratos diferem daqueles que não envolvem um intermediário, e por que estes são contratos financeiros ideais.  

Diamond (1984), em outras palavras, desenvolveu uma teoria da intermediação financeira  que está baseada no pressuposto que os agentes econômicos buscam minimizar os custos de produção de informação para resolver problemas de incentivo que ocorrem devidos aos problemas de risco moral (moral hazard)  – que são problemas pós-contratuais devido a existência de assimetria de informação. Ele considera e leva em conta os custos de prover incentivos para uma monitoração delegada por um intermediário financeiro. Assim, para  Diamond (1984) a principal característica dos bancos é a de agir como um monitor delgado dos tomadores de empréstimos, em nome dos emprestadores (depositantes), na presença de custos de monitoração não desprezíveis. Deste modo, os bancos geram um benefício social líquido para a sociedade, explorando as economias de escala no processamento de informações que envolvem a monitoração e o enforcement dos contratos com os tomadores de empréstimos.

Os bancos reduzem os chamados custos de delegação através de uma adequada e ampla diversificação de seu portfólio de empréstimos. Segundo ele, a diversificação do portfólio da carteira de empréstimos numa instituição financeira é uma tecnologia de engenharia financeira que facilita a transformação bancária dos empréstimos que necessitam de um monitoramento  e enforcement  (fazer cumprir) dispendioso que envolve o cumprimentos de contratos bancários.

O modelo de intermediação financeira de Diamond (1984) é um modelo baseado no conceito de  de assimetria de informação ex-post (moral hazard) entre emprestadores potenciais e um empresário neutro ao risco que necessita obter capital para projetos arriscados.  Neste contexto, os contratos de dívida são vistos com contratos ótimos entre os empresários e os emprestadores.

O modelo de Diamond (1984) foca-se num intermediário financeiro que obtêm fundos de vários emprestadores (depositantes), e que promete a eles obter um dado padrão de retornos, ele também empresta aos empresários e aloca recursos no monitoramento e no cumprimento dos contratos os quais são menos custosos do que aqueles sem monitoramento. Assim, os bancos monitorariam as informações dos empresários tomadores de empréstimo, e receberiam pagamentos deles as quais não são observadas pelos depositantes. Na realidade, Diamond (1984), estava lidando com um dos principais problemas enfrentados por um poupador líquido, ao aplicar diretamente nos instrumentos financeiros emitidos por uma empresa, que é o alto custo de coleta de informações e seu monitoramento.

Os poupadores individuais são obrigados a monitorar as atividades das empresas de maneira oportuna e  completa, após adquirir seus títulos. Se não o fizerem, eles ficam sujeitos aos custos de agência (agency costs), ou seja, o risco de que os proprietários ou administradores da empresa usem o dinheiro do poupador de maneira contrária às promessas contidas na cláusula contratual de emissão dos títulos. A solução para estes problemas de agência envolveria a aplicação de fundos de um grande número de pequenos depositantes (poupadores) numa única instituição financeira –  um banco. Essa instituição financeira, agora,  agrupa esses fundos e investe nos instrumentos financeiros diretos ou primários emitidos por empresas.

A instituição financeira de grande porte passa, então, a ter um maior incentivo para coletar informações e monitorar as atividades das empresas, porque tem muito mais a perder do que qualquer investidor individual. Isto reduz significativamente o problema do carona (free rider) que ocorre quando cada investidor individual deixa aos outros a tarefa de coletar informações e monitorar as atividades das empresas. Assim, as empresas atribuiriam aos intermediários financeiros o papel de fiscal delegado para atuar em seu nome. Com isto  os intermediários financeiros passam a ter maiores incentivos para coletar informações além de terem um custo médio da coleta de informações menor e uma maior expertise ao longo do tempo. Além dos maiores incentivos para o monitoramento da redução dos custos decorrentes do monitoramento os bancos podem vir a desenvolver novos tipos de títulos para o mercado secundário que lhes permitam um monitoramento mais eficaz. Assim, seriam gerados uma gama mais ampla de contratos que iria melhorar a capacidade de monitoramento dos intermediários financeiros.

Quando os contratos de empréstimos bancários são de curto prazo, o banco transforma-se praticamente num insider em relação a empresa. Assim, ele passa a exercer a função de monitoramento com maior frequência e elimina a necessidade de condições relativamente inflexíveis e de cumprimento complicado encontradas nos contratos de emissão de obrigações. Portanto, agindo como um monitor delegado e produzindo uma informação mais abundante, confiável e pertinente sobre os tomadores de empréstimos, os bancos podem reduzir significativamente o grau de imperfeição referentes assimetrias de informação entre as fontes e os usuários finais de fundos da economia. Como consequência, temos que os poupadores e tomadores de empréstimos recebem  benefícios da informação gerada pelos banco quando analisam os retornos dos ativos financeiros, pois na medida em que eles são informados, isto irá afetar os retornos e os preços dos ativos, contribuindo para uma melhor alocação dos recursos finaceiros na economia. A incorporação da informação disponível no retorno de um ativo é a característica que distingue o bom funcionamento de um mercado financeiro (teoria dos mercado eficientes).

A medida em que o número de títulos na carteira de ativos de uma instituição financeira aumenta, o risco da carteira diminui (embora num ritmo decrescente). Essa diversificação de risco permite a uma instituição financeira predizer com maior precisão o retorno esperado de sua carteira.

Uma  instituição financeira diversificada pode ser capaz de gerar um retorno livre de risco em seus ativos e assim adquire a capacidade, com credibilidade, de cumprir sua promessa de oferecimento de instrumentos de alta liquidez e risco reduzido aos depositantes. Isto amplia o papel dos bancos na economia e gera maiores empréstimos e financiamentos para a realização de investimentos de curto, médio e longo prazos. Portanto, se um intermediário financeiro for grande o suficiente para obter ganhos com o processo de diversificação e monitoramento, seus instrumentos financeiros tenderão a ser encarados como líquidos e atraentes pelos pequenos poupadores, em comparação com os investimentos diretos no mercado de capitais.

Deste modo, vemos que a delegação monitorada reduz os custos
de transação na intermediação financeira, pois muitos dos custos de uma transação financeira são indivisíveis. Quando muitos poupadores emprestam a uma única instituição financeira, e delegam o poder de conceder empréstimos, ele pode fazer o empréstimos por todos eles, aos invés de cada um deles fazer o mesmo trabalho independentemente. Além disso a delegação monitorada permite a especialização que é uma das chaves para o aumento da produtividade da economia. Um  indivíduo pode emprestar somente ocasionalmente, e fazendo isto, adquire pouca experiência. Contudo, as instituições financeiras, representando muito emprestadores e emprestado frequentemente, adquirem experiência e know-how com relação aos empréstimos. Outro ponto importante é que as instituições financeiras estariam numa posição de barganha  mais forte, pois  a capacidade de empréstimo está concentrada em suas mão  e elas podem negociar melhores termos para os empréstimos e obter melhores garantia (colaterais)  do que um único e pequeno poupador. Por fim, é mais provável que o tomador de empréstimos revele as informações importantes e estratégicas sobre seus negócios e investimentos a uma única instituição financeira do que a vários pequenos emprestadores.

O problema de seleção adversa para os bancos implica que eles devem separar os créditos bons dos ruins antes de conceder o empréstimos. Se um banco concentra seus empréstimos a firmas de um determinado setor, o banco acumula conhecimento sobre esses setores e, portanto, estaria mais capacitado para prever quais as firmas  que poderão fazer pagamentos seus débitos em tempo hábil.

O monitoramento das atividade dos tomadores de empréstimos para verificar e impor o cumprimento das cláusulas restritivas faz com que os emprestadores se certifiquem  de que eles não estão  se arriscando à suas custas. A necessidade de os bancos e outras instituições financeiras se engajarem em filtragem e monitoramento explica por que se gasta tanto dinheiro em auditoria e atividades de coleta de informações. Uma outra forma de os bancos  e outras instituições financeiras obterem informações sobre seus tomadores de empréstimos é através de relações de longo prazo com seus clientes. Este é um princípio importante da administração de crédito. As relações de longo prazo beneficiam tanto os clientes quanto ao banco. Uma firma ou cliente que tenha um relacionamento prévio com o banco de longa data terá mais facilidade de obter um empréstimo com taxas de juros mais baixas porque o banco pode determinar mais facilmente se o possível tomador é um bom risco de crédito, gastando menos em monitoramento.

Os bancos também acumulam relações de longo prazo com seus clientes emitindo e criando linha de crédito especiais a clientes comerciais. Uma linha de crédito é um compromisso prévio de um banco em conceder empréstimos a uma firma até um determinando limite e com uma taxa de juros que esteja atrelada à taxa de juros de algum mercado. Um acordo de linha de crédito é um método poderoso para a redução de custos do banco com a filtragem e a coleta de informações.

Assim, finalizando este artigo, vemos que as contribuições dos três autores e a de Douglas Diamond, aqui analisada com mais detalhe, busca destacar a importante e relevante contribuição destes economistas para o mundo em que vivemos e fazer com que sejam desenvolvidas instituições e abordagens que tornem as instituições financeiras mais eficientes e menos sujeitas a crises como as que ocorrem em 1929 e a recente de 2007-2009. O Prêmio Nobel de Economia atribuído ao professor Diamond foi realmente merecido tanto pela relevância do tema para o contexto hodierno, como pelas pesquisas realizadas e contribuições suas contribuições seminais e originais. Assim, vale a leitura deste artigos para os interessados no tema e, principalmente, aos economistas que pesquisam, trabalham e atuam no mercado financeiro tanto diretamente como em sua regulação.

 

Artigo de autoria do economista Giácomo Balbinotto Neto, professor do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFRGS.

Desigualdade, a chaga social do Brasil

A desigualdade social no Brasil é histórica e começou com a chegada dos portugueses a uma terra desconhecida, cujos moradores eram povos indígenas guaranis. Esses povos viviam do que a natureza lhes oferecia e possuíam crenças próprias, que foram aos poucos desqualificadas pelos portugueses. Após os 522 anos da descoberta do país, com o crescimento da população, é flagrante que a questão da desigualdade continua e está piorando.

O conceito de desigualdade social é um guarda-chuva que compreende desde a desigualdade de oportunidade, de escolaridade, de acesso a políticas sociais, de renda, de gênero, de raça e outras tantas visíveis para quem estiver atento e preocupado com a questão. Em 2022, seguindo uma tendência mundial acelerada pela pandemia, a concentração de renda aumentou no país e, com isso, atingiu o pior nível em pelo menos duas décadas. Em função da má distribuição de renda e de investimento nas áreas sociais, culturais, saúde, educação, falta de oportunidades de trabalho e corrupção, o Brasil continua sendo um dos países mais desiguais no aspecto social, o que impacta diretamente sobre os indivíduos que sofrem no dia a dia com humilhações e dependência de ajuda ou do que resta nas lixeiras dos grandes e médios centros urbanos.

Segundo dados do Ipea, em 2021 havia mais de 200 mil pessoas em situação de rua, o que não é difícil comprovar quando se caminha pelas cidades e se observa que esse quadro aumenta a cada dia, parecendo não ter solução. Enquanto isso, nos últimos anos, quase metade da riqueza do país foi toda para as mãos de 1% dos mais ricos da população. É o pior nível de concentração de renda no Brasil desde o ano 2000, de acordo com o relatório do Banco Credit Suisse. Segundo o documento, o contingente de 1% dos mais ricos eram donos de 44,2% das riquezas no Brasil e, em 2010, esse número havia caído para 40,5%, ainda bastante significativo. Daí em diante, essa proporção voltaria a subir até chegar aos quase 50% nas mãos de pequeno grupo que ocupa o topo da concentração financeira no país.

O cenário de desigualdade social no Brasil é bem mais alto do que em outros países latino-americanos, como o México e Chile, por exemplo. Nesses países a desigualdade está menor do que há 20 anos. No México, a proporção da riqueza nas mãos de 1% mais ricos caiu de 40,1% no ano 2000 para 33,5% em 2020, e, no Chile, a queda foi de 42,8% para 31%. No Brasil, mesmo com promessas políticas de atenção a esse grave problema social, os números continuam crescendo e só perdem para a África do Sul, o país mais desigual do mundo, que tem no aspecto racial um dos fatores determinantes, em uma sociedade onde 10% da população detêm mais de 80% da riqueza, segundo relatório do Banco Mundial publicado em março de 2022.

Está claro que a questão da desigualdade no Brasil é reconhecida pela maioria dos candidatos aos cargos públicos e enaltecida nos discursos e debates pré-eleições. Entretanto a pergunta que todos fazem é a mesma: se as desigualdades são tão evidentes e prejudiciais ao país e aos brasileiros, por que continuam a existir e se aprofundam? A experiência internacional mostra que é preciso fazer investimento massivo e consistente na educação de uma criança logo em seus cinco ou seis primeiros anos de vida. Independente da cor, crença, gênero, questões responsáveis por criar barreiras que delimitam o acesso de pessoas marginalizadas (que estão à margem) a direitos básicos, como educação de qualidade, saúde, moradia, trabalho, alimentação, saneamento básico, transporte, lazer e bens de serviço. Esse fenômeno que começa limitando o acesso aos direitos humanos também impossibilita o acesso a oportunidades.

O Brasil não pode admitir que a desigualdade social se perpetue no país.

 

Artigo de autoria do conselheiro do Corecon-RS e diretor da Associação Comercial de Pelotas (AC), economista João Carlos Medeiros Madail, publicado no Diário Popular de Pelotas, edição do dia 15/10/22.

Cenário econômico favorece o investimento de longo prazo em ações

A crise mundial impulsionada pela pandemia da Covid-19, as consequências da guerra entre Rússia e Ucrânia, aliada à alta de preço do petróleo e o aumento da dívida pública desencadeou a queda no PIB das maiores economias, depreciação das principais moedas, como o euro e a libra, assim como o aumento global das taxas de juros e inflação. Esses efeitos da macroeconomia impulsionaram a desvalorização nos preços das ações a nível mundial. Esse momento oportuno para investir em determinadas ações acontece devido as correções nos preços das ações, que antes da crise dos últimos anos estavam muito acima da relação com os lucros das empresas. Isso pode ser conferido através do indicador mais utilizado mundialmente que é o índice P/L, equivalente ao Preço/Lucro de uma ação.

Em uma análise dos principais índices das bolsas mundiais no período de 11/10/2021 até 11/10/2022, vemos que o S&P500, Dow Jones Industrial Average, Nasdaq Composite, Nikkei 225, Euronext, London Stock Exchange, Shanghai Composite e o Ibovespa – com exceção do Ibovespa da Bolsa de Valores do Brasil (B3) que valorizou-se 2,36% - todos apresentaram as respectivas quedas: 17,70%, 15,16%, 28,03%, 7,36%, 35,99%, 2,49% e 17,04%. Essa desvalorização generalizada fez com que a capitalização do mercado a nível mundial caísse, essa capitalização corresponde ao somatório do valor de todas as empresas negociadas nas principais bolsas do mundo conforme os índices citados. Tal baixa abre um questionamento: o mercado já se desvalorizou o suficiente e agora está com indicação de compra?

Os números mostram que sim, já que algumas das principais ações negociadas nas bolsas americanas caíram muito no período entre 11/10/2021 para 11/10/2022. Este é o caso da Meta Platforms (META), Amazon.com.Inc (AMZN), Tesla Inc (TSLA) e Apple Inc. (AAPL), que desvalorizaram respectivamente: 60,5%, 30,87%, 17,91% e 2,68%. No mesmo período, algumas empresas na B3 igualmente tiveram quedas, como a Vale do Rio Doce (VALE3,), Usiminas (USIM5), Braskem (BRKM5) e Via Varejo (VIIA3), respectivamente: 1,26%, 50,03%, 30,04%, 52,1%.

Observa-se, também, que empresas com grande participação no Ibovespa valorizaram, como a Petrobras (PETR4) e Banco do Brasil (BBAS3), que subiram 81,92% e 39,63%. A regra para todo investidor do mercado de ações é comprar quando os preços estão depreciados em relação ao seu valor, ou seja, “comprar na baixa e vender na alta”, quando os preços superam, e muito, o seu valor. Considerando isso, a partir de uma análise fundamentalista pode-se detectar empresas que apresentam boas oportunidades de investimento a longo prazo, pois a queda drástica dos preços de suas ações não se justifica por apresentarem fundamentos sólidos, como baixo P/L, P/VPA e endividamento, crescimento do Patrimônio Líquido, baixo EV/EBITDA, Crescimento da Receita etc.

O investidor da bolsa que investe em ações muito descontadas ( Value Investing) pode analisar essas empresas que apresentam tais indicadores fundamentalistas e que sofreram fortes correções devido a um momento não oportuno da macroeconomia. Pode-se dizer que é a ideia de comprar algo bom por um preço muito melhor. Neste caso, a premissa é de que as decisões de quando comprar são de vital importância para o resultado final. Então, é importante concentrar-se em investir em boas empresas a bons preços, e usar o tempo a seu favor. E não esquecer de que é preciso fazer um bom planejamento e investir com a assessoria de um especialista com experiência no mercado de ações, só assim o investidor estará minimizando o seu risco e maximizando o retorno do seu investimento na carteira de ações. Segundo o economista americano Robert Shiller, ganhador do Prêmio Nobel de Economia em 2013, “O mercado de ações tem um histórico muito melhor de valorização e permite maior diversificação do que imóveis”, assim, aproveitar momentos em que o cenário econômico possibilita adquirir ações de boas empresas descontadas é uma ótima oportunidade de investimento.

Artigo de autoria do economista e investidor autônomo, Manoel Gil Costa Soares

City Marketing e Estratégias Possíveis

O City Marketing, Marketing de Cidade segue uma sequência lógica: vontades e decisões dos setores públicos e privados; visão unificada para o desenvolvimento da cidade e escolhas das estratégias possíveis para alcançarem os objetivos e metas.

São realizadas as escolhas dos melhores caminhos para a melhoria contínua da população local. Geralmente, alguns governantes não entendem que os trabalhos que estão sendo realizados devem ter continuidade com profissionalismo. Surgem neófitos que definem novos objetivos e novas estratégias ignorando os ciclos que já foram iniciados.

Observa-se a ignorância pluralista e a ingenuidade quando são iniciadas propostas inviáveis para atender egocentrismos dos novos dirigentes eleitos. Assim, quatro, oito, dezesseis anos ou mais, são perdidos por decisões e estratégias equivocadas. Algumas cidades, continuam executando as mesmas operações para captações de recursos: impostos e taxas locais; repasses dos governos estaduais e governo estadual e novos investimentos.

 

Por falta de informações ou sem interesse ignoram os benefícios possíveis da promoção e divulgação de cada Cidade nos mercados, inclusive atraindo visitantes de lazer, participante de eventos e investidores. Observa-se o conformismo da situação atual da cidade, das faltas de diálogos com a população local e com os possíveis investidores. São problemas das Gestões e dos representantes eleitos focados nos períodos dos seus mandatos sem definições de estratégias duradouras. Quando surgem interessados em continuidade das Políticas, dos Planos, Programas e Projetos iniciados em governos anteriores, todos são beneficiados.  

Nos casos opostos, observa-se os descasos com os recursos financeiros dos contribuintes e, muitas vezes, atos de corrupções. Ainda bem que temos imprensa livre e instituições capazes de corrigirem os prováveis desvios.  Portanto, a escolha da estratégia a ser utilizada ou as combinações de estratégias possíveis, sempre em parcerias entre setores públicos e privados, podem alcançar melhores resultados. Observa-se que o City Marketing deve sequenciar as Políticas Públicas adequadas com as participações dos setores privados.

Sem a indispensável união visando o melhor para o cidadão e, por consequência, o melhor para o visitante é impossível implantar ações do City Marketing, tornando a Cidade mais uma vítima da Propaganda enganosa. Convém salientar que uma cidade é boa para o visitante quando é boa para o residente.

Nenhuma estratégia consegue captar visitantes se os bens e/ou serviços oferecidos são incompatíveis com suas necessidades. Será? Respeitam-se todas as opiniões contrárias. São reflexões. Podem ser úteis.

Pensem nisso.

 
Artigo de autoria do economista Abdon Barretto Filho, mestre em Comunicação Social e presidente da ABF - Comunicação e Marketing, publicado no Site www.peloscaminhosdoriogrande.com.br

Economia global rumo à recessão

O advento da globalização das economias contribuiu nas trocas entre os blocos econômicos com resultados positivos para muitos países que apresentaram significativos desenvolvimentos industriais, com o avanço das novas tecnologias e, por conseguinte, crescimentos econômicos acelerados. A globalização também gerou vantagens competitivas para as empresas que passaram a obter matérias-primas mais baratas. Entretanto, quando tudo parecia normal no cenário econômico mundial, eis que surge a pandemia da Covid-19, freando o ritmo de crescimento global, agravado ainda mais com a guerra entre Rússia e Ucrânia, que não tem prazo para acabar.

Como resultado vive-se um cenário de encarecimento dos preços dos alimentos e do petróleo, que atinge diretamente inúmeros países. Reaparece, então, uma velha vilã há muito esquecida pelos países desenvolvidos que é a inflação. Trata-se da inflação de custo pelo aumento do valor de várias matérias-primas ou insumos importados. A Alemanha está com o nível mais alto em quase meio século, tendo ainda que lidar com uma crise energética derivada do conflito que atinge toda a Europa. Os Estados Unidos e o Reino Unido têm experimentado aumentos de preços não vistos nos últimos 40 anos. A taxa de inflação americana já ultrapassou todas as metas anteriormente estabelecidas e chega a 8,3%. A América Latina, por sua vez, também está sob pressão devida à escalada do custo de vida.

A maneira de controle da inflação é a elevação da taxa de juros, ou seja, tornar o dinheiro mais caro para reduzir a demanda. O Federal Reserve (FED, Banco Central dos Estados Unidos) elevou recentemente a taxa de juros em 0,75%, atingindo a faixa de 3% a 3,35% ao ano. Este foi o quinto aumento em 2022 e, com isso, a taxa chegou ao seu maior nível desde 2008, quando despontou a crise financeira mundial. No Brasil, o Comitê de Política Monetária do Banco Central decidiu na última reunião, em setembro, manter os juros em 13,75%, após 12 aumentos seguidos que elevaram a taxa de juros em 11,75 pontos percentuais desde março de 2021, o maior ciclo de altas desde 1999, quando se colocou em execução o regime de metas da inflação.

A alta de juros provoca vários efeitos na economia dos países. Investidores que comumente aplicam seus recursos financeiros nos países em desenvolvimento, com altos lucros, mesmo com taxas menores, deslocam recursos para os países ricos, como os Estados Unidos, considerados mais seguro para as aplicações. Enfim, a desaceleração ou mesmo a recessão ora vivida nas economias dos países desenvolvidos é uma realidade no cenário atual, visto que, quando os juros sobem, fica mais caro para as empresas e famílias tomarem empréstimos, o que diminui a atividade econômica. Essa desaceleração da economia mundial reduz a demanda por bens e serviços e pode influenciar nas exportações brasileiras até mesmo para a China, que vive contração econômica declarada.

Comprovada a recessão americana, grande parte dos países dependentes direta ou indiretamente desta e de outras economias desenvolvidas também serão impactados, incluindo o Brasil. O próprio Banco Mundial alertou recentemente que os aumentos das taxas de juros nos países podem levar a economia global a uma recessão em 2023. Portanto, os prognósticos para o próximo ano não são bons para a economia mundial, que poderá viver seu pior momento em mais de uma década.

O que está claro, na opinião dos principais líderes de bancos centrais, é que, se dada a escolha entre permitir que a inflação permaneça alta por um período sustentado ou levar a economia para uma recessão, melhor é optar pela recessão. Inflação alta é difícil de superar. Porém, a recessão, mesmo que reduza a atividade econômica por um tempo, superada as causas que a provocaram, poder-se-á voltar a crescer, recuperando a confiança de empresários e consumidores.

Artigo de autoria do conselheiro do Corecon-RS e diretor da Associação Comercial de Pelotas (AC), economista João Carlos Medeiros Madail, publicado no Diário Popular de Pelotas, edição do dia 06/10/22.

Contribuição da indústria para a economia

O setor industrial surgiu no Brasil no fim do século 17, ou seja, é uma das atividades mais antigas da economia moderna e se mantém até hoje como um dos destaques da economia do país. As indústrias, onde quer que estejam instaladas, promovem o desenvolvimento por meio da geração de empregos, impostos, transformando matérias-primas em produtos comercializáveis. É dinheiro novo que ingressa na economia por meio da força humana, energia ou máquinas. Tudo que transforma é considerado indústria, como no caso das mineradoras, madeireiras, petrolíferas, metalúrgicas, indústrias de bens intermediários que produzem papel e celulose, produtos químicos, borrachas, plásticos, componentes elétricos e eletrônicos, indústrias de bens de consumo duráveis, automóveis, móveis e tantos outros.

O país detém, hoje, mais de 18 milhões de empresas em atividade, sendo 1,3 milhão com atuação voltada para a indústria. A importância do setor pode ser constatada pela contribuição de 22% do PIB nacional, 49% das exportações, 20% de participação na geração de empregos formais, 32% dos tributos federais, além da contribuição de R$ 1,3 trilhão para a economia brasileira. As informações são oriundas da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Portal da Indústria. Afirma-se, com certa convicção que a cada R$ 1 produzido na indústria, são gerados R$ 2,40 para a economia do país. O maior centro industrial do país é o estado de São Paulo, que conta com mais de 300 mil indústrias ativas.

O município de Pelotas carece de um parque industrial ativo e diversificado. Como a economia pelotense está alicerçada basicamente no comércio e serviços, a injeção de dinheiro novo não é representativa quando comparada à Serra Gaúcha e outros municípios como Triunfo e Gravataí, que apresentam desenvolvimento destacado no setor industrial do Estado. Dados disponíveis apontam que o setor industrial de Pelotas representa apenas 9,9% do PIB municipal. Enquanto os setores de comércio e serviços somavam, em 2020, 79,5% dos empregos celetistas (30,6% no comércio e 48% no setor de serviços), a indústria, a construção civil e a agropecuária somavam, respectivamente, 13,9%, 5% e 1,6% dos empregos formais celetistas.

É incompreensível que Pelotas não consiga atrair indústrias que produzam para o mercado interno ou para a exportação. A posição estratégica da cidade em relação ao Porto de Rio Grande e ao Mercosul é um dos fatores que poucas cidades possuem. Além do mais, a cidade tem outras condições favoráveis como espaço para a instalação, água potável em abundância, energia adequada, mão de obra qualificada formada pelos vários cursos superiores e profissionalizantes, facilidades de acesso à capital com a duplicação quase completa da BR-116, cidade plana, o que favorece a circulação interna. Enfim, o que estará faltando para que a cidade se transforme num grande polo industrial da Metade Sul?

Não há dúvida de que o desenvolvimento da atividade industrial em uma região é acompanhado por mudanças sociais, não são apenas as unidades fabris que refletem no ambiente ao seu redor, pois elas também são afetadas por fatores locacionais. Isso significa que a atividade industrial pode ser impactada em razão de características do local em que se encontra. Isso faz com que a decisão do local de instalação de uma organização fabril seja acompanhada e embasada em diversos estudos sobre fatores importantes relacionados ao lugar que possa influenciar a sua atividade. Entretanto Pelotas tem quase tudo que os empresários buscam para instalar seus empreendimentos. Talvez o principal deles seja os "incentivos" para chegar até aqui, seja no aspecto motivação ou, principalmente, no aspecto fiscal. Quem sabe um dia possa enaltecer a importância da indústria para a economia pelotense.

Artigo de autoria do conselheiro do Corecon-RS e diretor da Associação Comercial de Pelotas (ACP), economista João Carlos Medeiros Madail, publicado no Diário Popular de Pelotas, edição do dia 22/09/22.

São os economistas robôs?

Nós, economistas, recorremos a nossos modelos e sistemas, hoje muito vinculados à ciência da computação, para interpretar realidades, projetar o futuro e tomar decisões. Alguns emprestam seu conhecimento a configuração de algorítmos e à inteligência artificial. Tendência que aumentam os riscos de sermos substituídos por robôs. E, talvez muitos de nós revelem essa preferência, devido à frieza e a racionalidade a serem alcançadas. Nossa Bioética impede, mas, paradoxalmente, a paixão pela economia leva muitos economistas à fronteira entre a humanidade e o não-humano. 

Prever fatos futuros sempre foi desejo da humanidade. Seja no Antigo Egito, com a interpretação dos sonhos dos faraós, no Oráculo de Delfos, da Grécia Antiga, ou na quiromancia e na astrologia que permanecem nas esquinas.

Quando se trata de projetar as tendências do futuro, sejam elas individuais (micro) ou em bloco (macro), os recursos matemáticos e estatísticos são ferramentas dos economistas. Usamos modelos descritivos e analíticos. Os primeiros são empíricos e descrevem as reações sem lhes dar explicação.
O modelo analítico explica e busca causas, soluções e tomadas de decisão. Não raro, economistas iniciantes se apaixonam pela conveniência de modelos descritivos matemáticos e robotizam suas interpretações. 

Infelizmente, vimos economistas usarem a defesa da economia com teses matemáticas para que brasileiros fossem às ruas e corressem o risco de contágio durante a pandemia. Assistimos a descrições que calculavam quantos hectares de florestas queimadas poderiam ser compensados por aumento do PIB. 

A economia não é o oposto de saúde ou sustentabilidade. Não somos robôs, Não seremos substituídos por algorítmos em sistemas computacionais. 
A profissão é nobre. Buscamos, é verdade, otimizar as tomadas de decisão para que o bem-estar gere desenvolvimento sustentável. E, nesses casos,
e não somente neles o ótimo é inimigo do bem. 

 

Artigo de autoria do Ex-Secretário Municipal de Desenvolvimento Econômico de Porto Alegre e Ex-Presidente do Corecon-RS, economista Leandro de Lemos, publicado na Zero Hora, edição do dia 19/09/2022.

Principais indicadores fundamentalistas

A crise mundial econômica ocasionada pela pandemia da Covid-19, onde o Produto Interno Bruto (PIB) das principais economias do mundo teve quedas significativas e aumento das taxas de juros, repercutiu nos mercados financeiros, principalmente nas ações do mercado americano, europeu e brasileiro. Assim no momento atual, as ações de boas empresas brasileiras apresentam-se como um interessante investimento de longo prazo, pois o tempo favorece na maturação dos resultados das empresas, além de equilibrar a volatilidade do mercado. Contudo, para minimizar o risco inerente em investimentos em renda variável, e com isso realizar uma estratégia para maximizar o retorno financeiro, é preciso fazer um bom planejamento, assim como investir com a assessoria de um especialista com experiência no mercado de ações.

Para que esse investimento inicie-se corretamente e com o mínimo de risco possível, é necessária uma análise fundamentalista, que envolve a análise qualitativa – que mede a qualidade da gestão e governança corporativa da empresa -, e a análise quantitativa, baseada no balanço das empresas. Existem vários indicadores fundamentalistas estudados para avaliar a situação das empresas, eis alguns importantes:

P/L - PREÇO/LUCRO

Este indicador relaciona o preço de mercado de uma ação com seus lucros. Por meio dele, conseguimos saber se uma determinada ação está mais cara ou mais barata. É um indicador simples que pode ser facilmente utilizado como critério comparativo entre duas empresas atuantes em um mesmo setor.


DIVIDEND YIELD

O principal objetivo deste indicador é mostrar o quanto a empresa paga ao seu investidor. Quanto maior for o dividend yield, maior será o pagamento de dividendos por parte da empresa. Ele é calculado por meio da seguinte fórmula:

Dividend Yield = Dividendo pago por ação dividido (÷) pelo preço da ação.

Este indicador é usado, principalmente, por investidores que desejam montar uma carteira focada no recebimento de dividendos.


P/VPA: PREÇO/VALOR PATRIMONIAL POR AÇÃO

Em tese, o indicador P/VPA compara o valor de mercado da empresa (que corresponde ao valor da ação vezes (x) o número de ações) com o seu valor contábil (ativos menos passivos). Ou seja, relaciona o preço de uma ação ao valor patrimonial proporcional que ela possui. Basicamente, quanto mais baixo o P/VPA, mais barata está a empresa.


EV/EBITDA:

Ebitda, sigla em inglês para Earnings Before Taxes Interest Depreciation and Amortization, significa “Lucros antes dos juros, impostos, depreciação e amortização”. Este indicador é uma medida simplificada da geração de caixa de uma empresa. Por sua vez, EV vem do inglês Enterprise Value, compreendendo o valor de mercado da empresa (preço da ação vezes (x) seu número total de ações), que é somado com a dívida líquida. Nesse sentido, o EV/EBITDA esboça aos analistas a ideia de quanto tempo demoraria para o lucro operacional da companhia pagar o investimento realizado na compra.


ROE

ROE, sigla de Return On Equity, significa “Retorno sobre Patrimônio Líquido”. Este indicador aponta qual o retorno que os sócios de uma companhia estão obtendo em relação ao dinheiro investido nela. Ou seja, mede a capacidade que a empresa tem de gerar retorno para o capital próprio investido.

O investimento em ações pode trazer duas formas distintas de ganhos: a valorização das ações e os dividendos que é parte dos lucros das empresas, distribuídos entre os acionistas.

O indicador P/L é usado mundialmente e os países desenvolvidos possuem um P/L maior do que os emergentes por apresentarem uma maior estabilidade econômica. Segundo o economista americano Robert Shiller, vencedor do Prêmio Nobel de Economia em 2013, “Todas as economias bem-sucedidas têm mercado de capitais desenvolvidos”.

 

Artigo de autoria do economista e investidor autônomo, Manoel Gil Costa Soares

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